Monday, January 21, 2019

O mensageiro do diabo


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A trajetória de um(a) cinéfilo(a) pode ser definida por em qual momento em sua vida ele/a enfim conseguiu assistir a The Night of the Hunter

Para mim esse momento foi domingo dia 20 de janeiro de 2019.

O dvd usado comprado por 5 reais na Zílvia Locadora de Passo Fundo foi finalmente disposto no prato do Blu-ray player.

Diferentemente do que costumo fazer, desta vez não convidei mais nenhum outro morador da casa para assistir comigo.

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Primeiro porque não tinha me aprofundado sobre o enredo e segundo porque considerei que um filme clássico dos anos 1950 em preto e branco não atrairia o interesse de minha esposa e de meus filhos.   

Mas eis que o inusitado acontece e a música marcante de Walter Schumann despertou a curiosidade dos guris que logo se sentaram a meu lado. A minha esposa limitou-se a olhar com desdém.* 

O pequeno de 6 anos gostou do começo, pois o filme é do ponto de vista das crianças, mas abandonou a sessão após uns quinze minutos; não conseguia ler as legendas com a rapidez necessária.

O maior de 11 anos assistiu ao filme comigo e ainda reclamou por não ter sido oficialmente convidado.

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The Night of the Hunter! Onipresente nas antologias, cantando em prosa e verso por Movie Guides de todos os estilos e línguas. 

Fracasso de público na época, tornou-se gradativamente muito respeitado por seu valor artístico.

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Roger Ebert incluiu-o em seu livro A magia do cinema.

O grande ator Charles Laughton, porém, não viveu para ter o reconhecimento como diretor.

The Night of the Hunter foi o seu primeiro e único filme. O fracasso comercial e a falta de compreensão com as ousadias artísticas do filme o deixaram abalado. 

Parece que o filme não tinha o perfil necessário para ser comercializado de modo a não perturbar algumas instituições importantes.

Adaptação do romance homônimo de Davis Grubb, publicado em 1953, teve na direção de arte um grande talento, Hilyard Brown.

Ele fazia aquarelas durante a produção, como a reproduzida a seguir:

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 O próprio autor do livro, Davis Grubbs, colaborou diretamente com Laughton, também enviando desenhos de como concebia as cenas. O roteiro foi o último trabalho de James Agee, que faleceu em 1955 devido ao alcoolismo; em 1958, o seu romance autobiográfico A Death in the Family recebeu o Prêmio Pulitzer.

Durante os momentos antes das filmagens, Charles Laughton e o diretor de fotografia Stanley Cortez assistiram a vários filmes do cinema mudo, em especial, os clássicos de D. W. Griffith.

A influência pode ser sentida nas tomadas longas e também na inclusão das clássicas "tomadas íris", em que a câmera parece ir fechando como a íris de um olho humano.

Sobre os métodos de Laughton como diretor, existe um fato bastante revelador sobre como ele sabia lidar com as pessoas, principalmente os atores como ele. Laughton escolheu o elenco sem "passar o texto". Em vez disso, convidava os candidatos a sua casa e passava uma tarde com eles, falando sobre diversos assuntos. Isso já era suficiente para ele tomar a decisão.
Uma das sequências mais belamente aterradoras é a dos irmãozinhos descendo o rio. A pequerrucha entoa a lullaby "Once upon a time there was a pretty fly".


E qual é o sentimento do cinéfilo que enfim ter a oportunidade de assistir a um filme como The Night of the Hunter

O que permanece após a sessão é uma sensação de completude. De alegria por ter esperado o momento certo. E da certeza de que grandes filmes surgem por uma conjunção de fatores, entre eles, a feliz reunião de vários talentos multidisciplinares. 

*Mas, ponto para ela: mais tarde ela sentou-se ao meu lado e assistiu parte dos extras comigo. ;)



Sunday, January 20, 2019

O destino de uma nação


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O britânico Joe Wright alcança em Darkest Hour (O destino de uma nação, 2017) talvez o melhor momento de sua carreira como diretor.

Após estrear com Orgulho e preconceito (2005), construiu uma filmografia bastante calcada em temas essencialmente britânicos, com adaptações de obras de autores clássicos como a já citada Jane Austen, J. M. Barrie e Ian McEwan. O gosto por adaptações literárias aparece também em sua parceria com o roteirista Tom Stoppard, que adaptou Anna Karenina de Leon Tolstoy. Em 2011, Wright também enveredou pelo suspense com o curioso Hanna, com Saoirse Ronan.

Joe Wright é um diretor relativamente prolífico; a cada 2 anos, em média, realiza um novo trabalho. A sua predileção por Keira Knightley também é notória. A atriz participa de 3 filmes dos 7 que compõem a sua filmografia.

Em O destino de uma nação a atriz jovem mais proeminente é a atualmente ubíqua Lily James, no papel da secretária de Churchill. Inicialmente tratada com frieza e até rispidez pelo líder político, a datilógrafa Elizabeth Nel vai conquistando o respeito e até a amizade do bochechudo personagem.Resultado de imagem para darkest hour

Esse, aliás, é um dos méritos do roteiro: humaniza Churchill e o mostra estabelecendo contato com pessoas importantes como o Rei Jorge VI (Ben Mendelsohn) e com o povo. A cena em que Churchill abandona o carro oficial e pega o metrô para "ouvir a voz do povo" é a mais emblemática e emocionante do filme. 


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A ação concentra-se no mês de maio de 1940, em que houve a troca de primeiro-ministro na Inglaterra numa situação de alta periculosidade e vulnerabilidade nas relações internacionais. Aí que entra em cena um político já marcado por erros no passado, em especial, a desastrosa campanha em Gallipoli na Primeira Guerra Mundial. O roteiro dá algumas pinceladas sobre o assunto e explora como Winston foi aos poucos conquistando o apoio de todos em sua ferrenha campanha antinazista.
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A fotografia e o uso da luz é um dos pontos altos de Darkest Hour. Esses aspectos são abordados nesta reportagem.

As nuances do personagem foram muito bem aproveitadas por Gary Oldman, que pela interpretação ganhou merecidamente o Oscar de Melhor Ator.

Nesta entrevista, Oldman e Wright (que superou a dislexia para tornar-se um cineasta premiado) falam sobre o filme.





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Saturday, January 19, 2019

Near Dark: o cult movie de Kathryn Bigelow



Os cultuadores do filme Quando chega a escuridão (Near Dark, 1987) não se surpreenderam quando Kathryn Bigelow se tornou a primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Diretor(a), com o filme Guerra ao terror.

Near Dark foi sua estreia como diretora solo (ela já havia codirigido The Loveless, primeiro filme estrelado por Willem Dafoe). 

E em plena estreia, Bigelow não brincou em serviço. Em 40 dias e 40 noites de filmagens, tendo como diretor de fotografia Adam Greenberg (de O exterminador do futuro), a moça na época com 36 anos realizou uma verdadeira preciosidade do cinema independente, demonstrando um talento para juntar um elenco forte e dar liberdade aos atores para construir personagens inesquecíveis, vivenciando um conto neogótico sobre instinto, atração e laços de sangue.




O roteiro (de Bigelow e Eric Red, que também escreveu A morte pede carona) é contado sob o prisma de Caleb (Adrian Pasdar), um cowboy que se interessa por Mae (Jenny Wright), um misteriosa forasteira. E como todo bom cowboy, o moço não perde tempo. Bateu o olho na moça e "chegou" nela. O resultado foi uma noite de atração à flor da pele, sob as estrelas.

A paixão entre os dois é o combustível que alimenta o filme e torna a história crível.

Pois o mundo em que Caleb está prestes a entrar é um mundo para o qual ele não estava preparado.

Mae pertence a um grupo estranho de pessoas que vaga por cidades pequenas em busca de sobrevivência. De aliviar uma compulsão insaciável. 

Mas o que o bando composto por Mae, Jesse Hooker (Lance Henriksen), Diamondback (Jenette Goldstein), Homer (Joshua John Miller) e Severen (Bill Paxton) procura não é uma droga simples, como álcool ou cocaína. São seres que precisam de sangue humano fresco.

A trupe de vampiros modernos agora têm um novo membro, o namoradinho Caleb. 



A estrutura das duas famílias está ameaçada.

Com a inoperância da polícia, o pai de Caleb e sua irmã Sarah partem no encalço dos raptores.

Por sua vez, o "wild bunch" liderado por Jesse Hooker dá um ultimato a Caleb. Ele precisa aprender a matar ou será eliminado.

Acho que já é o bastante sobre o roteiro.

Contar mais seria estragar surpresas e o que eu desejo com este post é que mais cinéfilos queiram assistir ao filme. 

Para saciar sua fome de viver e de ver filmes extremamente cults.




Com a música atmosférica do Tangerine Dream e com uma delicadeza paradoxal para um filme de terror, Quando chega a escuridão é um daqueles cults imortais, que podem ser assistidos várias vezes.

Embora relativamente difícil de conseguir, o cinéfilo decidido conseguirá o intento de enfim colocar este raro dvd no prato do dvd player.

Em Porto Alegre, por exemplo, a eterna locadora E o vídeo levou tem o filme no acervo.


É da Versátil o dvd e faz parte da coleção "Vampiros no cinema".

A propósito, este blog homenageia a mitologia transilvânica no post Vampiros: uma revisão.

 
Em tempo! Existe uma curiosidade sobre este filme: três dos atores principais também participaram de outro filme clássico dos anos 80.

O trio Lance Henriksen, Bill Paxton e Jenette Goldstein pode ser visto também em Aliens (1986), de James Cameron.







  

Tuesday, January 15, 2019

HOMEM-ARANHA: NO ARANHAVERSO

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A Sony disponibilizou o roteiro do filme ganhador do Globo de Ouro de Melhor Animação. 

É o reconhecimento da produtora quanto à importância do texto de Phil Lord e Rodney Rothman para o sucesso da animação.

Por sua vez, o roteiro é inspirado na série de graphic novels de Brian Bendis e Sara Pichelli.

Homem Aranha: No Aranhaverso é uma experiência visual revolucionária. Temos a impressão de estar caminhando pelas páginas de uma graphic novel da melhor qualidade.
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As personagens principais são bem construídas, e é fácil de o espectador se colocar na pele de Miles Morales.


Phil Lord (roteirista) e Chris Miller (produtor) falam sobre detalhes do filme nesta entrevista:


Se eu pudesse dar um conselho a quem lê este blog, seria: tente assistir ao filme numa sala IMAX.

Assistimos em uma sala 3-D de boa qualidade, mas acredito que em IMAX a experiência seria ainda mais contundente.


Sobre as chances de Homem-Aranha no aranhaverso ser indicado ao Oscar de Animação de 2019, este artigo não é muito otimista.

Mas como aquela turma da Academia tem sido meio imprevisível nos últimos tempos, não custa ficar na torcida.
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Sunday, January 13, 2019

Ciclo Wes Anderson no Santander Cultural de Porto Alegre

Em dezembro último aconteceram dois eventos culturais  simultâneos dignos de nota na capital gaúcha, ambos nas dependências do Santander Cultural.




A exposição sobre o poeta Fernando Pessoa alimentou a curiosidade das novíssimas gerações sobre o grande escritor da língua portuguesa.

Paralelamente o cinema do Santander fazia um ciclo garimpando raridades da filmografia de Wes Anderson, um dos cineastas mais talentosos em atividade, que gosta de abordar o tema da inocência.

Aproveitei a oportunidade para ter uma visão mais ampla de sua trajetória. Em posts anteriores, resenhei Viagem a Darjeeling, Moonrise Kingdom e Ilha dos cachorros.


Neste ciclo de dezembro de 2018, assisti a três sessões e nos intervalos pude visitar a interessante exposição sobre Fernando Pessoa.




Do ciclo de Wes Anderson assisti a dois filmes encordoados no sábado (Três é demais e Pura adrenalina) e uma no domingo (O fantástico Sr. Raposo), na companhia da mulher e dos filhos.



TRÊS É DEMAIS (RUSHMORE, 1999)
Narra a vida de um aluno sui generis da escola Rushmore. Ele ama tanto a escola que não quer sair dela. Por isso, envolve-se em um sem-número de atividades paralelas e chefia clubes e mais clubes. Também se torna o diretor de teatro e compõe roteiros e realiza peças originais. Outro fio condutor da história é a paixão que Max nutre pela professora (Olivia Williams) e a amizade que ele cultiva com o pai de dois colegas (Bill Murray). Wes Anderson já começa a definir um estilo.



PURA ADRENALINA (BOTTLE ROCKET, 1996)
O primeiro longa-metragem e, por isso, talvez o mais irregular. Anderson dá sinais de uma genialidade latente e tateante, mas ainda apresenta defeitos formais e no andamento do filme. Com influências dos irmãos Coen (Arizona nunca mais), o filme acompanha os planos malfadados de um trio de amigos de classe média que resolve se dedicar a roubos. Estrelado pelos irmãos Wilson (Owen e Luke), focaliza também o romance de Anthony (Luke Wilson) e a camareira paraguaia Inez (Lumi Cavazos). O filme é a extensão de um projeto homônimo, o curta Bottle Rocket, disponível aqui.



O FANTÁSTICO SR. RAPOSO
Animação inovadora e "exhilarating", de longe o melhor dos três filmes a que assisti no ciclo.

Anderson nos conta a história de uma família de raposas capitaneada por um senhor ladino e cheio de truques, o Sr. Raposo.

Sem dúvida, em termos narrativos e visuais, é um dos pontos altos da exígua, porém rica filmografia de Wes Anderson.

Em tempo: o roteiro baseia-se na obra homônima de Roald Dahl, publicada em 1970.

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Bela iniciativa dos curadores da sala de cinema do Santander ao disponibilizar filmes raros de um importante cineasta alternativo.

Mamma Mia: Lá vamos nós de novo

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Uma década após o lançamento de Mamma Mia!, chega às telas a continuação. É o reflexo do rico e vasto repertório da banda ABBA e também do incrível sucesso do primeiro filme.

Agora o foco é na inauguração do hotel Bella Dona por Sophie Sheridan (Amanda Seyfried) e na história de sua mãe, Donna Sheridan, contada em flashback.

Nesta entrevista, o diretor Oliver Parker explica os meandros do que ele chama de "twin stories":





(A Donna jovem é interpretada por Lily James.)


O romance de Donna com os três rapazes é contextualizado e o espectador tem uma noção melhor do que aconteceu.


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Embora o ABBA tenha muitas e excelentes canções, as mais alegres e dançantes tinham sido aproveitadas no primeiro.

Por isso, para a continuação, a primeira parte do filme é meio introspectiva, pontuada pelas "músicas lentas", mais românticas e tristes da banda sueca.

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Da metade em diante o filme dá uma guinada e torna-se mais leve, com a chegada de algumas pessoas bem-vindas (e uma não tão bem-vinda) à paradisíaca ilha grega.


Friday, January 11, 2019

Colette

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Em Colette, o diretor Wash Westmoreland dá a Keira Knightley a oportunidade de interpretar uma personagem complexa e rica de nuances psicológicos.




A cinebiografia traz um recorte da vida da escritora francesa, que, por muito tempo, conformou-se em ser a "ghost writer" do marido explorador.



Um material amplo sobre o filme, com resenhas, entrevistas, making-of e trailers, pode ser encontrado na página do filme no site da produtora Bleecker Street.

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O filme é uma boa introdução à vida de Colette, com boas atuações de Keira e de Dominic West, na pele do déspota Willy, o marido que tranca a esposa a chave até que ela produza as páginas necessárias a fim de cumprir os prazos na Editora.

Ao mesmo tempo em que focaliza a trajetória de Colette e o seu amadurecimento rumo à libertação, o filme também faz um retrato espantosamente irônico sobre o universo editorial.

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Tuesday, January 01, 2019

Bumblebee

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Nada como renovar a fé na arte cinematográfica em uma sala de cinema reformada, em plena beira-mar.

A sessão dominical de Bumblebee dublado e 3-D em Capão da Canoa teve esse ingrediente.

Nosso caçula de 6 anos é fã dos Transformers e não piscou durante o filme. A sessão com a família inteira, com direito a pipoca e tudo mais, foi quase perfeita. Ar condicionado em ordem, som e imagem bons. O único senão foi o corte dos créditos no final. Pareceu uma maneira de forçar o público a sair mais rápido da sala.



E quanto a BumblebeeO filme roteirizado por Christina Hodson tem uma trilha sonora irresistível que inclui Smiths, Duran Duran, Simple Minds, Tears for Fears, etc.

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A roteirista que é entrevistada aqui lança as bases para entendermos a origem do personagem, mas nunca perde de vista o leitmotiv do filme: a história de "coming of age" de uma garota que, após a morte do pai, se sente deslocada na própria família.

A escolha de Christina Hodson (roteirista de Refém do medo) para compor o roteiro não poderia ter sido mais certeira. Ela mostra um senso de humor e uma sensibilidade bastante raras no cinema de ação.

Essas qualidades são apropriadas para contar uma história cuja protagonista é uma moça enfezada prestes a completar 18 anos.

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Só que este aniversário será diferente de todos os outros. Afinal de contas, aquele fusca amarelo e enferrujado que está abandonado na oficina do tio não é exatamente o que aparenta ser.

O roteiro é eficaz em termos de introduzir a mitologia Hasbro/Transformers, apesar de algumas pequenas "licenças poéticas" e anacronismos. 

O mais divertido é o modo como Hodson usa e abusa de referências que vão desde Se meu fusca falasse até Como treinar seu dragão, passando por King Kong, tudo isso para formar um verdadeiro mosaico de citações multimídia.

A direção de Travis Knight, realizador da animação Kubo e as cordas mágicas, imprime um ritmo "de tirar o fôlego" com pitadas de uma estética bem anos 80.

Em suma, Bumblebee foi a maneira ideal para terminar o ano cinéfilo -- e de nos levar a esperar um 2019 de muitos e belos filmes.

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Sunday, December 23, 2018

Aquaman

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Não assisti a nenhum filme anterior de James Wan, mas pela amostra de Aquaman, estamos diante de um bom diretor.

E por que não assisti?

Mesmo sendo fã de terror, a franquia Jogos mortais não me atraiu o suficiente para que eu me desse o trabalho de conferir. Talvez agora eu assista o primeiro da série, o único dirigido por James Wan.

Vamos combinar que os filmes de Wan têm um sério problema de títulos aqui em terras tupiniquins.

Senão, vejamos.

Depois de Jogos mortais (2004), vieram Gritos mortais, Sentença de morte (2007), Sobrenatural (2011), Invocação do mal (2013), suas respectivas continuações Sobrenatural 2 (2013) e Invocação do mal 2 (2016), sem esquecermos da pausa do nicho "terror" para filmar o Velozes e furiosos 7.

Convenhamos que são títulos insossos que não exercem um magnetismo inerente.

Tudo isso para (tentar) justificar minha ignorância prévia sobre o estilo de Wan.

Mas logo no começo de Aquaman, durante a luta que envolve a princesa atlante interpretada por Nicole Kidman, eu murmurei: "Este diretor é bom".

A cena foi muito bem dirigida, e as câmeras foram colocadas em pontos de vista bastante eficazes.

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Ao longo do filme destacam-se confrontos marinhos e terrestres protagonizados pelo híbrido Aquaman, filho de pai humano e mãe atlante, em que o diretor James Wan pôde mostrar (em primeira mão, para espectadores desavisados como eu) seu virtuosismo atrás das câmeras.

E quanto ao roteiro deste filme da DC, tão criticada por ser menos bem-humorada que a Marvel?

Segundo consta, o relativamente novato Will Beall roteirizou a história criada por James Wan, que se considera alguém com senso de humor, realizador de filmes sombrios, mas divertidos, ou seja, temperados com cenas de alívio cômico.

Não vou dar spoiler, mas é impossível negar que Aquaman tem cenas que surpreendem pelo bom humor.

Ou seja, é um caso raro de "blockbuster" em que o diretor exerceu poder sobre o conjunto da obra, a ponto de influenciar no enredo e com certeza em outras decisões.

O filme é bastante eficaz no quesito "aventura" e "ritmo", além de trabalhar questões importantes para a humanidade hoje em dia, como a preservação da biodiversidade marinha, o combate à poluição dos oceanos, etc.

Aquaman é um herói com muito potencial a ser explorado. Que a DC continue dando autonomia a bons diretores para as inevitáveis continuações.

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Monday, December 17, 2018

A teoria de tudo

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O filme que deu o Oscar de Melhor Ator a Eddie Redmayne é a história de um grande amor, e de como um grande amor pode ser a base de uma carreira científica brilhante.

O filme dirigido por James Marsh mostra que, sem o amor e a dedicação de Jane Hawking, Stephen não teria tido o suporte familiar para continuar estudando e produzindo. Também não teria vivido para escrever seu best-seller "Breve história do tempo". É um filme que, mais do que nunca, confirma o clichê "Por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher".

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O roteiro baseia-se na obra de Jane Hawking e enfoca a relação de Stephen e Jane, em como os dois se conheceram e tiveram logo de enfrentar o diagnóstico terrível de uma doença incurável. Desde o começo, a inabalável decisão de Jane de ficar ao lado de Stephen foi essencial para que o jovem cientista pudesse continuar a vida e torná-la produtiva, apesar das dificuldades crescentes em razão da enfermidade. 
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Um dos momentos mais tocantes do filme é quando Stephen é internado em coma na França e o médico faz a Jane uma pergunta angustiante.



A Jane verdadeira, com sua simpatia contagiante e voz delicada, deu esta reveladora entrevista a uma rádio da Espanha (ela é fluente em espanhol pois fez seu Doutorado sobre Poesia Medieval Espanhola) (desnecessário dizer que não se recomenda assistir à entrevista antes de assistir ao filme, pois os entrevistadores dão spoilers):



A primeira esposa de Stephen conta nesta outra entrevista porque se decepcionou com alguns aspectos da adaptação, e de como as pessoas não devem levar ao pé da letra os detalhes de uma adaptação fílmica.


Por sua vez, o diretor James Marsh tem no currículo um Oscar de Melhor Documentário por O equilibrista (Man on Wire, 2009), que retrata as peripécias de Philippe Petit para cruzar sobre um arame estendido entre as torres gêmeas do World Trade Center em 1974.

A propósito, depois de A teoria de tudo, James Marsh emendou outro filme inspirado na vida real, Somente o mar sabe, em que Marsh volta a mostrar a capacidade de suscitar boas atuações. O diretor também repete a parceria com o compositor islandês Jóhann Jóhannsson, que veio a falecer em 2018, assim como o próprio Stephen Hawking.
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Saturday, December 15, 2018

Roma



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Alfonso Cuarón entrou para a história do cinema ao se tornar o primeiro cineasta a ganhar um Oscar de Melhor Diretor com um filme 3-D (Gravidade, 2013). 

O mexicano nascido em 1961 construiu um currículo curioso em que se destaca a alternância de filmes autorais e blockbusters

Roma, seu mais recente trabalho, pode ser conferido nos cinemas e por streaming. É o sinal dos novos tempos.

O filme começa com a tomada de um piso de lajotas. Todos os créditos iniciais são com essa imagem, que só muda quando água é acrescentada, e sabão, e a abertura prossegue em constantes e cada vez mais contínuas enxaguadas. A água serve também como espelho para refletir o que está acima do piso. Lá em cima, sob as nuvens claras, um avião atravessa discretamente o céu.

Assim Cuarón começa o seu filme. Sem pressa, sem badalação. E o que é mais desconcertante: sem cor. Roma é filmado em preto, branco e incontáveis tons de cinza.


Em uma análise simplista, Roma segue o ponto de vista de Cleodegaria Gutiérrez, ou apenas Cleo, a empregada doméstica que serve de amálgama a uma família de classe média, composta pelo casal, a avó, os quatros filhos e o cachorro Borras, que vive sujando a entrada da garagem.

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A rotina dessa família é desnudada sem a mínima pressa. Os personagens vão sendo apresentados e paulatinamente revelando suas facetas e idiossincrasias. Os dramas particulares de cada um vão sendo expostos.

O drama de Cleo precipita-se quando engravida do namoradinho inconsequente.

O drama da patroa é não menos complicado: o marido parece estar com a cabeça virada e decidido a abandonar a família.


O microcosmos dessa residência convencional com seus dramas convencionais torna-se algo pungente sob o olhar sensível de Cuarón.

Assim, em uma análise mais holística, o ponto de vista de Cleo serve de eixo narrativo para um retrato sociológico mais amplo, um verdadeiro romance de costumes do México do final da década de 60 e começo dos anos 1970. Havia no país uma turbulência, uma insatisfação, com manifestações de estudantes sendo abafadas com violência pelo governo.

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Em entrevista à Variety, o realizador explica as nuanças autobiográficas do filme, que é dedicado a Libo, a babá de Cuarón na vida real.

Como se trata de um filme com elementos autobiográficos, surge a pergunta: quem é Cuarón em Roma?

Resultado de imagem para roma filmeParece-me que Cuarón seria Pepe, o menino mais novo, que vive se fantasiando de astronauta e criando histórias mirabolantes junto com Cleo. Em uma cena de sabor particularmente emotivo, Cleo deita-se numa laje e encosta a cabeça à de Pepe, e os dois fingem estar mortos. Noutra Pepe ajuda a apagar um incêndio na floresta quando a família (sem o pai) está passando a virada de Ano Novo em uma fazenda.



Um perfil interessante de Cuarón pode ser conferido nesta reportagem do New York Times. A jornalista Marcela Valdes faz uma retrospectiva da trajetória do diretor e desemboca nas intimistas ideias e perspectivas de Roma.

Ao mergulhar fundo em suas memórias, Cuarón realiza um filme que tem o poder de evocar lembranças da infância, de trazer à tona momentos importantes e definidores de nossas vidas.
  




Thursday, December 06, 2018

O alucinante olhar de Sam Raimi




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O ALUCINANTE OLHAR DE SAM RAIMI

Aproveitando a revisita ao faroeste Rápida e mortalvou republicar um apanhado da filmografia de Sam Raimi.

Uma Noite Alucinante 2 é um filmaço de terror e humor apetecível para um nicho mercadológico específico: ou seja, pessoas com um parafuso a menos, multissequenciais, não lineares – pessoas que se permitem, de vez em quando, achar graça de bobagens... 

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Não que Uma noite alucinante 2 seja um filme bobo, muito antes pelo contrário. Para mim, é seríi­ssimo. Defendo esse filme com unhas e dentes. Os movimentos vertiginosos da câmera entrando na casa mal-assombrada são até hoje copiados. O lance da mão tomando vida própria, e o pobre Ash tendo de amputá-la com a motosserra, está entre as cenas ao mesmo tempo mais dantescas e estapafúrdias da história do cinema.
Depois pesquisei e descobri que Uma noite alucinante 2 (Evil Dead II- Dead by Dawn) é, na verdade, praticamente uma refilmagem, com orçamento mais polpudo, do primeiro filme de Sam Raimi, realizado em 83: Evil Dead (que no Brasil já saiu em ví­deo, com o estúpido tí­tulo A morte do demônio). A trilogia se completaria anos depois, com o lançamento de Army of Darkness (1992), que eternizaria o anti-herói Ash (Bruce Campbell) e a mais romântica frase já proferida em um filme de terror, dita a Embeth Davidz, antes de uma cálida noite de amor: “Give some sugar, baby”
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Depois veio Darkman, vingança sem rosto (90), onde, na verdade, começou a nova onda de filmes baseados em HQ. Dos créditos iniciais aos finais, Darkman é uma aula de como adaptar banda desenhada ao cinema. Não é para menos que, uma década depois, Sam Raimi seria escolhido como o olhar por trás da câmera da série Spider Man.

Ah, sim, antes que me esqueça: entre os dois primeiros Evil Dead, ele lançou uma comédia peripatética, com roteiro dos irmãos Coen: Crimewave (Dois heróis bem trapalhões). Este filme, realizado em 1985, “disponí­vel nas melhores locadoras”, é na linha de Arizona nunca mais, com umas pitadas noir. 

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Vai analisar, a obra de Sam Raimi é supercoeren
te. Estamos em 93. Está completa a trilogia Evil Dead. Sam Raimi já esgotou a fonte, usou e reusou o ator fetiche Bruce Campbell (que faz uma ponta em Darkman como o cara que se vira no fim do filme, em Spider Man como o apresentador das lutas e em Spider Man 2 como o barrigudo porteiro do teatro). Já fez parceria com os Coen. Já expressou a paixão pelas HQs. Qual é o próximo passo? Um western, é claro!!
Rápida e mortal (The Quick & The Dead, 95) é um faroeste clássico. Estarei exagerando? Clássico é adjetivo para Casablanca. Matar ou Morrer é um faroeste clássico, dirá algum estudioso da matéria. Bem, hipérboles à parte, o fato é que Sharon Stone, no auge da carreira, escolheu o diretor que quis, no roteiro que escolheu, e o resultado foi um estouro. Um dólar nem um pouco furado. E o elenco não deixa por menos: Russel Crowe, Leonardo DiCaprio, Gene Hackman, Lance Henriksen...
Mudança sutil de estilo veio com Um plano simples (98). Aqui, Sam Raimi afasta-se um pouco da virtuosidade visual e experimenta um tom mais sóbrio, centrado na direção dos atores. Um passo simples e à frente.
Toda banda boa tem seu disco ruim. E eis que a carreira de um bom diretor tem seus deslizes. Estou falando de “For Love of the Game (99)”,
comédia romântica com Kevin Costner. Aqui Raimi tipo “se vendeu” para o sistema, não foi um filme “de autoria”, definitivamente. Torci o nariz para esse filme, em protesto. Nem fui vê-lo no cinema. Acabei vendo em ví­deo, na casa de minha mãe
, e olha: é até bem bonzinho.


O bom filho à casa torna: Sam Raimi voltou ao suspense com The Gift (O dom da premonição, 2000). Porém, o tom aqui é outro. Puxando para o “suspense psicológico”, levando-se completamente a sério. O roteiro chafurda no pântano dos lugares-comuns, e o que podia ser uma volta aos velhos tempos, deixou um pouco a desejar. Sam Raimi parecia preocupado em mostrar que pode ser um diretor de filmes “sérios”. 


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A fantasia e a aventura são, sem dúvida, a sua praia. Tudo o que Sam Raimi aprendeu, desde a fase trash-escatológica de Evil Dead até o sisudo Um plano simples, a alucinante capacidade de inventar tomadas e movimentos de câmera, adicionada à maturidade na direção dos atores, desembocou de forma cristalina na série Spider Man. Ninguém chega aonde chega ao acaso. O talento e o treinamento são essenciais. A série Spider Man está aí para provar. Alguém discorda? 


Depois da série Homem-Aranha, Sam Raimi realizou apenas dois filmes: Drag Me to Hell (2009) e Oz - mágico e poderoso (2013), seu único filme 3-D.