Saturday, May 18, 2013

O corvo

John Cusack encarna Edgar Allan Poe em O corvo (2012), escrito por Hannah Shakespeare e dirigido por James McTeigue. A ideia é boa: sobre os últimos dias da vida de Poe (Boston, 1809-1849, Baltimore) ainda pairam muitos enigmas que os mais dedicados biógrafos ainda não deslindaram. "Alagado de suor, com os membros trementes, pálido e falando sem cessar, num 'delírio continuado mas não violento ou ativo, todo o quarto para ele estava agitado e, numa conversação lacunosa, falava aos espectros, que se sumiam e apareciam nas paredes". Assim foi encontrado Edgar Poe poucos dias antes de morrer, nas palavras de Oscar Mendes, tradutor de Israfel, Vida e Época de Edgar Allan Poe, de Hervey Allen. Eis que alguém (com imaginação fértil que faz jus ao sobrenome Shakespeare, diga-se de passagem) resolveu explorar essa brecha e criar um universo ficcional que reconstrói os últimos dias da vida do autor, lançando mão de recursos como mortes escabrosas e engenhocas horripilantes extraídas, nada mais, nada menos, dos próprios contos de Poe. Com a ajuda do detetive vivido por Luke Evans, Poe/Cusack tenta antecipar os passos de um serial killer que conhece sua macabra obra de cabo a rabo. Fãs de Poe vão identificar e se deleitar com o verdadeiro liquidificador de referências, desde o poema mais conhecido de Poe, que dá título ao filme, até algumas das histórias mais tensas e densas da literatura fantástica. Contos do grotesco e do arabesco, como O poço e o pêndulo, O enterramento prematuro, O barril de Amontillado, A máscara da morte escarlate, O coração revelador, O mistério de Marie RogêtO estranho caso do Sr. Valdemar, entre outros. Cusack consegue dar à Poe certa credibilidade e um pouco da angústia inerente a esse autor imprescindível em qualquer biblioteca de literatura universal.
 O que aconteceu nas últimas semanas de vida de Poe, ninguém sabe, mas sobre sua morte, uma coisa é certa: "Um demônio pior do que todos os que ele tinha imaginado atormentava-o num longo e violento delírio. (....) Nada mais comovente pode verdadeiramente dizer-se que afirmar tenha sido a morte de Edgar Allan Poe mais penosa que sua vida".

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