quinta-feira, fevereiro 29, 2024

Vamos a matar, companheiros!

 


Lançado no Brasil com o esdrúxulo título Os pistoleiros da fronteira, este filme de Sergio Corbucci é o terceiro do diretor com Franco Nero no elenco.

O primeiro foi Django (1966) e o segundo, Il mercenario (Os violentos vão para o inferno, 1968).




Neste Compañeros (a.k.a. Vamos a matar, compañeros, 1970), Franco Nero é o "Sueco" Yodlaf Peterson, mercenário que cria uma improvável amizade e vira "buddy" de El Vasco (vivido com muito humor pelo ator cubano Tomás Milián), revolucionário mexicano. O filme tem como interesse romântico a bela Iris Berben, que dá vida à estudante idealista Lola.




Outra presença constante e importante no filme é o pegajoso refrão da música-tema. Diga-se de passagem, a envolvente trilha sonora é composta por ninguém menos que Enio Morricone.

Em essência, Compañeros involucra todas as ideias antifascistas e revolucionárias de Corbucci, que constrói, embora em tom de comédia, um filme de cunho filosófico e que dá margem a discussões.




O discurso do professor Santos (Fernando Rey) sobre violência em meio ao estarrecido grupo de guerrilheiros é uma sequência chave para entender o quanto há de conteúdo nesse filme aparentemente feito "apenas" para entreter.

É esse aspecto do cinema de Corbucci que Tarantino salienta em Django & Django (2022). Luca Rea, o diretor deste documentário disponível na Netflix, explica como foi o processo de elaborar o documentário e entrevistar Tarantino nesta reportagem.




Sob certos prismas, as divertidas peripécias de Os pistoleiros da fronteira (argh!) servem de prenúncio dos rumos que a carreira de Corbucci vai enveredar, a comédia, dirigindo filmes com a dupla de atores cômicos, Terence Hill e Bud Spencer.


Vamos a matar, compañeros
Música: Enio Morricone
Letra: Sergio e Bruno Corbucci

Levantando al aire los sombrerosVamos a matar, vamos a matar, compañerosPintaremos de rojo sol y cieloVamos a matar, vamos a matar, compañeros
Hay que ganar corriendo al pistoleroVamos a matar, vamos a matar, compañerosHay que morir persiguiendo al guerrilleroVamos a matar, vamos a matar, compañeros
Luchando por el hambre sin dineroVamos a matar, vamos a matar, compañerosEstudiantes, rebeldes, bandolerosVamos a matar, vamos a matar, compañerosHermanos somos reyes y obrerosVamos a matar, vamos a matar, compañeros



 

terça-feira, fevereiro 27, 2024

Django

 


Franco Nero encarna Django, este improvável herói do Oeste dos EUA que simboliza o melhor do cinema de Sergio Corbucci. Na abertura do filme, um homem arrasta pesadamente um caixão em meio a terrenos áridos e lamacentos, ao som da canção de Luis Bacalov, entoada por Rocky Roberts.

Django (1966) é um faroeste spaghetti que se destaca dos demais pela originalidade das cenas e pelo modo como o personagem desenvolve a sua trajetória.

A grande sacada é o caixão que ele arrasta por onde vai, em cuja tampa consta uma cruz.



A curiosidade é despertada naturalmente por quem vê o esquife.

O que haverá lá dentro?

Um cadáver?

Ao ser indagado sobre isso após as escaramuças iniciais, recém-chegado a um saloon, o misterioso personagem responde que sim, há uma pessoa morta dentro do caixão.

E o nome dela é

Django.

Como um morto-vivo, um zumbi sem alma, este pistoleiro devassa esse território sem lei.

Sem alma e com lama.

A lama é a marca registrada deste filme de Sergio Corbucci, cineasta reverenciado por Tarantino no documentário Django & Django, prato cheio para cinéfilos e amantes de bangue-bangue, disponível no streaming.



Diga-se de passagem, Quentin Tarantino já havia escancarado essa admiração ao realizar o filme Django livre.

O documentário assinado por Luca Rea enaltece as qualidades pouco reconhecidas da obra de Corbucci, relegada a segundo plano quando comparada à de seu xará, Sergio Leone. Django & Django, por meio de entrevistas com Franco Nero, Ruggero Deodato e Tarantino, desperta a curiosidade do espectador para conferir a filmografia de Corbucci.

Foi isso que aconteceu comigo.

Encomendei na Zílvia Locadora filmes do diretor, e havia um punhado de seus filmes mais importantes, entre eles o seriíssimo Django e o engraçado Vamos a matar, companheiros (no título brasileiro, Pistoleiros da fronteira). 

De quebra, o dvd de Django traz uma entrevista com Franco Nero. O ator casado com Vanessa Redgrave conta que foi escolhido por sua boa aparência. Os realizadores levaram fotos de três atores ao distribuidor, que escolheu a foto de Nero.

Na época, Franco Nero aspirava a se tornar um ator de filmes "sérios", era um ator com treinamento shakespeariano. Mas foi aconselhado por amigos, entre eles, o famoso cineasta Elio Petri, a aceitar o trabalho.

Nero também relata que as filmagens foram interrompidas porque o filme não tinha roteiro. Provavelmente as peripécias que envolvem o roubo do ouro no forte vieram desse esforço para dar alguma consistência à narrativa.

Mas o que permanece em Django é a personalidade misteriosa do herói, sua relação estranha com Maria (Loredana Nusciak), a magnetizante mulher que ele salva e depois desdenha.



Quem assiste aos extras do dvd?

Só um movie freak.

Essas histórias contadas por Franco Nero só causam deleite a quem tem o cinema nas veias, alguém que passou a infância indo às matinês de sábado em sua cidade natal, solitariamente em sua poltrona (?), assistindo a trashs e faroestes e filmes de qualquer gênero. 








sexta-feira, fevereiro 23, 2024

O pagador de promessas


 O auge do cinema brasileiro aconteceu em 1962, quando O pagador de promessas inscreveu o Brasil na lista dos países premiados com a Palma de Ouro em Cannes.

Foi a primeira e única vez que o cinema brasileiro chegou aos píncaros de um festival dessa importância.

Com direção de Anselmo Duarte, diálogos de Dias Gomes (de sua peça teatral homônima) e atuações de Leonardo Villar e Glória Menezes, O pagador de promessas continua sendo o filme brasileiro que recebeu a honraria mais elevada.

No site oficial do Festival de Cannes, uma página relembra todos os vencedores da década de 1960.

Como sabemos, nenhum filme brasileiro jamais abiscoitou o Oscar de Melhor Filme Internacional.

Apenas 4 foram selecionados entre os 5 finalistas.

São eles:

O pagador de promessas, de Anselmo Duarte (cerimônia do Oscar de 1963)

O quatrilho, de Fábio Barreto (cerimônia do Oscar de 1996)

O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto (cerimônia do Oscar de 1998)

Central do Brasil, de Walter Salles (cerimônia do Oscar de 1999)

Diga-se de passagem, na cerimônia do Oscar de 1960, um filme falado em português, com roteiro adaptado de uma peça teatral brasileira, encenado por um elenco de atores e atrizes preponderantemente brasileiros e rodado no Brasil, mas dirigido por um cineasta francês, ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional e também a Palma de Ouro em Cannes em 1959.

Estamos falando de Orfeu negro, de Marcel Camus, com roteiro inspirado na peça de Vinicius de Moraes, Orfeu da Conceição.

Uma pena (na verdade, a palavra certa seria "sacanagem") que o filme Orfeu negro não tenha concorrido ao Oscar pelo Brasil, já que representou a nossa realidade e a nossa cultura. Mas pavimentou o caminho para que, três anos depois, um filme com diretor brasileiro, elenco brasileiro, texto brasileiro e DNA brasileiro, mas com a belíssima fotografia em preto e branco de um britânico (Chick Fowle), o Brasil enfim levasse a Palma de Ouro em Cannes. 

Tudo tem seu tempo, e a hora e vez do Brasil veio com temas brasileiríssimos, como a incompreensão, o preconceito, a intolerância...


A obra-prima da dramaturgia brasileira, escrita por Dias Gomes, encenada pela primeira vez em 1960, O pagador de promessas, resume a essência do que nós somos.

Zé do Burro é o brasileiro, sem tirar nem pôr, é impossível que um brasileiro não se identifique com este personagem que carrega uma pesada cruz para pagar uma promessa.

Todo brasileiro é teimoso, convicto, tem uma ideia fixa como Zé do Burro.

Ele sofre enxovalhos como todo brasileiro.

Ele é traído como todo brasileiro.

Ele não desiste nunca, como todo brasileiro.

Ele paga suas promessas, como todo bom brasileiro.



Uma conjunção de escolhas felizes de Anselmo Duarte construiu a trajetória de um filme vencedor: 90 minutos de duração, diálogos cortantes, atuações hipnotizantes e, é claro, cenários que veiculam cinematograficamente o que no palco só poderia ser imaginado, a mistura do sertão com a urbe, a ingenuidade de um matuto em meio ao fervilhante cadinho cultural de Salvador, mescla da África com Europa, terreiros e igrejas, candomblé e cristianismo, capoeira e literatura de cordel.

Além de Leonardo Villar no papel de Zé do Burro e de Glória Menezes no papel de Rosa, o forte elenco traz Dionísio Azevedo (Padre Olavo), Geraldo Del Rey (Bonitão), Norma Benguell (Marly), Othon Bastos (repórter) e Antonio Pitanga (Coca). A igreja que aparece no filme é a do Santíssimo Sacramento, no Pelourinho, em Salvador.


Esta página do site do Itaú Cultural comenta a importância de O pagador de promessas para o teatro e o cinema brasileiros e traz citações do próprio Dias Gomes: 

“COMO ZÉ DO BURRO, CADA UM DE NÓS TEM SUAS PROMESSAS A PAGAR. A DEUS OU AO DEMÔNIO, A UMA IDEIA. EM UMA PALAVRA, A NOSSA PRÓPRIA NECESSIDADE DE ENTREGA, DE AFIRMAÇÃO. E CADA UM DE NÓS TEM PELA FRENTE O SEU ‘PADRO OLAVO’. ELE NÃO É UM SÍMBOLO DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, MAS DE INTOLERÂNCIA UNIVERSAL. VESTE BATINA, PODIA VESTIR FARDA OU TOGA. É PADRE, PODIA SER DONO DE UM TRUSTE.”


Por sua vez, em sua concisa e relevante obra Teatro brasileiro moderno, Décio de Almeida Prado escreveu sobre a peça teatral O pagador de promessas:

Todo bom escritor tem o seu instante de graça, possui a sua obra-prima, aquela que congrega numa estrutura perfeita os seus dons mais pessoais. Para Dias Gomes essa hora de inspiração veio-lhe no dia que escreveu O pagador de promessas. Em torno de Zé-do-Burro — herói ideal, por unir o máximo de caráter ao mínimo de inteligência, naquela zona fronteiriça entre o idiota e o santo — o enredo espalha a malícia e a maldade de uma capital como Salvador, mitificada pela música popular e pela literatura, na qual o explorador de mulheres se chama inevitavelmente Bonitão, o poeta popular, Dedé Cospe-Rima, e o mestre de capoeira, Manuelzinho Sua Mãe. (...)

A história já é por si só comovente mas assume pela singeleza com que é contada a feição de um símbolo, algo que não se deixa reduzir com facilidade a explicações racionais menores. A aura de poesia, dá-lhe a amplitude de uma fábula, de um apólogo, quase de um mito - o sacrifício do puro, do inocente, daquele que não provou do fruto do saber-, com conotações religiosas e ritualísticas. (PRADO, 1988, p.90).

É um filme para ser revisitado e cultuado, mas também uma parada obrigatória para todo brasileiro que pretende se inserir na categoria de "cinéfilo". 

Se você ainda não viu, faça a si mesmo a promessa de assistir ao mais relevante filme brasileiro até a presente data.

Quem mora em Passo Fundo e região, tem uma vantagem: a obra-prima do cinema nacional pode ser encontrada no acervo da Zílvia Locadora. 



sexta-feira, fevereiro 16, 2024

Pobres criaturas


Com roteiro do australiano Tony McNamara e direção do grego Yorgos Lanthimos, Pobres criaturas (Poor Things) é uma fábula feminista com óbvias influências da obra de Mary Shelley, Frankenstein
A fonte original adaptada por McNamara é o romance Poor Things: Episodes from the Early Life of Archibald McCandless M.D. Scottish Public Health Officer, de Alasdair Gray, publicado a primeira vez em 1992, por sua vez, fortemente influenciado pelo clássico shelleyano.

Não é preciso ser um gênio em literatura universal para perceber esse vínculo logo ao ver o trailer do filme. A propósito, a revista Time abordou a ligação entre o filme Pobres criaturas e o feminismo no clássico Frankenstein nesta reportagem.

Godwin Baxter, cientista sequelado, mas brilhante (Willem Defoe), faz um experimento bizarro: encontra o cadáver de uma jovem suicida grávida, retira o cérebro da neném, implanta na mulher adulta, e em seguida a ressuscita.

Para acompanhar passo a passo a evolução de Bella (Emma Stone), contrata Max (Ramy Youssef), estudante de Medicina que, inevitavelmente, se apaixona pela destrambelhada, porém deslumbrante jovem.

Dia após dia, anota a evolução da moça, o vocabulário crescente, a inaptidão social.

Quando Bella dá um passo importante em sua vida sexual (aprende a se masturbar e a ter orgasmos), o Dr. Godwin resolve casá-la com Max. Para fazer o contrato, entra em cena um inescrupuloso advogado, o dândi Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo), que acaba se interessando por conhecer quem é essa misteriosa pessoa.

A partir daí, o filme envereda por um caminho em que Bella assume o protagonismo e as rédeas de seu destino.

A jornada de autoconhecimento de Bella vai passar por muitas etapas.



Em meio a viagens a países exóticos, aventuras e desventuras, a ingenuidade vai dando lugar à experiência e ao entendimento de como o mundo funciona.

Um destaque é a viagem a Portugal.
Em Lisboa, Bella se depara com uma fadista a tocar guitarra portuguesa e a entoar "O quarto". Atônita, de olhos vidrados, Bella escreve um novo capítulo dessa relação afetiva de Hollywood com o fado, fortalecida com "A canção do mar", de Dulce Pontes, no filme As duas faces de um crime.

Nesta entrevista no programa Bairro das artes, Carminho, a cantora lusa que aparece em Pobres criaturas, explica como foi a experiência.


O filme tem ótimos momentos de comédia, com atuações consistentes. 

Perde um pouco o ritmo na segunda metade, talvez menos por culpa de Yorgos (cujo filme A favorita, de 2018, foi sucesso de crítica e público, faturando sete vezes o valor do orçamento) e mais dos tempos em que vivemos. 

Hoje em dia, a metragem dos filmes está numa fase mais elástica do que antigamente. Diretores se apaixonam por suas obras e as estendem ao máximo, sem que ninguém ouse os repreender ou ordenar sábios e bem desejados cortes.

Pobres criaturas é um bom entretenimento, com uma forte crítica social, principalmente a nós... limitados, ridículos e patéticos seres do sexo masculino.