Wednesday, January 11, 2017

Garimpo na biblioteca


GARIMPO NA BIBLIOTECA

Henrique Guerra


 Bibliotecas assemelham-se a minas prontas a serem exploradas por ávidos leitores. De estante em estante, o olhar vai percorrendo as lombadas, peneirando os títulos, até perceber um brilho diferente, que talvez passasse despercebido a outros olhos, mas faz palpitar o intelecto: escolher um livro é uma espécie de garimpo.

Os critérios da escolha vão dos mais específicos até os mais aleatórios. Um autor preferido, outro que desejamos conhecer, dicas literárias de amigos, resenhas, crônicas, a arte da capa, o requinte da diagramação, ou, simplesmente, uma curiosidade despertada...

Foi de curioso que pincei da estante Ugolino e a perdiz, de Davi Arrigucci Jr., da Cosac Naify, 78 p. Belas descrições do meio rural, a expectativa de um caçador para capturar a perdiz mais arisca das redondezas, o linguajar que mescla o regional com o universal, pitadas de humor (a inusitada história que gerou a autorização para caçar nas terras do fazendeiro) compõem a noveleta escrita pelo crítico e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, indicada ao Prêmio Jabuti de 2004.

Também da Cosac Naify é A janela de esquina do meu primo, de E. T. A. Hoffman, 77 p., traduzido por Maria Aparecida Barbosa. Na Berlim dos anos 1820, de sua janela, um escritor acometido de uma doença degenerativa convida o primo a observar a feira lá embaixo. A luneta e o bate-papo dos primos revelam o fervilhar de circunstâncias num ambiente em que as mais intrigantes personagens se relacionam. Hoffman, autor do conto fantástico O homem da areia, mostra argúcia na análise de temas sociais.

Arguta observadora da alma humana, Emily Dickinson é uma poetisa sui generis, dona de um estilo incomparável. Cada poema de Emily traz uma densa e polissêmica carga semântica. Poucas palavras, muitos e múltiplos significados. Nas 56 páginas de Um livro de horas, a tradutora e ilustradora Angela-Lago cria títulos para os poemas de Dickinson, numa caprichada publicação da Editora Scipione. O leitor que aprecia edições bilíngues pode comparar o original e a tradução e se encantar com a delicadeza das ilustrações que venceram o Prêmio FNLIJ 2009 de Melhor Ilustração.

E que tal um mergulho na obra contemporânea de Leonardo Brasiliense? Olhos de morcego e Adeus conto de fadas constituem uma boa iniciação à prosa do premiado escritor gaúcho. O primeiro é uma coletânea de contos que retratam personagens urbanos e rurais, e a força do livro está justamente nessa interface entre pampa (vide O peão e Dona Mimosa, a parteira) e concreto (O beijo, Fugindo do amor). O segundo, Prêmio Jabuti e Prêmio Açorianos, traz setenta e dois enigmáticos minicontos sobre as dúvidas, angústias e descobertas da adolescência. Os dois livros são da 7 Letras, o primeiro tem 112 páginas, e o segundo, 84.

Por fim, uma revisita a um autor que admiramos: Noites lebloninas, de João Ubaldo Ribeiro (Alfaguara, 104 p.) nos coloca na pele e na mente do narrador, porteiro baiano radicado no Leblon. As peripécias cariocas vividas e contadas pelo porteiro são hilárias, e o leitor vai se deleitar com as estratégias de que o saudoso Ubaldo lança mão para dar vida ao personagem e verossimilhança à linguagem utilizada.
Uma biblioteca é um universo inteiro de histórias à espera de serem lidas. Uma mina de pedras preciosas à espera de serem garimpadas. Esquecidos nas prateleiras, os livros não cintilam. Os livros só se tornam pepitas quando se encontram com os leitores. E é durante a leitura que os leitores descobrem as múltiplas facetas e nuances da obra, e, súbito, com um brilho no olhar, percebem que valeu a pena o garimpo. 

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