Thursday, August 10, 2017

A Bandinha no Teatro do SESC - Carazinho - RS

Rosivaldo Cordeiro, virtuose das cordas radicado na França

O projeto Sonora Brasil, circuito 2017/2018, trouxe a Carazinho a banda formada por oito músicos amazonenses.


Banjo open-back e cavaquinho

De formação eclética, A Bandinha inclui militares reformados, maestros, professores universitários, músicos de renome e também um estudante (Paulo Dias, no trompete), cujo Trabalho de Conclusão de Curso terá como tema A Bandinha e a sua trajetória, incluindo a turnê dentro do projeto do SESC.



Maestro e flautista Cláudio Abrantes

O ingresso foi um kg de alimento não perecível.


No clarinete, o polonês Vadim Ivanov, radicado em Manaus

A nossa família compareceu inteira, apenas o pequeno de 5 anos, que havia acordado muito cedo, capotou antes mesmo de ouvir a percussão, que só começou a funcionar na terceira música do repertório.

Paulo Dias no trompete



A propósito, o setlist seguiu uma ordem cronológica e mostrou a evolução das composições, desde as quadrilhas do século XIX, com influências europeias e cinco movimentos, até o surgimento do xote, do choro e da lambada.



Jonaci Barros no saxofone

Carlos Alexandre no sousafone

Mas, diga-se de passagem, o caçula prestou bastante atenção no começo, tanto que cochichou para mim, apontando para o percussionista:

"Por que aquele não está cantando (sic)?".



O percussionista Ronalto Alves e Rosivaldo Cordeiro

Antes de cada música, o flautista Cláudio Abrantes e o especialista em instrumentos de corda (banjo, cavaquinho) Rosivaldo Cordeiro contextualizavam o compositor e a peça a serem executados.



A Bandinha executou dez peças formando um panorama histórico

Muito curiosa a história da verdadeira "lambada", surgida com a mescla de influências das fronteiras amazonenses com a Colômbia e o Peru.


Rodrigo Nunes no bombardino

Além dos três musicistas já citados, completam A Bandinha: Jonaci Barros (saxofone), Vadim Ivanov (clarinete), Rodrigo Nunes (bombardino), Carlos Alexandre (tuba ou sousafone) e Ronalto Alves (percussão).


Obrigado, SESC, obrigado, Bandinha!


Carlos Alexandre, sua incrível tuba
e o menino Félix com o CD "Jonaci e seu sax, na arte do Beiradão"



Tuesday, August 01, 2017

Em ritmo de fuga


Baby Driver, de Edgar Wright, é a antítese de Dunkirk. Os personagens têm nome (ou codinome) e  outros sentimentos além daqueles motivados por instinto de sobrevivência, patriotismo e orgulho.

É um filme simples sobre a importância da música, da audição e do amor.

Também os realizadores não poderiam ser mais díspares: Edgar Wright é o despretensioso e bem-humorado responsável por filmes de orçamento relativamente baixo, à exceção deste Baby Driver, que conta com um elenco de atores mais conhecidos e até oscarizados, como Jamie Foxx e Kevin Spacey.

O roteiro do próprio Wright faz o espectador criar empatia com o protagonista. Ele se autodenomina Baby, e é um jovem com cicatrizes no rosto que sofre de um problema auditivo, um zumbido que não cessa. Por isso, escuta constantemente músicas em fones auriculares.

O background do personagem é contando em flashbacks, que mostram o relacionamento conturbado dos pais e o acidente que deixou o então menino com as sequelas físicas mencionadas. As sequelas
psicológicas? Essas, jamais cicatrizam.



O trabalho que Baby executa é dirigir. E no mundo da superespecialização, Baby tem a sua especialidade: dirigir carros em fuga para quadrilhas de assalto a banco. 

Seu destino está inexoravelmente atrelado a Doc (Kevin Spacey), um figurão do mundo do crime que alicia Baby para fazer seus trabalhos sujos. Mas Baby está prestes a ficar quites com ele, e, assim, talvez libertar-se do jugo deste mafioso/fora-da-lei.

Nesse meio-tempo, Baby se apaixona pela garçonete Debora (Lily James), que inevitavelmente será envolvida no submundo.

Mas felizmente o casal de pombinhos não pretende ser uma nova versão de Bonnie & Clyde, nem dos doidos desvairados de Assassinos por natureza.



Ao contrário: Baby (Ansel Elgort) é um gentleman, um estranho no ninho com o coração selvagem. Não gosta de homicídios e se dedica a cuidar de Joseph, o seu tutor surdo e paralítico.

Após sua trilogia de sangue e sorvete (Todo mundo quase morto, Chumbo grosso e Heróis de ressaca), o diretor Edgar Wright começa uma ascensão irresistível aos blockbusters...

Espera-se que ele não deixe isso lhe subir à cabeça.

Monday, July 31, 2017

Dunkirk

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Dunkirk é um radical exercício de estética com elevados anseios artísticos. O conceituado diretor Christopher Nolan mira indicações a Oscar e, como todo bom cineasta, pretende surpreender e colher elogios pela ousadia e pelo talento. Tem sido assim desde o começo de sua carreira. Nolan tornou-se conhecido com o incensado Amnésia, cujo roteiro nada tinha de especial, apenas a montagem do filme tinha sido feita de trás para frente. Isso confundiu muita gente que jura até hoje que Nolan é um gênio.
Eis que a esta altura da carreira, após o esplendor cerebral de Interestelar, é possível constatar que Nolan realmente amadureceu em seu ofício.
Porém, seus principais defeitos continuam ali, escancarados. 
Realmente parece difícil fazer um filme simples, com personagens desenvolvidos e uma história bem amarrada, contada do início ao fim. O ponto de vista tem que ser o de um soldado sem nome querendo escapar com vida de uma arapuca chamada Dunquerque, tem que ser uma sucessão infindável de situações limite, um tal de sai-de-barco-entra-em-barco, do tipo de "tirar o fôlego".
Sim, o filme é eficiente em demonstrar o medo de um soldado durante um bombardeio na praia aberta ou no molhe abarrotado. Parece que o foco de Dunkirk é a angústia das tropas encurraladas querendo escapar. Do ponto de vista histórico, são pouquíssimas as pretensões de Nolan. Em outras palavras: ninguém ficará sabendo nada mais detalhado sobre a retirada, sobre a estratégia (ou falta dela), sobre as questões ligadas à colaboração entre exércitos francês e inglês. É tudo centrado na (pseudo)ação.

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Que Nolan é um cineasta estudioso, isso ninguém pode negar. Ele realiza cenas vertiginosas nos combates entre os caças britânicos (Spitfire) e os alemães (Heinkel), reverenciando respeitosamente Wings (1927), o primeiro a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Embora belíssimas, estonteantes e supereficazes no IMAX 2-D, as cenas aéreas de Dunkirk não têm nada de superior nem de original em comparação com as do filme de William Wellman.
Curiosamente, na curadoria de um ciclo dos filmes que o teriam influenciado na realização de Dunkirk, Nolan cita, entre outros filmes, Alien, O salário do medo, A filha de RyanSem novidades no front, mas não menciona Wings.

AVISO DE PSEUDOSSPOILER
A PESSOAS ALTAMENTE SPOILERSSENSITIVAS:
SE AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME, INTERROMPA A LEITURA AQUI.

Pernóstico, pretensioso? Use o adjetivo que você quiser. Mas por que, afinal, aquelas legendas "enigmáticas" no filme? Tudo para que no final as três histórias se entrelacem e tudo subitamente "faça sentido"?
O ponto alto do roteiro, o momento mais surpreendente, é também o mais falso. Falso, não: inverossímil. Será que existe um jovem assim tão compreensivo e sábio quanto o filho do dono do barco? Ele dá uma resposta surpreendente ao soldado que é resgatado por eles, mas tenta convencê-los a voltar à Inglaterra em vez de continuar a operação de resgate em apoio à Marinha.
Aliás, diga-se de passagem, essa participação dos civis também não fica suficientemente contextualizada no filme.
Por outro lado, o "inimigo" é apenas mostrado em forma de bombas, projéteis, torpedos. É um inimigo sem rosto, e não é por aí que Nolan desconstrói o clichê dos filmes de guerra.
Essa desconstrução acontece no ponto alto do roteiro, o momento mais surpreendente, já citado no parágrafo anterior. É que essa resenha tem a influência do filme. A montagem é meio irritante mesmo. Embora soe falso, funciona. Tal é a proeza de Nolan: criar uma situação em que um velejador de vinte anos mostra uma sensibilidade aterradora diante dos fatos desproporcionalmente viscerais.
Entretanto, é essa sequência que, embora inverossímil, surpreende o espectador e humaniza Dunkirk.
Só para encerrar e completar o meu raciocínio. Até na dedicatória Nolan não consegue ser simples: dedica o filme apenas a todas as pessoas cujo destino foi afetado direta ou indiretamente pelos eventos representados no filme. Ou seja, dedica o filme a todos os habitantes do planeta Terra!

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Thursday, July 27, 2017

O nevoeiro



The Mist é o tipo de filme essencial para as pessoas que têm uma queda por literatura fantástica. O diretor Frank Darabont (cuja filmografia é tão interessante quanto sucinta, compreendendo, além de O nevoeiro, Cine Majestic, À espera de um milagre, Um sonho de liberdade e Sepultado vivo) reuniu um elenco eficaz, sem grandes estrelas, aproveitou (para variar) um texto relativamente pouco conhecido de Stephen King, mudou o final para melhor, recrutou a maquiagem de Greg Nicotero e os efeitos em CG da CafeFX (a mesma empresa que trabalhou em O labirinto do fauno, de Guillermo del Toro), pinçou a dedo a hipnótica The host of the seraphim do Dead Can Dance, colocou tudo isso no liquidificador de suas tomadas bem boladas e... bingo! Eis que temos um dos filmes de suspense/terror/fantasia mais significativos do novo século. O filme já vai fazer 10 anos este ano, mas acaba de ser lançado um seriado que também se baseia na noveleta do mestre Stephen King.

Sunday, July 23, 2017

What I've Done



Nesta despedida

Não há sangue
Não há álibi
Pois extraí arrependimento
Da verdade contida
Em mil mentiras
Então deixe a misericórdia
Lavar 

O que eu fiz

Vou me enfrentar
Para eliminar o que me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

Deixe pra lá
O que você pensava de mim
Enquanto eu limpo esta lousa
Com as mãos
Da incerteza
Então deixe a misericórdia
Lavar

O que eu fiz
Vou me enfrentar
Para eliminar o que me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

Pelo o que eu fiz
Vou recomeçar
E seja lá qual dor surgir
Hoje isto termina:
Estou perdoando o que eu fiz

Vou me enfrentar
Para eliminar o que eu me tornei
Me apagar
E deixar para trás o que eu fiz

O que eu fiz

Perdoando o que eu fiz



In this farewell
There's no blood
There's no alibi
'Cause I've drawn regret
From the truth
Of a thousand lies
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

Put to rest
What you thought of me
While I clean this slate
With the hands
Of uncertainty
So let mercy come
And wash away

What I've done
I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

For what I've done
I'll start again
And whatever pain may come
Today this ends
I'm forgiving what I've done

I'll face myself
To cross out what I've become
Erase myself
And let go of what I've done

What I've done

Forgiving what I've done

Sunday, July 16, 2017

Paul McCartney: a biografia

Meu primogênito completa 10 anos em 9 de outubro.
Em 13 de outubro, ele estará no Estádio Beira-Rio lotado para ver seu primeiro show de rock.
Quem vai estar comandando as ações no palco será um jovial senhor de 75 anos de idade, que atende pelo singelo nome de Paul McCartney.
Ou apenas Paul, para os mais íntimos. No caso, para quem já leu a biografia escrita por Philip Norman, cuja edição brasileira tem a tradução de Rogério Galindo e Cláudio Carina.
Tive alguns receios ao longo da leitura desta obra.
Primeiro, o de não conseguir terminar o livro, afinal de contas, são 800 páginas.
Fiquei com medo de "perder o fôlego" e abandonar, ou perder o "momentum".
Na prática, fui deixando esse medo de lado e simplesmente degustando o texto.
Lá pelas tantas, o receio voltou.
Será que a leitura se tornaria menos interessante após o fim dos Beatles?
Mas, ufa, meu fôlego não arrefeceu, pois vieram as brigas, as pendengas judiciais, as desilusões com os amigos.
A estrutura da obra ajuda, com capítulos não muito longos. O estilo literário de Norman (bem respeitado pelos tradutores) é pragmático, objetivo; a escolha do material a ser incluído visa a fazer a história andar, não entra em detalhes desnecessários.
Norman demonstra entender do primordial: das músicas. Do imenso repertório dos Beatles e de Paul, comenta en passant a criação de algumas essenciais, como Yesterday, Hey Jude e Mull of Kintyre.

A impressão que temos é a de um biógrafo no auge de sua forma escrevendo sobre um biografado que continua lotando estádios e fazendo shows de mais de 3 horas de duração com um público empolgado.
Ainda assim, fiquei com receio de perder o interesse pelo livro após a morte de John Lennon.
Depois, após o término dos Wings. Depois, após a morte de Linda.
Mas não: todas as noites, antes de dormir, eu pegava o livro com a mesma vontade e ímpeto.
O derradeiro medo: o casamento com Heather Mills.
Havia lido um comentário criticando a biografia por se estender muito nesta parte relativamente curta da vida de Paul.
Eis que não concordei com a crítica, achei tudo bem equilibrado, e como foi um dos assuntos mais polêmicos da vida dele, é justo que o biógrafo se detenha um capítulo a mais para colocar os pingos nos ii, mas, como frisei, tudo sem perder o foco, mantendo o livro dentro de um planejamento mais amplo, sem fazer muitas revelações bombásticas, apenas britânica e cavalheirescamente descrevendo os fatos e uma vida.
Em outubro, Porto Alegre vai escrever mais uma singela página da vida deste grande músico e compositor. Mas que é gente como a gente.

Wednesday, July 12, 2017

Por um punhado de dólares versus Yojimbo

            


         Quem é mais rápido? O pistoleiro de aluguel de Por um punhado de dólares ou o samurai de Yojimbo?  
        Toshiro Mifune mata seis em um piscar de olhos, usando somente a espada. Clint Eastwood chega à cidade encomendando caixões ao coveiro.



            Em um duelo a pouca distância, Eastwood crivaria Mifune de balas, ou seria decapitado antes de sacar?


            À medida que vamos assistindo a Yojimbo, vamos nos recordando dos lances equivalentes em Por um punhado de dólares. A história é a estritamente a mesma.
            
      Um forasteiro chega a uma cidade onde duas famílias disputam o poder. Em Kurosawa, é o samurai sem destino e emprego, representado por Toshiro Mifune.



       Tem a mania de tirar o braço da manga e coçar a cabeça passando-o pela gola de seu quimono. É um cara sem escrúpulos, que não hesita em roer a corda, ou em fazer jogo duplo.

   Em Leone, é o pistoleiro vivido por Clint Eastwood. Barba por fazer, estilo cool e quieto, mas com os mesmos defeitos do personagem original.

         Apesar do mau caráter, os dois personagens desenvolvem certa empatia com o espectador. Afinal, estão, cada um a seu modo, desafiando quem tem, quem explora e humilha o povo. E os dois diretores tentam redimir as ações espúrias de seus protagonistas quando eles usam a força para reparar injustiças.
           



     
       As semelhanças são muitas em termos de fundamentos do roteiro, mas param por aí. Na forma e no estilo, Yojimbo e Por um punhado de dólares são obras completamente diferentes.
            
    Yojimbo é filmado em preto e branco, enquanto Por um punhado de dólares é a cores. 



    Yojimbo é uma sátira dramática, com cenas consistentes e fortes. Por um punhado de dólares ameniza a sátira e o drama, dá ênfase para o movimento e os tiroteios.
    
      Sérgio Leone, o mestre dos faroeste "spaghetti", traduziu para a linguagem ocidental o cinema denso de Akira Kurosawa.
     
   Dois pequenos clássicos, um de samurai, outro de faroeste. Dois diretores brilhantes. Dois atores carismáticos. Para mim, está empatado o duelo.

 

Monday, July 03, 2017

Meu malvado favorito 3

A Illumination é uma fábrica de filmes talentosos e também lucrativos. Com 7 filmes lançados (entre eles, Sing, quem canta seus males espanta e Pets, a vida secreta dos bichos), a subsidiária da Universal soma um investimento de cerca de 500 milhões de dólares (custo médio de 72 milhões de dólares por filme) com renda total de quase 5 bilhões de dólares, ou seja, um retorno 9 a 10 vezes superior ao capital investido.

Nesse contexto, em que cada novo lançamento supera o anterior, é difícil não tentar "esgotar o veio" ao máximo, ou seja, continuar aproveitando as personagens já aprovadas pelo público.

É o caso de Gru, suas filhinhas, sua esposa, seus ajudantes Minions (cujo filme "solo" é a 2ª maior bilheteria de animação da história, só perdendo para Frozen) e, agora, seu irmão gêmeo Dru, que entra para a galeria dos personagens da franquia em Meu malvado favorito 3.


O diretor Pierre Coffin, em vez da parceria com Chris Renaud, desta vez conta com a codireção de Kyle Balda e Eric Guillon. O roteiro continua a cargo de Cinco Paul e Ken Daurio, que, nesta entrevista, insinuam que a franquia não vai parar por aí.

Agora é fazer as apostas: será que Meu malvado favorito 3 vai bater o recorde de Frozen?

A julgar pelas sessões lotadas do Cine Arcoplex do Shopping Bella Cità, em Passo Fundo, a resposta é... talvez.


Friday, June 30, 2017

O salário do medo


         


      A cidadezinha guatemalteca  de Las Piedras, na costa do Pacífico, vive da exploração do petróleo, realizada por uma companhia ianque. A mão de obra barata inclui nativos e índios. Forasteiros sem emprego têm como ponto de encontro o Corsário Negro, o bar que reúne a “nata” local. É ali, em meio ao ócio e ao desalento, que se fica sabendo do serviço fatídico.

            A empresa necessita quatro motoristas experientes para uma missão inusitada. O transporte de nitroglicerina, em caminhões comuns, sem nenhum amortecedor especial, até um campo de petróleo. O perigo é grande. O dinheiro, também. O francês Mario não hesita em participar dos testes. Com sangue frio e habilidade, é um dos escolhidos, para o sofrimento de sua amante, a atendente de bar Linda, interpretada pela brasileira Vera Amado Clouzot.

           

      
       O diretor Henri Clouzot (que fez o imortal O corvo) conseguiu, em O salário do medo, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1953, transmitir com sucesso o sentimento que se evola das páginas do livro de Georges Arnaud. Lançada em 1941, a obra resume a angustiante condição humana de não ter como escapar, não ter como modificar uma rotina de ócio e opressão, não ter como evitar o sentimento paralisante do medo.

            Arnaud parece ter escrito com o cinema em mente. Escolheu o presente do indicativo. Em cada parágrafo revela-se uma cena; em cada diálogo, o caráter de um personagem. O livro é rápido (180 páginas) e do tipo difícil de largar. O filme, de 2 horas e meia, não parece longo; fiel ao original, é um exemplo de adaptação séria, sem apelações.




            Para se ter uma ideia, o livro tem cenas de sexo, o filme não. Cenas de suspense, não raras no livro, não são aumentadas no filme. O filme limita-se a contar, na melhor linguagem cinematográfica, a saga destas almas perdidas.

             Os perfis dos personagens são fiéis ao livro, mas alguns mudam de nome na película. No livro, o corajoso protagonista é Gérard Stürmer, no filme, é Mario. Seu companheiro de equipe, no livro, é o romeno Johnny; no filme, o francês Jo. Durante toda a viagem excruciante, a coragem de Mario irá conviver com a covardia de Jo. Pelo seu trabalho como o motorista que não consegue controlar o medo, Charles Vanel foi premiado em Cannes. Yves Montand é Mario.



            A fase preparatória, onde há o desenvolvimento dos personagens, ocupa 40% do tempo, tanto do filme como no livro.

            Diferenças significativas entre o livro e o filme são poucas. No filme foi retirada a parte em que os caminhões precisam atravessar um povoado. O padre pede aos motoristas que tomem um desvio, segundo ele, em ótimas condições. As duas equipes concordam, porém, precisam voltar, devido ao péssimo estado da estrada. Bimba, o espanhol, vai até a igreja e espanca o padre. No filme, a cena que “substitui” essa passagem é a presença de uma grande pedra na estrada.

            No correr das linhas ou no desempenho dos atores Ives Montand e Charles Vanel,  o desespero, o cansaço, o pavor dos motoristas são transmitidos minuciosamente, e o leitor ou espectador parecem estar dentro da cabine do caminhão, transportando nitroglicerina, em estradas sinuosas e esburacadas da Guatemala, onde um simples erro de câmbio, uma freada brusca, uma acelerada em falso, enfim, a mínima falta de atenção, pode mandar tudo pelos ares.


Matar ou morrer (sol a pino)


                                   
           



     Do not forsake me, oh my darling... A balada de Dimitri Tiomkin, cantada por Tex Ritter, toca na abertura de High Noon (Matar ou morrer), enquanto na tela, em preto e branco claro e nítido, três cavaleiros mal-encarados se reúnem e se afastam trotando. Belo videoclipe feito em 1952.
    A frase musical retorna a todo instante no filme, no saloon o pianista a está tocando, e por onde anda Will Kane tentando, em vão, recrutar ajudantes, o tema volta. Isso contribui para a unidade e a força expressiva do filme.

            High Noon levou três prêmios da Academia: Melhor Edição, Melhor Canção e Melhor Ator. Gary Cooper imortalizou Will Kane, o xerife de uma pequena cidade que, às vésperas de ser substituído, aproveita a manhã de domingo para casar com ninguém menos que Grace Kelly. A câmera focaliza o relógio: são dez e meia. Chega um telegrama avisando que Frank Miller, assassino preso por Kane há cinco anos, está solto e vai chegar na cidade no trem das doze.


            A primeira opção do novo casal é partir logo. Não demora muito Kane, sob os protestos da esposa, dá meia-volta. Will Kane justifica a decisão: fugir agora seria fugir sempre e a vantagem de tempo era pouca.
            Por sinal, tempo é o fator fundamental em High Noon. O filme de Fred Zinnemann ficou famoso por contar a história em “tempo real”. Esse recurso criou um clima de expectativa poucas vezes alcançado no cinema. 

            Kane tem pouco mais de uma hora para conseguir ajuda. O tempo vai passando e ninguém se propõe a ajudá-lo a enfrentar os bandidos. Até seu ajudante (Lloyd Bridges, pai de Jeff e Beau) rói a corda. A covardia se espalha e o único voluntário desiste na hora H. A situação de Kane torna-se excruciante.

            High Noon é, pois, a crônica de uma morte anunciada.  De braços cruzados, a cidade aguarda a inexorável chegada do trem, e a nuvem de sangue e morte que virá com ele. Constantemente a ferrovia sumindo na planície deserta é mostrada. É quase meio-dia, e podemos respirar a atmosfera pesada e carregada que toma conta da cidade.  Nunca um trem foi tão esperado em um filme.
             

Ladrões de bicicleta

           
               Em 1949, o filme Ladrões de bicicleta, do italiano Vittorio De Sica, mereceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Dois anos antes, De Sica já havia recebido um Oscar honorário, que praticamente levou à criação da categoria, com Vítimas da tormenta (Shoeshine), sobre dois amigos engraxates.
          Ladrões de bicicleta é o aprimoramento do seu estilo que se convencionou chamar "neorrealista" e que influenciou os caminhos de Hollywood na década de 50. É uma fábula sobre o renascer e a perda da esperança, com um final daqueles de ficar pensando.
             Um desempregado é chamado pela agência de empregos. A vaga oferecida é de colador de cartazes e o candidato deve ter bicicleta própria. Só através dela pode conseguir o emprego. Volta para casa preocupado, pois havia penhorado a bicicleta para comprar comida para a família.
            Que problema o homem não conta para a esposa, que ela não dê um palpite, uma dica, ou mesmo a solução definitiva? A esposa de Antonio leva todos os lençóis do enxoval para a casa de penhores e levanta o valor para retirar a bicicleta. O marido consegue o emprego.

            Contente, o chefe de família começa animado uma nova fase. Nem bem tem o gostinho de voltar a trabalhar, sofre um revés, pela ação dos larápios do título. Então começa a melhor parte do filme. 
           Antonio, com a ajuda de amigos e do filho Bruno, passa um fim-de-semana tentando recuperar a bicicleta roubada. Nesta comovente busca, enfrenta a omissão de uns, o fingimento de outros e, por fim, a dúvida de estar acusando alguém injustamente. Em uma sequência memorável, persegue um suspeito até sua casa e quase é linchado pelos vizinhos. Inconformado com a falta de sorte, o protagonista toma uma decisão desesperada.
           
      O menino Enzo Staiola tem um desempenho notável como o pequeno e emotivo Bruno. Já o ator Lamberto Maggiorani encarna o transtornado Antonio, produto da recessão do pós-guerra na Itália. Sua atuação dá a medida exata de até onde um homem consegue manter a esperança, e quando começa a perdê-la.
           Muitas décadas se passaram, mas o drama do desemprego ainda é uma realidade em muitos países.