O convite, de Olivia Wilde, é a roupagem americana do filme espanhol Sentimental (nos EUA, The People Upstairs), de Cesc Gay, com roteiro adaptado da peça teatral dele mesmo, Los vecinos de arriba.
Antes de comentar a obra de Olivia Wilde, umas palavras sobre o filme que o inspirou.
Los vecinos de arriba, peça teatral do dramaturgo catalão Cesc Gay, estreou em 2016 em Madri. Desde então já correu o país de origem com várias montagens e diferentes elencos.
Em 2020, Cesc Gay transpôs sua peça teatral ao cinema, com sucesso arrebatador. Além de ter virado um filme com direção e adaptação do próprio autor, os direitos foram cedidos ao cinema coreano, que também embarcou nessa onda. Em 2025, a adaptação coreana chegou aos cinemas do país oriental, com o mesmo frisson causado na Europa.
Trata-se, pois, de um fenômeno da dramaturgia mundial, agora levado à massificação com esse filme distribuído em todo o Brasil. Assisti em Passo Fundo, uma cidade distante 280 km da capital Porto Alegre.
Um entediado cinéfilo interiorano não poderia deixar passar essa égua encilhada sem montar nela.
Montar no sentido de cavalgar. E cavalgar no sentido de andar a cavalo.
Se bem que "montar" e "cavalgar" no duplo sentido são verbos afins do tópico principal dessa história, sobre um casal de vida sexual em baixa que é surpreendido quando os habitantes do apartamento de cima demonstram estar em uma fase, digamos, bem diferente e mais "animada" de suas vidas.
A estação de monta é diária. Sons, gemidos, gritos, sussurros, grunhidos, êxtases e orgasmos são ouvidos no andar de baixo, para a revolta de Joe, o pudico vizinho e infeliz professor de música.
Um belo dia, Angela (Olivia Wilde) convida Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) para um jantar, sem o consentimento do marido Joe (Seth Rogen).
Ainda pretendo conferir o filme original para fins de comparação, mas o que vemos no filme de Olivia Wilde é uma comédia inteligente, com diálogos bem construídos, situações engraçadas e reveladoras que desafiam a hipocrisia com que o tema costuma ser abordado.
A adaptação do roteiro para a cultura estadunidense ficou a cargo da aguçada dupla de roteiristas Rashida Jones e Will McCormack, que mantêm uma profícua parceria criativa. Nesse artigo da Awards Watch os dois comentam os bastidores desse trabalho que analisa a importância do que acontece entre quatro paredes para relacionamentos duradouros e nessa entrevista a um programa de TV a dupla responde perguntas sobre a produção.
Como uma coisa puxa a outra, e como para quem é o do ramo das Letras existem poucas coisas tão excitantes quanto um bom intertexto, "casualmente" o livro que está hoje na minha mesinha de cabeceira é o clássico da literatura [libidinosa] nacional A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, texto que virou um monólogo de sucesso encenado por Fernanda Torres.