Thursday, August 30, 2007

Dolores O'Riordan em Porto Alegre


Na noite de 26 de agosto, um domingo um tanto frio, o público alternativo de Porto Alegre estava reunido no Teatro do Bourbon Country, esperando subir ao palco a pequenina Dolores O'Riordan, ninguém menos que a vocalista dos Cranberries, a banda pop irlandesa que lançou 5 álbuns e empilhou hits ao longo dos anos 90 até 2002, quando interrompeu (até nova ordem) a carreira ao lançar uma coletânea. Casada com Don Burton (que foi empresário do Duran Duran), com quem tem três meninas, Taylor, Molly e a caçula Dakota Rain, a irrequieta Dolores não ficou parada: lançou em maio de 2007 seu primeiro disco solo, Are you listening? O show de Porto Alegre foi uma mistura bem dosada de hits do Cranberries (entre eles Zombie, Ode to my family, Dreams, Salvation e Linger) com as canções novas (como Ordinary day, Accept things, Black widow, October, Stay with me e When we were young).

O show teve duas partes bem distintas. Na primeira, com calça e jaqueta pretas, Dolores parecia a antítese de uma rock star, meio na dela; com sua voz poderosa, enfatizou canções introspectivas, como a emotiva Stay with me, dedicada a seu pai. Então a bela irlandesa saiu do palco, e a afiada banda continuou tocando por alguns minutos uma música bem experimental. Na próxima Dolores voltou de braços à mostra, gesticulando mais: o show ficou mais rock na veia; mas não há rock sem baladas, e bonitas baladas foram a especialidade dos Cranberries.
A boa notícia para os fãs é que as canções de Are you listening? não perdem para as antigas. Salvation is free!

Dedico a tradução a seguir para a aniversariante Andrea e ao lindo menino que gostou do show (e vai nascer em outubro).

Ordinary Day Dolores O'Riordan

This is just an ordinary day / Este é só um dia como outro qualquer
Wipe the insecurities away / Deixe as inseguranças pra lá
I can see that the darkness will erode / Posso ver: a escuridão vai desaparecer
Looking out the corner of my eye / Espiando com o canto do olhar
I can see that the sunshine will explode/ Posso ver: vai explodir a luz solar
Far across the desert in the sky / Longe através do deserto no céu

Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Won't you be my inspiration? / Não quer ser minha inspiração?
Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Don't you throw your love around / Não desperdice teu amor
What in the world, what in the world / O que neste mundo
Could ever come between us? / Pode ficar entre nós?
Beautiful girl, beautiful girl / Linda (o) menina (o)
I'll never let you down / Nunca vou te decepcionar
Won't let you down /Não vou te decepcionar

This is the beginning of your day / Teu dia apenas começa
Life is more intricate than it seems / A vida é mais intricada do que aparenta
Always be yourself along the way / Sempre seja você pelos caminhos
Living through the spirit of your dreams / E viva a essência de teus sonhos.

Foto: Trent Fernandes.

Thursday, August 16, 2007

Sem reservas

A Sra. Michael Douglas interpreta Kate, a exigente e meticulosa chef de um restaurante movimentado. Quando sua irmã, que tem uma filha pequena, morre num acidente, Kate precisa assumir a tutela da menina. Acontece que a geniosa Zoe (vivida pela pequena estrela em ascensão Abigail Little Miss Sunshine Breslin) era muito ligada à mãe e não aceita a nova situação de ter que morar com a tia, insatisfação também demonstrada pela recusa em comer os pratos sofisticados preparados por ela. In the meantime, a ajudante da chef, que estava grávida, entra em licença maternidade e Nick (Aaron Eckart), um chef especializado em comida italiana, é contratado. Comédia inofensiva do diretor australiano Scott Hicks (Shine, 1996), versão pasteurizada da película alemã Simplesmente Martha, feita sob medida para Catherine Zeta-Jones.

Duro de matar 4 - Live free or die hard

Bruce Willis alcançou a fama primeiro na TV, no seriado A gata e o rato (Moonlighting), sobre a atrapalhada agência de detetives Blue Moon, em que contracenava com Cybill Shepherd. O seriado misto de aventura e comédia (que, por sinal, teve as primeiras temporadas lançadas em DVD no Brasil, na versão dublada, e sem opção de legendas) durou de 1985-89 e rendeu a Willis (que na época ainda tinha cabelo) um Globo de Ouro. O sucesso na série levou-o a estrelar Die Hard (1988), cujo protagonista, o teimoso policial John McClane, igualmente caiu nas graças do público - tanto que alcança sua terceira seqüência, e com fôlego.

Agente desertor da CIA resolve tumultuar a vida do povo norte-americano em pleno 4 de julho; para isso, utiliza-se do trabalho ilícito de uma rede de hackers para invadir sistemas e colocar em pane todos os serviços de infra-estrutura do país. Para salvar o mundo digital, um policial do mundo analógico: John McClane é escalado para localizar Matt Farrell (Justin Long), um dos hackers, que passa a ser perseguido pelos bandidos, que querem eliminar todas pessoas capazes de em tese reverter a polvorosa em andamento.
Um dos lances legais do roteiro é justamente esse: não há ameaça 'externa', desta vez, o mal vem das próprias entranhas do tio Sam. Há também boas tiradas quanto à questão da evolução científica. Enfim, o roteiro pouco importa: John McClane está de volta, em grande estilo. A propósito, o diretor não podia ser melhor: Len Wiseman, que tem no currículo nada menos que dois clássicos do pseudo-terror dark moderno: Anjos da Noite e Anjos da Noite - A Evolução, este último, comentado aqui em abril de 2006 (ver arquivo).

A vida secreta das palavras

A deficiente auditiva Hanna (Sarah Polley) é aconselhada pelo chefe da indústria a tirar férias. Nada a ver com a qualidade do seu trabalho: ela nunca falta e é super eficiente. Quanto à audição, o aparelho que usa a permite escutar. O verdadeiro problema é que Hanna nunca tirou férias e o sindicato pode reclamar.
Assim, a introvertida Hanna entra em férias um pouco a contragosto. Vai para a Irlanda do Norte, onde, num bar, escuta a conversa de um cara sentado à mesa ao lado. Ao que parece, estão procurando uma enfermeira para cuidar de um homem que sofreu queimaduras numa plataforma de petróleo instalado no Mar da Irlanda. Hanna, talvez por não conseguir ficar sem trabalhar, ou talvez por ser altruísta, ou ambas as alternativas, prontamente se oferece à missão. Essa personagem impulsiva e enigmática é o centro do filme da espanhola Isabel Coixet, uma produção de Pedro Almodóvar.


Na distante plataforma, Hanna chega de helicóptero, passa a cuidar de Josef (Tim Robbins) e a conhecer os poucos habitantes do local, que está com o mínimo de pessoal, depois do acidente que provocou uma morte: o cozinheiro, o faxineiro, o coordenador, um pesquisador e poucos funcionários. Mas o filme é mesmo sobre Hanna e Josef, o modo com que os dois vão se conhecendo, ele muito curioso sobre ela (devido aos ferimentos, está temporariamente privado da visão), ela muito reticente em dar qualquer espécie de informação sobre si. À medida que o tempo passa, a confiança entre os dois aumenta, culminando com revelações pungentes sobre o passado de ambos, que ajudam a entender o modo de ser e agir de cada um. Neste ápice bem nítido - uma seqüência na qual toda a verossimilhança da obra poderia ser colocada em risco - Polley e Robbins não decepcionam e, sob a mão segura de Coixet, entregam uma cena intensa, que contribui para compreender A vida secreta das palavras.