segunda-feira, maio 21, 2007

Cão sem dono

Vencedor de três prêmios no Festival do Audiovisual de Pernambuco – Melhor Longa Metragem, Prêmio da Crítica e Melhor Atriz –, Cão sem dono é a adaptação fílmica do primeiro romance do escritor Daniel Galera, intitulado Até o dia em que o cão morreu, lançado em 2003 pela editora Livros do Mal e relançado em 2007 pela Companhia das Letras. O autor, nascido em São Paulo, cresceu no RS e estreou com a coletânea de contos Dentes guardados. Em 2006, publicou Mãos de cavalo, sua segunda novela.

Até o dia em que o cão morreu, conforme Alex Castro, poderia ser enquadrado no que ele chama de “Escola urbana” ( http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/urbana1.htm): um movimento da literatura brasileira contemporânea que se caracteriza por protagonistas apáticos, mulheres objetos e ausência de enredo.

O livro de cem páginas conta a história porto-alegrense de um recém-graduado em Letras, especialista em russo e aspirante a tradutor literário, que conhece a modelo Marcela numa formatura e passam a noite juntos no apartamento quase sem mobília onde mora o rapaz. A partir dessa primeira noite, os dois passam a se encontrar com freqüência, sempre no despojado ap, conforme a vontade da moça. Os dois formam um casal improvável (ela muito bonita para ele), mas esta é outra característica da ‘Escola urbana’: protagonistas feios, sujos e malvados que traçam belas mulheres. No relacionamento aparentemente baseado em sexo não se pronuncia a palavra amor. (Mas não verbalizar não quer dizer não sentir). Desempregado e com dificuldades para pagar suas contas, o jovem vai almoçar na casa dos pais todo domingo. É deles o suporte financeiro para sua tentativa de vôo solo. Quando o pai lhe dá a real que não pode mais ajudá-lo, é Marcela, cuja carreira vai bem, que ajuda com o dinheiro do aluguel. Outros personagens do livro são: o porteiro que pinta quadros surrealistas e faz sorvete caseiro; o motoboy Lárcio (que atropela Marcela e, como pedido de desculpas, oferece um jantar em sua casa); Ana, a mulher de Lárcio, e, last but not least, Churras, o cachorro vira-lata.




O filme, roteirizado pelos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, junto com Marçal Aquino, acrescenta pontos que não constam no livro e omite partes interessantes, como as recordações do protagonista sobre o avô. Entre os acréscimos, uma fala do pai de Ciro (o protagonista, que no livro não tem nome) com o filho à beira do Guaíba sobre problemas enfrentados no casamento devido ao uso de drogas.

É inevitável para quem leu o livro fazer comparações com o filme; por exemplo, a descrição física de Lárcio no livro não fecha com o Lárcio da tela – o que não impediu a atuação convincente do ator Marcos Contreras. Em compensação, o cão e o porteiro (Luis Carlos Coelho) estão perfeitos no quesito compatibilidade com o original e ''roubam" as cenas em que aparecem. Outra diferença: a causa mortis de Churras, detalhe importante no livro, não é mencionada no filme. O título alternativo “Até o dia em que o cão morreu” foi mudado para o comercial Cão sem dono. O roteiro permite-se citações literárias com tempero local, como a entrada de Ciro na livraria para comprar obras de Sérgio Faraco.
Quanto ao filme em si, sua melhor qualidade é a despretensão, que chega a níveis quase intoleráveis. O filme é tosco, dá a sensação de que não houve preocupação em repetir cenas (o que pode não ser verdade), e algo me diz que foi exatamente essa a intenção dos diretores Renato Ciasca e Beto Brant. Quando Marcela (a estreante Tainá Müller, a namorada de Daniel Galera) está com a perna enfaixada, tive a impressão até de que um erro de continuidade foi incluído propositalmente, para desconcertar ou deixar o público com a pulga atrás da orelha. Falando em pulgas, bem que o cão podia ter aparecido mais - ele some durante a parte final. Mas, na verdade, o verdadeiro cão sem dono do filme é Ciro (Júlio Andrade), imagem e personagem de uma Porto Alegre cinza e underground (com direito à cena na Garagem Hermética).

sexta-feira, maio 18, 2007

Contando, ninguém acredita!

Original

Brasil / Portugal

1. Requiem for a dream

Réquiem para um sonho / A vida não é um sonho

2. The fountain

A fonte da vida / O último capítulo


3. Charlotte's Web

A menina e o porquinho / A teia de Carlota

4. Flags of our fathers

A conquista da honra / As bandeiras de nossos pais

5. Relative strangers

Parentes perfeitos / Socorro, conheci os meus pais!


6. School for scoundrels

Escola para idiotas / Escola para totós


7. Little Miss Sunshine

Pequena Miss Sunshine / Uma família à beira de um ataque de nervos

8. Smokin' aces

A última cartada / Um trunfo na manga


9. The departed

Os infiltrados / Entre inimigos

10. The painted veil

O despertar de uma paixão / O véu pintado

11. One hour photo

Retratos de uma obsessão / Câmara indiscreta


12. Amores perros

Amores brutos / Amor cão


13. Dante's peak

Vulcano / O cume de Dante


14. Dragonfly
O mistério da libélula / O poder dos sentidos

15. My big fat Greek wedding

Casamento grego / Viram-se gregos para casar


16. Panic room

Quarto do pânico / Sala de pânico


17. For your eyes only

Somente para seus olhos / Missão ultra secreta


18. Analyze this

Máfia no divã / Uma questão de nervos


19. The best of the Muppets

O melhor dos Muppets / O melhor dos Marretas


20. Minority report

A nova lei / Relatório minoritário


21. Road to perdition

Estrada para a Perdição / Caminho para a Perdição


22. Moonsoon wedding

Casamento à indiana / Casamento debaixo de chuva


23. Charlie's Angels

As Panteras / Os Anjos de Charlie


24. Vertigo

Um corpo que cai / A mulher que viveu duas vezes

25. Stranger than fiction

Mais estranho que a ficção / Contando ninguém acredita

;)






domingo, abril 29, 2007

Miss Potter


A escritora e ilustradora Beatrix Potter (1866-1943) encantou gerações com sua série de livros que imortalizaram personagens como Peter Rabbit (The tale of Peter Rabbit, publicado em 1902, vendeu 40 milhões de cópias no mundo todo) e Jemima Puddle-Duck.

Sua vida e arte são abordadas em Miss Potter. Renée Zellweger é a delicada Beatrix e Ewan McGregor é Norman, o inexperiente, porém perceptivo editor das obras de Beatrix. Os seguidos contatos entre a artista e o homem de negócios provocam sentimentos inesperados no coração da solteirona de 36 anos, mas os pais aristocratas de Beatrix não aprovam a amizade.

O diretor australiano Chris Noonan - cuja realização mais famosa é "Babe, o porquinho atrapalhado", de 1995 - conta a biografia da artista londrina de modo enternecedor.

quarta-feira, abril 25, 2007

A colheita do mal

O diretor Stephen Hopkins tem no currículo A Hora do Pesadelo 5 (1989), Predador 2 (1990), A Sombra e a Escuridão (1996) e Perdidos no Espaço (1998). De 1999 a 2001, namorou a atriz Naomi Watts. (Sei, isso não tem relevância alguma.) Em 2004, dirigiu a co-produção da BBC e HBO The life and death of Peter Sellers, com Geoffrey Rush. O realizador nascido na Jamaica e educado em Londres agora ataca com The reaping (A colheita do mal, 2007), cujo maior trunfo é a presença de Hillary Swank. A atriz duplamente oscarizada é Katherine Winters, missioneira que, após um trauma familiar, torna-se uma pesquisadora cética. Através de explicações científicas, desmascara eventos "sobrenaturais" ou "milagrosos". Tipo de pessoa que deve ter como livro de cabeceira O mundo assombrado pelos demônios, a obstinada defesa da ciência magistralmente escrita por Carl Sagan.

Depois de solucionar um caso inicial (o cadáver de um padre intacto por 40 anos no Chile), Katherine é chamada a uma pequena cidade nos Everglades. O rio ficou vermelho e as pessoas acusam Loren McConnell (AnnaSophia Robb), uma menina de 12 anos, de ser a responsável. Com a ajuda de Ben (Idris Elba) e o assessoramento local de Doug (David Morrissey), Katherine procura uma explicação científica para a cor escarlate da água do rio. Retira amostras e manda para o laboratório. In the meantime, novos episódios estranhos acontecem, numa sucessão que imita as dez pragas bíblicas. Katherine tenta se aproximar da menina Loren, o que lhe evoca a lembrança da própria filha e do marido, assassinados no Sudão quando Katherine trabalhava como missionária.

Os problemas do roteiro são o mau uso das idéias e o modo como as 'explicações' são inseridas. A colheita do mal não faz jus ao gênero suspense/fantástico, tradicionalmente defendido por diretores de talento, como Alfred Hitchcock, Peter Jackson e Sam Raimi.

domingo, abril 08, 2007

300

O diretor Zack Snyder, de Madrugada dos Mortos
(http://olharcinefilo.weblogger.com.br/200404_olharcinefilo_arquivo.htm), baseia sua segunda e esperada película no homônimo álbum de HQ de Frank Miller sobre a Batalha das Termópilas, episódio da guerra entre gregos e persas, no século V a.C.

Nessa batalha, o bravo Leônidas recruta 300 dos melhores soldados espartanos, todos com filhos a quem legar o nome, com o objetivo de impedir o avanço das tropas persas por território grego. O plano de Leônidas (Gerard Butler), com a ajuda de 4000 combatentes de outras cidades-estado, é formar uma barreira humana inexpugnável no desfiladeiro das Termópilas - que, na época, possuía uma passagem de 12 metros de largura -, repelir as investidas, infligir perdas no numeroso exército persa (conforme Heródoto, um milhão de soldados; historiadores modernos calculam em 250 mil), e assim abater o ânimo dos comandados de Xerxes (Rodrigo Santoro). Uma das bonitas cenas do filme é o momento em que Leônidas parte com seus 300 soldados e se despede do filho e da rainha Gorgo (Lena Headey).

Há líderes em que a coragem, a obstinação, a estratégia, a ética e o amor à liberdade se reúnem de forma rara; há filmes onde o apuro, a honestidade, a energia, o idealismo e a paixão se unem de modo empolgante. Líderes como Leônidas, o rei de Esparta, e filmes como 300, de Zack Snyder.

Transamerica

Duncan Tucker estréia como diretor contando a história de Bree, diminutivo para Sabrina, cozinheira/garçonete numa modesta lancheria de Los Angeles. Em casa, Bree completa a renda como agente de televendas. Tudo seria normal na vida dessa discreta senhora, não fosse seu pênis. Bree é na verdade Stan, diminutivo para Stanley, um transexual na fila de espera para a operação de redesignação sexual. Para isso, precisa do aval da terapeuta Margaret (Elizabeth Peña). Quando Bree conta à psicóloga sobre a ligação inesperada de Toby (Kevin Zegers, de Madrugada dos Mortos), jovem de 17 anos recolhido a um reformatório que alega ser filho de Stanley, a cirurgia é adiada, a fim de que Bree/Stan possa resolver essa unfinished question.

Bree pega um vôo para Nova York, paga a fiança de Toby, apresenta-se como emissária de uma igreja e oferece ao jovem a possibilidade de acompanhá-la até Los Angeles, e lá começar uma vida nova.
Sem melhor opção, Toby aceita e os dois empreendem uma viagem de carro através da América, passando por muitos lugares, tendo contato com muitas pessoas, como o padrasto de Toby; o andarilho hippie a quem oferecem carona; Calvin (Graham Greene), o simpático descendente de índio por quem Bree se interessa; e a família de Bree, em especial Elizabeth (Fionulla Flanagan, de Os outros), que não aceita a opção do filho, mas se apaixona pelo neto Toby. A relação Toby - Bree evolui ao longo da viagem, à medida que as máscaras caem e as verdades se revelam. O trabalho da atriz Felicity Huffman (a Lynette do seriado Desperate housewives) como a protagonista valeu uma indicação ao Oscar e um Globo de Ouro. A produção do filme ficou a cargo de William H. Macy, marido de Felicity.

O crocodilo

Em Il Caimano (2006), o diretor Nanni Moretti volta a misturar ficção com realidade, e a mesclar temas como a preocupação com as relações familiares, a situação política de seu país e a vida profissional de um diretor de cinema. Aprile (1998) relatava a experiência de um diretor de cinema às voltas com as suas produções fracassadas, o nascimento do primeiro filho e as eleições na Itália, que acabaram levando Silvio Berlusconi ao poder. No seu mais recente filme, o realizador italiano (que em 2002 obteve a Palma de Ouro de Melhor Filme, com O quarto do filho) conta a saga do diretor de filmes B Bruno Bonomo (Silvio Orlando) - cujo casamento com Paola (Margherita Buy) está em fase terminal - no esforço de manter-se no meio cinematográfico, fazendo um épico ambicioso sobre Cristóvão Colombo. O plano soçobra, e a alternativa é um roteiro chamado "Il Caimano", que lhe havia sido entregue durante uma sessão de cinema, por uma moça desconhecida com um bebê de colo. Bruno faz uma leitura 'em diagonal' do roteiro e resolve convencer os produtores a financiar o filme - sem perceber que a história contada por Teresa (Jasmine Trinca) é, na verdade, baseada nos fatos políticos italianos e uma crítica ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
Em O crocodilo, a exemplo do que fez em Abril, Moretti estabelece um jogo onde a ideologia política é um dos elementos, sem, entretanto, perder a autocrítica; até o próprio Bruno, a certa altura, comenta que é 'muito fácil fazer um filme ideológico'. No âmbito familiar, se o filme de 1998 enfatizava a expectativa de um pai de primeira viagem, agora o foco é a separação de um casal com dois filhos pequenos (um de 9 e um de 7). A solitude de Bruno é tanta que ele passa a dormir no estúdio, numa cama improvisada em meio aos rolos de filmes como "O Mocassim Assassino", "Machistas Contra Freud" e "Cataratas". Uma cena síntese do estilo Moretti é a que Paola e Bruno, após assinar o divórcio, emparelham seus carros no trânsito e trocam olhares, ao som de Blower's daughter, de Damien Rice. Sim: os bons cineastas não têm medo de serem rotulados de piegas.

domingo, março 25, 2007

Little Miss Sunshine e El Laberinto del Fauno

Uma rápida olhada na programação e percebo a atraente possibilidade de duas sessões encordoadas nas salas de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana (que, com a competente e austera Mônica Leal à frente da Secretaria da Cultura, certamente não irão fechar): Pequena Miss Sunshine às 18h20 e O Labirinto do Fauno às 20h. Sair de uma e entrar na outra. Dito e feito: dois filmes de culto, o primeiro, norte-americano, Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Adjuvante (Alan Arkin); o segundo, mexicano, Oscar de Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem; ambos igualmente belos, cada qual a seu estilo, porém, diametralmente opostos nas sensações que provocam no público.

O filme do casal Valerie Faris e Jonathan Dayton (que trabalham juntos desde os tempos em que se conheceram na UCLA; entre outros trabalhos, produziram clips do REM e Smashing Pumpkins) em poucos minutos apresenta seis interessantes personagens de uma mesma família: a pequena e espontânea Olive (Abigail Breslin, a filha de Mel Gibson em Sinais), de sete anos, que fica entusiasmada com a oportunidade de participar de um concurso de beleza; seu irmão Dwayne (Paul Dano), leitor de Nietzsche, que se comunica através de um bloco e um lápis, por conta de um voto de silêncio; o pai Richard (Greg Kinnear), criador de uma técnica de chegar ao sucesso chamada 'Os nove passos'; o avô (Alan Arkin, no papel que lhe valeu o Oscar), pai de Richard, que mora junto na casa do filho após ser expulso da casa geriátrica por consumo de drogas; a esposa Sheryl (Toni Colette), elemento agregador-estabilizador da conturbada família, que tem ainda Frank, irmão de Sheryl, especialista em Marcel Proust, gay e suicida. Essa fauna, enquanto vai de Albuquerque a Redondo Beach, na Califórnia, trafegando em uma Kombi sem embreagem, realizar o sonho de Olive em participar do concurso "Little Miss Sunshine", é obrigada a funcionar como uma verdadeira família, onde as pessoas se aceitam, se encorajam e procuram se compreender.





Por sua vez, a película de Guillermo Del Toro traz uma fauna mais literal: sapos, louva-a-deus, escaravelhos, fadas, faunos, criaturas presentes na imaginação de Ofélia (Ivana Baquero). A menina, devoradora de contos-de-fadas, acompanha a mãe Carmen (Ariadna Gil), que está grávida, numa viagem de automóvel até uma base militar, cujo líder é o desalmado capitão Vidal (Sergi Lopez). Na concepção do comandante da base, um filho tem que nascer onde está o pai. Na nova morada, a introvertida Ofélia faz amizade com Mercedes (Maribel Verdu), uma das cozinheiras, e passa a vivenciar experiências preternaturais, envolvendo um fauno (Doug Jones) que mora num labirinto. Não demora, Ofélia percebe que Mercedes é informante dos rebeldes procurados pelos soldados de Vidal; enquanto a mãe se aproxima do parto e a violência a seu redor aumenta, Ofélia mergulha cada vez mais em sua dimensão paralela: precisa realizar as missões exigidas pelo fauno e provar ser a Princesa tão esperada.
O contexto histórico é a Espanha dos anos 40, na ditadura de Francisco Franco. O realizador Guillermo del Toro (de A Espinha do Diabo, Blade II e Hellboy) faz uma pequena obra-prima do cinema fantástico que é, ao mesmo tempo, um libelo contra os regimes fascistas.

Ao cabo de Little Miss Sunshine, as luzes se acendem e revelam semblantes radiantes. No fim de El Laberinto del Fauno, olhares sombrios. Um leva às gargalhadas, o outro à apreensão. Um encanta pela leveza, o outro pela densidade. Um surpreende pela simplicidade, o outro pela elaboração. Dois cults de primeira ordem.

Cartas de Iwo Jima

Clint Eastwood, que aprendeu a dirigir observando diretores como Don Siegel e Sergio Leone, conta sob o ponto de vista do país oriental a desesperada batalha de Iwo Jima, travada em fevereiro e março de 1945, na sulfurosa ilhota do Japão. Empreitada suicida para os japoneses que, jogados à própria sorte, sem possibilidade de reforço aéreo e naval, organizaram-se do melhor modo para resistir o máximo possível ao bem estruturado e maciço ataque norte-americano. Com base num elenco forte - que inclui Ken Watanabe (o estrategista General Kuribayashi, que coordenou a férrea defesa, possível devido à construção de uma rede de túneis e cavernas), Ryo Kase (o hesitante soldado Shimizu), Tsuyoshi Ihara (o bravo Tenente Coronel Baron Nishi, que comandou o regimento de carros de combate, colocados camuflados em posições estáticas) e Kazunari Ninomyia (o irreverente Saigo, o soldado decidido a sobreviver ao horror da guerra e voltar para a mulher e a filha recém-nascida) -, Eastwood realiza um filme sensível e humanizante - por mais paradoxal que isso possa parecer. Falado em japonês.

sexta-feira, março 23, 2007

Motoqueiro fantasma

Peter Fonda, um dos motoqueiros de Easy Rider (Sem Destino, 1969), nesta adaptação dos quadrinhos Marvel dirigida por Mark Steven Johnson (que tem no currículo O Demolidor, 2002) é o diabo em pessoa. Johnny Blaze descobre que a saúde de seu pai, com quem trabalha e com quem aprendeu a pilotar motos para exibições, está seriamente afetada. Um misterioso homem aparece e lhe propõe um negócio: a sua alma em troca da saúde paterna. Meio sem querer, Johnny assina o contrato com uma gota de sangue. Está selado o seu destino: ficar à disposição de Mefistófeles para o dia em que ele precisar de seus préstimos. O pai melhora mas morre num acidente. Johnny torna-se um cara solitário e soturno, vivendo somente para o trabalho e afastando-se da namorada Roxanne. Anos depois, os dois se reencontram, ele (Nicolas Cage), o mais ousado motoqueiro de saltos, ela (Eva Mendes), a jornalista que o entrevista antes de mais uma perigosa apresentação. Então volta a intervir o maquiavélico Mefistófeles, cobrando a dívida e dando a Johnny uma missão; para cumpri-la, Johnny recebe poderes fantásticos. À noite, na presença do mal, transforma-se no Ghost Rider: no lugar da face, uma caveira em fogo; no lugar dos pneus, rodas incandescentes que deixam rastros por onde passa. Como arma, uma corrente que leva enrolada a tiracolo. Para livrar-se do vínculo com Mefisto e tentar resgatar o amor por Roxie, Johnny irá enfrentar uma gangue de vilões fantasmagóricos liderados por Blackheart (Wes Bentley) e contar com ajuda do coveiro interpretado por Sam Elliot. Pura diversão para acompanhar a pipoca.


quarta-feira, março 21, 2007

Letra e música

O loser assumido Alex Fletcher (Hugh Grant), ex-integrante da banda Pop, sucesso nos jurássicos anos 80, ganha a vida fazendo shows com playback, agendados pelo empresário - não menos loser - em clubes para reduzido público nostálgico - trintonas, quarentonas e afins, sequiosas de ver de perto o antigo ídolo, apesar de ele estar, atualmente, um tanto fora de forma.
A carreira se encaminha a um final melancólico, quando, do nada, Cora Corman (Haley Bennett), a cantora 'da hora', requisita Alex para lhe compor uma canção. Para oxigenar a combalida carreira, Alex aceita o desafio e procura uma pessoa para escrever a letra - o seu forte é a melodia. Depois de uma frustrada tentativa com um letrista profissional, Alex aposta as fichas em Sophie Fisher (Drew Barrymore), a atrapalhada, hipocondríaca e esquisita moça que substitui a cuidadora de plantas, que, despretensiosa, dá um palpite - um verso que agrada o veterano ex-pop star.
Desenvolve-se então uma inusitada parceria, que possibilitará um conhecimento mútuo e o surgimento de personagens como Sloan Cates (Scott Campbell), asqueroso professor com quem Sophie teve um caso no passado.
A tiração com os musical e bregamente incomparáveis anos 80 é total, vide a hilária abertura do filme. Apesar do tom irônico-satírico, o filme acaba sendo uma homenagem aos Eighties, tão badalados festas afora, tão presentes nos palcos de Porto Alegre neste mês de março (Bryan Adams, em show impecável no Teatro do Sesi, e Pet Shop Boys, que levou os fãs ao delírio no Gigantinho).
O roteirista e realizador Marc Lawrence, de Amor à segunda vista (2002), nos proporciona em Letra e música (2007) estimulantes momentos de humor e romance.

terça-feira, março 20, 2007

Pro dia nascer feliz

Documentário de João Jardim sobre a educação brasileira. O cineasta, depois de lançar o premiado Janela da Alma (2002, co-dirigido por Walter Carvalho, sobre a importância da visão e como pessoas com diferentes graus de deficiência visual percebem o mundo), respondeu assim a uma pergunta sobre projetos futuros (publicada no site Cinemando, assinada pelo repórter Thiago Ribeiro - http://www.cinemando.com.br/200211/entrevistas/joaojardim_01.htm): "Não tenho nada ainda. Gostaria de ter uma idéia boa de novo. Não importa para quê. Tem que ter uma idéia que valha a pena." A boa idéia de Jardim foi dirigir o seu olhar sensível para nossos estudantes do ensino médio, suas angústias e aspirações. Produto de mais de 200 horas de filmagem e muitos quilômetros rodados, Pro dia nascer feliz conta com a trilha sonora de Dado Villa-Lobos e capta flagrantes da vida escolar e pessoal dos estudantes. Percorrendo vários estados, como Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro, o documentarista seleciona "personagens" representativas do talento, da capacidade, da esperança - mas também da falta de perspectivas e de valores - de nossa juventude.
Uma dessas personagens de talento é a pernambucana Valéria (a moça da foto), autora de poemas que os professores não acreditam serem dela. Outra é moça de olhos claros, cdf, de uma escola tradicional de São Paulo, que se emociona ao falar do ano de muito estudo e pouco namoro. De retrato em retrato, escola em escola, Jardim forma um mosaico de retalhos que bem espelha a realidade da educação nacional. Sem dúvida, a idéia valeu a pena.

segunda-feira, março 19, 2007

A Rainha e Maria Antonieta


Stephen Frears e Sofia Coppola. A monarquia britânica do século XX e a monarquia francesa do século XVIII. Helen Mirren e Kirsten Dunst. O comedimento de Elisabeth e a extravagância de Maria Antonieta. Em comum nos dois filmes, o retrato da frivolidade real: caçadas e mais caçadas para preencher o tempo de reis, cônjuges, príncipes e congêneres. Caçadas de Louis XVI e sua comitiva, assessorados por uma matilha de cães; caçadas do figurativo marido da Rainha Elisabeth, com os netos, filhos de Diane. Um Oscar de Melhor Atriz e um de Melhor Figurino. Frears retrata os bastidores da morte de Diane, que coincidiu com a posse do primeiro ministro Tony Blair (Michael Sheen), e a forma com que Blair convenceu a Rainha a ouvir o povo e alterar a postura distante e aparentemente insensível.
Sofia Coppola, inspirada no livro da historiadora Antonia Fraser,
conta a jornada da jovem Maria Antonieta, enviada aos 14 anos da Áustria para a França se casar com Louis, neto do rei (que traça uma cortesã) (ninguém menos que Asia Argento). Louis não consegue 'consumar' o casamento; neste meio tempo o rei falece, levando ao poder o jovem casal.
A visão da diretora Sofia Coppola (Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros) é condescendente em relação aos desvios (?) morais e sexuais de Maria Antonieta. O melhor do filme é a trilha sonora, que resgata canções de New Order, Joy Division, Siouxsie & The Banshees, Cure, e dá uma chance aos Strokes.


segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan - 2006


Borat Sagdyiev, repórter do Cazaquistão (país asiático com um região européia: a área entre o rio Ural e a fronteira russa; um dos países que se tornaram independentes com a dissolução da URSS, em dezembro de 1991) é enviado aos EUA para trazer imagens e informações sobre o american way of life. Em terras ianques, o entrechoque cultural é inevitável; por conta das diferenças, o desengonçado repórter transcontinental envolve-se em uma série de situações estapafúrdias, enquanto tenta integrar-se ao novo meio, participando de programas de TV, aulas de auto-escola, aulas de etiqueta, jantares sociais, rodeios e cultos religiosos. Comodamente, o suposto documentário embrenha na carona de um ‘road movie’, uma jornada de Nova Iorque a Califórnia para encontrar Pamela Lee Anderson, atriz que interpreta uma salva-vidas no seriado Baywatch, por quem o intrépido jornalista cazaquistanês se apaixona.

O que me incomoda em Borat é o mesmo que me incomoda nos filmes de Michael Moore: a (dis)simulação. Tudo que acontece na tela faz parte de um roteiro em que os produtores do filme sabem exatamente onde querem chegar e as ‘vítimas’ – no caso, os cidadãos norte-americanos que topam participar da brincadeira sem saber a exata intenção do “documentário” – contracenam de forma inocente, muitas vezes para terem sua própria conduta, ou a de seu povo, ridicularizada. Usar a boa fé das pessoas contra elas é um humor no mínimo grotesco, sórdido e cruel.
O que salva Borat são o sotaque, os trejeitos e a figura engraçada do comediante britânico Sacha Baron Cohen (criador do controverso personagem Ali G), que interpreta o protagonista; por mais politicamente correto e supostamente sem preconceito anti-americano que o espectador pretenda ser, por mais que este seja sisudo e incapaz de 'pegar o espírito da coisa', é quase impossível segurar o riso.

domingo, fevereiro 11, 2007

Mais estranho que a ficção


Harold Crick (Will Ferrell) é um metódico e solitário auditor da Receita Federal que conta as escovadas nos dentes e os passos até pegar o ônibus. Passa os dias a investigar contribuintes pegos na malha fina. Seu único amigo é o colega de trabalho Dave (Tony Hale), a quem confidencia estar ouvindo uma voz feminina que narra em vocabulário cheio de metáforas e figuras de linguagem a sua previsível rotina, cujo próximo trabalho é auditar as contas de uma confeitaria. Harold consulta o Dr. Cayly (Tom Hulce), que lhe aconselha férias, e depois a psiquiatra Dra. Mittag-Leffler (numa pontinha da oscarizada Linda Hunt de O Ano em que Vivemos em Perigo) que, ao tomar conhecimento do problema narrativo de Harold, o recomenda a procurar alguém que entenda de literatura. É assim que Harold chega ao professor de teoria literária Jules Hilbert (Dustin Hoffman). In the meantime, Harold apaixona-se por Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a rebelde dona da confeitaria. Paralelamente, a escritora Karen Eiffell (Emma Thompson), com a ajuda da assistente Penny Escher (Queen Latifah), luta para superar um bloqueio criativo.
Essas são as curiosas premissas de Stranger than Fiction (2006), o filme do realizador Marc Forster (cujo projeto para 2007 é O Caçador de Pipas). A filmografia do suíço formado em cinema na NYU inclui A Passagem (2005), Em Busca da Terra do Nunca (2004) e A Última Ceia (2001). Se em Mais estranho que a ficcção os temas soturnos e a obsessão com o suicídio e a morte permanecem, dão espaço para uma certa leveza e comicidade, elementos de um roteiro recheado de detalhes literários. O modo com que o Professor Hilbert intercede no intrigante caso de Harold vai deliciar quem aprecia uma boa narrativa e - mais ainda - quem tem a referência de um (a) professor (a) de teoria literária. Mais estranho que a ficção lembra - pelo lirismo, estofo literário e estilo 'filme-cabeça' - Adaptação (2002), dirigido por Spike Jonze e co-roteirizado por Charlie Kaufman.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

À procura da felicidade (The pursuit of happyness)


Para tentar abiscoitar o Oscar de Melhor Ator, Will Smith produziu e encarnou a personagem principal dessa 'biopic' passada na década de 80. Para a direção, selecionou o realizador de "L'ultimo bacio", o italiano Gabriele Muccino (que por sinal, está em alta em Hollywood: o seu filme de 2001 já ganhou versão ianque), que por sua vez convidou o músico Andrea Guerra para fazer a trilha. 

The pursuit of happyness conta a história verídica de Chris Gardner, homem abandonado pela mulher Linda (Thandie Newton), por conta da incapacidade de vender os milagrosos scanners de densidade óssea e pagar as contas da casa. Antes de ir para Nova York, Linda espezinha Chris e caçoa de sua tentativa de conseguir estágio em importante empresa de corretagem de ações; Christopher (Jaden Smith, filho de Will Smith), o filho do casal, fica com o pai em San Francisco.

O happYness do título refere-se a uma pichação na parede próxima à creche onde Chris deixa o filho enquanto anda pela cidade tentando vender a geringonça nos hospitais, tudo sem esquecer do sonho de melhorar de vida. Tanto insiste (usa até a habilidade em brincar de cubo mágico) que consegue a chance de uma entrevista. Então é preso por multas de trânsito e é obrigado a comparecer à entrevista todo sujo de tinta.

O termo "pursuit of happiness" foi cunhado por Samuel Johnson, na novela Rasselas. Publicada em 1759 para pagar o funeral da mãe, Johnson conta a história de Rasselas, o príncipe da Abissínia, que parte de sua terra natal - o Happy Valley - na companhia do mentor Imlac, da irmã Nekayah e o servo da irmã, Pekuah; os quatro atravessam o Egito à procura de um modo de vida mais feliz. Lá pelas tantas, Pekuah e Nekayah são obrigados a se separar, e Nekayah, sentindo a falta dele, pondera: "Yet what is to be expected from our pursuit of happiness, when we find the state of life to be such that happiness itself is the cause of misery? Why should we endeavour to attain that of which the possession cannot be secured?"
Para Chris, a felicidade passa a ser um lugar para dormir, um quarto no albergue municipal, para que ele e o filho não precisem dormir de novo no banheiro do metrô.


Em 1776, um intertexto com a novela de Samuel Johnson surgiria em plena Declaração da Independência Norte-Americana, de autoria de Thomas Jefferson: "We hold these truths to be sacred & undeniable; that all men are created equal & independent, that from that equal creation they derive rights inherent & inalienable, among which are the preservation of life, & liberty, & the pursuit of happiness; that to secure these ends, governments are instituted among men, deriving their just powers from the consent of the governed; that whenever any form of government shall become destructive of these ends, it is the right of the people to alter or to abolish it, & to institute new government, laying its foundation on such principles & organising its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their safety & happiness."

Para Will Smith, a felicidade este ano é levar o Oscar para casa.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Apocalypto


Vivendo uma aparente tranquilidade na jangal mesoamericana, indo à caça na companhia do pai e de outros guerreiros, brincando com o filho, fazendo amor com a mulher grávida, Jaguar Paw (o ator de etnia comanche Rudy Youngblood, em seu papel de estreia) vai sentir uma das piores sensações humanas: ter o lar invadido por pessoas cujo modo de vida é a depredação, o prazer em destruir o trabalho alheio; pessoas cuja principal atividade é a usurpação, o incêndio. Vai lembrar o conselho recebido do pai em uma caçada: "não deixe o medo te paralisar, não foi para viver com medo que eu te criei".

 












Apocalypto (2006) acompanha esse jovem caçador a um mundo desconhecido, numa jornada de estoicismo, têmpera e resistência. Uma jornada contra o medo. Podem dizer o que quiserem do diretor Mel Gibson (ator de dois de meus filmes preferidos, da fase australiana de Peter Weir: Gallipoli e O ano em que vivemos em perigo), mas não podem acusá-lo de esquecer os detalhes de produção. Apesar do elenco ser multinacional, com atores de diferentes línguas nativas, o filme é todo em Yucatec Maya, língua hoje falada pelos descendentes maias da Península de Yucatan, no México. O elenco teve cinco semanas de aula com falantes nativos do Yucatec e recebeu gravações em MP3 com a pronúncia exata de suas falas, e durante as filmagens contou com a presença de instrutores para garantir a inflexão correta. Antes de tecer intertexto com o livro "Armas, germes e aço", de Jared Diamond, que investiga a relação entre povos não europeus e europeus, Apocalypto revela os pontos de ruptura da civilização maia – evoluída em muitos aspectos, primitiva em outros – e os contrastes entre a vida de uma tribo de coletores-caçadores e a atribulação da urbe maia. Sim, há momentos de violência e de pavor. Em certa altura, o espectador chega a pensar "que situação...". Ou seja: as perspectivas, quando ruins, podem ficar ainda piores. Para Mel Gibson, porém, Apocalypto é um filme sobre a esperança em um novo começo. Jaguar Paw e sua excruciante aventura podem muito bem simbolizar a frase "A esperança é a última que morre". Uma ressalva: posso estar enganado, mas me parece que Apocalypto é um filme não recomendável a seres de estômago delicado, que não suportam ver um mero coração arrancado ainda batendo do peito da vítima no altar de sacrifício.

domingo, dezembro 24, 2006

Sylvia


Minha irmã veio para o interior e trouxe dois filmes do Daniel Craig -- ator fetiche dela atual. Nas palavras da mana, Craig é "másculo". Falando em palavras: topei a sessão apesar do subtítulo "Paixão além das palavras". Suponho que o subtítulo foi concebido para chamar a atenção ao subtema literário; sim, a Sylvia do título é ninguém menos que Sylvia Plath, a poeta e novelista bostoniana. Subtema pois o foco do filme de Christinne Jeffs não é a literatura, e sim o relacionamento tempestuoso de Sylvia (Gwyneth Paltrow) com o poeta inglês Ted Hughes (Craig). Os dois se conhecem em Cambridge, onde Sylvia vai estudar ao ganhar uma bolsa. Tempestuoso pois vivem o tipo mais fulminante de paixão -- o que envolve admiração intelectual. Pelo o que outro escreve. Pelas... palavras. (Words/don't come easy/to me/how can I find a way/to make you see/I love you/Words don't come easy - F.R.David). Entre um bloqueio literário e outro, o casamento gerou dois filhos e poemas cultuados. Numa cena do filme, Ted explica a um amigo que ama Sylvia mesmo sendo infiel a ela (e é possível amar e ser infiel?). O comportamento de Ted conduz Sylvia à insegurança e ao ciúme, ou o ciúme e a insegurança de Sylvia levam ao comportamento de Ted? Não importa: Sylvia é obcecada pela morte -- antes de conhecer Hughes havia tentado se matar duas vezes.

Para enriquecer o post, um poema de Sylvia Plath que trabalhamos durante a I Oficina de Tradução Literária.


I Am Vertical - Sylvia Plath

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one's longevity and the other's daring.

Tonight, in the infinitesimallight of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them--
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

Sou Vertical
Mas preferiria ser horizontal.
Não sou uma árvore com as raízes na terra
Extraindo nutrientes e amor maternal
Pra minha folhagem rebrotar, de repente, cada nova primavera,
Nem sou a beleza de um jardim florido
Atraindo minha cota de “Ohs” e multicolorido,
Sem dar por isso, em breve, derrubarei minhas pétalas.
Comparada comigo, uma árvore é perpétua
E uma corola, mesmo pequena, surpreendente;
Quero de uma, a longevidade; da outra, o atrevimento.

Hoje à noite, nas infinitesimaluzes estelares,
As árvores e as flores espargem frescos odores.
Caminho entre elas, mas nenhuma está notando.
Às vezes penso: quando estou sonhando
Mais perfeitamente a elas me assemelho -
O pensamento fica trêmulo.
É mais natural para mim, deitar.
Então o céu e eu não paramos de conversar.
E posso ser útil quando deitar a última vez:
Enfim receber o carinho das árvores e a atenção das flores.

Tradução: Henrique Guerra.

A felicidade não se compra


É Natal, tempo de reflexão e corações desarmados. Aproveitei a data para rever um dos mais belos filmes natalinos: A felicidade não se compra (It's a wonderful life, 1946).
Frank Capra nos conta a história de George Bailey (James Stewart). Em plena noite de Natal, o pai de quatro filhos e marido da adorável esposa Mary (Donna Reed), está bêbado, com o lábio sangrando, no alto de uma ponte, olhando o caudaloso rio lá embaixo. George é um homem no limite de suas forças. Um homem sem esperanças. A sua empresa – uma casa de empréstimos que financia a construção de boas residências para pessoas de baixa renda na pequena cidade de Bedford Falls – está prestes a falir. Em plena noite de Natal, George, em meio à forte nevasca, pensa em se suicidar.
Há salvação para ele? Para tentar reverter a situação, o anjo de segunda classe Clarence é enviado. De segunda classe, pois, apesar de quase três séculos de idade, ainda não ganhou o que distingue um anjo de um mero mortal. Se for bem sucedido em seu intento, lhe prometem, finalmente ganhará o sonhado par de asas. Os momentos cruciais da vida de George são mostrados a Clarence, para que ele possa ter subsídios e conseguir cumprir a difícil missão de salvar George. Clarence, com o consentimento superior, permite a George ver como o mundo seria se ele não tivesse nascido.
A carga emotiva do filme de Frank Capra permanece insuperável ainda hoje. Para quem nunca viu, é o tipo do filme para toda a família. Para quem já viu, vale sempre a pena revisitar esse clássico da década de 40 – ainda mais na época do Natal.

domingo, dezembro 17, 2006

Cassino Royale



Cassino Royale, o filme de 1967, com Ursula Andress no papel de Vesper Lynd, e David Niven no de James Bond, não fez parte da série oficial do 007 e, embora tenha reunido muitos talentos (incluindo o diretor John Huston e os atores Peter Sellers e Jean Paul Belmondo), obteve fraca recepção de público e de crítica. Entrou para a história mais como uma paródia ou sátira do que como um filme “sério”de 007.
Já o novo “cassino real”, além de pertencer à franquia 'oficial', aproveitou o melhor do roteiro original e acrescentou elementos de interesse. A combinação de roteiro engenhoso, direção eficiente de Martin Campbell e carisma de Daniel Craig credencia o novo Cassino Royale como um bom filme de 007.
Do original, o roteiro (assinado entre outros por Paul Haggis, de Crash) manteve, além do título, os nomes de algumas personagens (Le Chiffre, Vesper Lynd) e a “idéia principal” – a realização de um milionário jogo de pôquer em um luxuriante hotel.
O filme de Martin Campbell (especialista em filmes de ação como Limite Vertical e A Marca do Zorro) marca a estréia do ator Daniel Craig (com participações em Estrada para a Perdição e Munique) como 007. Campbell realizou também Goldeneye, o primeiro de Pierce Brosnan na franquia.
O ‘casting’ de Craig foi muito questionado pelos fãs radicais da série, por conta da altura e da cor do cabelo. Teoricamente muito baixo e loiro para ser o novo James Bond, sem o jeito de bom moço de um Sean Connery, a elegância de um Roger Moore, ou o charme de um Pierce Brosnan, Craig, nascido em março de 1968, compensou a estatura mediana com um excelente preparo físico; a cor do cabelo com a vantagem que, sendo loiro, ganhou como bond-girls belas morenas - como é o caso de Eva Green (de Cruzada) e Caterina Murino; a falta de elegância e de charme, com testosterona e melancólicos olhos azuis. Normalmente discreto no cumprimento das missões, o agente britânico assume com Daniel Craig uma postura mais violenta. A estratégia dá espaço ao contato físico e à truculência. Esse é o filme em que 007 mais bate e mais apanha. Paradoxalmente, é o filme em que a fragilidade de Bond está mais à flor da pele. Bond está mais humano e menos inteligente – é capaz até de se apaixonar.