terça-feira, fevereiro 23, 2021

Destacamento Blood

 


A contribuição de Spike Lee para o cinema jamais poderá ser subestimada.

Destacamento Blood, o seu filme mais recente, comprova a importância do cineasta para o cinema contemporâneo e, ao mesmo tempo, revela o quanto é importante manter o foco num longa-metragem.

Com locações na Tailândia, o filme tem como um de seus trunfos a bela fotografia de Newton Thomas Sigel, que neste artigo da Insider comenta os 5 melhores momentos do filme de Spike Lee.

Eis que é um desafio assistir ao filme "de um só fôlego". As 2h36minutos de duração meio que se arrastam. No cinema, seria muito cansativo.

Os flashbacks com cenas da guerra atrapalham o andamento da história interessante, ou seja, o reencontro dos amigos para resgatar itens importantes que deixaram para trás em terras vietnamitas. 



Sei, alguém poderá dizer que os flashbacks são relevantes do ponto de vista narrativo para dar uma dimensão das sequelas psicológicas dos personagens, em especial Paul, que é um personagem à beira do colapso.

Mas não precisavam ser tão extensos.

O fato é que precisei fracionar o filme em três etapas para chegar ao fim.

Isso não tira do filme as suas qualidades, que não são poucas.

Até porque ali em cima eu afirmei que Destacamento Blood comprova a importância de Spike Lee para o cinema atual.

O cinema precisa de cineastas independentes, que tenham sua visão própria e coragem para transmiti-la.




E qual é a visão em Destacamento Blood?

Imagine um mundo desequilibrado. 


Em cada prato da balança, Spike Lee coloca, alternadamente, desesperança, fé; inconformismo, ceticismo; ternura, ultraviolência; racismo de um tipo, racismo de outro; radicalismos, solidariedade; ganância, desprendimento.

A visão de Lee é caótica, quase niilista.

A menos que você só queira um motivo para levantar bandeiras, você também quer uma história bem contada.

E, em Destacamento Blood, o foco da história meio que se perde com a insistência naqueles desnecessários flashbacks que poderiam ter sido cortados. 

Essas memórias não transmitem verossimilhança, até porque os atores aparecem velhos combatendo na guerra do Vietnã junto com o amigo tombado, ainda jovem. Elas não "ring true", para usar uma expressão americana. Não soam verdadeiras. É nítida a impressão de que o cinema não precisava de mais cenas da Guerra do Vietnã filmadas de um modo atropelado e deslocado.




O melhor do filme está em cenas como aquela em que o grupo está no mercado flutuante e um local insiste em vender uma galinha a Paul, veterano da guerra do Vietnã interpretado por Delroy Lindo, cotado para ser indicado ao Oscar de Melhor Ator. 

Ele chama o vietnamita de "amarelo" num misto de desprezo e racismo.

Os bons momentos, entretanto, acabam diluídos em meio a cenas que não funcionam, coincidências exageradas de um roteiro que mais parece uma colagem de ideias do que um trabalho coeso. Boas ideias entremeadas com pastiches. No terço final o filme acelera e melhora sensivelmente, mas sempre com a falta de foco, com direito a homenagem a MLK e esse insistente aspecto de "jogar para a torcida".


 Compare-se, por exemplo, Destacamento Blood com a A voz suprema do blues. O primeiro tem uma hora a mais. É multifocal: trata de mil e um assuntos. O segundo é mais discreto e simples em termos de unidade e foco. Estilos diferentes de abordar uma história. Menos é mais e mais é menos? Ou será que o tumultuado mundo de hoje não é mais bem retratado pelo caos spikeliano?




Para terminar: as chances de Destacamento Blood no Oscar existem, mas vão depender de até que ponto o aspecto político vai influenciar. Destacamento Blood falta a coesão e a contundência dos melhores trabalhos de Spike Lee. Por outro lado, o longa confirma a posição de Spike Lee como um dos cineastas mais engajados politicamente e que não precisa de muitas "alegorias" para mostrar o que pensa.  


sexta-feira, fevereiro 19, 2021

Caos no show dos Strokes: o dia em que Nick Valensi arrebentou duas guitarras

 




quarta-feira, 26 de outubro de 2005


TIM FESTIVAL, PORTO ALEGRE, 25 DE OUTUBRO DE 2005

Acústicos & Valvulados; The Arcade Fire

Às 21 h em ponto subiu ao palco a banda gaúcha Acústicos & Valvulados, para fazer o show de abertura. Em breves e competentes 40 minutos, a banda revisitou velhos hits e mostrou um pouco do novo cd. Terreno preparado, a troupe canadense do The Arcade Fire invadiu o palco a todo vapor com seus sete frenéticos integrantes, cinco caras e duas gurias. O público respondeu bem à mistura de violino, acordeão, percussões diversas, guitarras, baixo, teclado e bateria. Entre as influências oitentistas, The Cure e Pogues. Outras características da banda são os coros pegajosos e a troca constante dos instrumentos entre os componentes, o que, se empresta ao show um certo tom de curiosidade, não contribui muito 'em termos de' unidade e entrosamento. Um dos componentes, inclusive, pareceu um tanto supérfluo, perdido entre tocar pandeiro, xilofone ou surdo. Em certos momentos, pareceu mais atrapalhar que ajudar, como na hora em que ficou balançando uma bandeira lado do guitarrista ou quando, na última música, ensandecido, escalou com seu tambor a estrutura de ferro que sustenta o telhado do pavilhão, correndo o risco de despencar de uma altura de 4 metros em cima do público. Comentei com uma representante do sexo feminino que a banda seria melhor sem ele e a resposta que obtive foi que ele era o 'mais bonitinho'.

The Strokes
Perto da meia-noite, Under Control abre os trabalhos da banda nova-iorquina. O contraste com o som do Arcade Fire é marcante: da sofisticação para o simples, da profusão para o minimalismo: a formação clássica de duas guitarras (Nick Valensi, o destruidor de guitarras, e Albert Hammond Jr., o carregador de pianos), baixo (o come-quieto Nikolai Fraiture, que ficou flertando com as moças bonitas da primeira fila), bateria (Fab Moretti, o carismático) e vocal (Julian 'hello beautiful people of Porto Alegre' Casablancas e seu indefectível casaco azul-marinho). O líder dos Strokes fecha os olhos e toca o peito ao cantar o verso 'I don't wanna give it to you, your way...'
Começar com uma calminha foi uma decisão acertada: Under Control teve a batida exata para cadenciar a excitação da galera, que promovia perigosas ondas de empurra-empurras à frente do palco. A letra de Under Control resume, também, um dos temas recorrentes da poesia de Casablancas e da filosofia dos Strokes: não desperdiçar o tempo.
'You're young, baby - for now but not for long'.
Not for long o público espera rock na veia: The end has no end, entoada com fervor pela massa delirante.
As duas primeiras pertencem ao álbum Room on Fire, de 2003. The Modern Age, do álbum Is this it, de 2001, e seus memoráveis versos 'Oh in the sun sun having fun, it's in my blood / I just can't help it, don't want you here right now', é a terceira do setlist. Na sequência vem uma palhinha do terceiro álbum, First Impressions of Earth, a ser lançado em janeiro. Diga-se de passagem: os fãs brasileiros foram os primeiros a ouvir as novas canções ao vivo. Os setlists dos shows brasileiros incluíram o single Juicebox, mais tocada da semana na rádio BBC, e mais quatro: Hawaii Aloha, Heart In A Cage, Razor Blade e You Only Live Once.
Garantidos por uma 'cozinha' mais que consistente - a bateria fabulosa de Fab Moretti e o baixo nem-um-pouco-fraturado de Nikolai Fraiture - Albert Hammond Jr. e Nick Valensi revezavam-se na guitarra rítmica e na guitarra solo, construindo uma massa sonora poderosa, invólucro ideal para o vocal 'cool' e os versos céticos de Casablancas. O show corria bem até que lá pelas tantas arrebentou uma corda da guitarra de Nick Valensi. O cabeludo jogou-a para trás e pegou a guitarra reserva. Casablancas anuncia Barely Legal e o que vamos presenciar é um daqueles momentos mágicos que só são possíveis ao vivo. Tudo aconteceu errado e certo em Barely Legal. Primeiro, Casablancas perdeu o fio da meada e deixou de cantar uns versos. Logo depois, arrebentaram-se as cordas da guitarra reserva de Valensi, que, incontinenti, a exemplo do que fizera com a primeira, jogou-a longe. Albert Hammond Jr. teve, por uns momentos, que levar sozinho o ritmo, até que Valensi, como último recurso, tomou a guitarra branca reserva de Albert, pediu um cabo, conectou e recomeçou a tocar antes da música chegar no refrão. "And all together it went well..." A banda então retomou a concentração perdida e deu seguimento ao grande show, arrematando com Take or Leave it. Ao sair do palco a primeira vez, Valensi brindou o público com os pedaços de uma das guitarras quebradas. O público não arredou pé e veio o bis com Whatever Happened, Someday e Reptilia.


Henrique - ique | 18:19:07 comentários[2].
envie este texto para um amigo

 


 

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

Bacurau: doze pôsteres (e doze motivos para assistir)


Vale a pena assistir a Bacurau por vários motivos.

1) Mostra paisagens (e obras de engenharia como a represa Gargalheiras, no RN) pouco conhecidas de nosso impressionante e maravilhoso Brasil. Talvez, não exatamente no "Oeste de Pernambuco".





2) É um filme que constrói o suspense paulatinamente, num crescendo, old school style. Não é do estilo "frenético". 



3) Fisga o espectador por meio de pequenos ganchos, coisas bizarras que aparecem e vão acontecendo, aparentemente sem explicações lógicas.



4) Aos poucos, vai elucidando um a um desses mistérios, embora as explicações não sejam mastigadas e, às vezes, apenas sugeridas.



5) É uma distopia dirigida por uma dupla de cineastas brasileiros, que mescla experiência e juventude: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. E, diga-se de passagem, a distopia em Bacurau me pareceu uma inusitada mescla de The Cars that Ate Paris (Peter Weir) com Death Race 2000 (Roger Corman).



6) Tem um elenco misto de brasileiros e estrangeiros (95% brasileiro) que se entrega à missão de dar verossimilhança à história. Os óbvios destaques são Sônia Braga como Domingas e Udo Kier como Michael. Mas tem muitas caras novas e promissoras.



7) Uma cena muito divertida que me fez dar risada. Qual? Se eu contar é spoiler. 



8) Músicas escolhidas a dedo e impactantes. 



9) Um violeiro gaiato (o.k., você venceu: ele que protagoniza a cena do item 7).



10) Suscita discussões, não morre ali mesmo, quando acaba. É provocativo. É polêmico. Já recebeu 5 estrelas e nenhuma estrela. Já foi acusado de ser a prova de nossa falta de inteligência. Já foi acusado de ser muito inteligente e de que seria melhor se fosse mais burro.


11) 
Bacurau surpreende pela visão sombria da humanidade com críticas sociais embutidas; entre elas: local versus global, dominação vs resistência.


12) Last but not least, o filme foi agraciado com muitos prêmios importantes, o principal deles, o Prêmio do Júri do Festival de Cannes.


terça-feira, fevereiro 16, 2021

A voz suprema do blues

 


Pelo que eu conheço da Academia, o filme de George C. Wolfe, Ma Rainey's Black Bottom (A voz suprema do blues), tem boas chances de fazer história no dia 25 de abril como o filme que deu a Chadwick Boseman um Oscar de Melhor Ator.

Black bottom é na verdade uma dancinha afro-americana, famosa no jazz dos anos 1920. Joelhos dobrados, torso curvado e movimentos sincopados de pélvis e quadril. Segundo a Enciclopédia Britânica, a black bottom, junto com o charleston, fez tremer as bases das danças em pares. Você dança com alguém, mas pode se afastar do par, ou se quiser, dança sozinho.




O produtor é ninguém menos que Denzel Washington, que já havia adaptado outra peça teatral do dramaturgo August Wilson para o cinema: Fences, que no Brasil foi lançado como Um limite entre nós (2016), dirigido e protagonizado por Denzel, e o elenco também trazia Viola Davis.

Em A voz suprema do blues, o roteiro foi adaptado por Ruben Santiago-Hudson, e este pode ser outro ganhador do Oscar.

Viola Davis como Ma Rainey é uma interpretação estupenda, digna de ser premiada.



E saber que A voz suprema do blues foi o último filme do "Pantera Negra" Chadwick Boseman nos entristece ao mesmo tempo em que faz aumentar a admiração por ele.

Chadwick se torna o trompetista Levee Green. Outra interpretação estupenda, digna de Oscar.

Assim, a cerimônia de 25 de abril pode ter um Oscar póstumo (mereceria ter dois, mas Jack Fincher acabou não sendo indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo estupendo roteiro de Mank).


Uma qualidade de A voz suprema do blues é ser curto! A metragem foge da mania atual de encompridar a história. 94 minutos. Na medida certa. 


George C. Wolfe, diretor com mais experiência em teatro, fez a transição da peça para outra mídia com emoção e dinamismo.

O filme conta em tempo real uma sessão de gravação da obstinada Ma Rainey num estúdio abafado no calor do verão de Chicago.

Dos "oscarizáveis" que já assisti, é o que mais se universaliza em termos de mensagem, de tocar o público por diferentes motivos. 

sábado, fevereiro 13, 2021

Os 7 de Chicago


Drama de tribunal escrito e dirigido por Aaron Sorkin, Os 7 de Chicago é o segundo filme do nova-iorquino como diretor. Estreou na direção com A grande jogada (2017). 
Como roteirista, um de seus trabalhos mais notáveis foi outro filme de julgamento, Questão de honra (1992), cuja cena mais famosa é:


A propósito, a categoria de "escrito e dirigido por" anda meio combalida. São poucos cineastas autorais que temos hoje em dia.

Almodóvar? Parece que já deu o que tinha que dar.
Lynch? Encerrou a carreira no décimo filme.
Aronofsky? Criou fama e se deitou na cama.
Tarantino? Tornou-se uma caricatura de si mesmo.
Rodriguez? Algum dia se levou a sério? 
Weir? Está bem vivo, mas seu último filme foi em 2010.

Então que bom que Aaron Sorkin se tornou diretor. Vida longa para ele nesta carreira, e que continue assinando bons roteiros.



Os 7 de Chicago tem um roteiro bem desenvolvido, com algumas cenas que poderiam ter sido cortadas (p. ex., a reunião na casa do ex-procurador geral).

Afora essa metragem exagerada (defeito que 99% dos filmes atuais padecem), Sorkin realiza um bom trabalho na condução da história, que tem muitos personagens e detalhes.

Levanta discussões válidas, como a possibilidade de existir um julgamento político. Um dos réus afirma isso, e o advogado de defesa responde que não, que existem apenas dois tipos de julgamento, civil e criminal.

Claro que ao longo do filme essa questão será esmiuçada.



Protestos em Chicago contra a Guerra do Vietnã acabam em confronto dos manifestantes com a polícia.

Os policiais, aparamentados com máscaras, bombardeiam a multidão com gás lacrimogêneo e fazem uso de seus cassetetes.

Os líderes dos movimentos envolvidos, inclusive Bobby Seale (Yahia Abdul-Mateen II), um ativista ligado ao Partido dos Panteras Negras, e Tom Hayden (Eddie Redmayne, Oscar de Melhor Ator por A teoria de tudo) são denunciados e se tornam réus, mas o julgamento parece ser um jogo de cartas marcadas.




Outros destaques do elenco são Joseph Gordon-Levitt, como o promotor, Mark Rylance (advogado de defesa), Frank Langella (juiz) e Sacha Baron Cohen (líder dos Yippies).

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Mank


 Com roteiro de seu pai, Jack, o cineasta David Fincher, em produção da Netflix, realiza um ambicioso exercício de metalinguagem que delineia a personalidade do roteirista Herman J. Mankiewicz e, paralelamente, aborda como o roteiro de Cidadão Kane foi composto.

E eis que o melhor de Mank é o roteiro mesmo.

A atuação de Gary Oldman como Mank é muito convincente, a direção funciona, os demais atores colaboram com boas participações. O roteiro ilumina alguns detalhes do fazer textual de Herman J. Mankiewicz, de seu problema com o álcool, de suas amizades e sua relação sólida, mas inusitada, com a esposa Sara. Mank é uma iniciativa ousada que resultou num filme de boa qualidade, isso é indiscutível.

É o suprassumo do cinema falando sobre ele mesmo, mas esse é também o seu principal problema: uma história que só vai interessar pessoas que se interessam por cinema...

E quem conhece as referências vai se divertir mais e aproveitar mais a experiência.





O filme aborda en passant a discussão ética sobre o crédito do roteiro de Cidadão Kane. Orson Welles também foi creditado como corroteirista e levou um Oscar de Melhor Roteiro Original para casa.

Mank, o filme de David Fincher, mostra que Orson sugeriu mudanças e deixa a critério do espectador fazer o seu julgamento.

Mas dá a entender que uns 90% do trabalho são de autoria de Herman.

Em tempo: a estética da fotografia em preto & branco escolhida para contar a história de como o roteiro de Cidadão Kane foi composto é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que transmite uma sensação de anos 30 e 40, às vezes passa um ar de solenidade, uma preocupação demasiada em chamar a atenção para a fotografia em si, em detrimento da história.

Voltando ao ponto forte do filme, que é o roteiro de Jack Fincher.

O roteiro envolveu muita pesquisa e parece um misto de imaginação com fatos.

Um pouco hermético em sua construção em tomadas precedidas com os dizeres de um script, em uma citação quase icônica sobre a arte de fazer roteiros, uma homenagem aos artistas que passam a vida fazendo rubricas e diálogos em roteiros de filmes medianos.

Cidadão Kane acabou sendo seu melhor trabalho e que lhe rendeu um Oscar.

A propósito, o próximo Oscar 2021 só acontece em 25 de abril, mas já tem um injustiçado: Jack Fincher, falecido em 2003, incrível e inexplicavelmente, não foi indicado para Melhor Roteiro Original.