Monday, February 07, 2011

Bravura indômita

Diretores talentosos no começo de carreira gostam de chamar a atenção. Buscam o original, o genial, o diferente ou coisa que o valha. Assim fizeram os irmãos Coen nos cultuados Gosto de sangue (1984) e Arizona nunca mais (1987). De cara chamaram a atenção por serem originais, geniais, diferentes e otras cositas más. Com a maturidade, o talento do cineasta aparece exatamente pelo contrário: a capacidade de passar despercebido. A discrição. Processo parecido aconteceu com Spielberg, por sinal, produtor executivo do novo filme dos Coen: o remake de Bravura indômita (True Grit).
Na refilmagem do clássico de 1969 – dirigido por Henry Hathaway e estrelado por John Wayne como Rooster Cogburn (no papel que lhe rendeu o Oscar), Dennis Hopper (no papel do rapaz que tem os dedos atorados na cabana) e Robert Duvall (como Lucky Ned, o chefe dos bandidos) –, os irmãos Coen realizaram um filme discreto, cujo roteiro apresenta poucas inovações em relação ao primeiro, mas ao mesmo tempo significativo e anos-luz distante da banalidade (vide O turista) que grassa nas telonas hoje em dia.
A história, baseada na obra de Charles Portis, nos remete aos fins da década de 1870 e à cidade de Fort Smith, Arkansas, na fronteira do território indígena. A impressionante Hailee Stenfield vive Mattie, a menina que chega à cidade para providenciar a remoção do corpo do pai, assassinado por Tom Chaney (Josh Brolin). Obstinada e exímia negociante, a menina levanta dinheiro e contrata o mais destemido marshall da região, Rooster Cogburn (Jeff Bridges) para ajudá-la a seguir o rastro de Chaney e levá-lo à justiça. Um ranger do Texas chamado LaBoeuf (Matt Damon) também participa da caçada. Completa o elenco um transfigurado Barry Pepper (de O resgate do soldado Ryan), que encarna Lucky Ned, papel vivido por Robert Duvall no filme de 1969.
Não se trata de um faroeste centrado em ação. A rigor, são poucas as cenas de tiroteio, tocaias e duelos. O foco principal é na construção dos personagens, na definição da personalidade de cada um e na dinâmica do relacionamento entre eles. Por exemplo, entre a menina Mattie e o xerife Rooster forma-se um laço de admiração mútua e uma amizade profunda. Entre o xerife Rooster e o ranger LaBoeuf há um misto de desprezo e respeito. Entre LaBoeuf e Mattie, um sentimento ambíguo movido por petulância, provocação e até umas palmadinhas.
Cenas singelas como a da travessia do rio têm o mesmo impacto que as cenas de enfrentamento. Com fotografia cuidadosa, figurino detalhista, elenco afiado e direção invisível, Bravura indômita honra a tradição dos faroestes.

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