VALOR SENTIMENTAL
Valor sentimental, de Joachim Trier, lembra a densidade e o ritmo dos filmes de Ingmar Bergman, que minha mãe tanto amava. Ela foi uma cinéfila de verdade, gostava dos diretores mais difíceis, mas não tinha preconceito de se divertir com "comédias românticas". Devo ter herdado dela esse ecletismo, e do meu pai a falta completa de noção para escolher um filme ao ir ao cinema. Por exemplo, meu pai levou-me para ver A ópera do malandro e Malpertuis, sessões diametralmente distintas e sob qualquer prisma escolhidas de forma ilógica. O primeiro jamais quis rever, o segundo me deixou obcecado a ponto de escrever o post Malpertuis, o cult dos cults. Foi de meu pai também a proeza de quebrar uma poltrona no cinema em Atlântida de tanto rir no filme Apertem os cintos, o piloto sumiu.
Sendo o produto desses dois, que levaram os quatro filhos para assistir ao primeiríssimo Super-Homem no Cinema Brasília de Carazinho, não é de se admirar que eu venha aqui, décadas depois, dizer que "gostei" desses três filmes muito diferentes, que têm em comum apenas o fato de serem fora do mainstream, de serem alternativos e antiblockbusters.
Voltando à vaca fria, ou melhor, ao filme norueguês Valor sentimental, casualmente é um filme sobre um pai que tem dificuldades para se relacionar com as filhas, o diretor Gustav Borg (Stellan Skarsgård, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante), que escreve um roteiro para a filha mais velha atuar, mas ela por ressentimentos guardados se recusa peremptoriamente a aceitar o papel. O filme mostra a dinâmica das duas irmãs, a mais nova, casada e com filho, sendo uma espécie de equilíbrio entre o pai distante e a irmã mais velha, atriz talentosa, mas que sofre de pânico de palco.
Outro personagem do filme é a casa onde a família morava, e pronto, já disse o suficiente para quem quiser se aventurar em um cinema de deglutição mais lenta e que exige esforço cerebral do espectador.
FOI APENAS UM ACIDENTE
A França patrocinou este filme e será uma injustiça não se o filme ganhar o Oscar, mas o fato de que os méritos vão recair para a França e não ao Irã.
Afinal de contas o filme é um retrato pungente da realidade iraniana, e por conseguinte nos remete ao cinema de Abbas Kiarostami, que minha amiga baiana Márcia tanto admira. E por que remete? Ora, é falado em persa, as personagens são iranianas, tudo nele é iraniano, inclusive o elenco e o diretor.
A França entra com a grana e leva o mérito artístico? Não sei se é justo, e foi assim que aconteceu com Orfeu negro, by the way, sendo naquela oportunidade o Brasil o país injustiçado.
Acompanhou-me na sessão meu filho Félix, de 18 anos, que já está acostumado com o gosto estranho do pai e que foi bem na redação da UFRGS por ter assistido e citado Sociedade dos poetas mortos.
Pelo menos ninguém pode me acusar de não estar tentando criar filhos de mente aberta e cultura diversificada.
O filme de Jafar Panahi, que por sinal venceu a Palma de Ouro em Cannes, aborda um tópico sensível, a vontade de se vingar de um torturador.
O mecânico Vahid segue um sujeito que ele desconfia ter sido o seu algoz. A chave da identidade é o uso de uma prótese na perna, mas na hora de o enterrar vivo em uma cova feita no meio do deserto, o suspeito roga por misericórdia e jura que perdeu a perna recentemente.
Vahid entra em crise de consciência e sai em busca de confirmação.
Esse é o "plot" a partir do qual o filme se desenrola, mesclando cenas de tensão com cenas de alívio cômico, afinal de contas, nem só de sofrimento vive o povo iraniano.
Os costumes locais de Teerã são esmiuçados quando o grupo de ex-vítimas do suposto torturador cessa sua busca de vingança para ajudar a mulher dele que está prestes a dar à luz.
Situações que beiram o nonsense revelam uma humanidade brutal e o quanto a selvageria e a ternura podem, sim, brotarem de uma mesma fonte.
O AGENTE SECRETO
Toda a sequência que mostra a ação do matador de aluguel é muito bem elaborada e chama a atenção pela maneira crua com que foi dirigida e encenada.
As partes em que a carnalidade do povo brasileiro é mostrada de modo um tanto grotesco e animalesco me provocou sensações ambíguas, algo como um pudor de o nosso país estar sendo mostrado com tanta falta de cerimônia, talvez uma relutância em aceitar que os brasileiros somos assim, ipisis litteris, na época do carnaval só pensamos em uma coisa (that is, "sexo"), ou só pensamos naquilo, em tudo que fazemos e cada vez que respiramos?
Se mostra algumas de nossas piores facetas, O agente secreto mostra também um pouco das melhores, a disposição em ajudar, a solidariedade e a simplicidade de Dona Sebastiana (Tânia Maria, cuja interpretação valeu o prêmio de Best Cigarette Acting [Partway through “The Secret Agent,” there’s a daylight street shot, and this woman just walks into the frame and almost up to the camera. As she stands there waiting, you think: I hope this movie knows it should be more about this person — someone who doesn’t look a day over 1,000. She’s a real dona but uniquely, idiosyncratically glamorous in a botanical housedress and windshield sunglasses. The reason you notice her is that her lips hold a cigarette and she’s smoking the hell out of it. She wields this cigarette the way more-conventional old people use a cane. I took one look at her and knew: I was smoking her. But for real: Was she an extra? The writer and director Kleber Mendonça Filho has such an indefatigable eye for people. Sure enough, Tânia Maria becomes a more-than-minor figure in this major movie, the housemother for a handful of political refugees, refuseniks against the brutality of Brazil’s military dictatorship. The only cigarette we see her smoke comes during that introduction. But she announces that she’s been at it for 60 of her 77 years. Maria’s smoking is a triumph of personality over circumstance; it says, If I can beat these cigarettes, I can beat this dictatorship. What a powerful shorthand for her passage through the world. She has virtually no movie credits yet everything you want from a person in front of a camera, which is all the life they’ve ever lived.]
Mas se é verdade que a tônica do filme é expor o que o Brasil tem de pior, não é menos verdade que ele o faz com a estética que o Brasil tem de melhor, e é isso em última análise que acaba justificando todo o frisson que o filme tem causado mundo afora.
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