Saturday, November 03, 2012

A vida útil


A primeira sequência de A vida útil, a premiada e curta segunda película de Federico Veiroj, retrata a rotina dos bastidores de uma cinemateca: acaba de chegar uma remessa de filmes islandeses para uma mostra e os dois responsáveis dividem entre si a tarefa de assistir aos filmes antes da exibição pública.  Um deles é o protagonista deste “conto de cinema”, o subtítulo da obra: Jorge (interpretado por um ator não profissional, o crítico de cinema Jorge Jellinek). Diga-se de passagem, o outro ator também faz sua estreia à frente das câmeras. Figura importante no cinema uruguaio, ex-diretor da Cinemateca Uruguaia, Manuel Martínez Carril é presença frequente no Festival de Gramado.
Mas é bom frisar que A vida útil não é um documentário. Deve aproveitar em seu roteiro, é claro, experiências da vida real de quem respirou/respira esse mundo abnegado e altruísta de cinematecas frequentadas por gatos pingados, com a nobre causa de divulgar o cinema alternativo. Sessões com a presença dos diretores (que, às vezes, reclamam de problemas técnicos na projeção). A chave escondida na embalagem de um filme. O programa sobre cinema na rádio. A amiga convidada para a sessão. Todas essas são cenas do cotidiano de uma cinemateca, sem dúvida.
Como também a luta pela “viabilidade financeira”. Na história, Jorge é o funcionário/voluntário responsável por projetar os filmes, apresentar o programa na rádio, encarregar-se de fazer o social quando vem um realizador, ou seja, é o “faz-tudo” da cinemateca. Ainda mora com os pais aos 45 anos. Tem um alvo na mira: uma professora de Direito, mas ela é uma mulher muito ocupada, pelo jeito.
Quando a cinemateca se vê à beira da insolvência e os antigos parceiros roem a corda e negam o estribo, cai a ficha e Jorge vai ter que procurar outra maneira de sua vida fazer sentido.



Até que chega o fatídico e derradeiro dia em que ele precisa juntar suas coisas. É o último dia de funcionamento da sua amada cinemateca. Ele liga para o “papá” e diz que não precisam esperar por ele em casa. E sai pelas ruas de Montevidéu carregando uma sacola.
Esta parte do filme remete a Um dia de fúria de Joel Schumacher. Como dissemos, Jorge sai do trabalho carregando uma sacola. O que ela contém? Será que armas, como as que Michael Douglas carregou pelas ruas de Los Angeles? O que Jorge fará, que medidas extremas tomará ao ver seu mundo “Falling Down”?

A decisão de utilizar atores não profissionais tem seu ônus: nalgumas cenas é visível o nervosismo do protagonista, enquanto noutras seu desempenho é surpreendente para um amador estreante. Mas o realizador deve ter pesado prós e contras e no contexto a decisão até se justifica.
Paradoxalmente, a película uruguaia tem na curta metragem sua principal qualidade e seu principal defeito: qualidade, pois o filme não contém cenas supérfluas; defeito porque o filme termina passando certa sensação de que “não tinha como terminar”.  

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