Monday, October 09, 2006

Serpentes a bordo


Diretor de segunda unidade de Matrix Reloaded, Harry Potter e a Pedra Filosofal e Mestre dos Mares, David Richard Ellis começou na indústria cinematográfica há 30 anos como dublê. Em 2003, aventurou-se a assinar Premonição 2. Acostumado a fazer seu trabalho competente sem receber muito crédito, Ellis parece ter tomado gosto por receber o ‘mérito autoral’. Em 2004 voltou à carga com Celular. Para ‘sedimentar’ a carreira de diretor especializado em filmes de suspense e ação, Ellis lançou em 2006 sua pequena obra-prima: Snakes on a plane.
Sean Jones (Nathan Phillips), motoqueiro/surfista do Havaí, testemunha um crime perpetrado por um facínora líder de uma organização criminosa, e o agente Neville Flynn (Samuel L. Jackson), do FBI, passa a protegê-lo. Sean é convencido a depor contra o bandido e um esquema de segurança é montado para o seu traslado de Honolulu a Los Angeles. O que o FBI não esperava, nem a bela aeromoça Claire Miller (Juliana Margullies), nem nenhum dos excêntricos passageiros, que incluem um cantor famoso e seus dois guarda-costas apalermados, um homem com fobia de avião, uma mulher e o filho pequeno, uma patricinha e seu pincher, um homem que não tolera crianças nem cães etc., é que no bagageiro do avião fossem embarcadas centenas de cobras perigosas, das mais variadas espécies e origens. Najas, jararacas, corais, cascavéis, víboras e até uma jibóia (ou seria uma sucuri?), todas borrifadas com um intenso feromônio para deixar os répteis agressivos. Sem dúvida, uma idéia estapafúrdia, quase louca (não é à toa que um dos 6 roteiristas chama-se David Loucka), mas que rendeu um filme com coerência e verossimilhança internas.
Para quem não estudou teoria literária: a verossimilhança interna é um mecanismo criado dentro de uma obra de ficção para que o leitor/espectador acredite naquele universo ficcional. Um exemplo é o clássico “A revolução dos bichos”, de George Orwell, em que porcos, cavalos, cabras e burros pensam, falam e se desvirtuam como seres humanos. No caso de ‘Snakes on a plane’, o contrato feito com o espectador é o seguinte: vamos combinar que por uma hora e meia a palavra verossimilhança não existe mais no dicionário, ou fora dele. Assim você vai poder apreciar sua pipoca e levar alguns sustos e dar umas boas gargalhadas. É evidente que quem teve a coragem e o ânimo de ir ao Cine Vitória no sábado à noite para ver Serpentes a bordo concordou com os termos do contrato. E a surpresa: nesse contrato não havia cláusulas com letrinhas pequenas para enganar o consumidor.
Sobre as ‘estrelas’ do filme: apenas 1/3 delas são reais, conta Jules Sylvester, o dono da Reptile Rentals, empresa iniciada em 1977 para abastecer de cobras o mercado audiovisual. As demais cobras são animatrônicas ou geradas por computador. Sylvester forneceu 450 cobras para o filme, entre “corn snakes, rattlesnakes, king snakes, milk snakes, a couple of mangrove snakes”, e uma cobra albina. Em nenhum momento do filme o número de cobras no set ultrapassou 60, pois elas precisavam ser substituídas para descansar após 15 ou 20 minutos de filmagem. Segundo o empresário coruja, o maior problema foi fazer suas cobras parecerem assustadoras, e a prioridade ao longo das filmagens foi ‘manter a segurança das cobras.’

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