Saturday, April 14, 2018

Os amores de uma loira


Este post é dedicado à memória de Milos Forman. Texto inédito no blog,
sobre um filme da "fase tcheca" do diretor, que depois migrou para os EUA.

           
Andula trabalha numa fábrica de roupas e calçados do interior da Tchecoslováquia. A oferta de homens no mercado anda baixa – a proporção é de 16 mulheres por mancebo. A cidade comemora a visita de uma companhia de reservistas com um baile. As adolescentes lamentam a idade e a aparência da mercadoria – mas quem não tem cão, caça com gato. Três reservistas “velhos e fedorentos” oferecem uma garrafa de vinho a Andula e suas amigas. Andula, entretanto, está de olho no carinha mais interessante do pedaço: o jovem pianista. Fim de baile. O pianista atrai Andula a seu quarto, sob o pretexto de “ler sua mão”.

            Os amores de uma loira é um título enganoso. A loira em questão não é promíscua ou devassa. Simplesmente uma adolescente sedenta de paixão. Uma semana depois do encontro, Andula vai de mala e cuia para Praga, atrás do pianista. O interrogatório a que é submetida pela mãe do pianista é hilário.



            Misturando desilusão com risadas em rápidos 85 minutos, Os amores de uma loira concorreu a Melhor Filme Estrangeiro em 1966. Chamou a atenção de Hollywood para o seu diretor. Milos Forman é um bom exemplo de cineasta europeu que se adaptou à indústria sem perder a alma. Continuou fazendo filmes de seu interesse e de grande qualidade.  Levou o Oscar de Melhor Diretor em duas oportunidades: Um estranho no ninho e Amadeus. Realizou o ótimo O mundo de Andy, com Jim Carrey. Para o cinema não se perder como arte necessita de cineastas íntegros como Milos Forman.

            Alguém aí pode se perguntar: por que se importar com filmes tchecos preto & branco da década de sessenta?  Qual o propósito de assistir e, pior, resenhar um filme "velho"? Demonstrar cultura, ser diferente?

            A resposta, meu amigo, o vento está soprando. Hoje, o cinema é consumido quase completamente na sala de projeção. Pouco ou nada do que se vê sobra para comentar ou debater.
            Cineastas como Milos Forman desconstroem uma frase que já esteve em voga: "É um bom entretenimento se você desligar o cérebro”. Os filmes de Forman entretêm e ao mesmo tempo deixam o cérebro ainda mais ligado. E outra maneira de manter o “cérebro sempre ligado” é conhecer um pouco da história do cinema.



Sunday, April 01, 2018

THE BAND OF HOLY JOY

Este é o segundo de uma série de posts com textos dos fanzines Wall of Sound e Planet of Sound.

Os textos eram produzidos, enviados via correio, depois datilografados e montados na cópia máster. Em seguida, cópias eram feitas com xerox.

Esta é capa do Wall of Sound #1, no qual foram publicados os textos do Throwing Muses e também o reproduzido abaixo, sobre a Band of Holy Joy.





The Band of Holy Joy continua ativa, mais informações no site oficial da banda. As faixas do inesquecível álbum manic, magic, majestic hoje podem ser compradas digitalmente no site Bandcamp.









ESTA PÁGINA FOI ESCANEADA DO 1º NÚMERO DO ZINE
WALL OF SOUND,
EDITORA-CHEFE: JUSSARA MARIA ROCHA DAS NEVES

Thursday, March 29, 2018

A FORMA DA ÁGUA NÃO PASSOU NO TESTE ANTIPLÁGIO





ESTE POST CONTÉM SPOILERS 

SOBRE O TEXTO DE PAUL ZINDEL,

LET ME HEAR YOU WHISPER.




Del Toro continua negando peremptoriamente qualquer influência do trabalho de Zindel em seu roteiro dito "original". 

Também afirma peremptoriamente nunca ter lido a peça teatral Let Me Hear You Whisper.

Pois se é verdade que ele não tenha lido a peça antes de escrever o roteiro (coisa que eu particularmente não acredito), ele deveria ter a humildade suficiente para ler agora.

Pelo simples fato de que é um texto excelente.


Mais simples, porém mais honesto e contundente que o oscarizadamente confuso e "olha-só-o-quanto-eu-sou-politicamente-correto" A forma da água.

Sim, não resisti. 

Baixei a peça teatral Let Me Hear You Whisper no meu Kindle pela bagatela de R$2,53.

À medida que fui lendo as cenas, fui soltando suspiros, porque a Elisa de Del Toro é tão parecida com a Helen de Kindel.

E a relação entre o golfinho e Helen é muito, mas muuiito parecida com a relação entre Elisa e "a forma disforme".

Senão, vejamos.

Helen é uma moça calada e eficiente, e, em seu cargo de funcionária da limpeza, tem até uma técnica exclusiva para deixar os pisos mais limpos: misturar um pouco de vinagre com o detergente.

Ela é a nova faxineira do laboratório comandado pela Dra. Crocus (aliás, todas as personagens da peça são femininas, à exceção do golfinho, que aparentemente é um macho.)

Ela está sob as ordens de Miss Moray, a supervisora da limpeza de todo o prédio. Também temos Danielle, a porteira tagarela, e a Sra. Fridge, a austera ajudante da Dra. Crocus.

O golfinho não interage com mais ninguém, exceto com Helen.

Quando Helen está sozinha com o golfinho, o mamífero inclusive começa a pronunciar palavras.
Entre outras: primeiro "You", depois "Book" e, no final, "Love".

O golfinho é alimentado por Helen (fatias de presunto).

Helen cria uma profunda afeição pela cobaia de laboratório, como acontece com Elisa e a forma disforme.

Helen tem algumas alucinações e viagens, momentos em que o fantástico predomina, em que ela visualiza a Dra. Crocus falando coisas.

Esse elemento de fantasia está muito presente em A forma da água de Del Toro.

O fato de Elisa ser muda é também curioso.

A peça de Zindel (que teve uma adaptação para a tevê em 1969) gira em torno do experimento da Dra. Crocus que tenta a todo pano fazer o golfinho falar. 

O golfinho não fala na presença das cientistas, só na presença de Helen.

Por quê? - quer saber Helen.

O golfinho responde: "Booook".

Helen pergunta a Danielle sobre algum livro que envolve o experimento, e Danielle mostra o folder que explica as metas bélicas da comunicação com os golfinhos. Usar os golfinhos a favor de coisas malignas para o planeta e para outros povos.

Por isso que o golfinho recusa-se a falar, mesmo sabendo que se não falar será dissecado.

Perto do final da peça, ele pede para que Helen o salve, levando-o para o rio, depois para o mar.

Fala duas palavras:

- Hamper. 

E depois

- Sea.

Será que Helen conseguirá fazer o resgate milagroso de seu amigo golfinho?

Até nisso a peça é superior: o final é mais coerente e lógico.

Enfim, ao concluir a leitura, senti vergonha por Del Toro.

É uma vergonha uma pessoa se inspirar no trabalho de outra e simplesmente negar, fazendo alegações vagas para se defender.

Ele afirma que não leu a peça. O.k. Outros já plagiaram sem ler, também. Lendo apenas a resenha, ou resumo da peça. 

Yann Martel fez uma coisa parecida com o gaúcho Moacyr Scliar.

Martel, ao ser acusado de plágio, primeiro negou, mas depois confessou ter lido uma resenha da noveleta Max e os felinos, do brasileiro que se tornou imortal da ABL.

E digo mais: foi uma pena Scliar não ter buscado compensação financeira. Contentou-se com o reconhecimento público de Martel.

Não é suficiente. Nesse mundinho em que vivemos, money talks, bullshit walks

Quanto Martel e família lucraram com os direitos autorais do livro As aventuras de Pi e também com a venda dos direitos para a adaptação fílmica?

Será que o autor ou os descendentes do autor que teve sua obra usurpada (ou plagiada, ou escolha o nome que você preferir) não mereceriam uma porcentagem dessa grana preta?

Agora, uma palavra sobre a questão judicial Espólio Zindel x Del Toro e produtores do filme.

Se o juiz deste processo tiver um pingo de sensibilidade literária e se dedicar ao prazer de ler a peça e ao sofrimento de ver o filme, terá que dar ganho de causa ao espólio de Zindel.

E digo mais: a Academia deveria retirar o Oscar de Melhor Filme e dar a estatueta ao segundo colocado da votação.

Para mim, este plágio descarado deveria ter o mesmo efeito que um "doping" tem no mundo esportivo.

Shame on you, Mr. Del Toro.

Devolva o Oscar e pague os direitos autorais. 

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O que diria Paul Zindel sobre essa controvérsia?

Será que absolveria Del Toro? Será que se contentaria com o reconhecimento de uma mera 'inspiração'? Aprovaria a reclamação judicial?


Certo é que o prolífico escritor, cuja filha também é uma talentosa escritora, jamais se aposentou e escreveu até morrer, cumprindo à risca a seguinte resposta que ele deu em uma entrevista:

Do you think you will always write?Yes! Everyone else gets to retire. Writers never retire, because their minds are constantly needing to create fictional worlds in which they can become alive. Writing is a dream; it doesn't stop until death. And even then, maybe it still goes on!


Paul Zindel




Monday, March 26, 2018

O estranho que nós amamos

The Beguiled, o filme de 1971, tinha Clint Eastwood no papel do cabo ianque John McBurney, contracenando com Geraldine Page como Miss Martha, dirigidos por Don Siegel, o especialista em policiais que se tornou conhecido como diretor da franquia Dirty Harry.

The Beguiled, o filme de 2017, tem Colin Farrel no papel do cabo John e Nicole Kidman na pele de Miss Martha, sob o comando de Sofia Coppola, que conquistou o mundo com Lost in Translation.

Os dois baseiam-se no livro A Painted Devil (1966), de Thomas P. Cullinan. A articulista do Huffpost, Jennifer Queen, afirma que o "livro é muito mais feminista do que o remake de Coppola".

Não vou entrar nessa discussão, mesmo porque pode existir uma diferença entre perspectiva feminina e feminista.

Seja como for, O estranho que nós amamos (sim, este é o bizarro título nacional do primeiro e do remake) é uma espécie de A casa das sete mulheres, versão norte-americana.

Três mulheres e quatro meninas se tornam anfitriãs e salvadoras de um cabo inimigo ferido. A história se passa no Sul e o cabo é nortista. Todas as sete acabam se encantando pelo sedutor jovem (daí o termo beguile, que significa encantar, seduzir). O próprio rapaz também fica meio perdido, sem saber direito a quem direcionar o seu interesse. As três adultas entram em competição mais acirrada: Miss Martha (Nicole Kidman), Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning). As idades delas não são mencionadas, mas calculo que sejam 50, 35 e 19. 



Como vai acabar esta história?

O que vai acontecer com esses personagens quando o ferimento do cabo John estiver curado e ele estiver prestes a ir embora?

Nesta pérola de humor negro que revela o melhor e o pior do ser humano, Sofia Coppola mostra que continua construindo uma filmografia coerente e de "grife". 



Sunday, March 25, 2018

THROWING MUSES



Adolescente enviei uma carta à seção do leitor da Som Três. "Compro letras do The Cure." Incrivelmente recebi uma resposta de uma fã carioca do The Cure, e aquilo foi o começo de uma correspondência que resultou, entre outras coisas, em ser apresentado ao maravilhoso mundo dos fanzines.

Apaixonados por escrever, apaixonados por rock, jovens uniam as duas paixões em publicações underground, como o Wall of Sound e o Planet of Sound, que circulavam artesanalmente país afora.

Em uma série de posts que começa hoje, vou resgatar os textos que escrevi para esses fanzines.

Neles, os leitores deste blog conhecerão mais uma faceta minha.

O Henrique Guerra fã de rock alternativo, talvez alternativo até demais. De algumas dessas bandas vocês talvez jamais ouviram falar.

Entre no YouTube, pesquise e se delicie com essas imortais bandas do final dos 80, começo dos 90.







THROWING MUSES


No ano passado, benfazejas correntes oceânicas trouxeram à nossa costa um peixe jamais visto no meio tupiniquim. Quem tomava contato com a referida criatura ficava literalmente atônito pela expressão de paranoica          angústia  em seu olhar e, principalmente, pela incrível e contagiante energia que fluía de sua bizarra tez.


As 'correntes oceânicas’ de que   falo são o Es túdio   Eldorado  e o selo Stilleto, por lançarem a coletânea da 4AD "LONELY IS AN EYESORE" , e o  peixe é ele próprio: “FISH”, a estraçalhante faixa do THROWING MUSES, de cuja letra  foi extraído o título da coletânea.


Metáforas infames à parte, e com o lançamento deHUNKPAPA”, seu ·mais recente trabalho, virá bem a calhar uma  rápida conversa sobre  esta  brilhante banda.

Foi formada em Boston por Kristin Hersh, uma loira já mamãe, responsável pela  maioria das  composições, o peculiar vocal principal uma  das guitarras; Tanya Donelly, também loira, guitarrista, vocalista e compositora; a mulata afro-americana Leslie Langston, que    manuseia        sua bass guitar de maneira exemplar; e, por fim, David Narcizo, um algo mais que competente baterista, cuja experiência na "cozinha" vem da adolescência  quando era auxiliar numa padaria.

Estrearam em  disco em  86  e, desde então, vêm construindo uma sólida carreira, sempre calcada em um rock básico, de sonoridade simples, porém vibrante,  costurada por letras carregadas das  múltiplas neuroses da nossa época.

Seguindo o primeiro LP, homônimo, o THROWING MUSES lançou: CHAIN  CHANGED   (EP   -  1987), THE  FAT   SKIER (EP -1987), HOUSE TORNADO (1988) e HUNKPAPA (1989).

Levando o nome da divisão dos Índios Sioux   liderada por Touro Sentado,  HUNKPAPA"  tem algumas    canções dispensáveis, como "TAKE", mas que não comprometem a força do conjunto. Os  destaques  vão para  a  desconcertante "BEA", a batida cativante de "I’M ALIVE”  e a alucinada "MANIA".  Sobre  esta  última, fico a   imaginar o que  o  sábio chefe indígena          faria   ao     ouvi-la. Uma  coisa  é certa: sentado, ele não ficaria.


Henrique Guerra























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Wednesday, March 14, 2018

Três anúncios para um crime



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Martin McDonagh tem como uma de suas influências David Mamet, outro dramaturgo que se aventurou, com sucesso, a fazer a migração dos palcos às telas. Mamet é autor do livro Três usos da faca, em que preconiza a importância de textos enxutos, da poda, do processo de cortar palavras em excesso, deixando apenas o "osso". 

Em 2001, com apenas 30 anos, McDonagh já tinha uma carreira respeitada, com peças teatrais ambientadas no meio rural irlandês, incluindo O tenente de Inishmore.



A transição para o cinema aconteceu gradativamente, com o "empurrãozinho" de nada menos que um Oscar de Melhor Curta de Ficção (Six Shooter, 2004).

A partir daí lançou três longa-metragens:

Na mira do chefe (In Bruges, 2008),

Sete psicopatas e um shih tzu (Seven Psychopats, 2012) e este

Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri (2017), o mais bem-sucedido artística e comercialmente.

Três anúncios para um crime tem essa qualidade. O texto do pupilo de Mamet é cortante, aguçado. O bom roteiro é uma base para qualquer grande atuação. Não é à toa que dois membros do elenco foram premiados pela Academia.

 O humor permeia os diálogos, as situações. A tensão é perceptível. McDonagh é o mestre do contraste. Algumas cenas alcançam um impacto intenso, como a sequência em que uma carta sobre amor é lida em meio a um inferno de violência. 




Monday, February 19, 2018

Um longo caminho


O diretor Zhang Yimou, enquanto filmava a trilogia Wuxia, mais exatamente após Herói e O clã das adagas voadoras, fez uma pausa para realizar este filme que se passa entre o Japão e a China, e cujo tema principal é a dificuldade de comunicação entre os seres humanos.

Essa dificuldade é mostrada de várias formas, mais diretamente na dificuldade linguística que japoneses e chineses enfrentam para se entenderem. Mas na verdade isso é apenas um detalhe que enfatiza uma dificuldade de comunicação mais prosaica e singela: a dificuldade que pessoas da mesma família têm de pedir desculpas, fazer as pazes, viver relacionamentos afetuosos e sinceros.

Mais especificamente, Um longo caminho (Riding Alone for Thousands of Miles, 2005) aborda a relação entre pai e filho. O foco concentra-se no pai, o sr. Takata, interpretado pelo ator japonês Ken Takakura, que é chamado pela nora para visitar o filho Kenichi que foi hospitalizado em Tóquio. O filho se recusa a ver o pai, em razão de um ressentimento antigo. A nora entrega ao sogro uma fita de VHS sobre as viagens de Kenichi a China.
Na fita, um ator de uma ópera folclórica chinesa alega problema na voz, mas promete interpretar a ópera em outra ocasião. Surge então a vontade do pai se redimir diante de seu filho e de mostrar que se importa com ele: viajar à província de Yunnan, na China, para filmar a apresentação da ópera.



Essa é a premissa talvez um pouco frágil em torno da qual o filme se desenvolve. 

O espectador precisa aceitar essa aparente fragilidade do roteiro, qual seja, a de que um homem já vivido resolva fazer uma longa viagem e se afastar do filho, exatamente quando precisa estar perto dele.

Mas a medida extrema resume um pouco a personalidade obstinada do sr. Takata. E também explicita a forma com que cada um enfrenta problemas afetivos e a ameaça de perder um ente querido.

Uma das estratégias narrativas do filme consiste nas ligações telefônicas entre a nora e o sogro. Ela o informa do diagnóstico: câncer terminal no fígado. Isso deixa o sr. Takata mais ainda convicto de que precisa realizar a filmagem.

Na China, ele tem o apoio da intérprete Jasmine. Com paciência, educação e delicadeza, ela verte as falas do japonês ao chinês e vice-versa, e mantém a fleuma mesmo diante da solicitação do sr. Takata para substituí-la. 



Um complicador ainda surge na busca de redenção do sr. Takata. O ator/cantor que aparece na fita VHS agora está preso, e filmar numa prisão chinesa vai exigir ultrapassar várias barreiras burocráticas. 

Surge um dos subtemas do filme: até que ponto a obstinação de uma pessoa a permite superar barreiras aparentemente intransponíveis? A decisão mais óbvia seria desistir do intento, mas esta palavra, desistência, parece não existir no dicionário do sr. Takata.

Assim, uma a uma, as dificuldades vão sendo transpostas.

Mas quando para completar sua tarefa autoimposta o sr. Takata precisa viajar a uma aldeia remota e se aproximar de um serelepe menino de 8 anos, será que o sisudo e pragmático senhor conseguirá?

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A exemplo do que fez em Nenhum a menos, o diretor Zhang Yimou apostou na escolha de atores sem experiência prévia, para interpretar a maioria dos papéis coadjuvantes. Impossível não citar o carisma e a facilidade do menino Yang Zhenbo, que vive o garoto Yang-Yang. As melhores cenas do filme são aquelas em que o pequeno, com sua inocência e pureza, contracena com o grande Takakura.

A China revelada em Um longo caminho é mais otimista, por exemplo, do que o país aflito e em desagregação mostrado no filme Em busca da vida, do cineasta Jia Zhang-ke.

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Yimou mostra o interior das prisões, as inter-relações humanas e também a vida simples nas aldeias sob um prisma construtivo. E usa as paisagens como ferramenta para contar a história.

Esse uso das paisagens não passou despercebido na obra Cinema and Landscape, que observa: "Um longo caminho mostra a paisagem da China como um espaço em que mudanças positivas podem ocorrer. (...) A paisagem chinesa abre a possibilidade de conexão entre diferentes culturas, idiomas e música, e, em última análise, famílias chinesas e japonesas".

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Uma curiosidade. Nos extras, o ator Ken Takakura (falecido em 2014) elogia o diretor Zhang Yimou, comparando-o, por seu dinamismo e atenção com todos os detalhes, e a vontade de participar de todas as decisões, com outro diretor com quem ele trabalhou (em Black Rain): Ridley Scott. Que, por sinal, também está na minha lista dos TOP TEN.

Tuesday, February 06, 2018

A forma da água


Deformação. 

Pois é. Eis-me aqui, o arauto do olhar cinéfilo, o defensor dos diretores oprimidos pelas críticas ferozes, na situação de estar prestes a me tornar um iconoclasta. 

Guillermo del Toro é um diretor que acompanho e costumo apreciar o seu geralmente honesto pendor pelo fantástico, visto, por exemplo, em estranhezas como O labirinto do fauno A colina escarlate. 

Nada mais natural que eu me colocasse na posição de ficar torcendo para A forma da água levar o Oscar de Melhor Filme. Em se tratando de um cinéfilo que se considera coerente e fiel aos cineastas preferidos, isso seria mais do que natural. Seria naturalíssimo.

Só que não.

A forma da água é um pastiche de pretensas críticas ao "sistema", um amontoado de cenas ansiosas para levantar bandeiras e avisar: olhem só, eu sou politicamente correto!

Nessa vibe, Del Toro cria o vilão mais estereotipado dos últimos tempos: machista, consumista, chauvinista, torturador, militarista.

Torço mesmo para que, entre os 9 concorrentes, existam filmes melhores e menos "ansiosos" por ganhar o Oscar do que Dunkirk e A forma da água. Entre os favoritos, só falta assistir a Três anúncios para um crime, que estreia dia 15 de fevereiro. Mas se fosse para escolher entre Dunkirk e A forma da águaDunkirk seria a minha escolha.

Por mais pretensioso que o Christopher Nolan consiga ser, Dunkirk é um filme infinitamente melhor que este conformado A forma da água

Nem a boa atuação de Octavia Spencer como a amiga da moça muda salva o filme. Ela também é casada com um marido estereotipado, um estafermo feito sob medida para agradar as feministas.

Nem a caracterização de uma indústria do cinema em recessão, perdendo o fôlego diante do fenômeno da televisão salva o filme.

Nem a homenagem ao clássico O monstro da lagoa negra (The creature from the black lagoon, 1954) salva o filme.

A acusação de plágio não ajuda muito nesse contexto. 

Let Me Hear You Whisper, de Paul Zindel, tem um enredo no mínimo com elementos semelhantes. Del Toro alega desconhecer a peça teatral sobre a senhora da limpeza que tenta salvar um golfinho que é cobaia de laboratório. Mais informações sobre as flagrantes semelhanças das duas obras você pode encontrar neste post.

Certamente o diretor mexicano não desconhece o conto A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe, no qual ele pode ter se inspirado para realizar A colina escarlate. Confesso que fiquei esperando alguma menção tipo "inspirado na obra de Edgar Allan Poe", mas talvez Del Toro tenha considerado desnecessário.

Acontece que no caso de A forma da água estamos falando de direitos autorais em plena vigência, enquanto a obra de Poe está em domínio público. 

Vamos acreditar na palavra de Del Toro. Ele nunca ouviu falar antes dessa tal peça teatral. Mas será mesmo que nenhuma pessoa em toda a produção do filme não notou as flagrantes semelhanças entre as duas histórias? Smells like very unlikely.

O desinformado Del Toro realizou um filme repleto de ideias disformes: A forma da água.