Monday, April 24, 2017

O fabuloso filme de Jean Pierre Jeunet


                        O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001) é um filme fácil de ver e gostar. O roteiro é dinâmico e original. A história é contada de forma leve e bem-humorada. O elenco dá vida aos personagens. Resultado: o espectador se diverte e se emociona com as peripécias da jovem Amélie Poulain.


             Amélie é filha única de um casal de professores. Até os seis anos, tudo vai bem em sua vida, quando perde a mãe em circunstâncias tragicômicas. A atriz mirim Flora foi escolhida depois de seleção rigorosa. Fala apenas uma frase. Seu olhar expressivo já diz tudo. O diretor só começava a filmar depois da pequena Flora declarar: “Eu estou pronta”. Detalhe: ela é filha de pai francês e mãe brasileira.

            Um pulo e Amélie aparece já moça. Os mesmos cabelos e olhos castanhos cheios de expressão, agora representados por Audrey Tautou. Esta menina hipnotiza o público em sua rotina comum. É balconista de um café com estranhos clientes. Entre eles, um escritor fracassado e um namorado rejeitado.  Outros personagens de sua vida são seu gato, com quem divide o apartamento, e os vizinhos do prédio. Um misterioso pintor com ossos de vidro. Uma senhora que vive a reler as cartas do esposo morto.  Um mal-humorado dono de fruteira, que vive a humilhar seu empregado de um braço só. Aos fins de semana, Amélie visita o pai viúvo, aposentado e acomodado. Quanto à vida "pessoal": o coração de Amélie anda à procura de algo mais, algo que realmente valha a pena.


           
       Uma série de coincidências leva Amélie a descobrir uma caixa com itens colecionados por um menino, na década de 50. Amélie encasqueta em localizar o dono da caixa e lhe devolver as relíquias de sua infância.  Daí por diante, contar seria estragar as muitas surpresas do filme. Amélie atua como uma catalisadora de emoções. Através de seu modo de ser, transforma todas as pessoas ao redor, quase esquecendo de si.

            Uma das "mensagens" do filme seria essa. Para isso que servem os amigos, afinal. Dar um toque, um empurrãozinho. Alguém fará por Amélie o que ela está fazendo pelos outros?

            Sobre o diretor Jean Pierre Jeunet: começou a carreira na publicidade e fazendo videoclipes. Em longa-metragem codirigiu Delicatessen (91), onde predominava o humor negro. Realizou Ladrões de sonhos (95), mantendo o estilo esquisito. Um passo para o cinema mais pop foi dado com Alien 4 (97).

           
       Amélie é uma bem-vinda volta às origens. Um filme com o melhor do cinema francês: o humor, a música, a linguagem, uma penca de personagens característicos... Um filme merecedor de seu Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Diga-se de passagem: em 2014, Jeunet, cineasta pouco prolífico, mas de estilo bastante especial,  voltou a acertar em cheio, com o prodigioso A viagem extraordinária, filmado em 3-D.          

Saturday, April 22, 2017

Onde começa o inferno

Foi de uma frase de Howard Hawks que Peter Bogdanovich pinçou o título de seu livro "Afinal, quem faz os filmes" (Who the devil made it).

A frase, na tradução de Henrique Leão, é a seguinte:

[...] Eu gostava de quase todo mundo que me fazia perceber quem diabos estava fazendo o filme [...] Porque o diretor é quem conta a história, e deve ter o seu próprio método de contá-la.

Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959) é um emblemático exemplo da filmografia desse diretor que acreditava que o cinema não era uma arte, e sim um negócio, um divertimento.


E fica evidente que ele se divertiu muito fazendo Rio Bravo, um filme que, como a maioria de seus filmes, girava "em torno de personagens, e não de situações". Bogdanovich perguntou isso a Hawks, que respondeu: "Seguir uma trama não é muito complicado; mas, quando não se tem um enredo, já não é tão fácil contar uma história".


Onde começa o inferno revela essa marca registrada de Hawks. Um western em que a conversa é mais importante que os tiroteios. Não há uma trama intricada, um roteiro repleto de reviravoltas e sacadas geniais. Há a construção das personagens, os diálogos bem urdidos. Há a forte relação de amizade entre um xerife e seu ajudante, que se transformou num beberrão após uma desilusão amorosa. Há a paixão inevitável entre uma jovem procurada pela justiça e o xerife. Há a carismática presença de outro ajudante, manco, que conhece o xerife como ninguém, e em quem o xerife sabe que pode confiar. Há, também, o alívio cômico, na pele do atrapalhado dono do hotel.

Para se ter uma ideia de quanto Hawks segue à risca sua cartilha de considerar o cinema uma diversão: ele aproveitou a presença de dois cantores no elenco e deu a eles um número musical, numa cena que caiu como uma luva no contexto do filme. Os quatro, mesmo preocupados com a situação em que precisam manter sob custódia um preso na delegacia daquela remota cidadezinha texana, precisam de um momento de distração, de alegria, que a música lhes traz.


Falando em música, a canção entoada por Dean Martin (que teve de alugar um avião para comparecer à reunião marcada por Hawks e, assim, ganhar o papel de Dude, o ajudante bêbado) nesta cena é de Dimitri Tiomkin, como também é a trilha do filme. O mesmo compositor, aliás, premiado pela canção de outro faroeste, Matar ou morrer (High Noon, 1952). Que, por sinal, foi a inspiração para Rio Bravo, conforme Hawks, que havia se aborrecido com a falta de ajuda oferecida ao protagonista do filme de Fred Zinnemann. Em Rio Bravo, acontecem situações mais naturais, não apenas a recusa para salvar a pele. Numa delas, a mocinha se oferece para ajudar o xerife, que se recusa a aceitar, por vaidade, orgulho, ou medo de envolvê-la.

Feathers, a moça que se apaixona pelo xerife, é vivida por Angie Dickinson. Completam o elenco: o cantor Ricky Nelson, na pele do jovem e decidido Colorado; o camaleônico e triplamente oscarizado Walter Brennan como Stumpy, o engraçado ajudante coxo; e, por último, mas não menos importante, ele, o xerife John T. Chance, mais um personagem marcante neste verdadeiro sinônimo de faroeste clássico: John Wayne.



Em tempo: falando em John, o diretor John Carpenter, fã incondicional de Hawks e de Rio Bravo, acabou realizando dois filmes inspirados no clássico de Howard Hawks: Assalto à 13ª DP (1976) e Fantasmas de Marte (2001).

Friday, April 21, 2017

A garota no trem

Ao resenhar um filme estou tentando, em última análise, responder a uma pergunta simples: "Por que cargas d'água fui atraído para ver este filme?". O que me levou a estender a mão e pegar este filme na prateleira da locadora? Em outras palavras, o que me motivou a investir meu tempo e meu dinheiro neste ou naquele muitas vezes obscuro objeto de desejo cinéfilo? Ao cabo deste texto, espero que tenha conseguido desvendar o mistério.

Adaptado do romance homônimo escrito por Paula Hawkins, o filme A garota no trem, dirigido por Tate Taylor (o diretor nascido em 3 de junho que realizou o filme Histórias cruzadas), por seu ritmo pausado e por sua relativa falta de cenas de ação, não se enquadraria como "thriller", mas sim como o que se costumava rotular de "suspense psicológico".

Para isso contribui o fato de que um dos personagens secundários é um psicoterapeuta, alguém que, por conta de sua profissão, deixa as pessoas falarem e exorcizarem seus próprios demônios por meio do desabafo.

A garota no trem, o livro, tem três pontos de vista. Três mulheres muito diferentes contando a mesma história, cada uma sob seu olhar. O modo como cada uma enxerga a si e as outras é a chave para o sucesso do livro, um best-seller traduzido no Brasil por Simone Campos.

Erin Cressida Wilson, a roteirista, explica nos extras que era muito grande o desafio de valorizar o material literário, de transformar a linguagem literária em linguagem cinematográfica.

Os recursos de cada mídia são bastante diferentes, e cenas que funcionam em texto, não necessariamente vão funcionar no roteiro a ser filmado.

O livro, aos poucos, desvela, sob três prismas diferentes, uma intricada história de atração, obsessão e manipulação.

No filme, o foco se concentra em Rachel, a "garota no trem". Ela tenta se recuperar do fim de um casamento, que, em sua percepção, ela mesma colocou a perder, por conta de sua condição de alcoolista. O ex-marido, Tom Watson (Justin Theroux), agora está casado novamente, com uma filha pequena, e Rachel diariamente avista pela janela do trem o casarão onde o novo casal mora.

As outras duas mulheres principais da trama são a nova esposa Anna (Rebecca Ferguson) e Megan (Haley Bennet), contratada para cuidar da neném.

Embora casada com Scott (Luke Evans), Megan é o tipo de mulher que desperta os olhares de muitos homens.

O espectador já sabe de antemão: inevitavelmente, um crime vai acontecer. E também já desconfia que é o tipo de história em que cada um carrega um segredo perturbador.

Nisso é inevitável, também, o paralelo com outro suspense, menos soturno e mais bem definido em termos de gênero: A mão que balança o berço, de Curtis Hanson. No filme de Hanson, a violência explode quando uma mente pérfida e maquiavélica busca vingança de modo calculista.

Em A garota no trem, o suspense se constrói paulatinamente, em camadas, com ênfase na análise psicológica das personagens.

Mas eis que o texto está chegando ao fim, e, ao que me consta, ainda não consegui responder à pergunta que levantei no começo do texto. Meu interesse por histórias de suspense? Quem sabe...
Em busca da resposta, súbito um nome me vem à mente. Uma tênue e nebulosa suspeita. Mas não sou assim. Em geral, eu escolho filmes pelo diretor, e não pelo elenco. Mas Freud explica: "Emily Blunt".



Monday, April 03, 2017

A chegada



O filme de Denis Villeneuve tem uma heroína improvável. A Dra. Louise Banks (Amy Adams) é filóloga, tradutora e professora universitária. No começo do filme, ela é obrigada a interromper a aula sobre uma linguagem sui generis (a língua portuguesa) por conta de notícias assustadoras que começam a desviar a atenção dos alunos via web. Em 12 pontos da Terra, conchas bizarras pairam sobre o solo, inspirando medo e histeria.
Equipes multidisciplinares são formadas para tentar se comunicar com os seres heptápodes que habitam as conchas.
Aí que entra a Dra. Banks na história. Ela tem um contrato de tradução vigente com o governo e pode ter acesso a informações confidenciais. Por isso, é convidada pelo general Weber (Forest Whitaker) para trabalhar na equipe nova-iorquina, junto com o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner).
As tentativas de decifrar a complexa linguagem são mescladas com cenas de Louise com a sua filha. Com ousadia, o diretor canadense Denis (a pronúncia é "Deni") Villeneuve adapta a premiada narrativa (o conceituado Prêmio Nebula na categoria "novella", ou seja textos entre 17.500 e 40.000 palavras) Story of Your Life, de Ted Chiang. Sem dúvida, assistir ao filme desperta muita curiosidade para ler a noveleta. Pessoas que leram a obra afirmam que a leitura ajuda a compreender o filme (só entre neste link se estiver disposto a se deparar com spoilers) e a preencher as lacunas. A adaptação foi realizada pelo roteirista Eric Heisserer, especializado em suspense e terror, e a edição ficou a cargo de Joe Walker, que conta nos extras seus esforços para deixar o filme mais enxuto.



Saturday, April 01, 2017

Doutor Estranho

O currículo de Scott Derrickson mostra uma forte tendência a temas esotéricos, sobrenaturais e ficção científica. Entre outros, dirigiu Hellraiser: Inferno (2000), O exorcismo de Emily Rose (2005), O dia em que a Terra parou (2008, refilmagem do clássico de Robert Wise) e A entidade (2012). Digamos que não é qualquer cineasta que pula de orçamento e consegue de certa forma manter a "coerência" temática: Doutor Estranho tem elementos que mesclam todos esses temas. Com um custo de 165 milhões de dólares, acabou sendo a produção mais cara sob a direção de Scott Derrickson, na qual ele teve plenas condições de mostrar os conhecimentos obtidos em seu Mestrado em Cinema pela USC.


Doutor Estranho tem uma grande qualidade: não se propôs a abarcar mais do que deveria. Apenas introduziu a origem do personagem, o background do exímio e bem-sucedido cirurgião (antes do acidente) que se transforma num arrogante farrapo humano (após o acidente), mas que depois resolve reconsiderar. Enfrenta um dilema: será que nem tudo, afinal, a ciência pode explicar?
Isso que torna o filme agradável: Dr. Strange (Benedict Cumberbatch) precisa reavaliar suas ideias, dar o braço a torcer. Precisa dar ouvidos à poderosa Anciã (Tilda Swinton), para conseguir galgar novos patamares.


Com a ajuda de Mordo (Chiwetel Ejiofor, contracenando com Benedict novamente, após o oscarizado Doze anos de escravidão), tentará deter o ataque de Dormammu (e aqui, uma curiosidade: a captura de movimentos faciais dessa entidade maligna foi realizada pelo próprio Benedict, que ganhou experiência na técnica ao interpretar Smaug na trilogia O Hobbit), que pretende enredar o nosso planeta na Dimensão Negra. O cameo de Stan Lee é particularmente notório: está dentro de um transporte público lendo As portas da percepção, de Aldous Huxley, e exclamando: "Nossa, isto é hilário!".

Saturday, March 25, 2017

Dersu Uzala


            Dersu Uzala venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1976. O espectador incauto que começar a ver esse filme, com ares de crítico, poderá pensar: "Esse filme envelheceu". Ou é da época em que o fotograma era barato. Passam-se dez minutos em uma conversa ao redor de uma fogueira. Acontece que Dersu Uzala é um filme sobre a amizade. E amizade verdadeira não se constrói assim, de um minuto para o outro. Além disso, pressa nunca foi o forte de Akira Kurosawa. Seus filmes têm um ritmo específico, uma lentidão ilusória, um estilo, enfim. O estilo é o homem, já disse Buffon. E o estilo de Kurosawa é esse, e ponto final.


           
       1902. Uma equipe russa de topografia faz levantamentos nas selvas montanhosas da Sibéria. Uma noite, aparece um caçador no acampamento. Não tinha conseguido caçar aquele dia. O capitão o convida para jantar. Seu nome: Dersu Uzala. Logo vê que aquele estranho, sem ninguém no mundo, é o homem ideal para ter como guia naquelas montanhas desconhecidas. E faz o convite.
            No dia seguinte, Dersu toma a frente do destacamento, aceitando a confiança depositada pelo capitão. E não decepciona. É especialista em achar trilhas e decifrar pegadas. Certa manhã, após o grupo pousar numa cabana abandonada, Dersu pede ao capitão fósforos, sal e arroz. Intrigado, o capitão indaga o porquê. Para dar recursos às pessoas famintas que chegarem à cabana.
            Com seus pequenos atos, Dersu conquista a admiração de todos. Sequência clássica é aquela em que o capitão e ele se afastam do grupo e se veem perdidos no gélido deserto. A noite está caindo e eles correm sérios riscos se ficarem ao relento. Dersu toma o comando e ordena ao capitão que corte a vegetação seca sem parar. A única chance de sobrevivência é construir uma espécie de cabana de palha. O capitão desmaia devido ao esforço exagerado.
          


       Esteticamente perfeito, Dersu Uzala tem a cena de sol mais vermelho da história do cinema. Nessas horas que dá raiva não estar assistindo no cinema. Mas quem não tem cão, caça com gato. E quem não tem corças, caça humanos. Um tigre se aproxima. Dersu dá um tiro para assustá-lo. Deste dia em diante, Dersu, o homem que fala com os tigres, nunca mais será o mesmo. Supersticioso, acha que o tigre irá fugir até morrer de cansaço. E que a floresta irá mandar outro tigre atrás dele.
            A visão de Dersu deteriora-se. É o triste ocaso de um caçador que depende dos olhos para continuar trabalhando. O capitão o leva para morar com a mulher e o filho na cidade. Mas Dersu não se adapta. Não vê lógica nenhuma na cidade.
            Com seus 140 minutos desafiadores, Dersu Uzala é um filme inesquecível sobre a amizade e o encontro de dois mundos diferentes.


Thursday, March 23, 2017

KONG: A ILHA DA CAVEIRA

Após estrear com a comédia dramática Os reis do verão, lançada no Festival de Sundance em 2013, o hirsutíssimo Jordan Vogt-Roberts agarrou com unhas e dentes a oportunidade de já no segundo filme realizar um blockbuster.

Imagino a alegria dele ao ser chamado para o trabalho. Revisitar um personagem como King Kong é revisitar a própria História do Cinema. 



Desde o filme de 1933, cujo enredo foi concebido pelo diretor Merian C. Cooper e roteirizado pelo escritor Edgar Wallace, King Kong já ganhou 3 refilmagens: 1976, 2005 e 2017.
Existe também o King Kong 2 (King Kong Lives, 1986), que não é exatamente um remake, mas sim uma “continuação” caça-níquel do filme de 1976. Uma pesquisa um pouco mais aprofundada revela que a "franquia" na verdade tem um número bem maior de filmes. Nesse contexto, é difícil não cair na tentação de se comparar os filmes, ou até mesmo, ranqueá-los.


  A versão de 1976 busca ser “fiel” à de 1933, enfatizando a relação entre o gorila e a mocinha e a sensação de injustiça ao ver o essencialmente bondoso Kong ser destruído de modo impiedoso pelos seres humanos. Gerações inteiras se comoveram com esses dois filmes.

Veio o politicamente correto século XXI e toda a sua parafernália técnica. Captura de movimentos, o poderoso 3-D real (e o bem menos poderoso 3-D convertido), salas IMAX, som Dolby surround, o fim da película, a ascensão da era digital, tudo perfeito para dar vida e verossimilhança a um personagem clássico. Mas eis que tecnologia não é tudo.


Em 2005, Peter Jackson fez sua louvável tentativa. Muita gente torceu o nariz para a espichada metragem e para a escolha do elenco, que tem Jack Black e Adrien Brody. Mas justo eu é que não deixaria de ver e admirar este filme, afinal de contas, Peter Jackson é um dos meus diretores preferidos, e, para o bem ou para o mal, sou do tipo que se mantém fiel a (e não procura esconder) suas predileções.

Agora, em 2017, foi a vez do novato, porém barbado, Jordan Vogt-Roberts e suas múltiplas influências (ver abaixo).

Nesses dois filmes realizados no século XXI, a franquia evoluiu em alguns sentidos, mas regrediu em outros. O quase pasteurizado Kong do século XXI não comove mais ninguém. As pessoas podem até vibrar e torcer por ele, sentir um pouco de pena, mas duvido que alguém enxugue os olhos rasos de lágrimas no escuro do cinema. Sim, segundo me informaram, na década de 1970 as pessoas choravam ao ver King Kong. Será que hoje as pessoas estão mais insensíveis, ou os roteiros estão esquecendo de desenvolver a essência do personagem?


Seja como for, Kong: a Ilha da Caveira serve no mínimo para despertar o interesse das novas gerações para o tema.
E a julgar pelo que declarou o próprio Vogt-Roberts, parece que ao menos ele tentou “fazer o dever de casa”, isto é, realmente se esforçou para realizar um trabalho multifacetado e rico em influências. 

O mais barbudo diretor da atualidade declarou que Kong: a Ilha da Caveira traz elementos de filmes como Apocalypse Now, A conversação, Platoon e O hospedeiro, da série Neon Genesis Evangelion, do desenho Princess Mononoke e de monstros como o Cubone do Pokémon.

Boa jornada à Ilha da Caveira.


Wednesday, March 22, 2017

A conquista do Oeste


No intento de contar como o Oeste foi conquistado, o roteirista James R. Webb tomou uma decisão bastante inteligente: o ponto de vista é feminino. Na verdade, A conquista do Oeste (How the West was Won, 1962) nada mais que é a saga da família Prescott, em especial, as duas irmãs mais velhas, Eve e Lilith.


 Eve é interpretada por Carrol Baker, e Lilith, por Debbie Reynolds, a mãe de Carrie Fisher. As duas irmãs mostram a têmpera das pioneiras estadunidenses. Bastante decididas e práticas, as irmãs Prescott, no entanto, acreditam no verdadeiro amor.

O filme é estruturado em cinco segmentos, três deles dirigidos por Henry Hathaway, um pelo lendário John Ford e o outro por George Marshall. Cada segmento permite que um ator se destaque, de James Stewart a Gregory Peck, de John Wayne a Henry Fonda.

RIOS (Henry Hathaway)
O primeiro segmento mostra o caminho fluvial da migração ao Oeste. A família enfrenta perigos como as corredeiras e um bando de malfeitores, mas também conhece um intrépido caçador, Linus Rawlings (James Stewart), que acaba se apaixonando por Eve.



PLANÍCIES (Henry Hathaway)
O segundo segmento foca na trajetória de Lilith, que se torna uma dançarina de cabaré. Um de seus fãs morre e a coloca no testamento: agora, Lilith é a feliz proprietária de uma mina de ouro na Califórnia. Ela se une a uma caravana e no caminho sofre o assédio de dois pretendentes: o sisudo e insistente Roger Morgan (Robert Preston), chefe da caravana e dono de uma fazenda, e o charmoso Cleve Van Valen (Gregory Peck), viciado em pôquer e sem ter onde cair morto. Lilith terá que tomar uma decisão: ceder aos constantes pedidos de Roger e tornar-se mãe de família, ou sentir o coração palpitando ao lado do imprevisível Cleve.

Os dois primeiros segmentos e o último têm na direção Henry Hathaway, um sujeito que estudou o processo que estava usando (Cinerama, que usa três câmeras na filmagem e três projetores de 35 mm sincronizados sobre uma tela gigantesca com arco de 146°), e realizou um trabalho fenomenal no sentido de aproveitar a oportunidade para realizar algumas das tomadas mais geniais do cinema.



GUERRA CIVIL (John Ford)
Nos extras o espectador fica sabendo o que já desconfiava: John Ford não curtiu muito lidar com o trambolho da câmera desengonçada e monstruosa, não teve a versatilidade necessária para usar a tecnologia a seu favor. "Apenas" fez circunspecta e burocraticamente o seu trabalho. E olha que isso não equivale a dizer que essa parte não tem seus bons momentos. John Wayne participa como um dos oficiais ianques, o general Tecumseh. Durante uma conversa com outro general do alto escalão, os dois sofrerão um atentado de um confederado desertor (Russ Tamblyn, ator que faz um depoimento no documentário dos extras). Zeb Rawlings (George Peppard, de Bonequinha de luxo), o filho de Eve Prescott com Linus Rawlings, é o protagonista deste segmento.



ESTRADA DE FERRO (George Marshall)
Este segmento tem a célebre sequência do estouro da manada de bisões, que soube maximizar os efeitos tridimensionais do Cinerama. Zeb, agora tenente, atua como apaziguador entre os construtores da ferrovia e a tribo dos Arapahos. Henry Fonda dá o ar de sua graça como um caçador ermitão que tem um bom relacionamento com os indígenas.



FORAS DA LEI (Henry Hathaway)
Arrematando a saga, Zeb e família vão à estação buscar ninguém menos que a tia Lily. Mas Zeb, antes de retornar ao vilarejo onde tem o cargo de xerife, precisa resolver um assunto: Charlie Gant (Eli Wallach, o vilão de Sete homens e um destino). O excelente documentário dos extras conta que um dublê se acidentou durante a notável cena de ação que se passa em cima do trem, em que Zeb se pendura numa das toras de pinheiro transportadas no vagão.

Narrado por Spencer Tracy, com um elenco grandioso conduzido por três grandes diretores, abarcando um período de meio século da História dos Estados Unidos, filmado na deslumbrante técnica Cinerama e com um enredo que mereceu o Oscar de Melhor Roteiro, A conquista do Oeste é um filme nada menos do que épico.




Tuesday, March 21, 2017

Whiplash

Certos diretores passam uma vida inteira construindo uma filmografia brilhante e por uma série de fatores acabam sem levar um Oscar de Melhor Diretor para casa.
É o caso, por exemplo (e por enquanto), de David Lynch, Ridley Scott e Peter Weir.
Pois este ano um cara que mal saiu dos cueiros conquistou a tão cobiçada estatueta na categoria de Melhor Diretor.
Estou falando de Damien Chazelle, que em La La Land chegou apenas ao segundo longa-metragem como diretor.
O primeiro foi Whiplash, que eu não tinha visto na época de seu lançamento.
Agora inevitavelmente tive de assistir.
E preciso confessar uma coisa: o tal do Damien realmente sabe como terminar um filme.
O final de Whiplash é algo fenomenal.
Escolha qualquer sinônimo de ápice.
Auge.
Êxtase.
Apogeu.
Zênite.
Clímax.
Pináculo.



 
Tudo isso e mais um pouco é o que acontece no final de Whiplash.
É isso, afinal de contas, que o cinéfilo quer: ser surpreendido, ser estimulado a discutir uma cena, ser obrigado a prolongar a experiência.
Para assistir a este filme eu tive a companhia de meu filho de 9 anos, que não conseguiu desgrudar os olhos da tela.
A temática não era exatamente infantil, mas acho que ele já na pré-adolescência conseguiu se identificar um pouco com o protagonista Andrew Neiman, um cara que persegue o sonho de se tornar um baterista profissional e, para isso, estuda no mais conceituado conservatório do país.
O meu filho percebeu que o pai dele não é tão rígido quanto ele pensa.

Pelo menos, não tão rígido quanto o professor Terence Fletcher, interpretado por J. K. Simmons, no papel que lhe deu, merecidamente, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
O próprio Simmons já havia interpretado o mesmo papel em Whiplash, o curta-metragem premiado em Sundance em 2013. Basicamente o curta é a cena da primeira sessão de Miles com a banda de estúdio, na qual o professor mostra por que desperta um misto de respeito e temor entre os alunos.
Já o ator que faz o baterista no curta não é o mesmo no longa.
O protagonista de Whiplash, versão longa-metragem, é Miles Teller, excelente ator da nova geração, mas que, às vezes, por conta das cicatrizes no rosto e no pescoço, perde alguns papéis, como ele explica numa entrevista.
Os extras também trazem depoimentos de bateristas de várias bandas contando os percalços, a trajetória de dúvidas, o “fazer por merecer” até chegar ao profissionalismo.
O que nos leva ao título do filme. O que significa Whiplash?
Claro, é o nome da música composta por Hank Levy (e gravada por Don Ellis em 1973) que a banda do conservatório tem de ensaiar para a competição.
A palavra tem três acepções,
escolha a que você prefere. Eu diria que todas têm a ver com o filme e com a música.
A propósito: o filme recebeu algumas críticas por “não ter mostrado o jazz de modo certo”, mas acho que esse tipo de crítica é coisa de quem entende muito de jazz, o que absolutamente não é o meu caso.




Na realidade, o filme não é sobre jazz em si. Também não é apenas sobre “abuso de poder”. O escopo é bem mais abrangente.
Com Whiplash, Chazelle realizou um excelente filme sobre relações humanas e pavimentou o caminho para já no segundo longa receber a láurea mais cobiçada do cinema.
A sorte favorece os preparados.

Chazelle, segundo consta, sofreu nas mãos de um exigente professor de bateria.
Waaal, ele soube muito bem “fazer do limão uma limonada”.
O acridoce Whiplash é saboroso e refrescante como a melhor das limonadas.


Sunday, March 19, 2017

TOP TEN DECEASED DIRECTORS


Ao elaborar esta lista, adotei o seguinte critério:
enumerar, entre os cineastas já falecidos, os 10 mais importantes em minha formação de cinéfilo.


Foi difícil reduzir a lista a apenas dez. Tive que excluir nomes como Stanley Kubrick, por exemplo. Pensei inclusive em fazer um TOP ELEVEN.



Em ordem alfabética:



Akira Kurosawa




Alfred Hitchcock




David Lean


Federico Fellini






Frank Capra



 




Ingmar Bergman








John Sturges






Louis Malle






Luis Buñuel








William Wyler









Aguardem a lista com os
TOP TEN LIVING DIRECTORS.