Friday, May 02, 2008

A vida começa aos 40

A médica ginecologista Elisabeth Staf estaciona o carro com pressa e com mais pressa sai do carro em direção à igreja. É o casamento do filho. A pressa não a impede, porém, de argumentar com a fiscal de trânsito, ansiosa por multá-la. A conversa entre doutora e fiscal vira bate-boca (com direito a tapa no quepe e troca de comentários não muito elogiosos). É assim que Colin Nutley, diretor britânico radicado na Suécia, apresenta as protagonistas de seu novo filme: A vida começa aos 40 (Schwedisch für Fortgeschrittene / Heartbreak Hotel).

Por essa primeira cena, o espectador pode avaliar a personalidade das duas. Elizabeth: decidida, petulante, do tipo que não leva desaforo para casa. Gudrun: discreta, zelosa, do tipo que leva as coisas ao pé-da-letra. Claro que essas personagens vão se encontrar de novo e a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade irresistível, avassaladora, do tipo que não acontece muitas vezes. Afinal, as duas têm muita coisa em comum: quarentonas, (enrustidamente) fogosas e (teoricamente) desimpedidas. Dessa forma, Gudrun e Elizabeth passam a freqüentar juntas nas frias noites suecas a pista animada do Heartbreak Hotel.

Misto de Embalos do Sábado à Noite com Thelma e Louise, o tema da película realizada na Suécia (como os demais filmes de Nutley) é a importância de certos itens: a amizade, a música, a dança, a diversão, a compreensão dos filhos, a colaboração dos cônjuges (no caso, êx-conjuges). Se esses itens já são importantes em situações ditas normais, mais importantes se tornam num contexto de reestruturação. Aos quarenta e poucos anos, a recatada Gudrun (Maria Lundqvist) e a extrovertida Elisabeth (Helena Bergström, esposa do diretor e presença constante em seus filmes) não precisam mais ter vergonha de nada (nem mesmo de aceitar o fato de nunca ter tido um orgasmo). No auge das células cinzentas, dão-se ao luxo de escolher o momento apropriado de não utilizá-las.


A trajetória do diretor Colin Nutley é no mínimo inusitada:
mesmo sem falar sueco fluente firmou-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo. Seu maior sucesso foi talvez Änglagard (House of Angels, 1990), sobre a estranha chegada de dois forasteiros numa pequena cidade. Nas palavras do jornalista Rob Hincks, o filme é "provavelmente a quintessência dos filmes suecos de verão de todos os tempos". Foi tanto o sucesso que rendeu uma seqüência.

Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a "vender a alma". Gosta mesmo é de trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, com pouco de roteiro e muito de improviso. Segundo Nutley (ver entrevista em
http://www.sweden.se/templates/cs/Article____14295.aspx),
seu método de trabalho é simples. O elenco só fica sabendo sobre o que vai ser a cena três minutos antes dela ser rodada. Então Nutley discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real. E o resto é por conta dos atores. A vida começa aos 40 é uma boa amostra dos prós e contras desse método.

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