Sunday, February 19, 2006

Wild at Heart


Tempestuoso, imorredouro, violento. Flamejante, imprevisível, engraçado. Surpreendente, quente, comovente. Inquieto, agitado, genuíno. Puro, doce, insubstituível. Fértil, exacerbado, pulsante. Visceral, incontrolável, selvagem.

Assim é o amor entre Lula e Sailor. Assim é o gênio do diretor David Lynch e o talento do músico Angelo Badalamenti. Assim é cada fotograma do vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 1990: Coração Selvagem.

Há filmes que têm este dom: por mais que as revisitas se acumulem, a diversão, o riso, a ternura e a emoção se renovam. Já se sabe o que vai acontecer. Já se sabe o que cada personagem vai fazer, o que cada um vai falar. Dir-se-ia que, entre os adjetivos acima, ‘imprevisível’ e ‘surpreendente’ não se encaixam. Ledo engano. Cults como Wild at Heart, a cada nova sessão, para matar as saudades, para celebrar a magia do cinema, ou, motivo mais palpável - mostrar para alguém que ainda não viu - nos remetem à primigênia e original sessão. Emoções já sentidas ganham um quê de frescor, uma lufada de brisa, um novo colorido. Não, não há novo detalhe a ser percebido. Não é este o motivo de rever um cult. Um cult movie é revisto pelo orgulho de mostrar, pela emoção de reviver...
Pela necessidade de aplacar o coração selvagem.

A mão delicada de Lula, unhas pintadas de vermelho, abrindo-se na hora do êxtase. Os fósforos riscados, os cigarros acesos. As palavras que Laura Dern e Nicolas Cage trocam na cama, depois de fazer amor. A jaqueta de couro de cobra, que representa, para Sailor, sua crença na individualidade e na liberdade pessoal. Os dois saindo pra dançar na noite, quando Sailor pára a banda para repreender um incauto que dá em cima de Lula e, de quebra, pede o microfone para cantar “Treat me like a fool, treat me cruel, but love me”, para sua amada. Os dois parando à beira da estrada para dançar rock, e beijarem-se ao pôr-do-sol; as roupas na estrada, o acidente na madrugada, a moça desesperada - ao som de Wicked Game de Chris Isaak. O asqueroso Bobby Peru tentando perverter Lula, dizendo em seu ouvido “Say, fuck me...” Alguns motivos para cultuar Coração Selvagem.

Ah, sim. Faltou um motivo – ou melhor, um adjetivo - a tantos citados. Coração Selvagem é simplesmente... romântico.

2 comments:

Ed said...

Gostei bastante dos teus textos. E principalmente dos filmes enfocados, muitas vezes clássicos esquecidos. Como "Coração Selvagem".

O post do "Ponto Final" literalmente "matou a pau", trocadilho infame.

Abç,
Edgar

http://oincubo.blogspot.com

Anonymous said...

Oi, Ique
Amei o blog, estou há um tempão lendo os comentários, já fiquei fã.
Fico feliz em saber que sentes o memo que eu a respeito de Coração Selvagem. Eu o vi no cinema há muito tempo, quando foi lançado e fiquei paralisada, estupefata, sem respiração. Pensei e repensei em tudo aquilo, sem parar.
Infelizmente não encontrei mais ninguém que sentisse o mesmo que eu, só encontrei gente que não gostou, assim, parei de falar nele.
É uma felicidade compartilhar, finalmente, este sentimento.
Um grande beijo
Doris