Wednesday, June 13, 2007

Ventos da liberdade

O título original do filme de Ken Loach (The wind that shakes the barley; em tradução literal, O vento que balança a cevada) é o mesmo de uma canção do século XIX. Na película de Loach, os primeiros versos dessa canção são entoados de modo plangente por uma velha senhora, pranteando um parente morto pelos militares ingleses, durante a Guerra da Independência e da Partição (1919-1921).

A título de curiosidade, publico aqui a letra integral da canção:

I sat within the valley green, I sat me with my true love
My sad heart strove the two between, the old love and the new love
The old for her, the new that made me think on Ireland dearly
While soft the wind blew down the glen and shook the golden barley


'Twas hard the woeful words to frame to break the ties that bound us
But harder still to bear the shame of foreign chains around us
And so I said, "The mountain glen I'll seek at morning early
And join the bold united men
," while soft winds shake the barley

While sad I kissed away her tears, my fond arms round her flinging
A yeoman's shot burst on our ears from out the wildwood ringing
A bullet pierced my true love's side in life's young spring so early
And on my breast in blood she died while soft winds shook the barley


I bore her to some mountain stream, and many's the summer blossom
I placed with branches soft and green about her gore-stained bosom
I wept and kissed her clay-cold corpse then rushed o'er vale and valley
My vengeance on the foe to wreak while soft wind shook the barley


But blood for blood without remorse I've taken at Oulart Hollow
And laid my true love's clay cold corpse where I full soon may follow
As round her grave I wander drear, noon, night and morning early
With breaking heart when e'er I hear the wind that shakes the barley.


Escrita por Robert Dwyer Joyce (1836-1883), professor e poeta nascido em Limerick, fala de um jovem irlandês que, depois de ter a namorada morta, vai participar da rebelião irlandesa de 1798 (na qual os irlandeses declararam sua fé num futuro pacífico). Naquela ocasião, a rebelião foi controlada pelos ingleses. Segundo o site Wikipedia, as referências à cevada na canção decorrem do fato de que os rebeldes carregavam grãos de cevada e aveia nos bolsos, como provisões durante as marchas.

Essa não é a história contada por Ken Loach em seu filme homônimo, que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes 2006. Apenas tomou emprestado o título da canção, símbolo de um povo marcado pela violência. A canção fala em "foreign chains" e em "blood for blood"; simboliza tanto o desejo de se libertar do jugo inglês como o desejo de vingança, a vontade e a necessidade de lavar sangue com mais sangue.
Esses sentimentos impregnam a película de Ken Loach, no contexto da luta irlandesa para se tornar uma nação independente, liderada pelo IRA (Irish Republican Army), a partir de 1919. O filme acompanha a trajetória de Damien O'Donovan (Cillian Murphy), que, após presenciar o assassinato de um jovem irlandês de 17 anos pela milícia inglesa, desiste de prosseguir nos estudos para se unir ao Exército Republicano Irlandês. Seu irmão Teddy O'Donovan (Padraic Delaney) é um dos líderes locais do IRA, que intensifica as ações de guerrilha contra os ingleses, na base de olho por olho, dente por dente, o que obriga o governo inglês a procurar um acordo. Quando, porém, os demais revolucionários tomam conhecimento das bases do acordo assinado por Michael Collins (o comandante do IRA) com os ingleses, a maioria não concorda e decide continuar a guerrilha. É aí que o filme chega na parte mais triste: o que antes era um banho de sangue entre ingleses e irlandeses, agora se torna uma carnificina interna, entre os irlandeses que passam a controlar e fiscalizar o cumprimento do tratado, e aqueles rebeldes inconformados, que passaram a chamar Michael Collins de traidor. Entre estes, Damien, que passa a enfrentar o próprio irmão Teddy, oficial da nova polícia local.
Questões complexas e delicadas, abordadas por Ken Loach com coragem. Ventos da liberdade mostra bem as trágicas conseqüências do radicalismo de ambas as partes.

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