Sunday, November 19, 2017

King Kong

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Esta versão de King Kong (1976), dirigida por John Guillermin, é a que explora mais a paixão platônica de Kong pela moça e também é a que tem a conclusão mais triste.

A brutalidade e a truculência dos humanos contra Kong na sequência final nas torres gêmeas do World Trade Center geram cenas que ainda hoje emudecem o espectador.

Lança-chamas e metralhadoras chamuscam e estraçalham o gigantesco, porém indefeso símio, que tem o olhar mais terno entre todos os personagens do filme.

O enredo gira em torno da ganância de Fred Wilson (Charles Grodin) que deseja descobrir petróleo numa ilha misteriosa, sempre escondida em um nevoeiro. Ao descobrir que a ilha contém outro tipo de tesouro, ele rapidamente direciona sua ganância a Kong, venerado e temido pelos nativos.

No porão-cela de um navio de grande porte, o animal é transportado a Nova York, noutra sequência comovente.

A relação de Kong com Dwann (Jessica Lange) é explorada ao extremo, com direito a carícias e uma certa tensão sensual. A personagem de Dwann, a moça que é salva pela expedição em um bote salva-vidas à deriva, é construída para ser um tanto volúvel, mas a sua inocência e naturalidade encanta todos os primatas que com ela se deparam.

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De quebra, o cinéfilo poderá ver Jeff Bridges no papel do passageiro clandestino, que acaba sendo escolhido como fotógrafo oficial da expedição.

Geração após geração, a história criada pelo diretor Merian Cooper, retrabalhada por Edgar Wallace, James Creelman e Ruth Rose, é readaptada e ganha nova roupagem, conforme as tendências hodiernas. Nesta vez, o responsável pela modernização foi Lorenzo Elliott Semple Jr., um sujeito com pendor para criar conteúdos de apelo popular, como a série Batman feita para televisão.

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Sobre o diretor John Guillermin, que dirigiu Inferno na torre e Morte no Nilo, o produtor Dino de Laurentiis declarou: "É um sujeito esquisito, mas isso não significa nada para mim. Todos os diretores são figuras esquisitas. Bergman é uma figura esquisita, Fellini é uma figura esquisita... todos os diretores. Ele era muito aberto aos efeitos especiais. Além disso, ele acredita na história; ele acredita na história de amor. E se ele acredita nisso, funciona. Porque John Guillermin acredita nessa história de amor fantasticamente humana... Cada diretor em certo ponto pula de uma categoria para outra. Nenhum diretor pode ser um gênio desde o primeiro filme. Você deve dar uma oportunidade quando as pessoas são talentosas. E eu reconheço a qualidade em John. E ele acertou em cheio em KONG. Ele surpreendeu a plateia, surpreendeu todos os críticos."

Por sua vez, Guillermin afirmou: "O 'Kong' original fez parte de minha infância e eu adorei", conta ele. "Sonhava com o filme. O que eu quis foi recriar o que o eu senti na primeira vez que assisti ao filme, mas também adaptar a história a nossa época. (...) Todos nós queríamos e nos esforçamos para resgatar aquela ideia lírica da infância sobre a Bela e a Fera. Foi desafiador tentar equilibrar todas as piadas e o perigo de anticlímax, mas eu queria deixar óbvio que abordamos o material com sinceridade."

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Wednesday, November 15, 2017

A morte te dá parabéns

E Oscar de Melhor Atriz de Filme de Terror vai para...

Jessica Rothe.
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A atriz que interpretou uma das amigas de Emma Stone em La La Land entrega uma atuação de tirar o chapéu (e o fôlego), valorizando o roteiro bem amarrado de Scott Lobdell e a direção segura de Christopher Landon.

Presa numa alça do tempo e obrigada a vivenciar o mesmo dia ad infinitum, Tree (Jessica Rothe), em pleno dia de seu aniversário, observa um monte de coisas acontecendo ao seu redor, sem interferir com elas, como se fosse mera espectadora da própria vida.

Nisso reside a grande sacada do roteiro e o destaca no meio da multidão de filmecos de terror que abundam por aí.
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Afinal de contas, uma película de terror onde há, além de mistério, filosofia, não tem nada de vã. 

Quantas vezes Tree precisará viver aquele dia para perceber os detalhes a seu redor?

De quantas maneiras ela precisará ser assassinada até se dar conta de quem está por trás daquilo?

Por fim, quando Tree vai tomar as rédeas de sua vida e tentar mudar o rumo das coisas?

Novamente, a atuação de Jessica Rothe abrilhanta o filme de Christopher Landon, e o rapaz que interpreta Carter (Israel Broussard) também está à altura da missão. 

Eficiente, imprevisível e enxuto, A morte te dá parabéns é uma pequena gema do terror.

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O rei e o pássaro

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Em sessão do Clube de Cinema de Porto Alegre, no Cine Santander, os cineclubistas tiveram a oportunidade de conferir um clássico da animação restaurado: O rei e o pássaro, do diretor Paul Grimault, coescrito juntamente com o poeta Jacques Prévert. O filme foi realizado ao longo de várias décadas, pois a versão que foi lançada não teve a aprovação dos realizadores. Esta versão restaurada foi a que Grimault "assinou embaixo".

O roteiro baseia-se frouxamente no conto A pastora e o limpador de chaminés, de Hans Christian Andersen.

Um rei que vive num cenário meio futurístico meio medieval é odiado pelos súditos e pelos pássaros, alvos de sua sanha de caçador com péssima mira, mas insaciável sede de sangue.

Esta parte do filme bem poderia ser uma crítica contundente às pessoas que ainda hoje se dedicam a matar animais silvestres indiscriminadamente e impunemente nas matas nativas do Rio Grande do Sul.

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O caçador clandestino do século XXI é bem representado por este monarca de Grimault: arrogante, insensível, egoísta e descartável.

Tão descartável é o rei que lá pelas tantas ele é substituído por sua própria imagem que está pintada num quadro. A figura ganha vida, elimina o rei verdadeiro e parte em busca de outras duas personagens que surrealmente se transformaram de pinturas em gente: a pastorinha por quem o rei falso é apaixonado, e o limpador de chaminés, por quem ela é apaixonada.

 A partir daí o filme se torna mais movimentado, com a participação do pássaro e seus filhotes ajudando a pastora e o limpador de chaminés a escapar da guarda real e das garras do falso monarca, mas não menos tirano que o verdadeiro.

Como toda obra densa, traz muitas influências e acaba influenciando muita gente boa também.

Este artigo menciona que a animação japonesa bebeu da fonte de Grimault.

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Tuesday, November 07, 2017

Pedro Almodóvar


Escrito em francês por Thomas Sotinel, colunista de cinema do Le Monde, e traduzido para o inglês por Imogen Forster, o livro Pedro Almodóvar é mais um volume da coleção Masters of cinema, editado pela Cahiers du cinema.

O livro é estruturado em uma Introdução seguida de 4 capítulos:
Um homem de La Mancha,
De que é feito um diretor?,
Um diretor ao pé do Monte Olimpo e
Obras-primas.

No final, como em toda a coleção Masters of cinema, o livro traz Cronologia, Filmografia e Bibliografia selecionada.

Conforme o livro, gosto de ler com uma lapiseira em punho. Sublinho, faço asteriscos à margem, escrevo palavras-chave nos rodapés. 

Alguns dos trechos que eu realcei durante a leitura de Pedro Almodóvar:



INTRODUÇÃO

"Almodóvar não é um intelectual; o pai dele foi um condutor de mulas de La Mancha, e enquanto ele estava trabalhando  para a companhia telefônica espanhola Telefónica, aprendeu cinema como autodidata sem a ajuda de qualquer instituto ou universidade de cinema." (p.5)

Segundo Sotinel, Pedro Almodóvar ainda hoje é objeto de controvérsias ferozes, e, embora pudesse ter se tornado um diretor "internacional", ele permaneceu completamente espanhol, "filmando histórias cada vez mais sofisticadas e criando entre seus compatriotas um misto de admiração e exasperação".



UM HOMEM DE LA MANCHA

"Antonio Almodóvar foi o último de uma extensa linhagem de condutores de mulas dedicado a transportar vinho de Calzada de Calatrava a El Centenillo, uma cidadezinha andaluza a 50 km de distância."

Diga-se de passagem, isso talvez seja mais verdadeiro do que a informação que consta no livro "Great Film Directors", de que o pai de Almodóvar era um "winemaker".

As pessoas que nascem na região são chamadas de "manchegos". Almodóvar teria dito numa entrevista a Nuria Vidal que "a imagem de um manchego é a de um homem cujo único espelho é a água de seu poço. Em La Mancha, costumavam acontecer, e ainda acontecem, muitos suicídios. As pessoas se enforcam ou se jogam no poço."

A mãe dele escrevia e lia cartas para os vizinhos, como a personagem de Central do Brasil. O pequeno Pedro percebeu que a mãe dele embelezava as cartas que lia para satisfazer as expectativas dos destinatários.

Nascido em 1949, por volta de 1960 Pedro começou a frequentar os cinemas na companhia do irmão Agustín. Ao chegar em casa, contava as histórias para as irmãs dele, sempre reinventando.

Após fazer o serviço militar na Força Aérea, em 1969, ele conseguiu um cargo administrativo na Telefónica, onde trabalhou durante 13 anos, inclusive no período em que se firmava como diretor.

Só saiu da empresa em 1982, após o lançamento de Labirinto de paixões.

Desde o começo, afirma Thomas Sotinel, o que importava para Pedro Almodóvar era contar histórias. Em 1974, começou a fazer curtas com uma câmera Super 8. Seu primeiro curta foi Duas putas, ou, uma história de amor que termina em casamento (1974).

O filme de estreia em longa-metragem foi Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, em 1979.



DE QUE É FEITO UM DIRETOR?

Este capítulo analisa os filmes Labirinto de paixões (1982) até A lei do desejo (1987).

Desta primeira fase almodovariana, só assisti a Matador (1986).

Segundo Sotinel, este filme de grande orçamento custou bem mais do que os anteriores, e de todos os filmes de Almodóvar, é que consegue retratar a Espanha com mais exatidão.

"Apesar da cor saturada da fotografia de Ángel Luis Fernández e da música extrema de Bernardo Bonezzi, o filme pode criar um impressão quase de frieza, não fosse pela estupenda atuação de Antonio Banderas como um garoto perdido, inocente inclusive do crime que ele cometeu."





UM DIRETOR AO PÉ DO MONTE OLIMPO

O capítulo comenta aspectos da realização dos filmes seguintes, desde Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988, filme de máximo apelo para as massas) até A flor domeu segredo (1995).

Sucesso de público, Mulheres à beira... foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em Los Angeles, Almodóvar se encontrou com Billy Wilder, que o aconselhou: "não se deixe seduzir canto da sereia de Hollywood".

A flor do meu segredo marcou o início da colaboração com o diretor de fotografia brasileiro Affonso Beato e o compositor Alberto Iglesias. "Cada qual a seu modo, Beato e Iglesias ajudaram a criar o que seria o novo estilo de Almodóvar, o de um artista com o pleno domínio de sua visão, sem mais precisar recorrer à provocação ou excesso, mas sem render-se às normas da razão e do bom gosto."
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Aqui são abordados os filmes Carne trêmula (1997), baseado no livro de Ruth Rendell, Live Flesh; Tudo sobre minha mãe (1999, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), Fale com ela (2002, Oscar de Melhor Roteiro), Má educação (2004), Volver (2006) e Abraços partidos (2009).

O livro se encerra às vésperas do lançamento de A pele que habito. (2011). Depois ele ainda lançou Amantes passageiros (2013, aguarde post em breve) e Julieta (2016). Este último concorreu no Festival de Cannes, e o jornalista Rodrigo Salem registrou a recepção ao filme nesta reportagem. Naquela ocasião, na entrevista coletiva, Almodóvar afirmou: "Jamais escreverei uma biografia e proíbo alguém de fazê-lo. Minha vida está nesses 20 filmes".



Comentário sobre o livro:


Sotinel aborda detalhes das histórias que talvez não precisassem ser abordados. As melhores partes do livro são quando ele dá a sua opinião e faz ponderações.

Como a seguinte (com a qual, por sinal, não concordo plenamente):

"Os diretores que pertencem à ultima geração do cinema de auteur, a de Almodóvar, Nanni Moretti e Jarmusch, não têm herdeiros. O cinema no qual eles nasceram e cresceram está morto, e os diretores do terceiro milênio não alcançam (tampouco almejam alcançar) a estatura de um grande artista, coisa que a geração de Almodóvar herdou de diretores como Bergman, Truffaut e Scorsese."

E por que não concordo plenamente? Porque é meio pessimista e sombria. Existem diretores mais novos que são autores também, a seu modo, e do modo que a indústria hoje permite. E acredito que sempre irão existir realizadores talentosos, que não se "vendem ao sistema".

De todas as importantes informações que aprendi na leitura da obra, a que eu gostaria de não esquecer é a que consta na transcrição de um artigo publicado no jornal El País, em setembro de 1999.

O texto, escrito por Pedro Almodóvar, pouco após o falecimento de sua mãe, explica como foi vital para o trabalho dele observar o que a mãe dele fazia, embelezando as cartas que lia para os vizinhos analfabetos.

Aqueles improvisos da mãe "estabeleceram a diferença entre ficção e realidade, me mostraram como a realidade precisa da ficção para se completar, tornar-se mais agradável, mais tolerável...".

(...)
"Aprendi algo crucial para o meu trabalho: a diferença entre ficção e realidade, e como a realidade precisa ser complementada pela ficção para tornar a vida mais fácil."

E, sem dúvida, a vida fica bem mais fácil com os filmes de Almodóvar.
E a dos cinéfilos com a coleção Masters of cinema.

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Sunday, November 05, 2017

Orgulho e preconceito e zumbis


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Da mente (talvez nem tão) inventiva de Seth Grahame-Smith, o criador de Abraham Lincoln, caçador de vampiros, surgiu em 2009 o livro Pride and Prejudice and Zombies, uma esperta adaptação/paródia do clássico Orgulho e preconceito, de Jane Austen. 

Dirigido pelo discreto Burr Steers, Orgulho e preconceito e zumbis é um filme bem realizado, com um bom elenco, e que, por incrível que pareça, respeita tanto a alma dos densos personagens austianos quanto a mitologia zumbi.
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A talentosa Lily James (de Em ritmo de fuga) entra para a seleta turminha de atrizes que interpretaram a geniosa Elizabeth Benning: Green Garson, Jennifer Ehle e Keira Knightley.

Sam Riley (que interpreta Ian Curtis do Joy Division em Control) entra para o invejado grupo de atores que encarnaram o conflituoso Mr. Darcy: Laurence Olivier, Colin Firth e Matthew Macfadyen.

Resultado de imagem para pride and prejudice and zombiesA propósito, o clássico de Jane Austen já rendeu muitas adaptações, algumas mais fiéis, outras nem tanto. A mais recente adaptação com base no texto original de Austen feita para o cinema é a estrelada por Keira Knightley e dirigida por Joe Wright.

Também a propósito, esse tipo um tanto duvidoso de literatura, no qual Seth Grahame-Smith é um dos nomes mais bem-sucedidos e que se convencionou chamar de literary mash-up (algo como mistura ou mixórdia literária), é abordado com humor pelo estudioso de Jane Austen, John Mullan, neste artigo do Guardian.

In the meantime, o escritor Seth Grahame-Smith já andou se
envolvendo numa confusão com sua Editora, que está processando o escritor por ter entregue um manuscrito com atraso de três anos em relação ao prometido e, o que é pior, segundo os termos do processo, o texto deste livro destoaria do estilo dele e seria, em grande parte, uma apropriação de um trabalho que está em domínio público, editado há 120 anos.

Em outras palavras: primeiro, com o apoio da indústria do livro e do cinema, Seth Grahame-Smith vampirizou sem pudores a história e a literatura; agora, precocemente, se transforma num morto-vivo do show business.
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Como sobreviver a Como sobreviver a um ataque zumbi

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Tudo na vida se torna mais fácil quando você olha pelo lado positivo.

É o caso desta comédia despretensiosa que, embora não acrescente nada ao "cânone" zumbi, também não chega a ser uma bomba apocalíptica.

E, dependendo do prisma que você olhe, até tem lá suas qualidades.

Abaixo, o

Guia do Cinéfilo para Sobreviver a

Como sobreviver a um ataque zumbi

(Scouts Guide to the Zombie Apocalypse, 2015):

* Aprenda a detectar as poucas coisas boas no meio de um monte de coisas de gosto discutível.
* Aprenda a se concentrar nas coisas boas e a "sublimar" o que é descartável.
* Aprenda a aproveitar uma experiência cinéfila mediana para pesquisar sobre os realizadores e elenco.
* Aprenda a analisar o currículo das pessoas envolvidas, perceber a (in)coerência por trás do currículo e prever quem é que tem futuro no meio disso tudo.
* Aprenda a não levar as coisas sempre ao pé da letra e a não levar tudo tão a sério. Em suma, aprenda a cultivar o senso de humor.

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Obedecendo à risca a cartilha de 5 dicas acima, ao término da sessão de Como sobreviver a um ataque zumbi, você chegará às seguintes conclusões:

1) O diretor e roteirista Christopher Landon, nascido em 1975, vem construindo um currículo bastante coerente em termos de "gênero". Começou como argumentista e roteirista de Paranoia, depois estreou na direção com Burning Palms, um filme que deixa o espectador desconfortável, de acordo com a avaliação da atriz Zoe Saldana. Roteirizou quatro filmes da franquia Atividade Paranormal, dirigindo um deles. Em 2017, realizou Happy Death Day (A morte te dá parabéns, bem recebido por parte da crítica especializada). Ou seja, é inegável que o moço tem "foco", ou seja, tem uma queda pelos gêneros suspense, terror e afins. Talvez falte a ele uma grande oportunidade de pegar todo esse know-how e fazer um filme que o torne um diretor mais respeitado fora deste cinema de nicho.

2) O elenco tem nomes promissores como Patrick Schwarzenegger e realidades como o aspirante a galã Tye Sheridan, que interpreta Ben, o menino bom caráter que é o elo de ligação entre os amigos Carter e Augie. Com um currículo invejável para a idade, não é a toa que foi selecionado para protagonizar o novo filme de Steven Spielberg.

ALERTA PARA SPOILER APOCALÍPTICO:
O ITEM 3 PODE CONTER UM SPOILER APOCALÍPTICO

3) O aspecto mais legal do filme é justamente a (meio enviesada) "homenagem" ao escotismo, e o estudo sobre a amizade dos três garotos. Se o defeito maior do filme é justamente não dar medo algum em relação ao destino dos protagonistas,* a maior qualidade é a crítica ao atual desinteresse por coisas legais como o escotismo. Mas, felizmente para os seguidores de Baden-Powell, existem filmes mais significativos sobre o que é ser escoteiro, vide Moonrise Kingdom, de Wes Anderson. 


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A expansão do post contém o SPOILER (relativamente) APOCALÍPTICO:


Thursday, November 02, 2017

Quatro vidas de um cachorro



Inspirado no livro homônimo, lançado originalmente em 2010 e intitulado A Dog's Purpose, de W. Bruce Cameron, o mais recente filme de Lasse Hallström mantém a coerência de uma filmografia especializada em Roa röra, expressão sueca que significa "entreter e comover".

O diretor explica o significado desta expressão e dá detalhes sobre os bastidores do filme nesta entrevista. No Brasil, o livro foi publicado em 2011, pela Agir, com tradução de Regina Lyra. O título escolhido na época para o livro (de quem terá sido a ideia, da tradutora ou dos editores?) foi mantido depois para o filme. A obra impressa foi reeditada em 2016 (com o pôster do filme na capa, é claro), pela HarperCollins Brasil, que se uniu à Ediouro e ficou com o catálogo da Agir.


Por sinal, o escritor, que participou da construção do roteiro, aparece nos extras do dvd, com a esposa. Ela explica que, já adulta, havia perdido o seu primeiro e único cão, e foi realizar uma viagem com o então namorado Bruce Cameron, que contou a ela, para confortá-la, uma história tocante, a base do que seria o romance A Dog's Purpose.




O filme foi um sucesso comercial nos cinemas do mundo inteiro e está sendo um sucesso também nas poucas locadoras que ainda resistem bravamente Brasil afora. O dvd que eu aluguei está tão usado que uma parte do filme é impossível de assistir. Digamos, uns 15 minutos. Justamente no trecho que mostraria a tão comentada cena da água, que rendeu tanta polêmica.

Investigações independentes constataram que o vídeo havia sido editado e que não houve maus tratos para os animais que trabalharam no filme.


O foco da história é a vida de Ethan (interpretado por três atores diferentes, um deles, Dennis Quaid) e seu retriever Bailey, com um diferencial: o ponto de vista é o do cachorro. Nisso o diretor pôde mostrar sua habilidade e criatividade em termos de posicionar a câmera e passar esse efeito.

Indagado sobre qual cena resumiria o tema do filme, Hallström, um apaixonado por cães que já teve 5 chow-chows, escolheu curiosamente o momento em que Maya (Kirby Howell-Baptiste) pergunta ao cão "Em que você está pensando?". E o cachorro fala (pensa): “Uma de minhas melhores vidas, sem dúvida."

No cíclico Quatro vidas de um cachorro, Lasse Hallström completa uma espécie de "trilogia canina", começada com Minha vida de cachorro (1985) e desenvolvida em Sempre ao seu lado (2009).



Tuesday, October 31, 2017

Quando a mulher erra


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Bare Indiscretion of an American Wife (1954), uma parceria entre o grande produtor americano Selznick e o diretor italiano Vittorio De Sica, é o "filme dentro do filme" que aparece rapidamente em Gilbert Grape, aprendiz de sonhador.

A história se passa em Roma, em tempo real, numa estação ferroviária.

Visitando a irmã na Itália, longe do esposo e da filha, uma mulher americana (Jennifer Jones) enfrenta uma crise de consciência, desiste de um encontro marcado e vai para a estação. Liga para o sobrinho pedindo para levar sua mala. E tenta embarcar no trem para Milão. Quando aparece o motivo de seu coração transtornado: um jovem italiano, que, apaixonado, fará de tudo para demover a mulher de sua intenção de partir.


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Interpretado por Montgomery Clift (espécie de Jude Law dos anos 50), o amante (pelo menos, em termos platônicos, já que a consumação da paixão fica a critério da interpretação do espectador) encarna muito bem todo o sofrimento de quem se envolve com alguém comprometido.

O filme tem rápidos 63 minutos e é uma inusitada mistura de praticidade americana com a paixão italiana.

Tem cenas belas, carregadas de um transbordante desejo, de uma infinita sensação de 'unfinished question', tudo pela competência do casal principal, que convence numa relação tempestuosa, literalmente entre "tapas e beijo(s)".

Uma cena fortíssima é a aquela em que, desesperado pela iminência do abandono derradeiro, o amante lasca uma bofetada na mulher, na frente do sobrinho dela.


Mas, é claro, a cena mais emblemática do filme é o mais "chorado", mais difícil, e, por isso mesmo, um dos mais explosivos e flamejantes beijos da história do cinema.


Para os cinéfilos, Quando a mulher erra é uma curiosidade; apesar de conhecer o diretor Vittorio De Sica (de Ladrões de Bicicleta), é a primeira vez que vejo um filme do famoso Montgomery Clift.

Não é à toa que, volta e meia, faço posts com filmes da década de 1950: com a ajuda de bons roteiros, o cinema tentava explorar todas as suas potencialidades como arte.

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Este texto foi publicado originalmente em 30 de agosto de 2003, no endereço antigo do blog.

Tentei adaptar o texto para tirar alguns spoilers.

Sunday, October 29, 2017

Gilbert Grape: aprendiz de sonhador




Cada grande cineasta tem a sua marca, e a marca do sueco Lasse Hallström é retratar com singeleza as relações e angústias humanas.

Ele tem uma predileção inusitada por histórias que retratem personagens relativamente corriqueiros em situações relativamente corriqueiras, mas em cada um de seus filmes transparece esse otimismo, essa convicção de que a humanidade tem jeito.

Esse olhar terno às vezes é precipitadamente rotulado de "água com açúcar", mas aí que está a diferença: até mesmo os aparentemente mais "bobinhos" filmes de Hallström têm uma qualidade superior, e valem a pena serem vistos, analisados e admirados.

Este site português traz um bom resumo de sua filmografia, que inclui, entre outros belos filmes, Um lugar para recomeçar. A lista de seus filmes com os títulos no Brasil aparece aqui.

Não foi à toa que Hallström, depois de ganhar destaque com Minha vida de cachorro e migrar para os EUA, atraiu-se pelo conteúdo do livro What's Eating Gilbert Grape, de Peter Hedges, publicado originalmente em 1991. O escritor também fez o roteiro para o filme.

O que está consumindo Gilbert Grape?

Esse "aprendiz de sonhador" de fala mansinha está cansado de segurar as pontas de todos...

Está prestes a estourar.


A história é um prato cheio para investigar as relações familiares e a lassidão de um jovem que mora e trabalha na pequena mercearia da pequena Endora, cidadezinha do Iowa. Interpretado por Johnny Depp, Gilbert Grape, com suas madeixas ruivas, é a pessoa que dá um certo equilíbrio à esquisita família, que vive numa casa afastada, e tenta se recuperar do suicídio do pai, anos atrás.

O mais comovente no filme é o carinho com que Gilbert cuida do irmão Arnie, que tem problemas de desenvolvimento.

A estupenda atuação de Leonardo DiCaprio, na época com apenas 18 anos, mereceu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.

Johnny Depp também cria um Gilbert bastante convincente. Neste artigo ele comenta sobre o momento em que estava passando e sua parceria com DiCaprio.


O elenco se completa com a oscarizada Mary Steenburgen, que encarna a fogosa dona de casa que seduz Gilbert quando ele vai fazer as entregas; John C. Reilly e Crispin Glover, que vivem os amigos de Gilbert; Mary Kate Schellhardt e Laura Harrington, suas duas irmãs; e, last but not least, Juliette Lewis, como a forasteira que fica morando um tempo nas redondezas, até que o veículo da avó seja consertado.

A propósito, a atriz Darlene Cates, que vive a mãe dos Grape, essa "família disfuncional", protagoniza uma das cenas mais surpreendentes do filme, ou seja, a que ela resolve sair de casa após 7 anos de reclusão para resgatar Arnie da cadeia, preso por seu comportamento de subir na caixa d'água da cidade.

Em cada cena, cabe ao espectador decidir se vai se enternecer ou cair na risada, se vai se emocionar ou achar graça.

Uma das raras cenas em que a família Grape está toda reunida sem brigar é diante da tevê, assistindo a um filme clássico de 1954, em preto e branco. Ninguém menos que Montgomery Clift arranca suspiros das mulheres da casa, na película intitulada Bare Indiscretion of an American Wife (Quando a mulher erra).


Um drama com leve tom de comédia, ou uma comédia dramática?

Um dos filmes mais emblemáticos sobre o sentimento fraterno, que os Hollies imortalizaram na canção He Ain't Heavy, He's My Brother?

O fato é que, em Gilbert Grape, aprendiz de sonhador, o diretor Lasse Hallström aborda vários temas importantes (preconceito, obesidade, problemas de desenvolvimento, adultério, falta de perspectivas) sem aparentemente se aprofundar neles. 

Talvez porque, para entender a obra de Lasse, é preciso ir além das aparências.



Friday, October 27, 2017

As aventuras do Capitão Cueca


O escritor Dav Pilkey é um iconoclasta. Aparentemente, nenhum professor ou professora em sã consciência indicaria um livro dele para a turma ler. Tudo em seus livros é irreverente, desde a postura dos personagens, os trocadilhos, a verve, as piadas escatológicas, o não politicamente correto. 

Mas, como seria de se esperar, a leitura divertida, os títulos compridos e engraçados e a mescla de livro com história em quadrinhos atraíram uma legião de fãs no mundo inteiro, e no Brasil não foi diferente.

A série Capitão Cueca foi editada na íntegra pela Cosac & Naify, e, após o encerramento das atividades da Editora, agora está sendo aos poucos reeditada pela Companhia das Letrinhas, junto com a nova série, O Homem-Cão

O filme apresenta um resumo do que os livros trazem e se mantém fiel ao espírito da série. 
Todos os livros têm uma parte chamada "Vire-o-game", na qual o leitor precisa folhear rapidamente para as imagens adquirirem movimento, e, de modo curioso, essa brincadeira também foi inserida no filme.

Claro que existem algumas "liberdades criativas" do roteiro, talvez para envolver mais o público dito adulto? Pelo que meu filho me disse, o namorico entre o diretor e a funcionária não aparece nos livros.


Seja como for, atenção: este não é apenas um filme engraçadinho para levar as crianças.

Primeiro, informe-se sobre quem é Dav Pilkey, e se você se atrair pela proposta dele em termos literários/artísticos, talvez valha a pena levar o seu filho e conferir o filme.

Caso contrário, pode ser que você saia do cinema chocado, puxando o filho pela mão, praguejando consigo mesmo sobre como é possível um filme desses ser classificado como "infantil".


Tuesday, October 24, 2017

OSINCA SURPREENDE COM CONCERTO APOTEÓTICO




A Orquestra Sinfônica de Carazinho, sob a batuta do maestro Fernando Cordella, apresentou no dia 21 de outubro de 2017, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Carazinho, talvez o concerto artisticamente mais ousado de sua história.



 O público que lotou a igreja teve a honra de assistir, pela primeira vez, à interpretação do Bolero de Ravel pela orquestra, composta por músicos locais e convidados.

A cada trecho, a cada novo compasso, mais instrumentos vão se somando aos outros, até o ápice final.


Como de praxe, Cordella tomou a palavra e conversou com a plateia. Brincou com o lapso ocorrido no programa, no qual constava "Bolero" de Beethoven. Esse pequeno contratempo de revisão gerou um bem-humorado improviso da orquestra, que "sampleou" o Bolero de Ravel com melodias de Beethoven.



Conforme explicou o maestro, o Bolero de Ravel se caracteriza pelo seu marcante e exemplar "crescendo". 

E, cresce, também, a cultura musical dos espectadores com a sequência do programa.

Incluiu nada menos que Pur ti miro, de Claudio Monteverdi, em dueto da soprano Marilia Vargas e do contratenor Paulo Mestre.

Em seguida, composições de Händel ecoaram na perfeita acústica da igreja.

Nessa parte do concerto, para os apreciadores da música barroca,

Fernando Cordella tocou cravo para acompanhar.

As peças de Handel incluíram algumas das chamadas "árias furiosas":

Svegliatevi nel core, tenor Flávio Leite.



Piangeró la sorte mia, soprano Marilia Vargas.

Eternal Source of Light Divine, contratenor Paulo Mestre.

Why do the nations so furiously rage together (pergunta bem atual, por sinal), baixo Mauro Pontes. 

Marilia Vargas explicou o contexto de sua ária, que envolvia o destino de Cleópatra na ópera Giulio Cesare.




Cada solista fez seu show à parte, encantando os ouvidos e os corações da plateia.




A apoteose da noite foi a Fantasia Coral de Beethoven. Ao som do piano de André Loss, e às vozes do Coro Juvenil da Academia de Música de Osinca, somaram-se as potentes vozes dos solistas já citados, com o reforço de Andiara Mumbach (soprano) e Luiz Carlos Wiedthäuper (tenor).




Como bis improvisado, a orquestra repetiu a parte final da Fantasia Coral, em que os solistas se levantam, e, junto com o coral, e os bem afinados violinos, violas, violoncelos, contrabaixo, flautas transversas, oboés, clarinetes, clarone, fagote, trompetes, trompa, trombones, tímpano, percussão e piano, formam uma densa e poderosa massa sonora para involucrar a bela melodia beethoviana e encerrar o concerto de modo apoteótico.



O vídeo abaixo é uma pequena amostra do concerto, e inclui o finzinho do Bolero de Ravel, um trecho de Händel e a parte final da Fantasia Coral de Beethoven.


Texto, fotos e vídeo de Henrique Guerra.

Saturday, October 21, 2017

Blade Runner 2049


A cena inicial de Blade Runner 2049, do diretor Denis Villeneuve, remete à cena inicial de Blade Runner (1982), do diretor Ridley Scott, que está na minha lista de Top Ten diretores em atividade. No cult de 1982, a tela mostra em close um olho aberto, no qual se reflete o caótico cenário futurístico em que androides precisam ser caçados. Na abertura da continuação, que tem Scott como produtor, e Ryan Gosling como protagonista, o diretor canadense Denis Villeneuve amarra os dois filmes separados por três décadas e meia. 




Outro ponto de ligação entre os dois filmes é o roteirista Hampton Fancher, coautor do roteiro do primeiro e também da continuação.

Junto com Harrison Ford, o roteirista é uma espécie de elo perdido com o clássico cult de 1982. Ele colaborou com Ridley Scott em 1982 e agora com Denis Villeneuve em 2017. Se existe uma forte coesão atmosférica nas duas obras a sua participação não pode ser subestimada.






Apesar das críticas positivas e da avidez dos fãs de Blade Runner, o filme não está indo bem nas bilheterias como se imaginava.

Seja como for, Denis Villeneuve (o diretor de Sicário, terra de ninguém e A chegada) fez de Blade Runner 2049 um filme em que a arte está quase sempre em primeiro plano. (Diga-se de passagem, algo que o Darren Aronofsky, de um modo bastante arriscado, também tentou fazer em mãe!.) 

Os produtores (entre eles, Ridley Scott, o diretor de Um bom ano, Alien e Alien: Covenant, entre outros) não economizaram no orçamento e deram liberdade criativa a um cineasta autoral, Denis Villeneuve. Ao que consta, quem assiste ao filme está vendo a "Director's Cut", diferentemente do primeiro, que Scott relançou 25 anos depois, remasterizado e abrindo margens para outras interpretações.


O relativo fracasso comercial de Blade Runner  2049 levanta questionamentos sobre sua metragem extensa e a falta de apelo às novas gerações, que não assistiram, nem querem assistir, ao primeiro filme.




A trilha de Vangelis, que pontua todo o primeiro filme, aparece sampleada em alguns pontos-chave da continuação. Principalmente, na cena mais bela. Não vou entrar em detalhes para que esse comentário não se torne um spoiler.

Alguém poderia considerar essa decisão um tanto manipuladora por parte dos realizadores, ou seja, querer direcionar a emoção do público, utilizando melodias que evocam uma cena, e, por conseguinte, as emoções suscitadas ao ver aquela cena.

Mas, afinal de contas, por que a gente vai ao cinema, se não é para se emocionar?

Para sentir o sangue pulsando nas veias?
As lágrimas enchendo os olhos?