segunda-feira, janeiro 30, 2017

Moana, um mar de aventuras

Moana é uma menina que cresce com um peso nos ombros: é a filha do chefe e, por isso, tem que permanecer em sua ilha em vez de se aventurar além dos recifes, seu sonho desde criancinha. O pai controlador não quer saber de a filha bater asas e voar. Só que as coisas não andam bem no paradisíaco arquipélago: a pesca está fraca e uma estranha doença dizimou a produção de cocos. Reza a lenda que o semideus Maui roubou o coração da entidade Te Fiti, com isso, criando uma maldição que ameaça o ecossistema polinésio. Alma gêmea da avó Tala, Moana recebe da anciã uma revelação transformadora, e parte ao alto-mar com o objetivo de salvar a aldeia e a vida local.
O maior elogio que posso dar a Moana é também um testemunho de um pai que, admirado, se orgulhou do comportamento do filho de 4 anos durante a sessão. O irrequieto garoto foi envolvido pela história e deixou os pais e o irmão mais velho curtirem o filme, conhecendo aspectos enriquecedores de uma cultura distante, numa típica sessão especial para toda a família.  

domingo, janeiro 29, 2017

Até o último homem

Desde Corações de ferro não se via uma carnificina bélica tão acachapante quanto a mostrada em Até o último homem. O combate corpo a corpo no ataque estadunidense às forças japonesas em Hacksaw Ridge, na batalha de Okinawa, é reconstituído com proverbial crueza. Sangue jorrando, membros decepados, entranhas à mostra. Uma profusão de sangue, intestinos e tripas, soldados atingidos por cargas de artilharia, morteiros, metralhadoras, fuzis, granadas, baionetas e lança-chamas.
Mas tanta violência não soa falsa nem gratuita: o modo como o roteiro se transformou em imagens é um triunfo da direção cinematográfica, com a assinatura de um ator que já participou de um dos mais contundentes libelos contra a estupidez das guerras: Gallipoli, de Peter Weir.


Gibson foi dirigido duas vezes por Weir: também atuou em O ano que vivemos em perigo, tetraestrelado (cotação máxima) pelo exigente crítico Roger Ebert.
E também três vezes por George Miller em Mad Max e suas sequências. E nada menos que seis vezes por Richard Donner (os 4 filmes da franquia Máquina mortífera, mais Teoria da Conspiração e Maverick). Qual a pertinência dessas informações aqui?
Sempre que um ator se lança e depois se firma como diretor, é natural que se procurem suas principais influências. Mel Gibson, o diretor, mescla a sensível delicadeza de Peter Weir, a objetividade palpitante de George Miller e a prática leveza de Richard Donner.
Sua carreira atrás das câmeras resume-se a cinco filmes: O homem sem face (1993), Coração valente (1995, filme que lhe valeu o Oscar de Melhor Diretor), A paixão de Cristo (2002), Apocalypto (2006) e agora o filme que pode dar o Oscar de Melhor Ator a Andrew Garfield.
O magricela que já encarnou o Homem-Aranha dá vida a um soldado sui generis: Desmond Doss, que se alistou para servir como paramédico na Segunda Guerra Mundial, mas negou-se peremptoriamente a tocar em armas. Sua obstinação em ficar na infantaria apesar de todo o preconceito que sofreu por conta disso é comovente. Essa parte do filme mostra o quanto as pessoas podem ser incompreendidas, e, mesmo sendo voluntárias para ajudar, sofrer toda sorte de injustiças. Paralelamente, serve para introduzir outros personagens, como o sargento Howell (Vincent Vaughn, em atuação elogiável), o capitão Glover (Sam Worthington) e uma penca de soldados do pelotão, entre os quais destaca-se o exímio combatente Smitty Riker (Luke Bracey), que sente um misto de rivalidade e desprezo por Desmond.

Outra história que corre paralela com essa é o romance de Desmond com a encantadora enfermeira Teresa Palmer (Dorothy Schutte). Ela o presenteia com uma pequena Bíblia e uma foto, um tesouro que Desmond leva para o front. Sua fé em Deus e o amor pela namorada (depois esposa) lhe servem de esteio para superar todos os percalços. Que não serão poucos.
Após o treinamento, os recrutas são enviados ao Japão, onde vão participar do assalto à Escarpa Maeda, um amedrontador paredão de 105 metros de altura a ser escalado com a ajuda de uma rede de cordas. Lá no alto encontra-se o cenário em que muitos homens perderão a vida, e outros se tornarão heróis. Desmond Doss, desprezado durante o treinamento, chamado de covarde pelos superiores, mostraria a sua fibra.
Após dois dias de investida, os americanos conseguem muitas baixas e poucos avanços. Súbito, uma nova horda de japoneses surge enlouquecida da rede de túneis, bunkers e trincheiras. Eles vêm alucinados, kamikazemente destemidos, para enfrentar uma tropa já cansada e com moral baixo. O resultado é a inevitável retirada da infantaria dos EUA. Todos que conseguem ficar em pé recuam e descem o famigerado paredão, para a segurança da praia lá embaixo. 
Todos, menos um: Desmond Doss.
Ele permanece sozinho no inferno e, um por um, começa o espetacular resgate de dezenas de feridos.


Com várias cenas marcantes que se fixam indelevelmente em nossas retinas, Até o último homem conta, de modo irretocável, uma história que vale a pena ser contada.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Silverado

Devagarinho, a câmera passeia focalizando um antigo fogão, uma sela, um par de botas, um cinturão com coldre e pistola pendurado na cama, uma pessoa dormindo.
Os primeiros 50 segundos de Silverado nos levam a crer que o que nos espera é um daqueles faroestes de ritmo lento e sem pressa, onde a tensão se intensifica paulatinamente, onde a ação vai demorar a acontecer.
Aproveite para tomar fôlego nesta despretensiosa sequência: nos próximos empolgantes e trepidantes 129 minutos, poucos serão os momentos em que você terá a oportunidade de respirar fundo.

Estamos falando de Lawrence Kasdan no auge de sua capacidade criativa, ressuscitando um gênero que naquela época estava praticamente abandonado. Junto com o irmão Mark, escreveu e produziu Silverado em 1985, o ano abençoado em que nasceu a mãe dos meus filhos.
Scott Glen é Emmett, o cara que estava descansando na primeira cena (aquela pouco antes do primeiro e proverbial tiroteio). Um dos resultados da refrega foi que Emmett ganhou um cavalo extra, um malhado marcado com dois losangos.
Emmett é o fio condutor das ações de Silverado. E sossego indubitavelmente é uma palavra que não consta no dicionário de Emmett. Mas o seu itinerário inclui atravessar um terreno inóspito.

No caminho, Emmett salva um moribundo em macacão tipo ceroula (ou seria uma ceroula tipo macacão?): Paden (Kevin Kline), um solitário pistoleiro que havia sido depenado por um grupo de facínoras e abandonado para perecer no meio do deserto.
Isso que eu chamo de roteiro bem amarrado: é o tipo de situação em que um cavalo extra faz toda a diferença!
Paden se recupera e acompanha Emmett até um pequeno povoado. Ainda de ceroulas, avista o seu baio, montado por um dos ladrões. Atabalhoadamente, entra numa loja de armas e compra o mais barato revólver da loja e munição. Sai para a rua e, ato contínuo, o bandido vem cavalgando em sua direção, abrindo fogo. Paden insere apenas uma bala no tambor. O seu oponente vem descarregando furiosamente o seu colt. Se você pensa que vou contar o desfecho da cena, está redondamente enganado.
Apenas aproveito a deixa para mencionar que é esse tipo de situação que torna Silverado um excelente filme. A todo momento, o roteiro lhe remete a um outro western clássico, mas sempre com um espaço para uma boa dose de surpresas, de verossimilhança e de personagens bem construídos.
A dupla Emmett e Paden vai a Turley, onde conhecem o destemido Mal Johnson (Danny Glover) é o filho pródigo que tenta voltar ao rancho do pai. Também descobrem que Jake (Kevin Costner), irmão de Emmett, está em maus lençóis: o xerife Langston (John Cleese) mandou erguer um patíbulo para enforcá-lo às 10 da manhã no dia seguinte.
Como o leitor perspicazmente percebe, estamos falando de um filme em que tudo que acontece é significativo, em que cada diálogo tem uma mensagem, em que cada personagem tem seu grande momento. E as mulheres também.
Até nisso Silverado é “pós-moderno”: não existem estereótipos femininos, as mulheres parecem de carne e osso. Desde a bartender que reluta em servir Danny Glover (interpretada pela esposa do diretor), muitas atrizes colaboram para dar a Silverado um quê de delicadeza.


Rosanna Arquette como Hannah é o protótipo da bela e virtuosa fazendeira que desperta a cobiça de vários homens. Lynn Whitfield, como a prostituta Rae, a irmã de Malaquias, mostra que os laços de sangue valem mais do que tudo.


Mas quem rouba a cena é Linda Hunt. Uma atriz cujo olhar diz tudo e mais um pouco. Você não está entendendo o quanto esta mulher é boa atriz. Obrigado, Kasdan, por criar Stella, a gerente do saloon que cria uma forte amizade com Paden. E a revisita a Silverado já se justifica plenamente ao matarmos as saudades de Hunt, Oscar de Atriz Coadjuvante por O ano que vivemos em perigo, de Peter Weir.

Mas não é apenas a forte camaradagem que une os quatro heróis e a feminilidade à flor da pele nos saloons e carroças que tornam Silverado um grande e consistente entretenimento. Não podemos esquecer deles: os vilões!

Bryan Dennehy, como o xerife Cobb; Jeff Goldblum, como Slick; Jeff Fahey como Tyree; e Ray Baker, como Ethan McKendrick, sem falar nos inúmeros capangas e auxiliares, compõem uma diversificada gama de vilões, do charmoso ao simpático, do asqueroso ao maquiavélico, do cruel ao argumentativo. Tudo isso valoriza os originais e inesperados confrontos, que aproveitam ao máximo as possibilidades do gênero.

Na hora da onça beber água, não se trata apenas de força bruta. Em Silverado, sempre há um estratagema, um exercício das células cinzentas, um plano que conduz as ações de Emmett e seus aliados.



Aqui, abro um parêntese para falar sobre um dos membros do fantástico elenco.
Em retrospectiva, sob o prisma da história recente do cinema, é impossível não correlacionar a influência do filme de Kasdan sobre Kevin Costner. Na pele de Jake, teve aulas de manuseio de armas e também se tornou um bom cavaleiro. Sorveu a experiência ao máximo e, de acordo com o diretor do filme (vide making-of), fez sugestões importantes para compor o personagem. É de Jake uma das cenas mais emblemáticas do filme, em que o mocinho se posiciona numa esquina, concentra-se, saca os dois colts ao mesmo tempo e...


Mas perdi o fio da meada, eu queria era falar do fato histórico. Cinco anos depois de Silverado, chegou às telas Dança com lobos, a estreia na direção de Kevin Costner, aos 35 anos de idade. O resto desta história você já deve saber.
Fecha parêntese.

Também temos a clássica cena do duelo, com as bolas de tumbleweed (sarça) rolando ao vento, atrás do Bryan Dennehy o horizonte e o deserto, atrás do Kevin Kline, a rua principal de Silverado, com a igreja branca ao fundo.
Silverado é um western de apuro técnico e alma, feito por dois irmãos sobre laços de sangue (Emmett e Jake, Mal e Rae) e amizades instantâneas (Paden e Stella). Um brinde aos bons faroestes!
 

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Garimpo na biblioteca


GARIMPO NA BIBLIOTECA

Henrique Guerra


 Bibliotecas assemelham-se a minas prontas a serem exploradas por ávidos leitores. De estante em estante, o olhar vai percorrendo as lombadas, peneirando os títulos, até perceber um brilho diferente, que talvez passasse despercebido a outros olhos, mas faz palpitar o intelecto: escolher um livro é uma espécie de garimpo.

Os critérios da escolha vão dos mais específicos até os mais aleatórios. Um autor preferido, outro que desejamos conhecer, dicas literárias de amigos, resenhas, crônicas, a arte da capa, o requinte da diagramação, ou, simplesmente, uma curiosidade despertada...

Foi de curioso que pincei da estante Ugolino e a perdiz, de Davi Arrigucci Jr., da Cosac Naify, 78 p. Belas descrições do meio rural, a expectativa de um caçador para capturar a perdiz mais arisca das redondezas, o linguajar que mescla o regional com o universal, pitadas de humor (a inusitada história que gerou a autorização para caçar nas terras do fazendeiro) compõem a noveleta escrita pelo crítico e professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na USP, indicada ao Prêmio Jabuti de 2004.

Também da Cosac Naify é A janela de esquina do meu primo, de E. T. A. Hoffman, 77 p., traduzido por Maria Aparecida Barbosa. Na Berlim dos anos 1820, de sua janela, um escritor acometido de uma doença degenerativa convida o primo a observar a feira lá embaixo. A luneta e o bate-papo dos primos revelam o fervilhar de circunstâncias num ambiente em que as mais intrigantes personagens se relacionam. Hoffman, autor do conto fantástico O homem da areia, mostra argúcia na análise de temas sociais.

Arguta observadora da alma humana, Emily Dickinson é uma poetisa sui generis, dona de um estilo incomparável. Cada poema de Emily traz uma densa e polissêmica carga semântica. Poucas palavras, muitos e múltiplos significados. Nas 56 páginas de Um livro de horas, a tradutora e ilustradora Angela-Lago cria títulos para os poemas de Dickinson, numa caprichada publicação da Editora Scipione. O leitor que aprecia edições bilíngues pode comparar o original e a tradução e se encantar com a delicadeza das ilustrações que venceram o Prêmio FNLIJ 2009 de Melhor Ilustração.

E que tal um mergulho na obra contemporânea de Leonardo Brasiliense? Olhos de morcego e Adeus conto de fadas constituem uma boa iniciação à prosa do premiado escritor gaúcho. O primeiro é uma coletânea de contos que retratam personagens urbanos e rurais, e a força do livro está justamente nessa interface entre pampa (vide O peão e Dona Mimosa, a parteira) e concreto (O beijo, Fugindo do amor). O segundo, Prêmio Jabuti e Prêmio Açorianos, traz setenta e dois enigmáticos minicontos sobre as dúvidas, angústias e descobertas da adolescência. Os dois livros são da 7 Letras, o primeiro tem 112 páginas, e o segundo, 84.

Por fim, uma revisita a um autor que admiramos: Noites lebloninas, de João Ubaldo Ribeiro (Alfaguara, 104 p.) nos coloca na pele e na mente do narrador, porteiro baiano radicado no Leblon. As peripécias cariocas vividas e contadas pelo porteiro são hilárias, e o leitor vai se deleitar com as estratégias de que o saudoso Ubaldo lança mão para dar vida ao personagem e verossimilhança à linguagem utilizada.
Uma biblioteca é um universo inteiro de histórias à espera de serem lidas. Uma mina de pedras preciosas à espera de serem garimpadas. Esquecidos nas prateleiras, os livros não cintilam. Os livros só se tornam pepitas quando se encontram com os leitores. E é durante a leitura que os leitores descobrem as múltiplas facetas e nuances da obra, e, súbito, com um brilho no olhar, percebem que valeu a pena o garimpo. 

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Tripla chatura


           Enquanto  Triplo X Reativado, o retorno de Xander Cage não é lançado, que tal esquentar as turbinas relembrando as ambíguas sensações obtidas no primeiro e saudoso filme com o herói?

Fui ver Triplo X na melhor das intenções. O objetivo era conferir os pontos positivos do filme de Rob Cohen, se porventura eles existissem.
            As baixas expectativas não me auxiliaram. O herói Xander Cage é pachorrento, escrachado e acachapante; a heroína Yelena (Asia Argento), excitante, luxuriante e sexy; mas o roteiro é xenófobo, desapaixonado e sem êxtases.
            Russos anarquistas conspiram planos terroristas na República Tcheca. Os americanos não sabem mais em que agentes confiarem. Xander Cage é produtor e ator de vídeos de esportes radicais, recrutado pelo agente da NSA, o sabichão Augustus Eugene Gibbons (ninguém menos que o sempiterno Samuel L. Jackson) por meio de chantagem.
            As cenas de ação pretendem-se de tirar o fôlego. Realmente, se o espectador respirar apenas quando coisas verossímeis acontecem na tela, morrerá asfixiado. Xander salta de pontes em carros roubados, desafia a gravidade em uma moto, usa uma bandeja como skate, escapa de uma avalanche em um snowboarding, explode com tudo e com todos, tudo ao som de uma trilha maneira, entendeu a parada?
            Mais incrível que o conjunto de patacoadas de Vin Diesel é a tentativa de comparar seu personagem com 007. A comparação é um triplo vexame. Bond é chique. Xander é xucro. Bond é charmoso. Xander, xaroposo. Bond usa a cachola. Xander, a cara de tacho.
            A melhor frase do filme é “As coisas que faço pelo meu país”, que Vin Diesel, em uma interpretação digna do Xander Frota, murmura ao entrar no quarto e se deparar com uma muchacha em trajes sumários, surgida do nada especialmente para passar a noite com ele.
            O que nos dá mais saudade de Bond, que precisava usar inteligência e classe para seduzir as (até a metade do filme) difíceis espiãs.


terça-feira, dezembro 27, 2016

Invasão zumbi

Os tempos de George Romero se foram. Agora o delay entre a mordida e a infecção, entre a morte e o "retorno à vida", é quase instantâneo. Nada de mortos-vivos perambulando lentamente na noite em preto e branco. Nada de retornados vagando morosamente ao luar. Em cores vívidas, eles estão cada vez mais rápidos. Num piscar de olhos, uma pessoa saudável é atacada e transformada.

O zumbi globalizado é também multimídia, vem numa onda irresistível criada no país oriental símbolo do capitalismo, da tecnologia digital e das modernas malhas ferroviárias: a Coreia do Sul. O diretor coreano Yeon Sang-ho, formado em Pintura Ocidental, capricha no gore e compõe um quadro assustador, desenvolvendo personagens marcados pelo individualismo e a incompreensão. A ação acompanha o insensível gerente de um fundo de ações, que promete levar a filha a Busan, onde mora a mãe dela, de quem está separado. Mas o dia escolhido para a jornada de trem é justamente o dia em que uma inexplicável convulsão está tomando conta da cidade.
Uma estranha e violenta onda começa a se espalhar rapidamente por toda a região. E a julgar por sua incontrolável avidez, tudo indica que, em breve, vai se espalhar por todo o país.



Com pinceladas expressionistas, o diretor vai apresentando outros personagens desta saga. O marido e a esposa grávida. As irmãs de meia-idade. Um clandestino. Um grupo de adolescentes de um time de beisebol (e os tacos vão ser itens importantes na luta pela sobrevivência desse pessoal). Tacos, terror e tensão trepidam nesse trem tantalizante. O ser humano como ele é: o instinto de sobrevivência fala mais alto que a solidariedade? O egoísmo supera a vontade de ajudar?


Filme pipoca para ser curtido em pré-estreia com sala semilotada (e emudecida de pavor) às 22h10 ou análise sobre o inescapável medo da morte? Bizarro acréscimo à mitologia dos desmortos ou lufada de ar fresco em clássicos sobre rodas de ferro, da estirpe de A dama oculta (Alfred Hitchcock, 1938), Assassinato no Expresso Oriente (Sidney Lumet, 1974), Expresso para o inferno (Andrei Konchalovski, 1985) e Trem da vida (Radu Mihaileanu, 1999), entre outros? Mera curiosidade de um subgênero de um subgênero, ou o filme imperdível da virada de um ano tumultuado? Talvez mais intencionalmente que pareça, Invasão zumbi (Train to Busan) serve de metáfora perfeita para um mundo em desarmonia.

segunda-feira, novembro 21, 2016

Perfume de mulher: a arte de fazer do limão uma limonada


Coloquei no prato do blu-ray player o picture disc de Lenda dos guardiões, de Zack Snyder.

Meu filho de 9 anos e eu esperamos ansiosos carregar o conteúdo, mas, surpresa! Em vez da animação produzida em 2010 com base na série de livros de Kathryn Lasky, o que apareceu na tela foi algo surpreendente: o menu de um inesquecível filme de 1992, que deu a Al Pacino o Oscar de Melhor Ator. A bizarrice me deixou perplexo, mas a vida sempre me ensinou a fazer do limão, uma limonada.

Perfume de Mulher, de Martin Brest, foi minha limonada dominical, uma refrescante limonada suíça, com as doses certas de doçura e acidez.

O roteiro, adaptado de um filme italiano de 1974, é o material com que todo grande ator sonha, e Al Pacino encarnou o papel do acridoce tenente-coronel Frank Slade de um modo tocante e enternecedor.

O elenco tem dois atores coadjuvantes: Chris O’Donnell, que realizou com Charlie Simms talvez seu mais importante e exigente papel no cinema, e Phillip Seymour Hoffman, interpretando George Willis Jr., num dos primeiros passos da carreira que ainda progrediria até o ápice do Oscar de Melhor Ator, em Capote (2005). Hoffman faleceu em 2014.

Todo grande filme é feito de grandes cenas, e vou destacar adiante as cinco cenas/sequências mais memoráveis de Perfume de mulher. Antes, um pouco de contextualização sobre o enredo.

Nas cenas iniciais, o ambiente do filme lembra um pouco outro clássico do último quartil do século XX, Sociedade dos poetas mortos, do australiano Peter Weir, ao enfocar o ambiente de uma tradicional escola de ensino médio (High School), com os alunos todos uniformizados. Charlie Simms (O’Donnell) é um aluno que ganhou uma bolsa de estudos. Ele trabalha na biblioteca e precisa fazer bicos aos fins de semana para se sustentar, diferentemente de outros rapazes, como George Willis e seus amigos.

Um incidente acontece envolvendo o diretor, Sr. Trask (James Rebhorn), e uma sindicância é aberta na escola para apurar os responsáveis. Charlie se vê num dilema: dedura os amigos ou corre o risco de ser expulso da escola.

Nesse meio-tempo, o jovem Charlie se oferece para um trabalho no feriado prolongado de Ação de Graças. Cuidar de um deficiente visual com um gênio bastante difícil. Entra em cena Al Pacino na pele e nas narinas do aparentemente amargurado tenente-coronel Frank Slade.


*ALERTA DE SPOILER *

*SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU A ESTE FILME, TALVEZ PREFIRA PARAR DE LER O TEXTO NESTE PONTO*


*AS CINCO SEQUÊNCIAS INESQUECÍVEIS DE PERFUME DE MULHER*


Logo que os familiares de Slade partem em sua viagem, deixando o preocupado Charlie sozinho com Frank, Perfume de mulher se transforma numa espécie de ‘road-movie’, com direito a táxi e voo na primeira classe para um destino inesperado: Nova York!

O abismado Charlie deixa-se enlear na teia preparada pelo veterano Frank, e não vê outra saída senão acompanhá-lo na aparentemente tresloucada aventura.

Uma após a outra as cenas/sequências clássicas se sucedem.

 CENA 1 – Último tango em Nova York


A cena em que Frank Slade dança tango com a bela e desconhecida Donna (Gabrielle Anwar) é, disparadamente, a mais clássica do filme, uma cena que sintetiza o melhor que o cinema é capaz de fazer. Tudo nessa sequência funciona às mil maravilhas: as palavras escolhidas a dedo pelo tenente-coronel para convencer a moça, a música, o ambiente, o olhar estupefato de Charlie: tudo contribui para o sentimento de emoção à flor da pele – e do olfato.

CENA 2 – Lavagem de roupa suja na ceia de Ação de Graças




O clima pesa quando Frank, acompanhado do sempre perplexo Charlie, aparece de surpresa na casa do irmão mais velho para a ceia.

Os familiares não escondem o constrangimento, mas conseguem contornar a situação, até o ponto em que a ceia termina, e Frank começa a alfinetar o sobrinho Randy (Bradley Whitford). Revelações sobre o background do tenente-coronel e a causa de sua cegueira elevam a tensão a um ponto quase insuportável.

CENA 3 – Dirigindo cegamente uma Ferrari



Por mais absurda e inverossímil que ela seja, esta sequência é outro ponto alto do filme, desde a proverbial conversa com o funcionário da concessionária para convencê-lo a liberar a Ferrari para o test-drive até o momento em que o policial manda pará-los nas ruas desertas do cais. Primeiro, Charlie, que tem habilitação, pilota a máquina potente. Depois, num bairro deserto, entrega o volante para Frank, que gosta da brincadeira e começa a acelerar além dos limites do razoável para quem não enxerga nada. Trepidante? Palpitante? Aterrorizante? Alguém aí já foi passageiro num veículo pilotado perigosamente por alguém? Charlie fica com o coração na mão, mas o pior ainda está por vir: além de acelerar, Frank avisa que vai fazer uma curva em alta velocidade.

CENA 4 – Impulso suicida



De volta ao Astoria, Frank manda Charlie comprar charutos. Antes de sair do hotel, porém, Charlie desconfia de algo errado e volta. Encontra Frank em traje de gala militar, de pistola em punho. A sequência é chave no filme, pois Charlie arrisca tudo para convencer Frank a não cometer suicídio. Com alta carga emocional, a cena tenta mostrar que nada está perdido, sempre existe uma chance.  

CENA 5 – Discurso de Frank na escola


Durante o filme inteiro, Charlie passa fazendo ligações para George, a fim de combinar o depoimento na escola. Frank acompanha tudo e dá alguns conselhos a Charlie. No derradeiro momento do filme, ele aparece de surpresa, escoltado pelo motorista da limusine, Manolo, para ficar ao lado de Charlie durante a sindicância, em pleno auditório lotado da escola. O sr. Trask interroga primeiro George, que, depois de muito ser pressionado, dá com a língua nos dentes e cita os nomes dos autores da “traquinagem”. Charlie reluta a confirmar, mas tudo indica que não vai aguentar a pressão e também vai “dar nome aos bois”.

Não vou contar mais nada, mesmo com o aviso de spoiler. Apenas dizer que no final Frank toma a palavra para defender Charlie, num discurso (que hoje parece bastante apropriado) sobre o tipo de líder que os Estados Unidos gostariam de ter no futuro.

No frigir dos ovos, apesar da extensa metragem (duas horas e meia), Perfume de mulher valeu a revisita, mesmo sendo uma revisita não planejada, fruto de uma falha industrial.
É a delicada história de uma improvável amizade, mas também o pungente retrato de uma alma conturbada, prestes a desistir de tudo, que, ironicamente, enxerga a luz no fim do túnel.
Isso só reforça a “mensagem” do filme: nem tudo está perdido, e a vida é arte de fazer do limão, uma limonada!

segunda-feira, novembro 14, 2016

"A segunda mãe" + "Não me chame de filho" = o reconhecimento de Anna Muylaert no circuito internacional

A carreira internacional da diretora e roteirista brasileira Anna Muylaert (que venceu em 2002 o Festival de Cinema de Gramado com o filme Durval Discos) está em plena fase de consolidação.

Seus dois filmes mais recentes obtiveram boa distribuição mundial, prêmios em festivais e excelentes resenhas em sites conceituados.

Por exemplo, no RogerEbert.com,


Que horas ela volta? (2015), com Regina Casé, obteve 3 estrelas de 4 possíveis.

Mãe só há uma (2016), com Naomi Nero e Mateus Nachtergaele, obteve 3,5 estrelas de 4 possíveis.

Os dois filmes abordam temáticas diferentes, mas enfatizam a importância das mães.

Esta ênfase pode ser confirmada nos títulos escolhidos para a distribuição internacional:

Que horas ela volta? virou The Second Mother:

http://www.rogerebert.com/reviews/the-second-mother-2015




E Mãe só há uma virou Don't Call me Son:
http://www.rogerebert.com/reviews/dont-call-me-son-2016





quarta-feira, outubro 19, 2016

Kóblic


O argentino Sebastián Borensztein (Um conto chinês) realiza um filme com ingredientes que lembram faroestes clássicos da estirpe de Matar ou morrer (High Noon) e Sem lei e sem alma (Gunfight at the O.K. Corral). O paralelo com os western da década de 1950 se justifica, não apenas porque Ricardo Darín é um ator à altura de Gary Cooper e Burt Lancaster (embora, no entanto, Borensztein ainda precise fazer muitos filmes para ter uma filmografia tão ampla quanto Fred Zinnemann e John Sturges, mas ele ainda é novo), mas também por outras similaridades entre os roteiros.

Em Matar ou morrer, a câmera filma incessantemente a via férrea, por onde o xerife, interpretado por Gary Cooper, sabe que um vilão e seu bando estão prestes a chegar. Em Kóblic, o espectador passa o tempo inteiro com uma sensação pesada, de que algo está para se revelar, de que alguém ou algo está no encalço do protagonista. 

Tomas Kóblic é um piloto que vai morar na remota Colônia Elena, uma cidadezinha como outra qualquer, onde mora um amigo, dono de uma empresa de "agroaplicaciones", ou seja, pulverizações agrícolas. O espectador não sabe exatamente o motivo dessa mudança, e isso faz parte da estratégia do roteiro, para criar uma aura de mistério em relação ao personagem, constantemente atormentado por lembranças entrecortadas de um voo em que acontecem fatos atrozes.

Kóblic tenta se adaptar à rotina, pulverizando as lavouras, ao melhor estilo de um Dusty Crophopper.

As cenas desta parte do filme são plasticamente calculadas, com a paisagem dos pampas se sobressaindo, entre lavouras de canola florescida e pastagens nativas.

Uma cena chave do filme é a pane do avião. Não vou entrar em detalhes, para não gerar um spoiler desnecessário. Mas o fato é que o avião estraga e fica estragado, sem que ninguém busque peças ou tente consertar a aeronave a tempo de continuar as aplicações. 

Isso vem a calhar, pois Kóblic tem mais tempo para dedicar à misteriosa Nancy (Inma Cuesta), que cuida do posto de combustíveis. Só que a bela balzaquiana é comprometida.

Devagarinho, paulatinamente, o suspense e a tensão do filme são construídos, com as personagens sendo apresentadas de modo quase didático. O delegado Velarde (o impressionante Oscar Martínez), chefe do Destacamento Policial, é uma figura temida no vilarejo. Ele procura mostrar sua autoridade e não gosta de forasteiros. 

O antagonismo entre Kóblic e Velarde é um dos leit-motifs do filme, assim como o esperado duelo entre Wyatt Earp e os irmãos Clanton é a razão de ser de Sem lei e sem alma. 

Velarde usa de seu poder para tentar descobrir a identidade verdadeira do novo piloto, e seu amigo, o dono do posto, lhe confessa: está desconfiado sobre a fidelidade da esposa.

O cenário está pronto para a escalada da violência, em meio a intrigas, torturas, voos da morte, surpresas, reviravoltas.

O cineasta Borensztein, que também coassina o roteiro, usa o estofo histórico para criar um personagem forte, ao mesmo tempo, herói e anti-herói, com um passado que lhe assombra - e um presente sem lei e sem alma, onde o que vale é matar ou morrer. 


terça-feira, outubro 18, 2016

OSINCA no Salão de Atos da UFRGS - Onde o erudito encontra o contemporâneo

Em evento beneficente para a construção da Casa de Apoio do HCPA, com apoio da Fundação Médica do RGS e da Fuccar de Carazinho, a OSINCA fez um show com a participação de convidados especiais.

Resultado: a plateia presente ao Salão de Atos assistiu a uma grande apresentação da OSINCA, que foi aplaudida de pé.

O repertório, como prometido, mesclou música barroca, árias, trilhas de filme e canções pop, exatamente como faz o primeiro CD da OSINCA.




 

A Orquestra Sinfônica de Carazinho teve a ilustre companhia do Coral da UFRGS, dos solistas Cintia de los Santos (soprano) e Luiz Wiedthauper (tenor), e dos músicos Duca Leindecker e Pezão. Ninguém cobrou cachê.

A fase inicial do show foi dedicada ao barroco, com um bloco só de Händel, começando com Hallelujah! do oratório "Messias" (a faixa 10 do CD) e, se não estou enganado, Lascia ch'io pianga e Ombra mai fu (das óperas "Rinaldo" e "Xerxes", respectivamente) (as faixas 2 e 7 do CD).



 

No entremeio das músicas, o maestro Fernando Turconi Cordella contou que Johann Sebastian Bach, nos dicionários de música da época, era considerado apenas um professor de música e afinador de instrumentos, em comparação com Händel, já consagrado.


Eu já comentei sobre isso, mas não custa frisar de novo: esse tipo de informação histórica enriquece a experiência do espectador e cria uma empatia com o público.

Essa foi a deixa para a orquestra tocar Eine Kleine Nachtmusik, a propósito, a faixa que abre o CD.

A apresentação seguiu com a homenagem ao cinema, com trechos das trilhas dos filmes A lista de Schindler e A missão, a primeira assinada por John Williams e a segunda, por Ennio Morricone (faixas 6 e 5 do CD).


 

Também entrou na seleção da noite Con te Partiró, uma iniciação às óperas, nas palavras do maestro. Segundo ele, é preciso muita energia para admirar 4 horas de ópera. Talvez o brasileiro prefira isso mesmo: pequenos drops para sentir o gostinho.

Posso estar enganado de novo, mas acho que duas faixas do CD não foram tocadas: a 3 e a 9, Chamamé e um allegretto de Beethoven, da Sinfonia n.7.

Outro dia vou fazer um post sobre o CD. Não posso escutar agora no volume que eu gostaria.

Forever Young
, do Alphaville, a faixa 8, seria tocada no bis, após Let it Be (que não entrou no CD).






Mas, antes disso, um Steinway & Sons foi introduzido sobre rodinhas no palco. Num dos momentos mais emotivos da noite, o maestro interpretou o Prelúdio da Gota d'Água de Chopin, e dedicou a peça à professora de piano e a avó, que estavam na plateia. É a primeira vez, após 10 anos, que Fernando Cordella faz um solo de piano num concerto. A julgar pela amostragem, talvez ele pudesse reavaliar sua estratégia e não demorar uma década para repetir a dose.

O show entrava na parte final, em que coestrelaram, ao violão e voz, Duca Leindecker (Cidadão Quem) e, na bateria, Pezão (Papas da Língua).


 
Tocaram uma canção de cada uma das bandas gaúchas e também colaboraram com Let it Be, dos Beatles, com Duca Leindecker cantando os primeiros versos imortalizados na voz de Paul McCartney e depois passando a bola para a soprano e o tenor.

Let it Be teria fechado a apresentação, não fosse a plateia exigir o BIS.

A bateria de Pezão acrescentou uma densidade extra ao intricado arranjo pop-erudito de Forever Young.










domingo, outubro 16, 2016

III ENCONTRO REGIONAL SUL DOS FÃS-CLUBES TEX E ZAGOR DO BRASIL - 15 e 16 de outubro de 2016

Novamente Carazinho sedia um evento de importância nacional, desta vez envolvendo os aficionados das histórias em quadrinhos da "Família Bonelli", com os célebres personagens Tex, Zagor e Ken Parker.








Fã de Ken Parker, levei minha coleção de álbuns e séries editadas no Brasil. Outros expositores levaram álbuns raros, oriundos da Itália, do multifacetado personagem criado por Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo.



Em um ambiente de camaradagem, os fãs negociam, compram, vendem, trocam. A troca não se limita a objetos de interesse e de culto. O intercâmbio mais relevante é o de experiências e contatos, amizades que iniciam em torno de um interesse comum.


Seguem algumas fotos do evento, que contou com os cosplayers de Tex, Kit Carson e Zagor, e uma visita inusitada.