segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Um longo caminho


O diretor Zhang Yimou, enquanto filmava a trilogia Wuxia, mais exatamente após Herói e O clã das adagas voadoras, fez uma pausa para realizar este filme que se passa entre o Japão e a China, e cujo tema principal é a dificuldade de comunicação entre os seres humanos.

Essa dificuldade é mostrada de várias formas, mais diretamente na dificuldade linguística que japoneses e chineses enfrentam para se entenderem. Mas na verdade isso é apenas um detalhe que enfatiza uma dificuldade de comunicação mais prosaica e singela: a dificuldade que pessoas da mesma família têm de pedir desculpas, fazer as pazes, viver relacionamentos afetuosos e sinceros.

Mais especificamente, Um longo caminho (Riding Alone for Thousands of Miles, 2005) aborda a relação entre pai e filho. O foco concentra-se no pai, o sr. Takata, interpretado pelo ator japonês Ken Takakura, que é chamado pela nora para visitar o filho Kenichi que foi hospitalizado em Tóquio. O filho se recusa a ver o pai, em razão de um ressentimento antigo. A nora entrega ao sogro uma fita de VHS sobre as viagens de Kenichi a China.
Na fita, um ator de uma ópera folclórica chinesa alega problema na voz, mas promete interpretar a ópera em outra ocasião. Surge então a vontade do pai se redimir diante de seu filho e de mostrar que se importa com ele: viajar à província de Yunnan, na China, para filmar a apresentação da ópera.



Essa é a premissa talvez um pouco frágil em torno da qual o filme se desenvolve. 

O espectador precisa aceitar essa aparente fragilidade do roteiro, qual seja, a de que um homem já vivido resolva fazer uma longa viagem e se afastar do filho, exatamente quando precisa estar perto dele.

Mas a medida extrema resume um pouco a personalidade obstinada do sr. Takata. E também explicita a forma com que cada um enfrenta problemas afetivos e a ameaça de perder um ente querido.

Uma das estratégias narrativas do filme consiste nas ligações telefônicas entre a nora e o sogro. Ela o informa do diagnóstico: câncer terminal no fígado. Isso deixa o sr. Takata mais ainda convicto de que precisa realizar a filmagem.

Na China, ele tem o apoio da intérprete Jasmine. Com paciência, educação e delicadeza, ela verte as falas do japonês ao chinês e vice-versa, e mantém a fleuma mesmo diante da solicitação do sr. Takata para substituí-la. 



Um complicador ainda surge na busca de redenção do sr. Takata. O ator/cantor que aparece na fita VHS agora está preso, e filmar numa prisão chinesa vai exigir ultrapassar várias barreiras burocráticas. 

Surge um dos subtemas do filme: até que ponto a obstinação de uma pessoa a permite superar barreiras aparentemente intransponíveis? A decisão mais óbvia seria desistir do intento, mas esta palavra, desistência, parece não existir no dicionário do sr. Takata.

Assim, uma a uma, as dificuldades vão sendo transpostas.

Mas quando para completar sua tarefa autoimposta o sr. Takata precisa viajar a uma aldeia remota e se aproximar de um serelepe menino de 8 anos, será que o sisudo e pragmático senhor conseguirá?

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A exemplo do que fez em Nenhum a menos, o diretor Zhang Yimou apostou na escolha de atores sem experiência prévia, para interpretar a maioria dos papéis coadjuvantes. Impossível não citar o carisma e a facilidade do menino Yang Zhenbo, que vive o garoto Yang-Yang. As melhores cenas do filme são aquelas em que o pequeno, com sua inocência e pureza, contracena com o grande Takakura.

A China revelada em Um longo caminho é mais otimista, por exemplo, do que o país aflito e em desagregação mostrado no filme Em busca da vida, do cineasta Jia Zhang-ke.

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Yimou mostra o interior das prisões, as inter-relações humanas e também a vida simples nas aldeias sob um prisma construtivo. E usa as paisagens como ferramenta para contar a história.

Esse uso das paisagens não passou despercebido na obra Cinema and Landscape, que observa: "Um longo caminho mostra a paisagem da China como um espaço em que mudanças positivas podem ocorrer. (...) A paisagem chinesa abre a possibilidade de conexão entre diferentes culturas, idiomas e música, e, em última análise, famílias chinesas e japonesas".

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Uma curiosidade. Nos extras, o ator Ken Takakura (falecido em 2014) elogia o diretor Zhang Yimou, comparando-o, por seu dinamismo e atenção com todos os detalhes, e a vontade de participar de todas as decisões, com outro diretor com quem ele trabalhou (em Black Rain): Ridley Scott. Que, por sinal, também está na minha lista dos TOP TEN.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

A forma da água



Deformação. 

Pois é. Eis-me aqui, o arauto do olhar cinéfilo, o defensor dos diretores oprimidos pelas críticas ferozes, na situação de estar prestes a me tornar um iconoclasta. 

Guillermo del Toro é um diretor que acompanho e costumo apreciar o seu geralmente honesto pendor pelo fantástico, visto, por exemplo, em estranhezas como O labirinto do fauno A colina escarlate. 

Nada mais natural que eu me colocasse na posição de ficar torcendo para A forma da água levar o Oscar de Melhor Filme. Em se tratando de um cinéfilo que se considera coerente e fiel aos cineastas preferidos, isso seria mais do que natural. Seria naturalíssimo.

Só que não.

A forma da água é um pastiche de pretensas críticas ao "sistema", um amontoado de cenas ansiosas para levantar bandeiras e avisar: olhem só, eu sou politicamente correto!

Nessa vibe, Del Toro cria o vilão mais estereotipado dos últimos tempos: machista, consumista, chauvinista, torturador, militarista.

Torço mesmo para que, entre os 9 concorrentes, existam filmes melhores e menos "ansiosos" por ganhar o Oscar do que Dunkirk e A forma da água. Entre os favoritos, só falta assistir a Três anúncios para um crime, que estreia dia 15 de fevereiro. Mas se fosse para escolher entre Dunkirk e A forma da águaDunkirk seria a minha escolha.

Por mais pretensioso que o Christopher Nolan consiga ser, Dunkirk é um filme infinitamente melhor que este conformado A forma da água

Nem a boa atuação de Octavia Spencer como a amiga da moça muda salva o filme. Ela também é casada com um marido estereotipado, um estafermo feito sob medida para agradar as feministas.

Nem a caracterização de uma indústria do cinema em recessão, perdendo o fôlego diante do fenômeno da televisão salva o filme.

Nem a homenagem ao clássico O monstro da lagoa negra (The creature from the black lagoon, 1954) salva o filme.

A acusação de plágio não ajuda muito nesse contexto. 

Let Me Hear You Whisper, de Paul Zindel, tem um enredo no mínimo com elementos semelhantes. Del Toro alega desconhecer a peça teatral sobre a senhora da limpeza que tenta salvar um golfinho que é cobaia de laboratório. Mais informações sobre as flagrantes semelhanças das duas obras você pode encontrar neste post.

Certamente o diretor mexicano não desconhece o conto A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe, no qual ele pode ter se inspirado para realizar A colina escarlate. Confesso que fiquei esperando alguma menção tipo "inspirado na obra de Edgar Allan Poe", mas talvez Del Toro tenha considerado desnecessário.

Acontece que no caso de A forma da água estamos falando de direitos autorais em plena vigência, enquanto a obra de Poe está em domínio público. 

Vamos acreditar na palavra de Del Toro. Ele nunca ouviu falar antes dessa tal peça teatral. Mas será mesmo que nenhuma pessoa em toda a produção do filme não notou as flagrantes semelhanças entre as duas histórias? Smells like very unlikely.

O desinformado Del Toro realizou um filme repleto de ideias disformes: A forma da água.

domingo, fevereiro 04, 2018

The Square: a arte da discórdia



A escola sueca de cinema é muito respeitada mundo afora. Geração após geração, a Suécia revela ao mundo cineastas talentosos e com estofo para criar filmografias autônomas e relevantes. Ingmar Bergman, Lasse Hallström e Tomas Alfredson são alguns diretores suecos que comprovam essa afirmação. Bergman (1918-2007) foi o principal responsável por atrair a atenção internacional para o cinema sueco, ao vencer o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por duas vezes consecutivas: em 1961 e 1962, com A fonte da donzela e Através de um espelho, respectivamente. Voltaria a ganhar o prêmio em 1984, com Fanny e Alexander. Lasse Hallström (nascido em 1946) após Minha vida de cachorro tornou-se um diretor internacional e até hoje se mantém no circuito de filmes "comerciais", mas com bastante qualidade. Já Alfredson, nascido em 1965, realizou o acachapante Deixa ela entrar, cult vampiresco de 2008.
Um dos motes de The Square é o conteúdo explosivo de um vídeo criado por dois ousados marqueteiros para promover a nova exposição de arte do museu dirigido por Christian (Claes Bang). O museu está prestes a lançar a exposição chamada The Square, que estimula a solidariedade e o altruísmo entre as pessoas. Östlund acompanha o dia a dia da vida do diretor de museu, que, em meio à dinâmica atuação profissional precisa se dedicar às filhas. Todos os dias, a caminho do trabalho, Christian caminha por uma Estocolmo em que mendigos são ignorados pelos transeuntes. Outra trama que corre paralela é o modo como Christian tenta reaver o celular e a carteira que foram roubados, estabelecendo um contraste entre o discurso de altruísmo e seus atos cotidianos.

Em seus piores momentos, em especial na gratuidade de explorar a imagem das crianças, The Square nos remete a uma espécie de mal-estar que eu só senti poucas vezes numa sala de cinema. Em sua falta de pudor em mostrar crianças em situações vulneráveis, The Square me fez lembrar do polêmico A Serbian Film, que tanto auê causou ao passar nas telas nacionais em 2011.


O intertexto entre os dois filmes aumenta se você levar em conta que um dos temas de The Square é justamente os limites da arte contemporânea. Muita gente na época que A Serbian Film passou no Fantaspoa questionou o fato de uma obra com aquele conteúdo estar sendo divulgada num festival que recebia financiamento de empresas estatais brasileiras.




Em contrapartida, em seus melhores momentos, The Square faz jus à tradição sueca de cinema provocante e polissêmico. As cenas, em seu conjunto e isoladamente, suscitam uma diversidade de reações na plateia, abrindo um leque de várias camadas de leituras e interpretações. O espectador pode aproveitar sequências de humor sutil e um caleidoscópico festival de alegorias.



Diga-se de passagem, ainda sobre a retrospectiva do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Outros dois diretores suecos receberam nada menos que 3 indicações cada um: Bo Widerberg (1964, 1969 e 1995) e Jan Troell (1971, 1972 e 1982). 
Para um país com tanta tradição na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (no total, são 14 indicações, com os 3 Oscars para Ingmar Bergman), não será surpresa nenhuma se a Suécia vencer de novo em 2018.

sábado, fevereiro 03, 2018

Viva: a vida é uma festa

Dante, o cão da ancestral raça Xoloitzcuintle que adora acompanhar Miguel, e Héctor, uma figura folclórica do mundo dos mortos, que vai ajudar Miguel a se aproximar de Ernesto de La Cruz.

Como tem sido tradicional no meio da animação, Vida, a vida é uma festa é codirigido por um experiente diretor de animação e um, digamos, novato. O experiente seria Lee Unkrich, nascido em 1967, cujo Toy Story 3 venceu o Oscar de Melhor Animação sete anos atrás. O novato é Adrian Molina, nascido em 1985, que também é coautor do bem elaborado roteiro de Coco.

Sim, por incrível que pareça, Coco é o título original. Trata-se de um daqueles dilemas tradutórios solúvel apenas pela pragmática inspiração dos distribuidores em uma reunião em que provavelmente o tradutor nem estava presente. Foi assim também que Shane deve ter virado Os brutos também amam. É uma tradição aqui no Brasil. Sempre que uma situação aponta para um problema de estranhamento linguístico, pesa o lado comercial, e inventa-se um nome novo ou copia-se a tradução do título para outro país.


De acordo com um artigo do Buzzfeed, este foi o motivo da mudança do título brasileiro. A matéria não leva em conta que no Brasil a palavra Coco não tem circunflexo no segundo "o". Além disso, o nome da personagem Coco no Brasil não é Lupita, e sim Inês.


Sinceramente, na minha opinião, tanto Coco quanto Shane tiveram seus títulos melhorados no Brasil. No caso de Coco, absolutamente não funcionaria deixar como título o nome da personagem, no caso, a nonagenária que quando menina viu o pai abandonar a família para se tornar um músico de sucesso. A mãe dela, então, começou a fabricar sapatos para sobreviver. E a música foi abolida naquela casa. 

Algumas gerações depois, Miguel, menino de 12 anos, enfrenta esse dilema de ser apaixonado por música no seio dessa família que simplesmente erradicou toda e qualquer manifestação musical em seus componentes. 

Ele se rebela contra a família e decide se apresentar no show de talentos na praça da cidade, justamente no Dia dos Mortos. Mas ele vai precisar de um violão novo...


A econômica sessão das 14h estava com meia lotação, e, comparando-se com a sessão de O touro Ferdinando, posso afirmar sem medo de errar: Viva é uma animação "menos infantil" e que exige mais do público.

Senão, vejamos: o filme sobre o herói bovino provocou muitas risadas e gargalhadas no público infantil, enquanto Viva resultou em apenas tímidas risadinhas em momentos muito específicos. Também uma menina reclamou e pediu para ir embora, pois estava com medo dos personagens (de uma altura em diante, os mortos, representados como esqueletos de crânios muito personalizados, têm participação importante na trama).

Qual filme ganhará o Oscar de Melhor Animação? Os dois favoritos abordam temas universais e relevantes. A ênfase de Viva é a importância da família, de seguir o coração. O trunfo de O touro Ferdinando é a questão da diversidade, do respeito às individualidades. Seja a ser quase inacreditável, mas o livro de Munro Leaf foi considerado perigoso em alguns países, subversivo e não educativo para as crianças. Eu torço para o brasileiro Carlos Saldanha, mas vai ser difícil para O touro Ferdinando superar os animados acordes de Viva.



domingo, janeiro 28, 2018

O touro Ferdinando

The Story of Ferdinand.jpg

The Story of Ferdinand é um livro publicado a primeira vez em 1936, escrito por Munro Leaf com ilustrações de Robert Lawson. É um livro bem simples, com poucas palavras por página e ilustrações discretas em preto e branco.





A história cativou as crianças e o livro se tornou um sucesso, chamando a atenção dos estúdios Disney. Em 1938, chegou às telas o curta-metragem Ferdinando, o touro, que levou nada menos que o Oscar de Melhor Animação em Curta-Metragem.

Poster for Ferdinand the Bull

O curta dirigido por Dick Rickard é bastante fiel ao livro, com uma ou outra diferença. No livro, Ferdinando é um touro malhado. No curta, é um touro preto. E na cena final na arena também há algumas pequenas diferenças. Mas, em geral, é praticamente a mesma e singela história.



Oitenta anos depois, O touro Ferdinando está de volta, agora em formato de longa-metragem. Os roteiristas fizeram um trabalho bastante criativo em aproveitar a essência dos elementos do livro de Leaf e Lawson, e, ao mesmo tempo, criando personagens coadjuvantes, acrescentando situações, enfim, permitindo que o grande potencial do personagem Ferdinando aflorasse e florescesse.

Sim, a escolha do verbo "florescer" não foi por acaso: Ferdinando, o touro criado por Munro Leaf, tem como principal característica gostar de se sentar quietinho e cheirar o perfume das flores.

No canteiro, no telhado, por todos os lados... Ferdinando as detecta, as admira, as fareja. Há flores em tudo o que Ferdinando vê, mas nem tudo são flores na vida do tourinho. O perspicaz bovino percebe o destino que o espera e resolve fugir, e acaba adotado por uma garotinha chamada Nina. E o que mais agrada Nina? É o que faz ela dizer: eu vejo flores em você, Ferdinando.



O touro Ferdinando (2018) prova que não só as flores de plástico não morrem. As flores com aroma verdadeiro eternamente se renovam. Por isso, não é à toa que o filme de 108 minutos dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha concorreu ao Globo de Ouro (perdeu para Viva, a vida é uma festa, da Pixar) e também vai concorrer ao Oscar de Melhor Animação no dia 4 de março. 

À parte a competência técnica da Blue Sky Studios na parte gráfica e no 3-D, os maiores trunfos de O touro Ferdinando são realmente o excelente trabalho de adaptação (que explorou outros aspectos do personagem e criou mil e uma peripécias para o herói taurino) e a tarimbada direção de Saldanha.


terça-feira, janeiro 23, 2018

Assassinato no Expresso do Oriente

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Beiraria o ridículo uma pessoa que gosta de cinema e de Agatha Christie escrever um post para citar os escancarados defeitos do filme Assassinato no Expresso do Oriente, do diretor Kenneth Branagh. Muita gente supostamente entendida já criticou o ator shakespeariano por ter se autoescalado para encarnar o icônico detetive Hercule Poirot. Com títulos engraçadinhos como "O culpado é Kenneth Branagh", esses textos se concentram no que não funciona no filme. Como sói acontecer na maioria das vezes, 
vou tentar fazer o contraponto.
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O filme é um road movie às avessas com cenas pitorescas do trajeto do famoso trem. O roteiro apresenta sucintamente vários personagens que terão relevância na trama e, como o tempo é um fator limitante na produção, espera o trem andar para tudo se ajeitar, na melhor tradução para o ditado brasileiro "Quando a carroça anda é que as melancias se ajeitam".
Nessa garbosa carroça de Kenneth Branagh, porém, é preciso reconhecer, nem todas as melancias se ajeitam, é verdade. Mas temos algumas soluções gráficas interessantes que resultaram em cenas de pura ação vividas pelo detetive cuja arma principal são as células cinzentas.

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E os percalços do caminho sublimam-se na bem realizada sequência final, a sempre clássica cena que se repete em quase todos os romances policiais de Agatha Christie protagonizados por Poirot. O belga reúne todos os suspeitos e vai desafiando uma a uma das possibilidades até revelar a verdade. 
No frigir dos ovos, Assassinato no Expresso do Oriente é uma iniciativa louvável de colocar a obra de Agatha Christie em foco. Com elenco e figurino de luxo, uma direção obcecada com os detalhes e efeitos especiais de última geração, o filme de Kenneth Branagh insufla uma revigorante lufada de ânimo na imortal obra da Dama do Crime.  

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Jumanji - Bem-vindo à selva


O filme de Jake Kasdan (filho do também diretor Lawrence Kasdan) aproveita os pontos fortes do roteiro para apresentar um consistente entretenimento. As atuações do elenco múltiplo (os 4 protagonistas são interpretados cada um por 2 atores diferentes) permitem que a história se desenvolva em vários níveis, em um típico filme "para toda a família", com destaque para as tiradas cômicas.

Falando em cenas engraçadas, Jack Black é o cara. O experiente ator arrasa na pele de um avatar, Shelly Oberon, escolhido por Bethany, uma das adolescentes que é sugada pelo velho e misterioso jogo Jumanji. Uma patricinha na pele de um coroa barrigudinho é uma situação bem esquisita, e Jack Black valoriza ao máximo as estranhas circunstâncias enfrentadas pelo personagem.



Uma turma de 4 alunos por diferentes motivos disciplinares acaba na sala do diretor da escola. São enviados a uma sala estranha, parecida com um depósito, com o objetivo de cumprir uma penalidade, ou seja, fazer uma tarefa estipulada. Muito apropriadamente no local está o tal jogo, e, sem mais delongas, os 4 escolhem seus avatares e são sugados para outra dimensão.

O enredo envolve esse "drama" divertido de ter que completar o jogo com apenas três vidas à disposição e, de quebra, desvendar outros enigmas importantes ocultos no universo de Jumanji.

Outro que mostra bom humor é Dwayne Johnson. Tendo de interpretar "um personagem por trás do personagem", não decepciona os fãs, muito pelo contrário.



Por sua vez, o diretor Jake Kasdan dá o passo mais seguro de sua carreira um tanto oscilante. Será que agora vai?

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Dolores

Quem acompanha este blog sabe que volta e meia escrevo uma "matéria" off-topic sobre alguma banda que aprecio ou algum show que tenho a sorte de presenciar. Hoje, o
olhar cinéfilo homenageia uma voz que vai continuar arrepiando muita gente, por muito tempo.



domingo, janeiro 14, 2018

Filhas das trevas




Filhas das trevas
a.k.a. Escravas do desejo (Daughters of Darkness ou Les Lèvres Rouges, 1971),  filme do diretor belga Harry Kümel (Malpertuis), aborda vampirismo e lesbianismo com apuro estético e elegância quase insuperáveis. O enredo investiga a mítica personagem húngara Condessa Elizabeth de Báthory (Delphine Seyrig), que demora um pouco para entrar em cena.



Um casal em lua-de-mel se hospeda num hotel deserto à beira-mar na cidade de Ostende. Enquanto aproveita a estadia, os dois acompanham pelos jornais as notícias sobre mortes seriais de moças que são encontradas sem uma gota de sangue no corpo. Uma das mortes ocorre em Bruges, e o casal aproveita para visitar a cidade. De volta ao hotel, aumenta o suspense quando chegam mais duas hóspedes misteriosas. O concièrge reconhece uma delas, a Condessa Bathory, que teria se hospedado no hotel há quarenta anos. Com um detalhe: ela não envelheceu nesse período.

A condessa Bathory é interpretada pela grande atriz francesa Delphine Seyrig, com figurinos perfeitos para sua silhueta esguia. Ela transcorre o filme inteiro com um sorriso nos lábios, sussurrando suas falas, a voz meiga, as atitudes suaves, contrastando com o mistério que parece esconder. O marido também esconde algo da esposa, pois pede ao concièrge mentir que não consegue ligar para alguém que seria sua "Mamma". Nesse meio-tempo, as duas sinistras, porém sensuais recém-chegadas se interessam imediatamente pelo casal que já estava hospedado no hotel, e a partir daí o filme desenvolve um jogo de atração e erotismo entre os quatro personagens, pontuado por interesses e necessidades orgânicas mais fortes que o desejo sexual.









A alemã Andrea Rau interpreta Ilona, a acompanhante da condessa. Ela tem o cabelo moreno curto e olhos claros. Experiente em filmes eróticos, a sedutora morena estrela 
algumas das cenas mais sensuais do filme. Ela faz um depoimento nos extras elogiando o belga Harry Kümel, que teria sido muito meticuloso em suas instruções para ela viver a personagem. Por sua vez, o comentarista de filmes Alex Good fala que adora a atuação da atriz neste filme.
Já Danielle Ouimet, a loira que vive a pombinha Valerie, declara que Filhas das trevas foi o melhor dos treze filmes que estrelou, mas afirma ter sido esbofeteada por Kümel e que o diretor belga lhe deixava perdida, pois nunca dava instruções claras. Por incrível que pareça, acho que as duas atrizes podem estar falando a verdade.

Das duas, uma: ou Kümel quis propositalmente deixar a atriz perdida, pois realmente Valerie, a recém-casada, é a mais frágil e mais "vítima" na história, ou o problema de relacionamento que surgiu entre os dois devido a um atraso da loira no set impediu que a comunicação se tornasse mais franca, e a leitura disso por Danielle foi a de que Kümel queria inovar a cada tomada, em vez de dar ordens precisas sobre o que ele queria.

Seja como for, até mesmo a atriz que teve problemas com o diretor reconhece que o filme marcou sua carreira em vários sentidos, e que costuma visitar o túmulo de Delphine Seyrig, de quem se tornou amiga no set.

Deixando à parte essas questões sobre a realização do filme, analisando apenas o produto, assistido em pleno 2018: trata-se de um filme de cadência lenta, com poucas cenas de sangue. Tudo é involucrado em um véu de mistério, e a história é contada mais com base no implícito do que no explícito. Arrisco a dizer que Filhas das trevas se tornou um cult justamente por isso. A parcimônia em termos de locações e de elenco é contrastada nos cuidados técnicos, na fotografia, figurino e música. Foram essas cenas estudadas milimetricamente para abordar com delicadeza vampirismo e lesbianismo que tornaram Filhas das trevas um clássico do horror erótico.

Trailers do filme:







quinta-feira, janeiro 11, 2018

O importante é amar


Conforme prometido, dei uma nova chance ao diretor de origem polaca nascido na Ucrânia Andrzej Żuławski. Ou seria melhor afirmar: dei a mim mesmo uma nova chance de conhecer de verdade a obra desse controvertido diretor.

Escolhi um filme dele anterior a Possessão, o filme que me provocou uma intensa repulsa anos atrás. A propósito, quando terei coragem de rever Possessão? Talvez nos próximos dias. Talvez até o fim de 2018. Talvez só depois de obter um panorama da obra de Andrzej Żuławski. O tempo dirá. Seja como for, já sei também o motivo de toda aquela rejeição.


Andrzej Żuławski é o diretor antipossessivo por excelência. Em seus filmes, todo e qualquer sentimento de ciúme e possessividade é ridicularizado sem dó nem piedade. Disso resulta que uma categoria importante de personagens zulawskianos sejam maridos patéticos, peripatéticos. Vide o personagem de Sam Neill em Possessão e o Jacques Chevalier de O importante é amar (Jacques Dutronc, em uma atuação memorável).


O importante é amar, filme realizado por Andrzej Zulawski em 1975, em última análise é um estudo de personagens que poderia ser rotulado de "triângulo amoroso". Algo não muito diferente do que ele realizaria em Possessão (1981). Com um talento acachapante para criar personagens femininas ambíguas e misteriosas, Zulawski cria em seus filmes as condições ideais para aflorar o talento das atrizes. Neste filme brilha Romy Schneider, como Nadine Chevalier, a atriz de filmes pornôs que é um dos vértices deste bizarro triângulo amoroso.


Na segunda ponta está Jacques Dutronc, que interpreta Jacques, o engraçado marido de Nadine. Sob todos os prismas, as atitudes de Jacques são pautadas por um intenso amor por Nadine, e, ao mesmo tempo, um reconhecimento da incapacidade de satisfazê-la, ou de entendê-la, ou de ser suficiente para ela. O marido de Nadine protagoniza cenas bizarras em todo o filme, entre elas, uma cena em que ele prepara café, e aparece um grande frasco de Nescafé, e outra em que ele imita Napoleão.

Na terceira ponta está outra alma desolada, Servais Mont, interpretado pelo italiano Fabio Testi, fotógrafo e cinegrafista de filmes pornôs que (na minha leitura) se apaixona perdidamente por Nadine, mas não consegue lidar com isso, com o fato de ela ser casada. Klaus Kinski tem seu momento no filme como o ator shakespeariano que não aceita críticas negativas. 



Sem quase nunca tirar a jaqueta verde ao longo do filme, Servais resolve interceder ao pegar dinheiro emprestado para financiar uma peça teatral, desde que Nadine seja a estrela e que ela não saiba sobre a sua intervenção. O personagem oscila ao longo da história entre o pudor de estragar um casamento, a vontade de ficar com Nadine e a dependência financeira de um despudorado curador de filmes eróticos, que não aceita a decisão de Servais de se afastar das filmagens.

Nesse meio-tempo, Zulawski move sua câmera pelos cenários e nos retrata o curioso e avassalador entrelaçamento do destino desses personagens. O principal ambiente é a sala transformada em quarto pelo casal Chevalier, forrada de pôsteres de filmes, como East of Eden (Vidas amargas, com James Dean) e Le Fils de Zorro. O site Films in Films traz uma lista de todos os pôsteres expostos na mencionada sala.
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É muito fácil se viciar neste filme, basta terminar de assisti-lo que já dá vontade de recomeçar a revê-lo, nem que seja para tentar ampliar as interpretações sobre os atos de cada um.

Mas é justamente isto que torna tão especial O importante é amar: Andrzej Żuławski não julga ninguém, não quer defender nenhum ponto de vista, apenas mostrar a angústia de ser humano, demasiadamente humano.

Sentimentos contraditórios são expostos e decupados, atitudes incompreensíveis são retratadas sem necessidade de explicar nada, afinal, a vida é como ela é, existem pessoas imprevisíveis, pessoas que podem ser rotuladas de "loucas" por sua inconstância, volubilidade e ambiguidade.

Por isso que o cinema de Andrzej Żuławski não é facilmente deglutível para quem espera um posicionamento prévio, um preconceito, um ato falho.

Como bônus do post, uma coleção dos pôsteres deste filme incongruentemente desconcertante... ou seria desconcertantemente incongruente?









domingo, janeiro 07, 2018

A última onda




Considerado por muitos um clássico do cinema australiano, A última onda (1977) é o terceiro longa-metragem de Peter Weir, após The Cars that Ate Paris (1974) e Picnic at Hanging Rock (1975). Clássico ou não, é um filme raro em todos os sentidos. Raro de se conseguir: apenas locadoras de grande acervo dispõem desse título, pouco procurado pelo "público em geral". Tipo do filme destinado a mofar nas prateleiras até que apareça alguém interessado nele, coisa que só ocorre... raramente. 



Rara também é a construção da película, rara é a atuação de Richard Chamberlain, raros são os temas abordados, rara é a mescla de atores aborígenes com os australianos brancos. Outra raridade é a esotérica trilha sonora, que nos remete a um clima fantástico, a uma bizarrice que permeia a história e, cena após cena, vai dominando o espectador.



Chamberlain vive David Burton, um advogado tributarista que tem uma rotina tranquila em uma metrópole australiana, na companhia da esposa, das duas filhas e do padrasto, um pacato pastor. Mas essa falsa aparência de tranquilidade aos poucos será desmantelada por fatos extrínsecos e intrínsecos ao personagem. Mudanças climáticas começam a se manifestar. Tempestades, granizo, chuva negra. Paralelamente, um aborígene aparece morto e um grupo de cinco homens, também aborígenes, é considerado suspeito.
Burton é convidado a coordenar a defesa dos réus. Isso serve para desencadear uma série de sonhos e visões no contido advogado, que desperta no meio da noite em sobressaltos premonitórios. Com o andar da investigação, ele se convence de que os aborígenes são inocentes, e que a morte envolve feitiçaria tribal, perpetrada por Charlie, um estranho líder espiritual dos aborígenes.

O choque cultural é extremo em cenas como o jantar na casa dos Burton, ao qual Chris, um dos aborígenes, é convidado, levando junto com ele o misterioso Charlie. E também na proverbial sequência de tribunal, único momento em que o filme ameaça tornar-se um pouco acadêmico. Mas a cena é rápida e serve para mostrar um júri todo composto por descendentes de europeus julgando os aborígenes.
Em 66 minutos, A última onda aborda, com rara ousadia, assuntos palpitantes como misticismo espiritual, fragilidade ambiental, contraste cultural, preconceito racial e transformação pessoal. Um dos pontos altos de sua fase australiana, The Last Wave é um bom exemplo do cinema de Peter Weir, um adepto dos "finais abertos".



Sobre The Last Wave, o escritor Andrew Nette afirmou que o filme "mina nossas certezas culturais, induzindo-nos a contemplar a existência de algo mais profundo e mais poderoso sob o exterior da Austrália branca".
Por sua vez, na introdução da obra The films of Peter Weir, Jonathan Rayner resume a dimensão da obra do diretor australiano, que, como Almodóvar, também não frequentou escola de cinema:

"A obra de Weir exibe uma unidade estilística na qual os conceitos de autoria europeus e americanos convergem. A carreira dele é marcada por um estilo europeu de autoria de filmes artísticos, com base em escritos pessoais e expressão visual, na Austrália, e por um estilo americano de autoria, com base na revisão de gêneros, em Hollywood. Nas duas fases, uma consciência sobre as convenções dos gêneros (da indústria hollywoodiana e do gênero de filmes artísticos) elucida temas e preocupações pessoais articulados por uma expressão visual individual. Dono de um estilo idiossincrático e versado na modificação dos gêneros, Weir estava bem preparado para entrar no establishment de Hollywood no começo dos anos 1980, época em que a indústria estava repleta de diretores americanos que também reconheciam a influência do filme de arte europeu e buscavam dirigir de maneiras inovadoras e individuais.
(...) Peter Weir é um diretor com intenções definidas e discerníveis, mesmo se ele não tiver necessariamente uma "mensagem" específica para transmitir. Ao extrairmos significado do conjunto delineado dos textos de Peter Weir, devemos buscar um equilíbrio, por um lado, entre a liberdade de interpretação individual e associações intertextuais mais amplas, e, por outro, o reconhecimento da construção textual e referências intertextuais deliberadas, encenadas pelo diretor e seus colaboradores."*

*Excerto da obra Rayner, Jonathan. The Films of Peter Weir, 2nd ed., p. 12, 15-16.



sábado, janeiro 06, 2018

O rei do show


O rei do show é um musical inspirado na vida de P. T. Barnum (Hugh Jackman), personalidade que criou o show business como o conhecemos. Trabalhando com o capital dos outros (leia-se, captando empréstimos nos bancos), Barnum criou um museu que depois se transformou em circo cujas atrações eram pessoas diferentes. Formou uma inusitada trupe que contava com mulher com barba; homem com o rosto inteiro coberto de pelos; portadores de nanismo, gigantismo e albinismo; irmãos siameses, etc. Atraiu multidões para seu circo e foi galgando degraus até conquistar o público considerado mais requintado, promovendo a turnê de uma cantora lírica. Mas quando tudo parece estar indo bem, contratempos vão surgir. Tudo isso vem involucrado em canções melosas incessantemente entoadas por Jackman e outras personagens, que enfrentam preconceitos de toda sorte, como a trapezista e o sócio de Barnum, romance não tolerável pela aristocracia da época. O talento de Jackman e sua experiência em musicais levam o filme de Michael Gracey nas costas. É tão eficiente a atuação do australiano e sua capacidade de atrair empatia a seu controvertido personagem, por muitos considerado o príncipe das falcatruas, que no final temos a sensação de que o mundo precisa de gente como Barnum, capaz de arriscar, empreender e aglutinar pessoas em torno de um objetivo comum.


domingo, dezembro 24, 2017

Mulheres divinas

Como presente de Natal aos associados, o Clube de Cinema de Porto Alegre selecionou o filme Mulheres divinas (2017), concorrente suíço ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2018. Os créditos iniciais mostram cenas do final da década de 60, a luta pelos direitos civis nos EUA, Woodstock, contracultura e manifestações feministas mundo afora.



 Em seguida, a câmera sensível da diretora Pietra Biondina Volpe acompanha a rotina de Nora, uma aldeã suíça em pleno ano de 1971, a esposa perfeita padrão: cuida do marido, dos filhos em idade escolar, e, de quebra, ajuda a cuidar da casa do sogro, que mora com o cunhado, a concunhada e a sobrinha rebelde. Nora pedala de saia em meio às paisagens nevadas em cenas bucólicas e bonitas. Nora é feliz: à noite, gira um globo iluminado entre os dois filhos e fala sobre os encantos de nosso planeta. É apaixonada pelo marido. Mas ser feliz não significa estar acomodada. Nora quer mais. Sonha em trabalhar como secretária numa agência de turismo. E também em melhorar outros aspectos de sua vida: Nora nunca teve um orgasmo.


The Divine Order film still.


O país respira lufadas de novos ares. Até mesmo nos conservadores e machistas cantões suíços, um grupo de mulheres tenta mobilizar as conformadas cidadãs. Distribuem panfletos, livros e atuam como catalisadoras de uma mudança que já tarda: a luta pelo sufrágio feminino naquele país. Para se ter uma ideia, na Inglaterra esse movimento aconteceu décadas antes, em que as sufragistas britânicas marcavam as moedas com a frase VOTES FOR WOMEN, como nos conta o livro A história do mundo em 100 objetos. Mas na tradicional Suíça, incrivelmente isso só foi acontecer em 1971. 
Esse é o contexto de Mulheres divinas, que funciona em dois planos, a história dessa revolução tardia em busca do direito pelo voto, e a reviravolta na rotina pessoal de Nora.



Revoltada com a postura do marido que a proíbe de trabalhar fora, Nora adere à campanha sufragista, contando com um grupo de amigas, entre elas uma italiana, uma carismática senhora e a cunhada de 45 anos. Falado em alemão, Mulheres divinas acompanha a mudança de Nora enquanto transita suavemente entre o drama (prisão, depressão, morte) e a comédia (oficinas sobre liberação sexual, greve feminina) para contar a incrível história da luta pelo voto feminino num país tão civilizado quanto retrógrado. Confira o trailer:





Da lista inicial de 92 países, sobraram 9 na acirrada disputa. Apesar das belas cenas e do tema interessante, o suíço Mulheres divinas já saiu da briga.  

sexta-feira, dezembro 22, 2017

Star Wars: Os Últimos Jedi



Como preâmbulo deste post, mais uma de minhas constatações tardias:


Embora já sedimentado no cânone brasileiro, o título O Retorno de Jedi não faz sentido. O original é Return of the Jedi. Não estamos falando do retorno de um Jedi qualquer, e sim de um Jedi específico. Além disso, como sabemos, Jedi não é o nome de uma pessoa.  Portanto, a escolha da preposição "de" foi equivocada. Pelo contexto, o título mais adequado seria O Retorno do Jedi.


***

Depois dessa breve introdução sobre as sutilezas da linguagem, vamos ao comentário sobre Rian Johnson.

Sim, não vou comentar o filme, para não cometer spoilers.

Em vez disso, vou resumir o perfil do diretor.

Graduou-se em Artes Cinemáticas em 1996 pela Universidade of Southern California.

O curta Evil Demon Golfball from Hell, realizado nessa época, teve o roteiro inspirado por um conto de Edgar Alan Poe, O coração denunciador (The Tell-Tale Heart).

A estreia na direção de longas-metragens foi com A ponta de um crime (Brick, 2005), um filme noir ao estilo da literatura de Dashiell Hammett.

O segundo longa, Vigaristas (The Brothers Bloom, 2008), é um misto de policial e comédia sobre dois irmãos órfãos que se tornam malfeitores.

Sempre assinando roteiro e direção, Johnson entrou no radar para valer com o terceiro filme, Looper (2012), um policial futurista.

Como destaques em seu currículo também aparecem os três episódios que ele dirigiu no seriado Breaking Bad: Fly na 3ª temporada), e Fifty-One e Ozymandias na 5ª temporada. Ao contrário do que aconteceu nos filmes, ele não assinou o roteiro desses episódios.

O próximo grande passo de Rian Johnson está em cartaz no mundo inteiro, em salas de IMAX, em 3-D, 2-D, dublado e legendado em centenas de idiomas.

Não apenas por seus méritos, Rian Johnson está recebendo a atenção do mundo inteiro. Coube-lhe a desafiadora, porém gratificante tarefa de escrever o roteiro e dirigir o Episódio 8 da franquia Star Wars.

Ou seja, colocou o seu talento a serviço da indústria.

Volta e meia, diretores ambiciosos e promissores fazem isso, apostando que um dia poderão fazer "the other way around": colocar a indústria a serviço de seu talento, coisa que poucos cineastas alcançam.

O que nos leva a suscitar a pertinente pergunta: até que ponto um diretor/roteirista consegue "imprimir sua marca" num projeto desta natureza, que precisa seguir certos moldes, respeitar um estilo, levar em conta um conjunto enorme de informações prévias e a necessidade de agradar aos exigentes críticos de cinema e os talvez ainda mais exigentes fãs da franquia?

Johnson agarrou a oportunidade com unhas e dentes e fez um trabalho visualmente impecável, com cenas de extrema contundência estética, em especial, no eficiente 3-D do formato IMAX.

Um de seus recursos foi o amplo uso de closes nos rostos dos personagens em momentos chave, com a tela sendo preenchida com os olhares expressivos de Luke Skywalker, Finn, Rey, Kylo Ren, Leia, entre outros.

A atriz Laura Dern dá as caras na pele da vice-almirante Holdo, fiel às ordens de Leia, que bate de frente com a impulsividade de Poe, o rebelde piloto de X-Wing.

Mas é Benicio Del Toro que faz seu show à parte encarnando o carismático mercenário e decodificador DJ.