Wednesday, August 03, 2011

Senha 1 para Eraserhead

Uma pequena contextualização sobre este post. O blog olhar cinéfilo vai completar dez anos em 6 de abril de 2013. Aqui no blogspot comecei a postar em dezembro de 2005. Os primeiros dois anos e meio do blog eu considerava perdidos, depois que o blog foi tirado do ar pelo weblogger, sem prévio aviso.
Há poucos dias tive uma grata surpresa: vislumbrei a possibilidade de resgatar os primeiros textos deste blog, perdidos pela traiçoeira ação do weblogger. No Internet Archive (http://www.archive.org/web/web.php) consegui efetivamente recuperar quase 80% dos textos! Pretendo em ocasiões pertinentes republicá-los esporadicamente. Como acabo de resenhar um livro que conta a trajetória de David Lynch, o repost abaixo vem bem a calhar.


domingo, 7 de dezembro de 2003

Senha 1 para ERASERHEAD
Eu estava lá. Uma e meia da tarde do domingo. Quando chega a minha vez de comprar o ingresso, o que acontece? It’s over. C’est fini. È finito. Como consolo, ganho uma senha, caso algum dos convidados venha a desistir. O número que aparece na senha é a minha esperança: 1.
18h50, lá vou eu, e não é que dei sorte? Troco a senha mais três reais por um ingresso escrito ERASERHEAD. Um troféu no meio das mais de 100 pessoas que estavam lá tentando entrar e ficaram de fora. A primeira sessão pública de Eraserhead no Brasil não podia ser diferente: disputada palmo a palmo, ainda mais na “cidade dos sonhos”, a cidade onde pululam cinéfilos das mais diferentes tribos: a querida e amada Porto Alegre.
Antes das luzes apagarem, uma radiografia na galera. Dos 15 aos 50. Brincos, tatoos, piercings, cabelos coloridos. Tinha gente normal, também. A meu lado um cara todo de preto com o xerox de um livro, ou melhor, um verdadeiro tratado, original em inglês, sobre “filmes da meia-noite”, Eraserhead sendo um deles. E as luzes se apagam.
O meio é o dvd, o formato não é o ideal, mas o que vale aqui não é a forma, e sim o conteúdo. Tão esperado, tão comentado, tão exaltado. Eraserhead, em qualquer guia de cinema que se preze, consta como cult. É chegada a hora de saber o que é que Eraserhead tem. Em que consiste, afinal, o primeiro longa-metragem do controverso diretor David Lynch – para uns, um gênio; para outros, um enganador.
Quem vota na primeira alternativa quer ver em Eraserhead o simbolismo selvagem de A estrada perdida, o romantismo perdido de Veludo azul, o céu azul de História real, o humor real de Coração selvagem, os sonhos delirantes de Twin Peaks, os delírios de Cidade dos sonhos, a ficção alucinante de Duna, a dura realidade de O homem elefante. Quem vota na segunda, quer motivo para alegar que Eraserhead é “superestimado”, cultuado sem motivo, badalado sem necessidade, no fundo, apenas, um exercício pretensioso de um jovem cineasta maluco.
Termina a sessão. Umas poucas palmas chochas. Vai ter um debate com um psicanalista. No, thanks. Uma experiência surreal, claustrofóbica e angustiante dessas, nem Freud explica. Cada um tire as suas próprias conclusões. E a minha, qual foi? Indicaria Eraserhead para alguém? Certamente não. 99,9% odiariam. Mas, para os lynchmaníacos, Eraserhead foi bastante revelador. Revela como Lynch, desde o começo, é perseguido pelas mesmas obsessões. Os personagens esquisitos, a fêmea fatal, a aberração, o palco que surge sem mais nem menos, os momentos de puro nonsense, os toques de humor sutil, os mergulhos perturbadores no mundo dos sonhos. Cenas engraçadas, cenas sufocantes, cenas surpreendentes, cenas chocantes. Tudo isso está em Eraserhead.
Por que, então, a quase decepção ao final? Por que não houve um aplauso entusiasmado? Por três motivos: primeiro, a expectativa exagerada. Um filme é um filme é um filme, como diria Gertrude Stein. Um filme de David Lynch é só isso. Um filme de David Lynch. Segundo, verdadeiros fãs de David Lynch não aplaudem. São céticos. Terceiro, filme de David Lynch não foi feito para ser aplaudido, nem entendido, nem debatido à luz da psicanálise. Foi feito para ser visto e gravado na retina ou descartado como lixo conforme o gosto de cada um.

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