domingo, novembro 26, 2017

STANLEY KRAMER: Adivinhe quem vem para jantar

Este é o primeiro de uma série de posts focalizando os três filmes de Stanley Kramer que venceram Oscar de Melhor Roteiro.

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Poucos filmes têm uma estrutura tão simples e ao mesmo tempo tão funcional quanto Adivinhe quem vem para jantar (1967).

Stanley Kramer, o diretor mais discreto da face da Terra, e, ao mesmo tempo, econômico e eficaz, parte do primoroso roteiro de William Rose, coautor de Deu a louca no mundo, reúne um elenco fantástico e realiza um filme fundamental. Nenhum cinéfilo morrerá feliz se não tiver assistido a este filme pelo menos umas três vezes, na companhia de pessoas amadas.

Discreto, por quê? Ora, o filme é na verdade um teatro filmado. Com exceção das tomadas no aeroporto e aquela impagável sequência da sorveteria, não há externas. O cenário é basicamente o estúdio que imita a casa da família Drayton, e a câmera de Kramer faz movimentos simples, mas eficientes, aproveitando ao máximo o talento dos atores.



Econômico, por quê? A impressão que temos é que cada palavra neste roteiro foi escolhida a dedo, mas isso é sinal de rigorosa poda, de que o supérfluo ficou de fora e sobrou apenas a essência. Os créditos de abertura já colocam o espectador a par da situação. Isso é economia de tempo e de palavras.





Eficaz, por quê? Adivinhe quem vem para jantar é o protótipo da comédia dramática funcional, com temática provocante e ousada. Você assiste ao filme e consegue entender o comportamento humano, demasiadamente humano, de cada um dos personagens. Em termos de equilíbrio de leveza e conteúdo, é o paradigma da eficácia.

Além do Oscar de Melhor Roteiro Original, o filme permitiu a Katharine Hepburn, no papel de Christina Drayton, levar o segundo de seus quatro Oscars de Melhor Atriz.
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Katharine, a estrela principal, passa praticamente o filme inteiro com lágrimas nos olhos. Sidney Poitier e Spencer Tracy entregam performances soberbas como sempre. Isabel Sanford, como a irreverente e impertinente Tillie, rouba algumas das cenas com sua verve cômica. Cecil Kellaway, que encarna o monsenhor Ryan, foi nominado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. A atriz que faz Mary Prentice, a mãe do dr. John Prentice, também tem um par de cenas importantes, nas quais brilhou o talento de Beah Richards, que inclusive recebeu indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.

Uma curiosidade: durante a sessão, meu filho de 10 anos comentou que o Spencer Tracy é parecido com o protagonista da animação Up, da Pixar. Fui pesquisar e não é que o menino é mesmo um excelente observador? O diretor Pete Docter fala sobre isso neste artigo sobre a produção de Up.


Em suma, Adivinhe quem vem para jantar é como o sorvete duplo de amoras vermelhas que Matt Drayton degusta enquanto toma uma das decisões mais importantes de sua vida. Um sabor que alimenta e faz trabalhar o cérebro.

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sábado, novembro 25, 2017

Contatos imediatos do terceiro grau


O que define um "clássico" do cinema?
Ultimamente se convencionou chamar tudo que é antigo de "clássico".
O que abre margem para outra pergunta: o quão antigo precisa ser um filme para se tornar "clássico"?
Levando em conta apenas o quesito "antiguidade", talvez hoje em dia pudéssemos afirmar que filmes realizados na década de 70 já seriam clássicos.



E filmes da década de 80, será que já se tornaram clássicos? Bem, alguém poderia tranquilamente chamar Sociedade dos poetas mortos (1989) de filme clássico sobre a relação entre um professor revolucionário e seus alunos. Blade Runner (1982), um clássico da ficção. E Um lobisomem americano em Londres (1981), um clássico do horror. Pensando bem, talvez tenhamos chegado ao ponto em que os filmes da década de 80 possam ser chamados assim.

O que nos leva a pensar com propriedade: será que simplesmente a década em que o filme foi realizado define se ele é ou não um clássico?
Em tese, não.
Na verdade, o que está acontecendo hoje em dia é a banalização do termo "clássico".
Qualquer filme relativamente importante e relativamente antigo corre o risco de ser rotulado assim.
Como eu definiria um clássico, então? 



Clássico do primeiro grau é o filme que resiste ao tempo, que envelopa tudo que o cinema tem de excelência, desde o roteiro, a direção, o elenco, as atuações, os efeitos especiais, a maquiagem, o figurino, a trilha sonora e os demais aspectos da produção.

Clássico do segundo grau preenche os requisitos acima e além disso fez muito sucesso na época em que foi lançado. Muitas vezes, cria uma legião de fãs incondicionais. Sim, todo bom clássico também pode ser cult. 

Clássico do terceiro grau é a experiência cinéfila extrema. É o filme cujas cenas permanecem na retina. Claro que isso é apenas outro clichê ou modo de falar. Para ser clássico, as cenas têm mesmo é de permanecer na memória de longo prazo, não apenas na memória de trabalho, e voltar à retina quando pensarmos no filme. E quando revemos aquelas cenas, pensamos: esta é uma cena clássica do cinema.



Contatos imediatos do terceiro grau tem várias cenas desse gabarito.

Uma curiosidade: nos extras, Spielberg conta que para o papel principal convidou ninguém menos que Steve McQueen, que tomou umas bebidas com ele, mas no final o experiente ator recusou o papel, alegando que não conseguiria verter lágrimas diante das câmeras, coisa que nunca fizera em sua carreira, e o roteiro assim exigia.
Richard Dreyfuss, que já havia trabalhado com Spielberg em Tubarão, tanto insistiu que acabou ganhando o papel.




quinta-feira, novembro 23, 2017

SNOW STEAM IRON



SNOW STEAM IRON é o título do curta-metragem de 4 minutos realizado por Zack Snyder tendo como câmera única um iPhone.

Os interessados podem assistir ao filme aqui.

Está me parecendo que vai acontecer algo parecido com o que aconteceu com Machete de Robert Rodriguez, que de mero trailer se tornou uma franquia.

A forte e bela personagem criada por Snyder tem potencial de protagonizar um longa-metragem.





terça-feira, novembro 21, 2017

Interpol Live at Glastonbury ou as meias vermelhas de Daniel Kessler

Excelente exemplo de como filmar um excelente show de rock:




segunda-feira, novembro 20, 2017

Liga da Justiça

Zack Snyder recebeu o crédito integral pela direção de Liga da Justiça. O roteirista e diretor Joss Whedon pegou as rédeas do projeto com o bonde andando e filmou algumas cenas, mas ganhou apenas o crédito de corroteirista. O estúdio vem sendo criticado por essa decisão. Acho que foi uma decisão pragmática, por dois motivos: Snyder filmou, digamos, 90% do material, concebeu todas as tomadas principais e as filmou com muito talento e também "tem mais nome" que o substituto. A César o que é de César, detratam os críticos de plantão, exigindo o crédito para Whedon.



Abre parênteses. Esse é o tipo de discussão que só os nossos intrigantes tempos modernos permitem. A obsessão com o politicamente correto está tornando irrespirável o mundinho das redes sociais. As pessoas não abrem mais as janelas e lançam o olhar para o horizonte. O índice de miopia está aumentando. Os músculos do sistema ocular especializados para a visão de longa distância estão atrofiando. Resultado: a visão panorâmica perde a força e a pessoa precisa de óculos precocemente. Porém, mais perigoso ainda que atrofiar a visão, é atrofiar o cérebro. Fecha parênteses.



Assistir a Liga da Justiça comprova que o estúdio estava certo. Está na cara que o filme é dirigido por Snyder, diretor que deixa sua marca autoral nos projetos em que atua. O roteiro tem dois polos principais: trazer Super-Homem de volta e combater o Lobo da Estepe. De quebra, apresenta o background de The Flash e do Aquaman, dá um destaque merecido à Mulher Maravilha e um bom humor que faltava ao Batman.

Mas o leitor incauto poderá indagar: como assim, marca autoral em filme de super-herói? Pois é, a afirmação pode soar estranha, mas isso é possível. No caso da direção de cinema, não é necessário que o diretor seja também o roteirista e o autor da história para imprimir sua marca. Como você aborda o material é que define a autoria. O estilo é o homem, já disse Buffon, e o diretor de cinema que tem um estilo, ou uma marca registrada, imprime isso em todos os seus filmes.

E qual é a marca registrada de Zack Snyder? Não vou ser eu o primeiro a tentar elencar isso. Basta analisar o currículo do cidadão e procurar elementos que unem as obras.
Este artigo do site cinelinx cita nada menos que 5 marcas registradas do diretor: linha do tempo intensificada, zoom de ação, soco na cara em câmera lenta, partículas em movimento e colagem na introdução. São detalhes técnicos que permeiam seus filmes.


Até mesmo os patrulhadores de plantão, ou seja, os piores e mais radicais detratores de Snyder, que o acusam de ser "direitista, misógino, racista e homofóbico" reconhecem que ele é um auteur, "para o bem ou para o mal". 

Eu que ingenuamente não imagino me enquadrar nesses rótulos percebo outro elemento unificador: admiro cada um de seus filmes. Sou apenas um apaixonado por cinema, e, dos diretores das novas gerações, hoje em dia o cinema de Snyder se destaca, junto com o de Paul Thomas Anderson, Sofia Coppola, Tom Hooper, Darren Aronofsky, Wes Anderson e outros. É por esses nomes que eu discordo da sombria afirmação de Thomas Sotinel em seu perfil sobre Almodóvar, de que hoje não existiriam mais diretores auteurs.

O diretor, que se afastou da pós-produção de Liga da Justiça para se recuperar do suicídio da filha, recentemente realizou um curta-metragem de baixo orçamento, conforme informou em seu Twitter. A página também traz alguns compartilhamentos dos bastidores da filmagem de Liga da Justiça. Sem dúvida, ele é o diretor do filme, com todos os méritos.




domingo, novembro 19, 2017

King Kong (1976)

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Esta versão de King Kong (1976), dirigida por John Guillermin, é a que explora mais a paixão platônica de Kong pela moça e também é a que tem a conclusão mais triste.

A brutalidade e a truculência dos humanos contra Kong na sequência final nas torres gêmeas do World Trade Center geram cenas que ainda hoje emudecem o espectador.

Lança-chamas e metralhadoras chamuscam e estraçalham o gigantesco, porém indefeso símio, que tem o olhar mais terno entre todos os personagens do filme.

O enredo gira em torno da ganância de Fred Wilson (Charles Grodin) que deseja descobrir petróleo numa ilha misteriosa, sempre escondida em um nevoeiro. Ao descobrir que a ilha contém outro tipo de tesouro, ele rapidamente direciona sua ganância a Kong, venerado e temido pelos nativos.

No porão-cela de um navio de grande porte, o animal é transportado a Nova York, noutra sequência comovente.

A relação de Kong com Dwann (Jessica Lange) é explorada ao extremo, com direito a carícias e uma certa tensão sensual. A personagem de Dwann, a moça que é salva pela expedição em um bote salva-vidas à deriva, é construída para ser um tanto volúvel, mas a sua inocência e naturalidade encanta todos os primatas que com ela se deparam.

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De quebra, o cinéfilo poderá ver Jeff Bridges no papel do passageiro clandestino, que acaba sendo escolhido como fotógrafo oficial da expedição.


Geração após geração, a história criada pelo diretor Merian Cooper, retrabalhada por Edgar Wallace, James Creelman e Ruth Rose, é readaptada e ganha nova roupagem, conforme as tendências hodiernas. Nesta vez, o responsável pela modernização foi Lorenzo Elliott Semple Jr., um sujeito com pendor para criar conteúdos de apelo popular, como a série Batman feita para televisão.

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Sobre o diretor John Guillermin, que dirigiu Inferno na torre e Morte no Nilo, o produtor Dino de Laurentiis declarou: "É um sujeito esquisito, mas isso não significa nada para mim. Todos os diretores são figuras esquisitas. Bergman é uma figura esquisita, Fellini é uma figura esquisita... todos os diretores. Ele era muito aberto aos efeitos especiais. Além disso, ele acredita na história; ele acredita na história de amor. E se ele acredita nisso, funciona. Porque John Guillermin acredita nessa história de amor fantasticamente humana... Cada diretor em certo ponto pula de uma categoria para outra. Nenhum diretor pode ser um gênio desde o primeiro filme. Você deve dar uma oportunidade quando as pessoas são talentosas. E eu reconheço a qualidade em John. E ele acertou em cheio em KONG. Ele surpreendeu a plateia, surpreendeu todos os críticos."

Por sua vez, Guillermin afirmou: "O 'Kong' original fez parte de minha infância e eu adorei", conta ele. "Sonhava com o filme. O que eu quis foi recriar o que o eu senti na primeira vez que assisti ao filme, mas também adaptar a história a nossa época. (...) Todos nós queríamos e nos esforçamos para resgatar aquela ideia lírica da infância sobre a Bela e a Fera. Foi desafiador tentar equilibrar todas as piadas e o perigo de anticlímax, mas eu queria deixar óbvio que abordamos o material com sinceridade."

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quarta-feira, novembro 15, 2017

A morte te dá parabéns

E Oscar de Melhor Atriz de Filme de Terror vai para...

Jessica Rothe.
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A atriz que interpretou uma das amigas de Emma Stone em La La Land entrega uma atuação de tirar o chapéu (e o fôlego), valorizando o roteiro bem amarrado de Scott Lobdell e a direção segura de Christopher Landon.

Presa numa alça do tempo e obrigada a vivenciar o mesmo dia ad infinitum, Tree (Jessica Rothe), em pleno dia de seu aniversário, observa um monte de coisas acontecendo ao seu redor, sem interferir com elas, como se fosse mera espectadora da própria vida.

Nisso reside a grande sacada do roteiro e o destaca no meio da multidão de filmecos de terror que abundam por aí.
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Afinal de contas, uma película de terror onde há, além de mistério, filosofia, não tem nada de vã. 

Quantas vezes Tree precisará viver aquele dia para perceber os detalhes a seu redor?

De quantas maneiras ela precisará ser assassinada até se dar conta de quem está por trás daquilo?

Por fim, quando Tree vai tomar as rédeas de sua vida e tentar mudar o rumo das coisas?

Novamente, a atuação de Jessica Rothe abrilhanta o filme de Christopher Landon, e o rapaz que interpreta Carter (Israel Broussard) também está à altura da missão. 

Eficiente, imprevisível e enxuto, A morte te dá parabéns é uma pequena gema do terror.

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O rei e o pássaro



Em sessão do Clube de Cinema de Porto Alegre, no Cine Santander, os cineclubistas tiveram a oportunidade de conferir um clássico da animação restaurado: O rei e o pássaro, do diretor Paul Grimault, coescrito juntamente com o poeta Jacques Prévert. O filme foi realizado ao longo de várias décadas, pois a versão que foi lançada não teve a aprovação dos realizadores. Esta versão restaurada foi a que Grimault "assinou embaixo".

O roteiro baseia-se frouxamente no conto A pastora e o limpador de chaminés, de Hans Christian Andersen.



Um rei que vive num cenário meio futurístico meio medieval é odiado pelos súditos e pelos pássaros, alvos de sua sanha de caçador com péssima mira, mas insaciável sede de sangue.

Esta parte do filme bem poderia ser uma crítica contundente às pessoas que ainda hoje se dedicam a matar animais silvestres indiscriminadamente e impunemente nas matas nativas do Rio Grande do Sul.


O caçador clandestino do século XXI é bem representado por este monarca de Grimault: arrogante, insensível, egoísta e descartável.



Tão descartável é o rei que lá pelas tantas ele é substituído por sua própria imagem que está pintada num quadro. A figura ganha vida, elimina o rei verdadeiro e parte em busca de outras duas personagens que surrealmente se transformaram de pinturas em gente: a pastorinha por quem o rei falso é apaixonado, e o limpador de chaminés, por quem ela é apaixonada.

 A partir daí o filme se torna mais movimentado, com a participação do pássaro e seus filhotes ajudando a pastora e o limpador de chaminés a escapar da guarda real e das garras do falso monarca, mas não menos tirano que o verdadeiro.

Como toda obra densa, traz muitas influências e acaba influenciando muita gente boa também.

Este artigo menciona que a animação japonesa bebeu da fonte de Grimault.




terça-feira, novembro 07, 2017

Pedro Almodóvar


Escrito em francês por Thomas Sotinel, colunista de cinema do Le Monde, e traduzido para o inglês por Imogen Forster, o livro Pedro Almodóvar é mais um volume da coleção Masters of cinema, editado pela Cahiers du cinema.

O livro é estruturado em uma Introdução seguida de 4 capítulos:
Um homem de La Mancha,
De que é feito um diretor?,
Um diretor ao pé do Monte Olimpo e
Obras-primas.

No final, como em toda a coleção Masters of cinema, o livro traz Cronologia, Filmografia e Bibliografia selecionada.

Conforme o livro, gosto de ler com uma lapiseira em punho. Sublinho, faço asteriscos à margem, escrevo palavras-chave nos rodapés. 

Alguns dos trechos que eu realcei durante a leitura de Pedro Almodóvar:



INTRODUÇÃO

"Almodóvar não é um intelectual; o pai dele foi um condutor de mulas de La Mancha, e enquanto ele estava trabalhando  para a companhia telefônica espanhola Telefónica, aprendeu cinema como autodidata sem a ajuda de qualquer instituto ou universidade de cinema." (p.5)

Segundo Sotinel, Pedro Almodóvar ainda hoje é objeto de controvérsias ferozes, e, embora pudesse ter se tornado um diretor "internacional", ele permaneceu completamente espanhol, "filmando histórias cada vez mais sofisticadas e criando entre seus compatriotas um misto de admiração e exasperação".



UM HOMEM DE LA MANCHA

"Antonio Almodóvar foi o último de uma extensa linhagem de condutores de mulas dedicado a transportar vinho de Calzada de Calatrava a El Centenillo, uma cidadezinha andaluza a 50 km de distância."

Diga-se de passagem, isso talvez seja mais verdadeiro do que a informação que consta no livro "Great Film Directors", de que o pai de Almodóvar era um "winemaker".

As pessoas que nascem na região são chamadas de "manchegos". Almodóvar teria dito numa entrevista a Nuria Vidal que "a imagem de um manchego é a de um homem cujo único espelho é a água de seu poço. Em La Mancha, costumavam acontecer, e ainda acontecem, muitos suicídios. As pessoas se enforcam ou se jogam no poço."

A mãe dele escrevia e lia cartas para os vizinhos, como a personagem de Central do Brasil. O pequeno Pedro percebeu que a mãe dele embelezava as cartas que lia para satisfazer as expectativas dos destinatários.

Nascido em 1949, por volta de 1960 Pedro começou a frequentar os cinemas na companhia do irmão Agustín. Ao chegar em casa, contava as histórias para as irmãs dele, sempre reinventando.

Após fazer o serviço militar na Força Aérea, em 1969, ele conseguiu um cargo administrativo na Telefónica, onde trabalhou durante 13 anos, inclusive no período em que se firmava como diretor.

Só saiu da empresa em 1982, após o lançamento de Labirinto de paixões.

Desde o começo, afirma Thomas Sotinel, o que importava para Pedro Almodóvar era contar histórias. Em 1974, começou a fazer curtas com uma câmera Super 8. Seu primeiro curta foi Duas putas, ou, uma história de amor que termina em casamento (1974).

O filme de estreia em longa-metragem foi Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, em 1979.



DE QUE É FEITO UM DIRETOR?

Este capítulo analisa os filmes Labirinto de paixões (1982) até A lei do desejo (1987).

Desta primeira fase almodovariana, só assisti a Matador (1986).

Segundo Sotinel, este filme de grande orçamento custou bem mais do que os anteriores, e de todos os filmes de Almodóvar, é que consegue retratar a Espanha com mais exatidão.

"Apesar da cor saturada da fotografia de Ángel Luis Fernández e da música extrema de Bernardo Bonezzi, o filme pode criar um impressão quase de frieza, não fosse pela estupenda atuação de Antonio Banderas como um garoto perdido, inocente inclusive do crime que ele cometeu."





UM DIRETOR AO PÉ DO MONTE OLIMPO

O capítulo comenta aspectos da realização dos filmes seguintes, desde Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988, filme de máximo apelo para as massas) até A flor domeu segredo (1995).

Sucesso de público, Mulheres à beira... foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em Los Angeles, Almodóvar se encontrou com Billy Wilder, que o aconselhou: "não se deixe seduzir canto da sereia de Hollywood".

A flor do meu segredo marcou o início da colaboração com o diretor de fotografia brasileiro Affonso Beato e o compositor Alberto Iglesias. "Cada qual a seu modo, Beato e Iglesias ajudaram a criar o que seria o novo estilo de Almodóvar, o de um artista com o pleno domínio de sua visão, sem mais precisar recorrer à provocação ou excesso, mas sem render-se às normas da razão e do bom gosto."
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Aqui são abordados os filmes Carne trêmula (1997), baseado no livro de Ruth Rendell, Live Flesh; Tudo sobre minha mãe (1999, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), Fale com ela (2002, Oscar de Melhor Roteiro), Má educação (2004), Volver (2006) e Abraços partidos (2009).

O livro se encerra às vésperas do lançamento de A pele que habito. (2011). Depois ele ainda lançou Amantes passageiros (2013, aguarde post em breve) e Julieta (2016). Este último concorreu no Festival de Cannes, e o jornalista Rodrigo Salem registrou a recepção ao filme nesta reportagem. Naquela ocasião, na entrevista coletiva, Almodóvar afirmou: "Jamais escreverei uma biografia e proíbo alguém de fazê-lo. Minha vida está nesses 20 filmes".



Comentário sobre o livro:


Sotinel aborda detalhes das histórias que talvez não precisassem ser abordados. As melhores partes do livro são quando ele dá a sua opinião e faz ponderações.

Como a seguinte (com a qual, por sinal, não concordo plenamente):

"Os diretores que pertencem à última geração do cinema de auteur, a de Almodóvar, Nanni Moretti e Jarmusch, não têm herdeiros. O cinema no qual eles nasceram e cresceram está morto, e os diretores do terceiro milênio não alcançam (tampouco almejam alcançar) a estatura de um grande artista, coisa que a geração de Almodóvar herdou de diretores como Bergman, Truffaut e Scorsese."

E por que não concordo plenamente? Porque é meio pessimista e sombria. Existem diretores mais novos que são autores também, a seu modo, e do modo que a indústria hoje permite. E acredito que sempre irão existir realizadores talentosos, que não se "vendem ao sistema".

De todas as importantes informações que aprendi na leitura da obra, a que eu gostaria de não esquecer é a que consta na transcrição de um artigo publicado no jornal El País, em setembro de 1999.

O texto, escrito por Pedro Almodóvar, pouco após o falecimento de sua mãe, explica como foi vital para o trabalho dele observar o que a mãe dele fazia, embelezando as cartas que lia para os vizinhos analfabetos.

Aqueles improvisos da mãe "estabeleceram a diferença entre ficção e realidade, me mostraram como a realidade precisa da ficção para se completar, tornar-se mais agradável, mais tolerável...".

(...)
"Aprendi algo crucial para o meu trabalho: a diferença entre ficção e realidade, e como a realidade precisa ser complementada pela ficção para tornar a vida mais fácil."

E, sem dúvida, a vida fica bem mais fácil com os filmes de Almodóvar.
E a dos cinéfilos com a coleção Masters of cinema.

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domingo, novembro 05, 2017

Orgulho e preconceito e zumbis


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Da mente (talvez nem tão) inventiva de Seth Grahame-Smith, o criador de Abraham Lincoln, caçador de vampiros, surgiu em 2009 o livro Pride and Prejudice and Zombies, uma esperta adaptação/paródia do clássico Orgulho e preconceito, de Jane Austen. 

Dirigido pelo discreto Burr Steers, Orgulho e preconceito e zumbis é um filme bem realizado, com um bom elenco, e que, por incrível que pareça, respeita tanto a alma dos densos personagens austianos quanto a mitologia zumbi.
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A talentosa Lily James (de Em ritmo de fuga) entra para a seleta turminha de atrizes que interpretaram a geniosa Elizabeth Benning: Green Garson, Jennifer Ehle e Keira Knightley.

Sam Riley (que interpreta Ian Curtis do Joy Division em Control) entra para o invejado grupo de atores que encarnaram o conflituoso Mr. Darcy: Laurence Olivier, Colin Firth e Matthew Macfadyen.

Resultado de imagem para pride and prejudice and zombiesA propósito, o clássico de Jane Austen já rendeu muitas adaptações, algumas mais fiéis, outras nem tanto. A mais recente adaptação com base no texto original de Austen feita para o cinema é a estrelada por Keira Knightley e dirigida por Joe Wright.

Também a propósito, esse tipo um tanto duvidoso de literatura, no qual Seth Grahame-Smith é um dos nomes mais bem-sucedidos e que se convencionou chamar de literary mash-up (algo como mistura ou mixórdia literária), é abordado com humor pelo estudioso de Jane Austen, John Mullan, neste artigo do Guardian.

In the meantime, o escritor Seth Grahame-Smith já andou se
envolvendo numa confusão com sua Editora, que está processando o escritor por ter entregue um manuscrito com atraso de três anos em relação ao prometido e, o que é pior, segundo os termos do processo, o texto deste livro destoaria do estilo dele e seria, em grande parte, uma apropriação de um trabalho que está em domínio público, editado há 120 anos.

Em outras palavras: primeiro, com o apoio da indústria do livro e do cinema, Seth Grahame-Smith vampirizou sem pudores a história e a literatura; agora, precocemente, se transforma num morto-vivo do show business.
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Como sobreviver a Como sobreviver a um ataque zumbi

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Tudo na vida se torna mais fácil quando você olha pelo lado positivo.

É o caso desta comédia despretensiosa que, embora não acrescente nada ao "cânone" zumbi, também não chega a ser uma bomba apocalíptica.

E, dependendo do prisma que você olhe, até tem lá suas qualidades.

Abaixo, o

Guia do Cinéfilo para Sobreviver a

Como sobreviver a um ataque zumbi

(Scouts Guide to the Zombie Apocalypse, 2015):

* Aprenda a detectar as poucas coisas boas no meio de um monte de coisas de gosto discutível.
* Aprenda a se concentrar nas coisas boas e a "sublimar" o que é descartável.
* Aprenda a aproveitar uma experiência cinéfila mediana para pesquisar sobre os realizadores e elenco.
* Aprenda a analisar o currículo das pessoas envolvidas, perceber a (in)coerência por trás do currículo e prever quem é que tem futuro no meio disso tudo.
* Aprenda a não levar as coisas sempre ao pé da letra e a não levar tudo tão a sério. Em suma, aprenda a cultivar o senso de humor.

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Obedecendo à risca a cartilha de 5 dicas acima, ao término da sessão de Como sobreviver a um ataque zumbi, você chegará às seguintes conclusões:

1) O diretor e roteirista Christopher Landon, nascido em 1975, vem construindo um currículo bastante coerente em termos de "gênero". Começou como argumentista e roteirista de Paranoia, depois estreou na direção com Burning Palms, um filme que deixa o espectador desconfortável, de acordo com a avaliação da atriz Zoe Saldana. Roteirizou quatro filmes da franquia Atividade Paranormal, dirigindo um deles. Em 2017, realizou Happy Death Day (A morte te dá parabéns, bem recebido por parte da crítica especializada). Ou seja, é inegável que o moço tem "foco", ou seja, tem uma queda pelos gêneros suspense, terror e afins. Talvez falte a ele uma grande oportunidade de pegar todo esse know-how e fazer um filme que o torne um diretor mais respeitado fora deste cinema de nicho.

2) O elenco tem nomes promissores como Patrick Schwarzenegger e realidades como o aspirante a galã Tye Sheridan, que interpreta Ben, o menino bom caráter que é o elo de ligação entre os amigos Carter e Augie. Com um currículo invejável para a idade, não é a toa que foi selecionado para protagonizar o novo filme de Steven Spielberg.

ALERTA PARA SPOILER APOCALÍPTICO:
O ITEM 3 PODE CONTER UM SPOILER APOCALÍPTICO

3) O aspecto mais legal do filme é justamente a (meio enviesada) "homenagem" ao escotismo, e o estudo sobre a amizade dos três garotos. Se o defeito maior do filme é justamente não dar medo algum em relação ao destino dos protagonistas,* a maior qualidade é a crítica ao atual desinteresse por coisas legais como o escotismo. Mas, felizmente para os seguidores de Baden-Powell, existem filmes mais significativos sobre o que é ser escoteiro, vide Moonrise Kingdom, de Wes Anderson. 


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A expansão do post contém o SPOILER (relativamente) APOCALÍPTICO:


quinta-feira, novembro 02, 2017

Quatro vidas de um cachorro



Inspirado no livro homônimo, lançado originalmente em 2010 e intitulado A Dog's Purpose, de W. Bruce Cameron, o mais recente filme de Lasse Hallström mantém a coerência de uma filmografia especializada em Roa röra, expressão sueca que significa "entreter e comover".

O diretor explica o significado desta expressão e dá detalhes sobre os bastidores do filme nesta entrevista. No Brasil, o livro foi publicado em 2011, pela Agir, com tradução de Regina Lyra. O título escolhido na época para o livro (de quem terá sido a ideia, da tradutora ou dos editores?) foi mantido depois para o filme. A obra impressa foi reeditada em 2016 (com o pôster do filme na capa, é claro), pela HarperCollins Brasil, que se uniu à Ediouro e ficou com o catálogo da Agir.


Por sinal, o escritor, que participou da construção do roteiro, aparece nos extras do dvd, com a esposa. Ela explica que, já adulta, havia perdido o seu primeiro e único cão, e foi realizar uma viagem com o então namorado Bruce Cameron, que contou a ela, para confortá-la, uma história tocante, a base do que seria o romance A Dog's Purpose.




O filme foi um sucesso comercial nos cinemas do mundo inteiro e está sendo um sucesso também nas poucas locadoras que ainda resistem bravamente Brasil afora. O dvd que eu aluguei está tão usado que uma parte do filme é impossível de assistir. Digamos, uns 15 minutos. Justamente no trecho que mostraria a tão comentada cena da água, que rendeu tanta polêmica.

Investigações independentes constataram que o vídeo havia sido editado e que não houve maus tratos para os animais que trabalharam no filme.


O foco da história é a vida de Ethan (interpretado por três atores diferentes, um deles, Dennis Quaid) e seu retriever Bailey, com um diferencial: o ponto de vista é o do cachorro. Nisso o diretor pôde mostrar sua habilidade e criatividade em termos de posicionar a câmera e passar esse efeito.

Indagado sobre qual cena resumiria o tema do filme, Hallström, um apaixonado por cães que já teve 5 chow-chows, escolheu curiosamente o momento em que Maya (Kirby Howell-Baptiste) pergunta ao cão "Em que você está pensando?". E o cachorro fala (pensa): “Uma de minhas melhores vidas, sem dúvida."

No cíclico Quatro vidas de um cachorro, Lasse Hallström completa uma espécie de "trilogia canina", começada com Minha vida de cachorro (1985) e desenvolvida em Sempre ao seu lado (2009).