Monday, January 15, 2018

Dolores

Quem acompanha este blog sabe que volta e meia escrevo uma "matéria" off-topic sobre alguma banda que aprecio ou algum show que tenho a sorte de presenciar. Hoje, o
olhar cinéfilo homenageia uma voz que vai continuar arrepiando muita gente, por muito tempo.



Sunday, January 14, 2018

Filhas das trevas




Filhas das trevas a.k.a. Escravas do desejo (Daughters of Darkness ou Les Lèvres Rouges, 1971),  filme do diretor belga Harry Kümel (Malpertuis), aborda vampirismo e lesbianismo com apuro estético e elegância quase insuperáveis. O enredo investiga a mítica personagem húngara Condessa Elizabeth de Báthory (Delphine Seyrig), que demora um pouco para entrar em cena.


Um casal em lua-de-mel se hospeda num hotel deserto à beira-mar na cidade de Ostende. Enquanto aproveita a estadia, os dois acompanham pelos jornais as notícias sobre mortes seriais de moças que são encontradas sem uma gota de sangue no corpo. Uma das mortes ocorre em Bruges, e o casal aproveita para visitar a cidade. De volta ao hotel, aumenta o suspense quando chegam mais duas hóspedes misteriosas. O concièrge reconhece uma delas, a Condessa Bathory, que teria se hospedado no hotel há quarenta anos. Com um detalhe: ela não envelheceu nesse período.

A condessa Bathory é interpretada pela grande atriz francesa Delphine Seyrig, com figurinos perfeitos para sua silhueta esguia. Ela transcorre o filme inteiro com um sorriso nos lábios, sussurrando suas falas, a voz meiga, as atitudes suaves, contrastando com o mistério que parece esconder. O marido também esconde algo da esposa, pois pede ao concièrge mentir que não consegue ligar para alguém que seria sua "Mamma". Nesse meio-tempo, as duas sinistras, porém sensuais recém-chegadas se interessam imediatamente pelo casal que já estava hospedado no hotel, e a partir daí o filme desenvolve um jogo de atração e erotismo entre os quatro personagens, pontuado por interesses e necessidades orgânicas mais fortes que o desejo sexual.



A alemã Andrea Rau interpreta Ilona, a acompanhante da condessa. Ela tem o cabelo moreno curto e olhos claros. Experiente em filmes eróticos, a sedutora morena estrela 
algumas das cenas mais sensuais do filme. Ela faz um depoimento nos extras elogiando o belga Harry Kümel, que teria sido muito meticuloso em suas instruções para ela viver a personagem. Por sua vez, o comentarista de filmes Alex Good fala que adora a atuação da atriz neste filme.
Já Danielle Ouimet, a loira que vive a pombinha Valerie, declara que Filhas das trevas foi o melhor dos treze filmes que estrelou, mas afirma ter sido esbofeteada por Kümel e que o diretor belga lhe deixava perdida, pois nunca dava instruções claras. Por incrível que pareça, acho que as duas atrizes podem estar falando a verdade.

Das duas, uma: ou Kümel quis propositalmente deixar a atriz perdida, pois realmente Valerie, a recém-casada, é a mais frágil e mais "vítima" na história, ou o problema de relacionamento que surgiu entre os dois devido a um atraso da loira no set impediu que a comunicação se tornasse mais franca, e a leitura disso por Danielle foi a de que Kümel queria inovar a cada tomada, em vez de dar ordens precisas sobre o que ele queria.

Seja como for, até mesmo a atriz que teve problemas com o diretor reconhece que o filme marcou sua carreira em vários sentidos, e que costuma visitar o túmulo de Delphine Seyrig, de quem se tornou amiga no set.

Deixando à parte essas questões sobre a realização do filme, analisando apenas o produto, assistido em pleno 2018: trata-se de um filme de cadência lenta, com poucas cenas de sangue. Tudo é involucrado em um véu de mistério, e a história é contada mais com base no implícito do que no explícito. Arrisco a dizer que Filhas das trevas se tornou um cult justamente por isso. A parcimônia em termos de locações e de elenco é contrastada nos cuidados técnicos, na fotografia, figurino e música. Foram essas cenas estudadas milimetricamente para abordar com delicadeza vampirismo e lesbianismo que tornaram Filhas das trevas um clássico do horror erótico.

Trailer do filme:

Thursday, January 11, 2018

O importante é amar


Conforme prometido, dei uma nova chance ao diretor de origem polaca nascido na Ucrânia Andrzej Żuławski. Ou seria melhor afirmar: dei a mim mesmo uma nova chance de conhecer de verdade a obra desse controvertido diretor.

Escolhi um filme dele anterior a Possessão, o filme que me provocou uma intensa repulsa anos atrás. A propósito, quando terei coragem de rever Possessão? Talvez nos próximos dias. Talvez até o fim de 2018. Talvez só depois de obter um panorama da obra de Andrzej Żuławski. O tempo dirá. Seja como for, já sei também o motivo de toda aquela rejeição.


Andrzej Żuławski é o diretor antipossessivo por excelência. Em seus filmes, todo e qualquer sentimento de ciúme e possessividade é ridicularizado sem dó nem piedade. Disso resulta que uma categoria importante de personagens zulawskianos sejam maridos patéticos, peripatéticos. Vide o personagem de Sam Neill em Possessão e o Jacques Chevalier de O importante é amar (Jacques Dutronc, em uma atuação memorável).


O importante é amar, filme realizado por Andrzej Zulawski em 1975, em última análise é um estudo de personagens que poderia ser rotulado de "triângulo amoroso". Algo não muito diferente do que ele realizaria em Possessão (1981). Com um talento acachapante para criar personagens femininas ambíguas e misteriosas, Zulawski cria em seus filmes as condições ideais para aflorar o talento das atrizes. Neste filme brilha Romy Schneider, como Nadine Chevalier, a atriz de filmes pornôs que é um dos vértices deste bizarro triângulo amoroso.


Na segunda ponta está Jacques Dutronc, que interpreta Jacques, o engraçado marido de Nadine. Sob todos os prismas, as atitudes de Jacques são pautadas por um intenso amor por Nadine, e, ao mesmo tempo, um reconhecimento da incapacidade de satisfazê-la, ou de entendê-la, ou de ser suficiente para ela. O marido de Nadine protagoniza cenas bizarras em todo o filme, entre elas, uma cena em que ele prepara café, e aparece um grande frasco de Nescafé, e outra em que ele imita Napoleão.

Na terceira ponta está outra alma desolada, Servais Mont, interpretado pelo italiano Fabio Testi, fotógrafo e cinegrafista de filmes pornôs que (na minha leitura) se apaixona perdidamente por Nadine, mas não consegue lidar com isso, com o fato de ela ser casada. Klaus Kinski tem seu momento no filme como o ator shakespeariano que não aceita críticas negativas. 



Sem quase nunca tirar a jaqueta verde ao longo do filme, Servais resolve interceder ao pegar dinheiro emprestado para financiar uma peça teatral, desde que Nadine seja a estrela e que ela não saiba sobre a sua intervenção. O personagem oscila ao longo da história entre o pudor de estragar um casamento, a vontade de ficar com Nadine e a dependência financeira de um despudorado curador de filmes eróticos, que não aceita a decisão de Servais de se afastar das filmagens.

Nesse meio-tempo, Zulawski move sua câmera pelos cenários e nos retrata o curioso e avassalador entrelaçamento do destino desses personagens. O principal ambiente é a sala transformada em quarto pelo casal Chevalier, forrada de pôsteres de filmes, como East of Eden (Vidas amargas, com James Dean) e Le Fils de Zorro. O site Films in Films traz uma lista de todos os pôsteres expostos na mencionada sala.Resultado de imagem para l'est important cest daimer

É muito fácil se viciar neste filme, basta terminar de assisti-lo que já dá vontade de recomeçar a revê-lo, nem que seja para tentar ampliar as interpretações sobre os atos de cada um.


Mas é justamente isto que torna tão especial O importante é amarAndrzej Żuławski não julga ninguém, não quer defender nenhum ponto de vista, apenas mostrar a angústia de ser humano, demasiadamente humano.

Sentimentos contraditórios são expostos e decupados, atitudes incompreensíveis são retratadas sem necessidade de explicar nada, afinal, a vida é como ela é, existem pessoas imprevisíveis, pessoas que podem ser rotuladas de "loucas" por sua inconstância, volubilidade e ambiguidade.


Por isso que o cinema de Andrzej Żuławski (ver filmografia abaixo) não é facilmente deglutível para quem espera um posicionamento prévio, um preconceito, um ato falho.


Sunday, January 07, 2018

A última onda


Considerado por muitos um clássico do cinema australiano, A última onda (1977) é o terceiro longa-metragem de Peter Weir, após The Cars that Ate Paris (1974) e Picnic at Hanging Rock (1975). Clássico ou não, é um filme raro em todos os sentidos. Raro de se conseguir: apenas locadoras de grande acervo dispõem desse título, pouco procurado pelo "público em geral". Tipo do filme destinado a mofar nas prateleiras até que apareça alguém interessado nele, coisa que só ocorre... raramente. 
Rara também é a construção da película, rara é a atuação de Richard Chamberlain, raros são os temas abordados, rara é a mescla de atores aborígines com os australianos brancos. Outra raridade é a exotérica trilha sonora, que nos remete a um clima fantástico, a uma bizarrice que permeia a história e, cena após cena, vai dominando o espectador.



Chamberlain vive David Burton, um advogado tributarista que tem uma rotina tranquila em uma metrópole australiana, na companhia da esposa, das duas filhas e do padrasto, um pacato pastor. Mas essa falsa aparência de tranquilidade aos poucos será desmantelada por fatos extrínsecos e intrínsecos ao personagem. Mudanças climáticas começam a se manifestar. Tempestades, granizo, chuva negra. Paralelamente, um aborígine aparece morto e um grupo de cinco homens, também aborígines, é considerado suspeito.
Burton é convidado a coordenar a defesa dos réus. Isso serve para desencadear uma série de sonhos e visões no contido advogado, que desperta no meio da noite em sobressaltos premonitórios. Com o andar da investigação, ele se convence de que os aborígines são inocentes, e que a morte envolve feitiçaria tribal, perpetrada por Charlie, um estranho líder espiritual dos aborígines.



O choque cultural é extremo em cenas como o jantar na casa dos Burton, ao qual Chris, um dos aborígines, é convidado, levando junto com ele o misterioso Charlie. E também na proverbial sequência de tribunal, único momento em que o filme ameaça tornar-se um pouco acadêmico. Mas a cena é rápida e serve para mostrar um júri todo composto por descendentes de europeus julgando os aborígines.
Em 66 minutos, A última onda aborda, com rara ousadia, assuntos palpitantes como misticismo espiritual, fragilidade ambiental, contraste cultural, preconceito racial e transformação pessoal. Um dos pontos altos de sua fase australiana, The Last Wave é um bom exemplo do cinema de Peter Weir, um adepto dos "finais abertos".



Sobre The Last Wave, o escritor Andrew Nette afirmou que o filme "mina nossas certezas culturais, induzindo-nos a contemplar a existência de algo mais profundo e mais poderoso sob o exterior da Austrália branca".
Por sua vez, na introdução da obra The films of Peter Weir, Jonathan Rayner resume a dimensão da obra do diretor australiano, que, como Almodóvar, também não frequentou escola de cinema:

"A obra de Weir exibe uma unidade estilística na qual os conceitos de autoria europeus e americanos convergem. A carreira dele é marcada por um estilo europeu de autoria de filmes artísticos, com base em escritos pessoais e expressão visual, na Austrália, e por um estilo americano de autoria, com base na revisão de gêneros, em Hollywood. Nas duas fases, uma consciência sobre as convenções dos gêneros (da indústria hollywoodiana e do gênero de filmes artísticos) elucida temas e preocupações pessoais articulados por uma expressão visual individual. Dono de um estilo idiossincrático e versado na modificação dos gêneros, Weir estava bem preparado para entrar no establishment de Hollywood no começo dos anos 1980, época em que a indústria estava repleta de diretores americanos que também reconheciam a influência do filme de arte europeu e buscavam dirigir de maneiras inovadoras e individuais.
(...) Peter Weir é um diretor com intenções definidas e discerníveis, mesmo se ele não tiver necessariamente uma "mensagem" específica para transmitir. Ao extrairmos significado do conjunto delineado dos textos de Peter Weir, devemos buscar um equilíbrio, por um lado, entre a liberdade de interpretação individual e associações intertextuais mais amplas, e, por outro, o reconhecimento da construção textual e referências intertextuais deliberadas, encenadas pelo diretor e seus colaboradores."*

*Excerto da obra Rayner, Jonathan. The Films of Peter Weir, 2nd ed., p. 12, 15-16.


Saturday, January 06, 2018

O rei do show


O rei do show é um musical inspirado na vida de P. T. Barnum (Hugh Jackman), personalidade que criou o show business como o conhecemos. Trabalhando com o capital dos outros (leia-se, captando empréstimos nos bancos), Barnum criou um museu que depois se transformou em circo cujas atrações eram pessoas diferentes. Formou uma inusitada trupe que contava com mulher com barba; homem com o rosto inteiro coberto de pelos; portadores de nanismo, gigantismo e albinismo; irmãos siameses, etc. Atraiu multidões para seu circo e foi galgando degraus até conquistar o público considerado mais requintado, promovendo a turnê de uma cantora lírica. Mas quando tudo parece estar indo bem, contratempos vão surgir. Tudo isso vem involucrado em canções melosas incessantemente entoadas por Jackman e outras personagens, que enfrentam preconceitos de toda sorte, como a trapezista e o sócio de Barnum, romance não tolerável pela aristocracia da época. O talento de Jackman e sua experiência em musicais levam o filme de Michael Gracey nas costas. É tão eficiente a atuação do australiano e sua capacidade de atrair empatia a seu controvertido personagem, por muitos considerado o príncipe das falcatruas, que no final temos a sensação de que o mundo precisa de gente como Barnum, capaz de arriscar, empreender e aglutinar pessoas em torno de um objetivo comum.


Sunday, December 24, 2017

Mulheres divinas

Como presente de Natal aos associados, o Clube de Cinema de Porto Alegre selecionou o filme Mulheres divinas (2017), concorrente suíço ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2018. Os créditos iniciais mostram cenas do final da década de 60, a luta pelos direitos civis nos EUA, Woodstock, contracultura e manifestações feministas mundo afora.



 Em seguida, a câmera sensível da diretora Pietra Biondina Volpe acompanha a rotina de Nora, uma aldeã suíça em pleno ano de 1971, a esposa perfeita padrão: cuida do marido, dos filhos em idade escolar, e, de quebra, ajuda a cuidar da casa do sogro, que mora com o cunhado, a concunhada e a sobrinha rebelde. Nora pedala de saia em meio às paisagens nevadas em cenas bucólicas e bonitas. Nora é feliz: à noite, gira um globo iluminado entre os dois filhos e fala sobre os encantos de nosso planeta. É apaixonada pelo marido. Mas ser feliz não significa estar acomodada. Nora quer mais. Sonha em trabalhar como secretária numa agência de turismo. E também em melhorar outros aspectos de sua vida: Nora nunca teve um orgasmo.




O país respira lufadas de novos ares. Até mesmo nos conservadores e machistas cantões suíços, um grupo de mulheres tenta mobilizar as conformadas cidadãs. Distribuem panfletos, livros e atuam como catalisadoras de uma mudança que já tarda: a luta pelo sufrágio feminino naquele país. Para se ter uma ideia, na Inglaterra esse movimento aconteceu décadas antes, em que as sufragistas britânicas marcavam as moedas com a frase VOTES FOR WOMEN, como nos conta o livro A história do mundo em 100 objetos. Mas na tradicional Suíça, incrivelmente isso só foi acontecer em 1971. 
Esse é o contexto de Mulheres divinas, que funciona em dois planos, a história dessa revolução tardia em busca do direito pelo voto, e a reviravolta na rotina pessoal de Nora.



Revoltada com a postura do marido que a proíbe de trabalhar fora, Nora adere à campanha sufragista, contando com um grupo de amigas, entre elas uma italiana, uma carismática senhora e a cunhada de 45 anos. Falado em alemão, Mulheres divinas acompanha a mudança de Nora enquanto transita suavemente entre o drama (prisão, depressão, morte) e a comédia (oficinas sobre liberação sexual, greve feminina) para contar a incrível história da luta pelo voto feminino num país tão civilizado quanto retrógrado. Confira o trailer:



Da lista inicial de 92 países, sobraram 9 na acirrada disputa. Apesar das belas cenas e do tema interessante, o suíço Mulheres divinas já saiu da briga.  

Friday, December 22, 2017

Star Wars: Os Últimos Jedi



Como preâmbulo deste post, mais uma de minhas constatações tardias:

Embora já sedimentado no cânone brasileiro, o título O Retorno de Jedi não faz sentido. O original é Return of the Jedi. Não estamos falando do retorno de um Jedi qualquer, e sim de um Jedi específico. Além disso, como sabemos, Jedi não é o nome de uma pessoa.  Portanto, a escolha da preposição "de" foi equivocada. Pelo contexto, o título mais adequado seria O Retorno do Jedi.


***

Depois dessa breve introdução sobre as sutilezas da linguagem, vamos ao comentário sobre Rian Johnson.

Sim, não vou comentar o filme, para não cometer spoilers.

Em vez disso, vou resumir o perfil do diretor.

Graduou-se em Artes Cinemáticas em 1996 pela Universidade of Southern California.

O curta Evil Demon Golfball from Hell, realizado nessa época, teve o roteiro inspirado por um conto de Edgar Alan Poe, O coração denunciador (The Tell-Tale Heart).

A estreia na direção de longas-metragens foi com A ponta de um crime (Brick, 2005), um filme noir ao estilo da literatura de Dashiell Hammett.

O segundo longa, Vigaristas (The Brothers Bloom, 2008), é um misto de policial e comédia sobre dois irmãos órfãos que se tornam malfeitores.

Sempre assinando roteiro e direção, Johnson entrou no radar para valer com o terceiro filme, Looper (2012), um policial futurista.

Como destaques em seu currículo também aparecem os três episódios que ele dirigiu no seriado Breaking Bad: Fly na 3ª temporada), e Fifty-One e Ozymandias na 5ª temporada. Ao contrário do que aconteceu nos filmes, ele não assinou o roteiro desses episódios.

O próximo grande passo de Rian Johnson está em cartaz no mundo inteiro, em salas de IMAX, em 3-D, 2-D, dublado e legendado em centenas de idiomas.

Não apenas por seus méritos, Rian Johnson está recebendo a atenção do mundo inteiro. Coube-lhe a desafiadora, porém gratificante tarefa de escrever o roteiro e dirigir o Episódio 8 da franquia Star Wars.

Ou seja, colocou o seu talento a serviço da indústria.

Volta e meia, diretores ambiciosos e promissores fazem isso, apostando que um dia poderão fazer "the other way around": colocar a indústria a serviço de seu talento, coisa que poucos cineastas alcançam.

O que nos leva a suscitar a pertinente pergunta: até que ponto um diretor/roteirista consegue "imprimir sua marca" num projeto desta natureza, que precisa seguir certos moldes, respeitar um estilo, levar em conta um conjunto enorme de informações prévias e a necessidade de agradar aos exigentes críticos de cinema e os talvez ainda mais exigentes fãs da franquia?

Johnson agarrou a oportunidade com unhas e dentes e fez um trabalho visualmente impecável, com cenas de extrema contundência estética, em especial, no eficiente 3-D do formato IMAX.

Um de seus recursos foi o amplo uso de closes nos rostos dos personagens em momentos chave, com a tela sendo preenchida com os olhares expressivos de Luke Skywalker, Finn, Rey, Kylo Ren, Leia, entre outros.

A atriz Laura Dern dá as caras na pele da vice-almirante Holdo, fiel às ordens de Leia, que bate de frente com a impulsividade de Poe, o rebelde piloto de X-Wing.

Mas é Benicio Del Toro que faz seu show à parte encarnando o carismático mercenário e decodificador DJ.



Tuesday, December 19, 2017

STANLEY KRAMER: Julgamento em Nuremberg

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Este é o terceiro da série de três posts sobre os filmes de Stanley Kramer que venceram Oscar de Melhor Roteiro. Neste caso, foi o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, assinado por Abby Mann.  O roteiro tem como base um episódio da série televisiva Playhouse 90, que teve 133 episódios e contava com diretores como John Frakenheimer e Franklin Schaffner.




De quebra, Julgamento em Nuremberg levou também o Oscar de Melhor Ator, para o austríaco Maximilian Schell, que interpreta o advogado dos juízes nazistas. Schell conhecia bem o papel, pois havia representado Hans Rolfe na primeira versão, feita para a tevê. Esse pode ter sido um fator decisivo para a espontaneidade e força com que encarnou o personagem. O Oscar foi mera consequência.



Filmado em P&B em 1961, Julgamento em Nuremberg focaliza os procedimentos no tribunal do pós-guerra que levou ao banco dos réus os magistrados alemães que foram coniventes com as atrocidades do Terceiro Reich, como emitir ordens para esterilizações, limpeza racial e prisões de judeus para serem levados aos campos de concentração. O elenco é magnífico: Burt Lancaster interpreta um dos juízes alemães; Montgomery Clift é uma das testemunhas que relata sua humilhante esterilização; Judy Garland é a mulher que aos 16 anos foi acusada de ter relações íntimas com um senhor não ariano; Marlene Dietrich é a mulher local que faz amizade com o juiz.



Stanley Kramer como sempre demonstra uma coragem imensa em abordar temas complexos e espinhosos, que ferem suscetibilidades de nações e povos. O roteiro procura não ser maniqueísta, não vê apenas um dos lados, permite que o espectador entenda vários pontos de vista. 



Para quem aprecia embates jurídicos, é um filme essencial. Cada estocada do implacável promotor Lawson (Richard Widmark) é respondida com a técnica e o brilhantismo do advogado de defesa. Momentos de extrema tensão precisam a intervenção do Juiz, para suspender a sessão. Não faltam os clássicos dizeres "Overruled" ou "Sustained" por parte do magistrado, quando cada um dos adversários tenta anular ou desclassificar as ações do oponente.




Mas o filme não se limita a esse arguto embate de palavras e leis: aprofunda a densidade de personagens conflituosos, em especial, Dr. Ernst Janning, vivido por Burt Lancaster. Estudioso, autor de muitos livros, ex-ministro da Justiça, Janning é admirado pelo povo alemão, e sua eventual condenação pode criar problemas diplomáticos e geopolíticos. 

Às vezes, o diretor Stanley Kramer abre mão de seu estilo mais discreto e utiliza closes súbitos. O recurso serve para enfatizar essa mudança que permeia a película do amplo para o detalhe, da visão panorâmica para o drama pessoal. Este é o principal mérito de Julgamento em Nuremberg: a mescla perspicaz de temas, abordados com ousadia. 



Outra curiosidade deste filme é a participação de William Shatner como o Capitão Byers, assessor do Juiz Dan Haywood (Spencer Tracy).

Faltou comparar os roteiros da série de três posts. Sem dúvida, o melhor dos três é o acridoce roteiro de Adivinhe quem vem para jantar, pela dose certa entre humor e drama. Enxuto, é um primor de eficácia. 

A possível crítica ao roteiro de Acorrentados seria que uma espectadora feminista não veria com bons olhos o modo como a fazendeira foi retratada, pronta para se atirar nos braços do primeiro foragido que aparece. Mas nem tudo é perfeito, e no geral as qualidades do roteiro prevalecem sobre os pequenos deslizes. Diga-se de passagem, naquela época o mundo era menos obcecado em ser politicamente correto.

Por fim, o roteiro de Julgamento em Nuremberg é o mais espichado e, por isso mesmo, o que supostamente teria mais cenas "deletáveis", por assim dizer. Don't let me be misunderstood: o filme funciona às mil maravilhas como está, não achei cansativo nem nada, apesar da metragem superior a três horas. Apenas é natural que um roteiro mais comprido tenha mais chances de revelar algumas incongruências e alguns "altos e baixos".

No geral, porém, acredito que os três filmes são dignos e merecedores de seus respectivos Oscars de Melhor Roteiro

Monday, December 18, 2017

Extraordinário

Uma canção inspira um livro que vira um filme. Esta é a extraordinária história de Wonder.

A canção é de 1995, de autoria de Natalie Merchant, a ex-vocalista da banda 10,000 Maniacs. Neste vídeo, Natalie explica a gênese da homônima canção de 1995:




A escritora R. J. Palacio declarou que Natalie Merchant é a verdadeira "Wonder Woman". Segundo a escritora, os primeiros versos da música foram a premissa para criar as primeiras páginas do livro, que depois "escreveu-se sozinho", e cuja tradução foi publicada em 2014 no Brasil. Por sinal, as boas soluções tradutórias de Rachel Agavino foram aproveitadas na dublagem do filme.

O filme mantém a estrutura formal do livro e se concentra em apresentar os dramas pessoais dos vários personagens desta comovente história.

O elenco é bem conduzido pelo diretor Stephen Chbosky, também roteirista e romancista. No Brasil, foi publicado o seu romance As vantagens de ser invisível. Extraordinário é o terceiro filme como diretor, tendo dirigido também Four Corners of Nowhere e a adaptação do já citado As vantagens de ser invisível.


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Em suma, Extraordinário representa o melhor que Hollywood pode nos proporcionar em termos de qualidade. As pessoas certas escolhidas para as funções certas. Isso inclui, é claro, o elenco, que conta com Sônia Braga como a avó do garoto, e, por incrível que pareça, um convincente Owen Wilson como o pai de Auggie (vivido pelo ator mirim canadense Jacob Tremblay, que nesta reportagem aparece com um garoto que tem a doença Treacher Collins).

Diga-se de passagem, em 1985, o diretor Peter Bogdanovich realizou Marcas do destino (Mask), em que Eric Stoltz vivia um adolescente que também sofria bullying na escola em razão de uma deformidade facial. O filme tinha Cher na pele da mãe do protagonista.

Para encerrar este post, um elogio à rede Centerplex, que em meio à crise investiu na cidade de Passo Fundo, abrindo duas novas e modernas salas de cinema.

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Monday, December 11, 2017

Leif Erikson

LEIF ERIKSON  *

canção do álbum Turn On the Bright Lights

* 1000 d.C. explorador e aventureiro norueguês, descobriu e colonizou a Groenlândia


She says it helps with the lights out
Ela diz que luzes apagadas ajudam

Her rabid glow is like Braille to the night
Seu brilho violento  é como Braille para a noite

She swears I’m a slave to the details
Ela jura que eu sou um escravo dos detalhes

But if your life is such a big joke, why should I care
Mas se tua vida é uma piada tão grande, por que devo me importar

The clock is set for nine but you know you’re gonna make it eight
O despertador está regulado para as nove, mas você sabe que vai acordar às oito

So that you can take some time, teach each other to reciprocate
Para que vocês possam tirar um tempo, ensinar um ao outro a dar e receber

She feels that my sentimental side should be held with kid gloves
Ela sente que o meu lado sentimental deve ser manuseado com luvas de pelica

But she doesn’t know that I left my urge in the icebox
Mas ela não sabe que eu deixei meu ímpeto na geladeira

She swears I’m just prey to the female,
Ela garante que sou apenas uma presa para as fêmeas

Well then hook me up and throw me, baby cakes, cuz I like to get hooked
Bem então me enganche e me arremesse, querida, pois eu gosto de ser fisgado

The clock is set for nine but you know you’re gonna make it eight

All the people that you’ve loved they’re all bound to leave some keepsakes
Todas as pessoas que você amou estão destinadas a deixar algumas lembranças

I’ve been swinging all the time, think it’s time to learn your way
Tenho oscilado o tempo todo, acho que é hora de aprender o seu jeito

I picture you and me together in the jungle it will be ok
Imagino você e eu juntos na selva, vai ser legal

I’ll bring you when my lifeboat sails through the night
Vou lhe trazer quando meu barco salva-vidas velejar através da noite

That is supposing you don’t sleep tonight.
Isso supondo que você não durma hoje à noite.

It’s like learning a new language
É como aprender uma nova linguagem

Helps me catch up on my mime
Me ajuda a aprimorar a minha mímica

If you don’t bring up those lonely parts
Se você não trouxer aquelas partes solitárias

This could be a good time
Este poderia ser um momento agradável

You come here to me
Venha  aqui  para mim

We’ll pick up those lonely parts and set them down
Vamos pegar aquelas partes solitárias e vamos  resolvê-las

You come here to me
Venha até aqui para mim

She says brief things, her love’s a pony
Ela diz coisas breves, o amor dela é um pônei

My love’s subliminal
O meu amor é subliminar


 Tradução: Henrique Guerra
 Debates sobre o significado dos versos podem ser encontrados aqui.

STANLEY KRAMER: Acorrentados

Este é o segundo de uma série de três posts com os filmes de Stanley Kramer que venceram Oscars de Melhor Roteiro.


Acorrentados (The Defiant Ones, 1958) recebeu na versão dublada pela Herbert Richers o título alternativo de Destinos unidos.

Além de Melhor Roteiro, o filme abiscoitou também o Oscar de Melhor Fotografia em Preto & Branco. Os dois protagonistas, Tony Curtis na pele de Johnny 'Joker' 'Jackson e Sidney Poitier como Noah Cullen, foram indicados para Oscar de Melhor Ator, mas perderam para David Niven.

A indicação de Poitier marcou época por ser a primeira vez que um ator negro competiu por um Oscar. Ele acabaria vencendo mais tarde por No calor da noite, também vencedor de Melhor Filme.

O roteiro original foi um trabalho de quatro mãos assinado por Nedrick Young, que usava o pseudônimo Nathan E. Douglas e estava na lista de roteiristas banidos pela caça às bruxas anticomunista de Hollywood, e Harold Jacob Smith, que deu o acabamento ao texto.


Acorrentados começa com um caminhão de médio porte transportando presidiários numa rodovia mal sinalizada e sob uma chuva forte. Um dos presos está entoando o blues Long Gone, e um dos carcereiros da cabine manda ele calar a boca. Mas Cullen (Poitier) continua a cantar, só para ser chamado de 'nigger' por outro condenado, Johnny (Curtis). Detalhe: os dois estão unidos por uma forte corrente de 70 cm de comprimento, que conecta o pulso direito de Cullen com o pulso esquerdo de Johnny. A situação se transformaria numa briga não fosse o acidente que ocorre logo depois. Ninguém morre no acidente, mas a dupla acaba fugindo.


Os dois antagonistas nas próximas horas vão ter de atuar em equipe e coordenar esforços para escapar da polícia e dos cães que estão em seu encalço. São muitas as peripécias que a dupla vai enfrentar: a travessia de um rio de caudalosas e perigosas correntezas, o pulo num buraco de lama para se esconder e a difícil escalada posterior, a tentativa de roubar uma vila de operários e a ameaça de linchamento, a chegada a uma fazenda em que a dona da propriedade acaba vendo em Johnny uma tábua de salvação para fugir daquela vidinha.


O outro "núcleo" do filme acompanha o humanista xerife Muller (Theodore Bikel) e um grupo de policiais que buscam recapturar os fugitivos.

Curiosidade: o personagem de Curtis vive falando (seis vezes, para ser mais exato) ao longo do filme que gostaria de ser como um tal de Charlie Potatoes, expressão idiomática que significa uma pessoa rica e influente. Na adaptação para o português brasileiro, isso ficou diluído, pois a expressão, às vezes, simplesmente não é traduzida. Esse comentário não é uma crítica à tradução, apenas uma observação sobre os desafios enfrentados (não tem como colocar nota de rodapé na legenda do filme) e os recursos tradutórios adotados, entre eles, a omissão.

Omissão, porém, não é a praia de Stanley Kramer. Além de excelente condutor de elencos (atores e atrizes sob sua batuta recebem indicações a Oscar), o diretor Stanley Kramer sabia como poucos escolher roteiros funcionais e significativos. Também não se omitia: em vez disso, "colocava o dedo na ferida". Enfim, não era um sujeito que ficava à margem da discussão de problemas importantes.

A intolerância racial é um de seus temas recorrentes. Voltou a abordar esse tema, em tom mais leve, é claro, em Adivinhe quem vem para jantar (1967).



Aguardem o 3º e último post desta série, sobre Julgamento em Nuremberg, em que Stanley Kramer aborda outro tema espinhoso: o holocausto, merecendo outro Oscar de Melhor Roteiro.



Friday, December 08, 2017

Possessão


Aqui no RS temos um ditado: "se o cavalo passa encilhado...", ou seja, é bom aproveitar a oportunidade quando ela se descortina à sua frente. No ano em que o estadunidense Darren Aronofsky cometeu mother! e me inspirei a rever a obra-prima do belga Harry Kümel, nada mais apropriado do que falar sobre a controversa obra do polonês Andrzej Żuławski. Cada qual a seu modo peculiar, existe na obra desses três diretores um denominador comum: o inconformismo, a rebeldia, o ímpeto de causar um curto-circuito cerebral no espectador.

Possessão (1981), de Andrzej Żuławski, que deu a Isabelle Adjani a Palma de Ouro de Melhor Atriz no Festival de Cannes, é um exemplo dessa capacidade de chutar o balde e realizar coisas corajosas e imprevisíveis.

Por sinal, o polaco Andrzej 
Żuławski faleceu ano passado de câncer após realizar Cosmos, produzido em Portugal, quando preparava-se para filmar uma adaptação de "Os trabalhadores do mar" no arquipélago dos Açores.

Quatro anos antes, em 2012, uma retrospectiva de sua obra foi realizada nos EUA, com o título "Excesso histérico: descobrindo Andrzej Żuławski". Nesta entrevista, o diretor polonês comenta que abomina a palavra "histeria" para descrever seu trabalho, e prefere Zulawskienne, que, por sua vez, significa "over-the-top", ou seja, "extremely or excessively flamboyant or outrageous".

Com sua morte, muitas retrospectivas têm sido feitas mundo afora, inclusive no Brasil, com a mostra Cinema em êxtase, promovida pelo Cinesesc, que apresentou em outubro último sete filmes que dão uma ideia do trabalho avant-garde de Żuławski. As sinopses dos 7 filmes da mostra podem ser conferidas aqui. Depois, em novembro, foi a vez do Rio de Janeiro sediar uma retrospectiva da filmografia zulawskiana.

Este é o contexto ideal, pois, para falar aqui de Possessão, talvez o filme mais comentado de
Żuławski, e cujo monstro teve como criador o italiano Carlo Rambaldi, que trabalhou em filmes como King Kong, Contatos imediatos do terceiro grau e E.T



Certos filmes bem concebidos independem de serem interpretados, você assiste a eles e pronto. Dez minutos depois já os esquece. Outros, porém, ficam martelando na cabeça durante semanas, anos, décadas, suscitam debates ferrenhos, polarizações, perplexidades.

A ousadia da arte está na polissemia, na ambiguidade, na multiplicidade de caminhos interpretativos. Está em entregar um produto que já não pertence ao autor. As intenções do autor podem ter sido nobilíssimas, acontece que agora o seu rebento está sendo analisado e decupado: ele respira, pulsa e parece se rebelar contra o criador. Também tem suas intenções próprias. Por sua vez, na outra ponta, o receptor deixa de ser o receptor passivo e sente-se livre para coerentemente (ou não) interpretar o que leu ou viu. Nesses trabalhos artísticos, a interpretação "tricotômica" (intenções do diretor/autor, obra/filme e leitor/espectador) de que fala Umberto Eco é testada com o máximo vigor.




Assistir a Possessão me suscitou uma reação violenta de repulsa. Confesso que ainda não tive coragem de rever o filme, mas algo me diz que hoje o veria com outros olhos.

Redigi na época uma espécie de alerta irônico para que as pessoas abordassem o filme preparadas de antemão para não se decepcionar. Escrevi a resenha antes de começar a blogar no olhar cinéfilo e, não obstante seu pobre maniqueísmo, reconheço alguma qualidade nela, por isso, retrabalhei-a e vou publicá-la solenemente agora, com overdubs, ou seja, com acréscimos, e com cortes também.


Considero-me uma pessoa em evolução e não me sinto "refém" de minhas limitadas opiniões de outrora. Quero crer que o conciso verso do Radiohead "Fitter, happier, more productive", do O.K. Computer, me cairia bem: é isso que desejo ser e me tornar a cada novo dia. Uma das características deste blog, inclusive, é que vou mudando e, espero, melhorando os posts com o tempo.

Segue então minha duvidosa homenagem ao cinema transgressor de Żuławski, citado como um dos expoentes do cinema cult polonês nesta dissertação de Anna Draniewicz, excelente apanhado do cinema daquele país.



Possessão (texto de 2002, retrabalhado em 2017)


 Todos os personagens deste filme são possuídos. Sam Neill é o marido possuído pela desconfiança, pelo ciúme e pela dúvida. O que sua inconstante mulher (Isabelle Adjani) andou fazendo enquanto ele viajava a trabalho? Bob, o filho do casal, é possuído pelo medo de que os pais se separem, e respira uma atmosfera de brigas e neuroses. A personagem de Isabelle Adjani, por sua vez, se vê possuída por um desejo ardente e incontrolável enquanto o marido estava fora, o que a leva a ser literalmente possuída pelo amante Heinrich, um intelectual possuído pela vontade de possuir as mulheres alheias, que mora com a mãe, possuída pela mania de controlar a vida do filho. Temos também, para completar esse quadro de deixar qualquer um possesso, a amiga de Isabelle, possuída pela vontade de transar com o marido da amiga, e a professora de Bob, Helen, também interpretada por Isabelle Adjani, possuída pela vontade de tomar o lugar da outra, como mãe de Bob e esposa de Sam Neill.
            Se você pensa que isso é tudo, enganou-se. Há também os dois detetives gays que descobrem em sua investigação o mistério dessa possessão toda.
            Isabelle Adjani ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes, 1981, por seu papel duplo nesse filme do diretor alemão polonês Andrzej Żuławski. Cena realmente chocante é a cena do metrô. De deixar a endemoninhada de O Exorcista no chinelo. Convulsões, estertores, gemidos, fluidos corporais, babas, babas e mais babas, sangue, gritos, gritos e mais gritos, em uma sequência que exigiu muito preparo físico de Isabelle. Como a atormentada esposa de Sam Neill e a maternal professora, a primeira com seus originais olhos azuis, a segunda com olhos esverdeados pelas lentes de contato, a bela filha de pai argelino e mãe alemã é um dos possíveis motivos para alguém se motivar a conferir esta curiosidade do cinema fantástico.
          Um espectador ortodoxo poderá observar: Possessão (1981) não se resolve entre o drama, a ficção, o suspense; tenta se equilibrar pretensiosamente numa corda bamba sem rede, e quanto maior a altura, maior o tombo. Sob esse prisma crítico, Sam Neill faz o que pode com seu personagem, mas o roteiro não ajuda, é cheio de partes truncadas e descartáveis. Para isso podem ter contribuído, é claro, os famigerados cortes que os estúdios fazem na ânsia de tornar o filme mais palatável para “as grandes massas”.
         Sempre tive o propósito neste blog de não escrever para “malhar” explicitamente nenhum filme. Confesso que volta e meia cometo alguns deslizes e deixo de cumprir esse desiderato. Sim, eu confesso. Eu poderia paciente e placidamente passar sem me expressar sobre Possessão. Mas neste ano de 2017, em que os cinemas mostraram a bizarrice de mother!, não é de se admirar que eu tenha sido inapelavelmente atraído a escrever sobre Malpertuis, o cult dos cults e a lembrar de outros filmes que deixam uma plateia contrariada e desconcertada. É nessa vibe que me permito fazer a seguinte declaração bombástica. 

ALERTA DE SPOILER DANTESCO E BOMBÁSTICO: interessados acessar expansão do post abaixo.

 Aparecem os créditos finais, e a recompensa pela perseverança: você poderá, enfim, começar a convalescença de seu sequelado cérebro. O consolo disso tudo é que sempre existe vida após a dantesca morte de um relacionamento doentio  no caso, Andrzej Żuławski, após se divorciar da bela atriz polonesa Małgorzata Braunek, se casou com a linda atriz francesa Sophie Marceau.
E a vida cinéfila continua após decepções como Possessão, sem esquecer que uma boa prática cinéfila é procurar não fazer afirmações bombásticas e definitivas. Afinal de contas, muitas vezes caímos na tentação de “dar uma segunda chance” para pessoas que nos decepcionaram. Por que, não, dar uma nova chance a um filme ou a um diretor?
Ainda mais, se esse diretor é o sujeito que afirmou: “Agradar a maioria é o requisito do Planeta Cinema. De minha parte, não faço concessões aos espectadores, essas vítimas da vida, que pensam que um filme é feito apenas para seu bel-prazer, e que não sabem nada sobre sua própria existência”. 
Sirva o chapéu a quem servir. De minha parte, com o rabo entre as pernas, faço um último comentário para concluir o post: a relevância de uma obra pode ser julgada por sua fortuna crítica, ou seja, o acervo de críticas sobre ela. E a fortuna crítica sobre Żuławski é riquíssima. Por exemplo, um trabalho aprofundado sobre algumas das possibilidades de recepção e interpretação do filme pode ser encontrado em Monsters Within and Without: Reading Female Identity Through Monstrosity in Andrzej Żuławski’s Possession, de Nikola Grbavac.



ALERTA DE SPOILER DANTESCO E BOMBÁSTICO