Sunday, March 25, 2007

Little Miss Sunshine e El Laberinto del Fauno

Uma rápida olhada na programação e percebo a atraente possibilidade de duas sessões encordoadas nas salas de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana (que, com a competente e austera Mônica Leal à frente da Secretaria da Cultura, certamente não irão fechar): Pequena Miss Sunshine às 18h20 e O Labirinto do Fauno às 20h. Sair de uma e entrar na outra. Dito e feito: dois filmes de culto, o primeiro, norte-americano, Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Adjuvante (Alan Arkin); o segundo, mexicano, Oscar de Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem; ambos igualmente belos, cada qual a seu estilo, porém, diametralmente opostos nas sensações que provocam no público.

O filme do casal Valerie Faris e Jonathan Dayton (que trabalham juntos desde os tempos em que se conheceram na UCLA; entre outros trabalhos, produziram clips do REM e Smashing Pumpkins) em poucos minutos apresenta seis interessantes personagens de uma mesma família: a pequena e espontânea Olive (Abigail Breslin, a filha de Mel Gibson em Sinais), de sete anos, que fica entusiasmada com a oportunidade de participar de um concurso de beleza; seu irmão Dwayne (Paul Dano), leitor de Nietzsche, que se comunica através de um bloco e um lápis, por conta de um voto de silêncio; o pai Richard (Greg Kinnear), criador de uma técnica de chegar ao sucesso chamada 'Os nove passos'; o avô (Alan Arkin, no papel que lhe valeu o Oscar), pai de Richard, que mora junto na casa do filho após ser expulso da casa geriátrica por consumo de drogas; a esposa Sheryl (Toni Colette), elemento agregador-estabilizador da conturbada família, que tem ainda Frank, irmão de Sheryl, especialista em Marcel Proust, gay e suicida. Essa fauna, enquanto vai de Albuquerque a Redondo Beach, na Califórnia, trafegando em uma Kombi sem embreagem, realizar o sonho de Olive em participar do concurso "Little Miss Sunshine", é obrigada a funcionar como uma verdadeira família, onde as pessoas se aceitam, se encorajam e procuram se compreender.





Por sua vez, a película de Guillermo Del Toro traz uma fauna mais literal: sapos, louva-a-deus, escaravelhos, fadas, faunos, criaturas presentes na imaginação de Ofélia (Ivana Baquero). A menina, devoradora de contos-de-fadas, acompanha a mãe Carmen (Ariadna Gil), que está grávida, numa viagem de automóvel até uma base militar, cujo líder é o desalmado capitão Vidal (Sergi Lopez). Na concepção do comandante da base, um filho tem que nascer onde está o pai. Na nova morada, a introvertida Ofélia faz amizade com Mercedes (Maribel Verdu), uma das cozinheiras, e passa a vivenciar experiências preternaturais, envolvendo um fauno (Doug Jones) que mora num labirinto. Não demora, Ofélia percebe que Mercedes é informante dos rebeldes procurados pelos soldados de Vidal; enquanto a mãe se aproxima do parto e a violência a seu redor aumenta, Ofélia mergulha cada vez mais em sua dimensão paralela: precisa realizar as missões exigidas pelo fauno e provar ser a Princesa tão esperada.
O contexto histórico é a Espanha dos anos 40, na ditadura de Francisco Franco. O realizador Guillermo del Toro (de A Espinha do Diabo, Blade II e Hellboy) faz uma pequena obra-prima do cinema fantástico que é, ao mesmo tempo, um libelo contra os regimes fascistas.

Ao cabo de Little Miss Sunshine, as luzes se acendem e revelam semblantes radiantes. No fim de El Laberinto del Fauno, olhares sombrios. Um leva às gargalhadas, o outro à apreensão. Um encanta pela leveza, o outro pela densidade. Um surpreende pela simplicidade, o outro pela elaboração. Dois cults de primeira ordem.

2 comments:

Márcia Knop said...

Se decidiu aderir à cineterapia ou se criou seu festival de cinema particular ou se apenas um cinéfilo insaciável, eu não sei. O fato é q "as casadinhas" estão um luxo - A Rainha e Mª Antonieta; Miss Sunshine e El laberinto.
A 2ª dupla eu assisti nas férias, na cidade do dendê, em dias diferentes, mas no mesmo cinema e na mesma sala; na ladeira da barra (q permite uma das melhores vistas da cidade) e a poucos passos da igreja em que fiz a eterna jura "aos pés do onipotente, em preces comoventes".
Por todo o conteúdo e cenário, a dupla entrou no top dos melhores de 2006, com ou sem aprovação do Oscar.
Sou "tiete" desse blog! Do dono, eu não vou muito com a cara! rsrs

love said...

Teus ingressos do ticketmaster chegaram, queridão.

bjos
http://welcometosolaris.blogspot.com/