Sunday, October 11, 2015

Era uma vez na Anatólia

Certas sessões se tornam emblemáticas para um cinéfilo por uma conjunção de fatores. Sem dúvida, entre minhas experiências cinematográficas de 2015, o filme do turco Nuri Bilge Ceylan se insere nessa categoria. E quais fatores seriam esses?



1. Sessão do Clube de Cinema
Ando meio afastado da capital e só de vez em quando tenho a oportunidade de marcar presença. Temos a tendência de valorizar mais tudo aquilo que obtemos com um pouco mais de dificuldade. As sessões do clube sempre têm uma aura especial, são cinéfilos até o tutano dos ossos reunidos num horário diferenciado, com o objetivo único de mostrar seu amor pelo cinema, em suas distintas manifestações. Apesar da relativa distância, sempre que posso, compareço, e tenho tido a sorte de comparecer justamente em fins de semana com sessões bastante significativas.

2. A volta do Cine Capitólio
O reencontro com uma sala charmosa, anos após ter sido fechada para o público, traz, por si só, um fator emocional forte para quem gosta de cinema. O apuro com que tudo foi restaurado, a mescla de novo com o antigo, o cheiro da madeira das poltronas, tudo isso cria uma atmosfera de reverência à sétima arte (por que tem gente que não gosta desse termo?), um clima propício a degustar um filme estranhíssimo.

3. Um diretor que vale a pena conhecer

Sempre que vou assistir a um filme de um diretor que não conheço, também é um momento relevante. Em geral, é no primeiro contato que a gente decide se vai apreciar ou torcer o nariz para a filmografia da pessoa. A primeira impressão é a que fica. Eu não havia me informado muito sobre Nuri Bilge Ceylan, mas na breve preleção antes da sessão ficamos sabendo que ele é o cara, ou seja, ganhou nada menos que uma Palma de Ouro em Cannes com o filme Sono de inverno. E quando começa Era uma vez na Anatólia, o espectador logo percebe que se trata de um diretor inusitado, com suas ideias bem próprias sobre tomadas, cadência, edição. Em outras palavras, um diretor cuja marca registrada é a falta de pressa em tudo o que ele faz. Um diretor que cita entre as principais influências Ingmar Bergman (http://olharcinefilo.blogspot.com.br/2007/07/colhendo-morangos-silvestres.html), Robert Bresson, Michelangelo Antonioni, Andrei Tarkovsky e Yasujiro Ozu (confira a intertextualidade no post http://olharcinefilo.blogspot.com.br/2012/12/era-uma-vez-em-toquio.html). Um diretor antítese da medíocre ânsia pela vertiginosidade que grassa em nossas telonas ultimamente.

4. Uma história difícil de definir
Na verdade é um daqueles filmes "em tempo real". A câmera acompanha meticulosamente uma comitiva de veículos em sua peregrinação no interior da Turquia para localizar um corpo. A trupe multidisciplinar é formada por policiais, médico-legista, promotor, coveiros, e, é claro, os suspeitos do crime, no caso, dois irmãos. As motivações e as circunstâncias do crime tinham sido apenas sugeridas no prólogo. A partir daí, cada palavra, cada suspiro e cada gesto vão entretecendo um emaranhado de situações, umas prosaicas, outras insólitas. Uma sequência digna de nota é quando todos resolvem fazer uma parada numa aldeia das imediações e acontece um blecaute. A filha do anfitrião, dona de uma beleza hipnotizante, vem oferecer bebida a todos, inclusive aos suspeitos de homicídio. A troca de olhares silenciosos desta perturbadora cena é desses instantes que ficam incrustados na retina do cinéfilo para sempre.

Isoladamente, qualquer um desses fatores já seria suficiente para tornar uma sessão "emblemática". Quando todos esses fatores se unem, então, temos a sessão mais emblemática do ano!


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