quinta-feira, maio 29, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


Qualquer pessoa um pouco ligada em cinema sabe que não há mistério na receita para se fazer um bom filme. Bom roteiro, bom elenco, boa equipe e bom diretor quase invariavelmente resultam num bom filme. Há casos, porém, em que o roteiro parece ótimo, o elenco é cheio de figurões, a equipe técnica é oscarizada e o diretor tem uma filmografia quase impecável, mas o resultado é uma droga. Em que categoria se enquadra Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal?

Comecemos nossa análise pelo roteiro. Bem estruturado, faz o espectador entrar na história de modo envolvente. Com ingredientes clássicos como mapas em código, povos remotos, tesouros perdidos, objetos mágicos e segredos misteriosos, traz também pitadas de humor e inúmeras citações intertextuais com os primeiros três filmes da série. Além disso, ao fixar o ano das ações em 1957, lança mão de humor político, com menção à guerra fria EUA x Rússia e à "caça às bruxas" ianque contra os "comunistas", ocorrida na década de 1950. Por isso, com um ou outro senão, é possível afirmar que o roteiro foi muito bem trabalhado e executado.

O elenco do filme? Bem, é chover no molhado falar, por exemplo, na qualidade de Cate Blanchett, mas a verdade é que ela comprova mais uma vez o grande talento como a gélida Irina Spalko, militar e pesquisadora russa que procura de modo obstinado descobrir a origem e a verdade sobre a Caveira de Cristal. Karen Allen, no papel de Marion Ravenwood, numa ótima jogada dos roteiristas, dá o ar de sua graça na série, depois de um longo e tenebroso inverno (só tinha estrelado Os Caçadores da Arca Perdida). Ela contribui com seu charme (que não diminuiu com a idade) para tornar o filme melhor. Já Shia LaBeouf (isso lá é nome de gente?), um dos atores mais versáteis e solicitados na Hollywood atual (senão, vejamos: participou do blockbuster Transformers [2007], do obscuro Paranóia [2007] e do alternativo Bobby [2006]), não podia deixar de marcar presença e não decepciona na pele de Mutt Williams, o rebelde motoqueiro que pede ajuda a Indy para resgatar o Professor Oxley, perdido em algum lugar da América do Sul. Oxley, por sua vez, é interpretado por um descabelado e alucinado John Hurt, outro mestre da metamorfose (já fez por exemplo O Homem Elefante, de David Lynch e serviu de pasto para o primeiríssimo Alien, de Ridley Scott). Ray Winstone interpreta Mac, parceiro de Indy nas aventuras, enquanto Jim Broadbent encarna o reitor da Universidade que é obrigado a afastar Indiana Jones, devido às investigações da CIA. Em resumo, o elenco tem peso, inspiração e todos os clichês mais que você conseguir lembrar. Mas, falta falar dele, não é?
Sim, e o que dizer do nosso velho Harrison Ford? Em 35 anos de carreira, já trabalhou com alguns dos melhores diretores, como George Lucas (American Grafitti, 1973; Guerra nas Estrelas, 1977; O Império Contra-Ataca, 1980 e O Retorno de Jedi, 1983); Francis Ford Coppola (A Conversação, 1974 e Apocalypse Now, 1979); Steven Spielberg (Os Caçadores da Arca Perdida, 1981, Indiana Jones e O Templo da Perdição, 1984, Indiana Jones a A Última Cruzada e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008); Peter Weir (o filmaço imortal A Testemunha, 1985, e o incompreendido A Costa do Mosquito, 1986); Ridley Scott (o cult dos cults Blade Runner, 1982); Mike Nichols (Uma Secretária de Futuro, 1988); Roman Polanski (Frantic, 1988); Alan Pakula (Presumed Innocent, 1990); Phylip Noyce (Jogos Patrióticos, 1992, e Perigo Real e Imediato, 1994); Andrew Davis (O Fugitivo); Sidney Pollack (que os Deuses do bom cinema o tenham, Sabrina, 1995) e Kathryn Bigelow (K-19, 2002). Diga-me com quem andas, que eu dir-te-ei quem és. Só o fato de ter trabalhado com tanta gente genial já poderia atestar a qualidade e o carisma de Harrison Ford. Mas não se trata disso, de citar currículo por citar, de criar fama e cair na cama. O carpinteiro que virou ator humilde nunca quis ser diretor. Ford é um cara que sabe as próprias limitações. E apesar delas, deu vida a inúmeras personagens e cenas gravadas na retina de quem ama cinema.
Falando em retina, essa é a deixa para comentar sobre a equipe reunida para otimizar o filme. Sim, pois O Reino da Caveira de Cristal tem uma das características marcantes dos filmes de Spielberg: a excelente fotografia assinada por Janusz Kaminski. A música? John Williams. A produção? George Lucas e Frank Marshall. O roteiro? David Koepp, baseado em história de George Lucas. Para quem não lembra de David Koepp: ele assinou nada menos que Jurassic Park, Missão Impossível, Homem Aranha, Quarto do Pânico, sem falar nos dois filmes de Brian De Palma: Carlito's Way e Olhos de Serpente. Em suma, uma bela equipe como era de se esperar.
O que nos leva ao homem que ganha o crédito artístico: o diretor. No caso, Steven Spielberg. Desde que estreou com o baixo orçamento de Encurralado (1971), passando pelo blockbuster Tubarão (1975), pelo pioneiro Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e pela magia de E.T. (1982), até chegar ao Oscar em A Lista de Schindler (1993), unindo faro comercial, talento visual e timing infalível, mesclando o senso de humor (1941 - Uma guerra muito louca, 1977; Prenda-me se for capaz, 2002; O Terminal, 2004) à capacidade de urdir dramas (A Cor Púrpura,1985) e de retratar realidades cruéis (vide Munique, 2005), eclético, indo da aventura (O Império do Sol, 1987) à guerra (O Resgate do Soldado Ryan, 1998), do suspense (Twilight Zone, 1983) à ficção (A.I., 2001, Minority Report, 2002, A Guerra dos Mundos, 2005), Spielberg é o protótipo do CINEASTA. Completo.
Bem, dirá um leitor crítico, que tal parar de citar nomes e currículos e falar um pouco sobre o filme? Ora, um filme é feito de nomes e de currículos. O que eu posso dizer é que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal faz jus ao currículo das pessoas envolvidas. Claro que tudo tem um pequeno senão, e, nesse caso, já havia comentado en passant que o roteiro, mesmo excelente, tinha seus senões. Pois bem, o senão é que a fundamentação científica (?) está mais para Erich von Däniken do que para Carl Sagan. Mas isso não chega a comprometer a 'obra como um todo'.

domingo, maio 18, 2008

Encurralados

O título original de Encurralados (Butterfly on a Wheel), produção independente britânica (cujo DVD recebeu nos EUA o título Shattered ), é uma referência à frase "Who breaks a butterfly upon a wheel?", citação de Alexander Pope; por sua vez, alusão à forma de tortura em que as vítimas eram amarradas a uma roda e tinham fêmures e úmeros quebrados por uma barra de ferro. Uma das conotações da expressão "estraçalhar uma borboleta sobre uma roda" é dispender um esforço grande para alcançar algo sem importância. Para quem gosta de música pop: Butterfly on a Wheel é, também, o título da bela canção do Mission, cujo refrão é Love breaks the wings of a butterfly on a wheel.
E o amor de Amy (Maria Bello) e Neil Warner (Gerard Butler) pela filha Sophie será colocado à prova. Neil Warner, bem-sucedido executivo do ramo de publicidade, na agência onde trabalha cultiva a inveja de alguns e a admiração de outros, como o seu chefe e a secretária Judy (Claudette Mink). Num fim-de-semana em que Neil tem programado um encontro com o chefe e Amy um encontro com as amigas, o casal é obrigado a contratar uma babá para cuidar da filha Sophie (Emma Karwandy). Tudo parece estar calmo, mas de súbito os dois se vêem raptados por Tom Ryan (Pierce Brosnan) e informados de que a filha deles, na verdade, está nas mãos de uma cúmplice. A partir daí, o roteirista William Morrissey tenta fazer de Tom Ryan um vilão implacável com objetivos obscuros. Os fatos sucedem-se de modo tão vertiginoso que, se o espectador se deixar confundir, pode até chegar a pensar que está vendo um bom thriller. Porém, a despeito dos esforços dos atores, o argumento é mesmo frágil como asas de borboleta. Não bastasse o exagero e a falta de bom senso das situações, o filme conta com uma das cenas finais mais mal-resolvidas e constrangedoras dos últimos tempos. Não à toa o filme nem entrou em cartaz nos Estados Unidos: ir ao cinema para assistir Encurralados é despender muito esforço para um retorno ínfimo.


sábado, maio 17, 2008

Homem de Ferro

Gwyneth Paltrow em Iron Man está linda como Pepper, a fiel e eficiente secretária particular de Tony Stark; Robert Downey Jr. não deixou por menos e fez um trabalho fenomenal como Tony Stark/Iron Man. Paltrow, de modo contido, faz de Pepper o protótipo da secretária competente, que nutre pelo chefe algo mais que respeito e admiração. Downing Jr., por sua vez, faz com maestria e charme o papel do patrão frio e calculista, que finge não saber da paixão da secretária.
O diretor Jon Favreau conduz a história de modo ágil, focando (méritos para o roteiro) sempre a personalidade contraditória, carismática e enigmática do engenheiro nato Tony Stark. Herdeiro da Stark Industries, empresa líder em produção de armas pesadas, após a demonstração de um novo armamento no Afeganistão, é capturado por uma milícia local. Seriamente ferido, é salvo por um estratagema científico de seu colega de prisão Yinsen (Shaun Toub). A situação obriga Tony a usar toda a sua habilidade e o seu conhecimento para fazer uma armadura rudimentar mas poderosa e tentar escapar com vida.
Esse é apenas o resumo da situação inicial de Homem de Ferro. A experiência abala as convicções de Stark, o que provocará choque de interesses com o sócio Obadiah Stane (Jeff Bridges) (a propósito, o veterano e eficiente ator faz de Obadiah um dos vilões mais carecas e mais patéticos do cinema). Nos EUA, com toda tecnologia à disposição em pleno porão de sua casa encravada num penhasco à beira-mar, Tony desenvolve uma nova espécie de energia, constrói a armadura perfeita e se torna o Homem de Ferro, para tentar desfazer males criados pela sua própria indústria. A voz de Jarvis, o computador que é a 'alma' da armadura, é do ator Paul Bettany.
A equação do Homem de Ferro: boa fonte + roteiro inspirado + atores consistentes + direção ágil = puro divertimento.

sexta-feira, maio 16, 2008

Um beijo roubado

Jeremy (Jude Law), um imigrante inglês, toca o próprio negócio - espécie de confeitaria intimista - em Nova York. Uma das freguesas assíduas é Elizabeth (Norah Jones), com quem Jeremy trava aquele tipo de amizade inocente e desinteressada, mas com potencial de quem sabe, talvez, um dia, ir um pouco, bastante, muito além de uma relação cordial-comercial. Porém, entretanto, todavia, eis que o fato desencadeador acontece: o relacionamento de Elizabeth está se desintegrando. Sem aviso prévio, pára de freqüentar a confeitaria, por um simples motivo: está a centenas de milhas, em busca da auto-estima perdida.
Para os novos amigos, justifica o fato de trabalhar noite (com o nome Lizzie num bar) e dia (com o codinome Beth numa lancheria) pelo objetivo de juntar dois mil dólares para comprar um carro.
Mas, entre um emprego e outro, entre uma cidade e outra, entre o testemunho de uma história paralela e outra (que incluem o relacionamento tempestuoso de Arnie [David Strathairn], um policial beberrão, e sua sensual, mas perdida esposa [Rachel Weisz]; e as aventuras da jogadora de pôquer Leslie [Natalie Portman]), Elizabeth mantém o contato com Jeremy por meio de cartões-postais enviados à confeitaria.
Wong Kar Wai, diretor oriundo de Hong Kong, abusa dos closes, das câmaras lentas e das cores fortes para tentar dar um tom 'artístico' a My Blueberry Nights (que virou Um beijo roubado). Alguém poderia ponderar que, devido às andanças de Elizabeth, a amizade dela com Jeremy fica em segundo plano boa parte do filme. Outro rebateria que perde o 'romance', mas ganha o 'road movie'. Um espírito mais crítico poderia avaliar que, devido à dispersão de foco nas histórias paralelas, a história 'principal' (Jeremy e Elizabeth) acaba mal-desenvolvida. Outro retrucaria que, na verdade, o filme não é sobre Jeremy e Elizabeth, e sim sobre a viagem de reconstrução da vida de Elizabeth. Talvez essa seja uma boa definição - e uma das qualidades - de Um beijo roubado: difícil de rotular.

sexta-feira, maio 02, 2008

A vida começa aos 40

A médica ginecologista Elisabeth Staf estaciona o carro com pressa e com mais pressa sai do carro em direção à igreja. É o casamento do filho. A pressa não a impede, porém, de argumentar com a fiscal de trânsito, ansiosa por multá-la. A conversa entre doutora e fiscal vira bate-boca (com direito a tapa no quepe e troca de comentários não muito elogiosos). É assim que Colin Nutley, diretor britânico radicado na Suécia, apresenta as protagonistas de seu novo filme: A vida começa aos 40 (Schwedisch für Fortgeschrittene / Heartbreak Hotel).

Por essa primeira cena, o espectador pode avaliar a personalidade das duas. Elizabeth: decidida, petulante, do tipo que não leva desaforo para casa. Gudrun: discreta, zelosa, do tipo que leva as coisas ao pé-da-letra. Claro que essas personagens vão se encontrar de novo e a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade irresistível, avassaladora, do tipo que não acontece muitas vezes. Afinal, as duas têm muita coisa em comum: quarentonas, (enrustidamente) fogosas e (teoricamente) desimpedidas. Dessa forma, Gudrun e Elizabeth passam a freqüentar juntas nas frias noites suecas a pista animada do Heartbreak Hotel.

Misto de Embalos do Sábado à Noite com Thelma e Louise, o tema da película realizada na Suécia (como os demais filmes de Nutley) é a importância de certos itens: a amizade, a música, a dança, a diversão, a compreensão dos filhos, a colaboração dos cônjuges (no caso, êx-conjuges). Se esses itens já são importantes em situações ditas normais, mais importantes se tornam num contexto de reestruturação. Aos quarenta e poucos anos, a recatada Gudrun (Maria Lundqvist) e a extrovertida Elisabeth (Helena Bergström, esposa do diretor e presença constante em seus filmes) não precisam mais ter vergonha de nada (nem mesmo de aceitar o fato de nunca ter tido um orgasmo). No auge das células cinzentas, dão-se ao luxo de escolher o momento apropriado de não utilizá-las.


A trajetória do diretor Colin Nutley é no mínimo inusitada:
mesmo sem falar sueco fluente firmou-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo. Seu maior sucesso foi talvez Änglagard (House of Angels, 1990), sobre a estranha chegada de dois forasteiros numa pequena cidade. Nas palavras do jornalista Rob Hincks, o filme é "provavelmente a quintessência dos filmes suecos de verão de todos os tempos". Foi tanto o sucesso que rendeu uma seqüência.

Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a "vender a alma". Gosta mesmo é de trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, com pouco de roteiro e muito de improviso. Segundo Nutley (ver entrevista em
http://www.sweden.se/templates/cs/Article____14295.aspx),
seu método de trabalho é simples. O elenco só fica sabendo sobre o que vai ser a cena três minutos antes dela ser rodada. Então Nutley discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real. E o resto é por conta dos atores. A vida começa aos 40 é uma boa amostra dos prós e contras desse método.

segunda-feira, abril 07, 2008

A megera domada


Com este post, o olhar cinéfilo comemora o quinto aniversário.

A peça A megera domada, encenada no Teatro de Câmara Júlio Piva, na R. da República 575, em Porto Alegre, é teatro de alto nível made in Porto Alegre. Assisti ao espetáculo no dia 5 de abril, já com Sandra Possani no papel da megera (em substituição a Roberta Savian). Três espetáculos no próximo fim de semana encerram a breve temporada.

Bebendo um vinho oferecido por cortesia, o público aguarda a abertura da sala. Enquanto entra e se acomoda, a primeira surpresa: os atores passam a apresentar números denominados por eles como "de risco". Dessa forma, o público retardatário tem oportunidade de chegar, e os atores de "quebrar o gelo", além de mostrar outras facetas do seu talento.

Começa o espetáculo propriamente dito, e o que se vê encheria de orgulho até mesmo o próprio Shakespeare, que dirá os gaúchos: um show de tradução, direção, iluminação e interpretação.

Batista (Carlos Mödinger) só vai liberar a linda Bianca (Elisa Volpatto) para casar depois que a irascível primogênita e consumada megera Catarina (Sandra Possani) desencalhar. Os sedentos candidatos a abiscoitar o coração de Bianca torcem para que Petrúquio (Heinz Limaverde), seduzido pelo dote de 20 mil coroas, consiga dobrar a indobrável Cati, em meio a palpitantes jogos de palavras.
A tradução realizada (sob encomenda e sob medida) por Beatriz Viégas-Faria revela-se brilhante sempre, com destaque para o embate verbal aguçadíssimo entre o resoluto Petrúquio (o pretendente) e a irredutível Catarina (a "megera"). Como bem ressalta o jornalista Renato Mendonça, Beatriz "não evita o desafio de reinventar em português os muitos trocadilhos do texto". Ou seja, dá uma inspiradora aula de tradução.
A moderna direção de Patrícia Fagundes não é menos inspirada e segura. O espectador tem a impressão de que nada acontece no palco sem ter sido meticulosamente pensado, e que o elenco segue as determinações/orientações/sugestões da diretora à risca. Tudo isso sem perda da naturalidade de cada um. Em resumo, a diretora aproveita ao máximo a verve e o talento de cada um dos atores.

Iluminação e figurino enfatizam o preto, o branco e o vermelho. Parte técnica, produção executiva, trilha sonora: o apuro nos detalhes contribui para o excelente resultado. Por fim, a trupe de atores é realmente algo! Além dos citados acima, Rafael Guerra, Álvaro Vilaverde, Felipe de Paula, Lisandro Belloto e Leonardo Machado dão show na hora exigida, e são coadjuvantes quando lhes compete.

Noite perfeita, apesar das cadeiras-destruidoras-de-coluna do charmoso Teatro de Câmara.

Thanks, grandma, for taking care of the baby!

domingo, março 09, 2008

10.000 a.C.



No papel de Tic'tic, o gabaritado ator neozelandês de etnia maori Cliff Curtis (o 'uncle Bully' de O amor e a fúria, de Lee Tamahori) dá ao elenco de 10.000 a.C. a mínima consistência necessária para tentar tornar verossímeis um roteiro pífio e um amontoado de efeitos especiais baratos. Integram o elenco Steven Strait (D'Leh), Nathaniel Baring (Baku), Mo Zinal (Ka'ren), Marco Khanlian (One-Eye) e Camille Belle (como a bela Evolet).

A história (?) do novo filme de Roland Emmerich [o cineasta autor de The Day After Tomorrow (2004), The Patriot (2000), Godzilla (1998), Independence Day (1996), Stargate (1994), Universal Soldier (1992), Moon 44 (1990), Ghost Chase (1988), Joey (1985), Making Contact (1985) e The Das Arche Noah Prinzip (1985)] parece toda chupada de Apocalypto, o filme de Mel Gibson. Senão, vejamos: tribo é invadida por caçadores de escravos; alguns integrantes da tribo lançam-se em busca do regate dos capturados. A seqüência final - a exemplo de Apocalypto - mostra o local aonde os escravos são levados e os sacrifícios a que são submetidos.
Sem uma cena sequer memorável, 10.000 a.C. perde a oportunidade de ser um retrato aventuroso do período em que o homem inventou a agricultura para ser um mosaico de referências toscas e mal costuradas. Repleto de cenas previsíveis e com efeitos pasteurizados ao extremo, o novo filme de Roland Emmerich é coerente e se encaixa bem dentro de sua filmografia - fácil de deglutir e de descartar.

domingo, janeiro 13, 2008

Um beijo a mais

Tony Goldwyn dirigiu o roteiro de Paul Haggis, baseado no roteiro original do filme italiano L'ultimo bacio (2001) de Gabriele Muccino. O resultado, Um beijo a mais (The last kiss, 2006) é uma 'comédia romântica' ianque com jeito e estofo europeus, personagens críveis e situações delicadas, normalmente não debatidas em filmes do gênero. Zach Braff é Michael, arquiteto de 29 anos que namora uma bela e inteligente mulher, Jenna (interpretada pela estrela em ascensão Jacinda Barrett). No começo do filme, num encontro de família, o casal de namorados comunica os pais de Jenna que
ela está grávida de dez semanas. Tudo estaria ótimo, não fossem as dúvidas na cabeça de Zach. Prestes a completar 30 anos, o promissor arquiteto se pergunta: estou pronto para assumir compromisso para o resto da vida? Sou capaz de ser um bom pai, um bom marido, um bom genro? Posso abdicar de "conhecer" outras mulheres? Em resumo: é isso mesmo que eu quero para minha vida?
Os amigos de Michael, todos da mesma faixa etária, estão em situações distintas, e, cada um a seu modo, enfrentam a "crise dos trinta anos". Chris (Casey Affleck) tem um filho de dois anos com a esposa Lisa; pensava que o filho sedimentaria a união, mas as brigas são constantes; Izzy (Michael Weston) está transtornado pois acaba de romper um relacionamento com a namorada da adolescência; Kenny (Eric Christian Olsen) não tem namorada fixa e tem pânico de estabelecer relacionamentos duradouros.
Como ia dizendo, tudo estaria ótimo para Zach, não fossem suas dúvidas. Essas se materializam ainda mais quando conhece Kim, uma moreninha insidiosa, insistente e nem um pouco insossa.
O diferencial de Um beijo a mais, além da qualidade do roteiro e o do elenco bem escolhido, é a coragem de 'tocar o dedo na ferida', ou seja, abordar sem hipocrisia questões até certo ponto revoltantes. Típico filme ideal para assistir em DVD, ainda mais que os extras trazem dois curiosos finais alternativos.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Inland Empire




A trintona quase quarentona gordinha e faceira e o filho magro e sisudo de treze anos sobem as escadas do Unibanco Arteplex 1. Estou sentado numa das fileiras superiores, na seção central, numa poltrona mais ou menos no meio. A dupla sobe as escadas e senta-se na seção lateral à direita. Outras pessoas vão chegando aos poucos, a sessão atrasou – como, com toda polidez, o bilheteiro havia avisado – devido a um cálculo errado sobre a duração do filme anterior (Gigante, como o Inter conquistou o mundo). O clima na sala é de pura expectativa. Neste meio-tempo, a dupla anteriormente citada abandona o local escolhido, a mamãe passa sorrindo e pedindo licença, eu recolho as pernas e acompanho-a com o olhar até os dois se acomodarem na estreita seção de poltronas da esquerda. Mais pessoas vão sentando cá, ali, acolá, aqui e lá. Então mamãe e filho fãs de David Lynch levantam-se dos novos lugares escolhidos, descem alguns degraus e sentam-se novamente. A sessão está prestes a ter início. Um clima de água na boca no ar. A dupla dinâmica levanta-se mais uma vez e senta-se, agora definitivamente, na primeira fila da extrema esquerda, esperando, ansiosos, o início do banquete.
Sim, pois um filme de David Lynch é para cérebros o que a Festa de Babette é para olhos e estômagos: um cardápio rico e multicor, nutritivo e substancial. A digestão pode não ser muito fácil, mas o prazer sublime do consumo compensa. Mas e por que toda essa introdução sobre a indecisão da cinéfila mãe e do cinéfilo filho sobre onde sentar? Porque isso exemplifica um pouco o tipo de pessoa que estava no cinema. Fãs de Lynch são pessoas um tanto imprevisíveis, não-lineares, pouco dadas a seguirem uma mesma e repetitiva linha de ação. Lynchnianos são seres cientes de que pagar ingresso para ver um filme de Lynch é assinar um contrato de risco. Nada garante nada e nada se prende a nada nos próximos 120 ou 180 minutos. O que vai passar? Um filme sem pé nem cabeça, enigmático, como A estrada perdida, ou um filme com começo, meio e fim, como História real? Pouco importa. É um novo filme de David Lynch, que aos 22 anos virou pai e, baseado em suas experiências assustadoras, fez o primeiro e acachapante longa-metragem: Eraserhead (1978). O filme assombrou o produtor Mel Brooks que convocou o diretor novato para realizar O homem elefante (1980), a história de um homem gentil e culto interpretado por John Hurt que sofre de elefantíase e por isso é explorado como atração de circo. Em 1984, após ter declinado o convite para fazer O retorno de Jedi, lançou Duna, que, devido a uma série de cortes, ficou desfigurado, e o próprio Lynch pediu sem sucesso para que seu nome fosse retirado dos créditos. Em 1986 e 1990 fez dois filmes especialíssimos: Veludo azul e Coração selvagem. Veludo azul, com Dennis Hopper e Isabela Rosselini, explora o mistério sobre uma orelha cortada e os desejos masoquistas de uma bela morena, enquanto Coração selvagem traz o casal mais quente e alucinado do cinema (Lula Fortune / Laura Dern e Sailor Ripley / Nicolas Cage). Para mais detalhes sobre Coração selvagem, ler post neste blog. Twin Peaks: Fire Walks With Me (1992) aproveita o sucesso da séria televisiva; o quebra-cabeças A estrada perdida (1997); o belíssimo História real (1999), o mais concreto e rural dos filmes de Lynch (as lindíssimas cenas aéreas das lavouras são uma espécie de tributo à profissão do pai, pesquisador do Departamento de Agricultura) (mais detalhes sobre a biografia dele pode encontrar no livro David Lynch, resenhado aqui); e o onírico Cidade dos sonhos (2001) completam sua filmografia prévia. Abre parênteses. A julgar pela tendência tradutória dos recentes dois filmes, o próximo filme de Lynch será “'Alguma coisa' dos sonhos”: Mulholland Drive virou Cidade dos sonhos e Inland Empire virou Império dos sonhos. Fecha parênteses.
E tudo isso nos leva ao exato minuto em que as luzes se apagam e começa a passar Inland Empire, e Lynch começa a fazer uma queda de braço com a paciência do espectador comum. Por espectador comum, leia-se o neófito em assuntos lynchnianos. A queda de braço é a seguinte: quando você vai cansar e abandonar a sala? Quando vai ter sangue na veia o suficiente e simplesmente jogar a toalha? E é assim do princípio ao fim de Inland Empire. Mesmo para quem já conhece as piras de Lynch, em alguns momentos passa isso na cabeça. E foram várias pessoas que abandonaram a sessão. Pelo sitcom com homens-coelhinhos? Pelas demências de uma mulher traída? Pelas confusões de uma atriz decadente? Pela ausência de um fio condutor? Pela ausência de um fio? Pela ausência de um condutor? Pelo formato digital sem charme? Pela fotografia escura? Pela falta de noção? Pela falta de nós? Pela falta de ação? Não sei... sei não... O fato é que muitos desertaram, e me chamou a atenção uma hora que na tela aparece na legenda algo como “o que é que eu estou fazendo aqui” e, ato contínuo, vários espectadores aproveitaram a deixa e se arrancaram para respirar ar puro.
Ah sim, e o filme? Sim, Inland Empire (2006) é sufocante; uma experiência introspectiva, intimista e claustrofóbica. Um filme que exige muito a atenção do espectador, pois não há história linear para acompanhar; um filme que provoca muita tensão no espectador, a tensão de tentar entender, de amarrar os fios soltos e de formar um todo coerente. Sim, pois, conforme Charolles, por mais que nos defrontemos com algum texto aparentemente absurdo, todo texto é coerente, ou seja: tentamos vislumbrar um contexto ou uma situação em que aquele teórico absurdo adquira coerência. Pois bem, eis que o contexto é um filme de David Lynch. O elenco inclui Laura Dern e Justin Theroux, ambos com papéis duplos, mais Jeremy Irons, como o diretor de cinema.
Como o que me faz lembrar de Lynch são cenas, a cena que mais me tocou  

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER
PLEASE DON'T READ IT IF YOU ARE A SPOILER-SENSITIVE PERSON 

foi aquela em que Laura Dern, ferida de morte, desaba na calçada da fama, no meio de duas mulheres, uma afro-americana e uma oriental, que avisam Laura placidamente que ela está morrendo e, a despeito disso, entabulam uma conversação envolvente sobre variados tópicos, não sem de vez em quando dedicar um pouco de cuidado à moribunda que vomita sangue e estrebucha no meio delas. A afro-americana inclusive fala palavras de conforto e acende a luz bruxuleante do isqueiro na frente da que está morrendo pouco antes de ela expirar. É a típica situação lynchniana, surreal e ao mesmo tempo desconcertante, por isso bonita. Essa cena se passa bem ao fim do filme, portanto, depois que os desistentes se foram. No jogo de paciência com o espectador, o mais fiel e mais resistente é recompensado com a cena mais surpreendente e refrescante do ano.
Não recomendo este filme para ninguém, nem tampouco quero defendê-lo, ou sugerir que quem abandonou o cinema não tinha motivos para isso. A graça do cinema de Lynch é justamente essa: cada um tire suas próprias conclusões. Se você foi ver este filme e odiou, isso não faz de você uma pessoa menos intelectual que a trintona gordinha e faceira e o filho magrinho e sisudo, que permaneceram até o fim dos créditos. E que créditos!
Aproveito o ensejo para dedicar aos leitores deste blog um 2008 tão cheio de surpresas e tão fora dos padrões lineares quanto Inland Empire.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

No vale das sombras

Paul Haggis, ao roteirizar Million Dollar Baby (2004), ganhou cacife para escrever e realizar Crash (2005). O filme surpreendeu e venceu o Oscar 2006. Agora Haggis reúne em O vale das sombras (In the valley of Elah, 2007) ninguém menos que Tommy Lee Jones, Susan Sarandon e Charlize Theron. De um elenco assim, não se espera menos que atuações estudadas e contidas, e é isso que temos. A cena com o diálogo ao telefone entre Lee Jones e Sarandon, com revelações sobre o paradeiro do filho, pode ser um bom exemplo do nível de competência desses atores. Tommy Lee Jones é Hank Deerfield, pai do soldado Mike (Jonathan Tucker), recém chegado da Guerra do Iraque. O filho não se comunica com a família e desaparece. Hank se despede da mulher Joan (Sarandon) e guia durante um dia inteiro até chegar à base militar em que o filho deveria estar. Uma cena emblemática para definir a personagem de Hank se passa nessa viagem. Num prédio à beira da estrada, ele nota a bandeira americana hasteada de cabeça para baixo. Um minuto depois, está ensinando a pessoa que havia hasteado a bandeira ao contrário – um estrangeiro – e explicando que hastear uma bandeira invertida significa que há algo errado com o país e que a nação precisa de ajuda. Com a bandeira hasteada do modo certo, segue viagem. Ao chegar na base, ninguém sabe dizer nada sobre onde está seu filho. Ele pede ajuda à investigadora Emily Sanders (Charlize Theron), que a princípio nega porque o caso envolve pessoal do exército.
O roteiro é cheio de detalhes bons, como o contato de Hank com um expert em mídia, que vai restaurando e enviando por e-mail os arquivos contidos no celular do filho Mike. Assim, o pai pode acompanhar um pouco da assustadora rotina do filho no Iraque. Cena digna de menção – e que dá título ao filme – é a em que Hank, após jantar na casa da investigadora, vai contar uma história para o filho dela. A história contada é a de Davi e Golias, passada no vale de Elah. É uma cena terna e bonita.
Em suma, um consagrado diretor, um elenco fenomenal, uma premissa interessante e um corpo esquartejado e queimado à beira de uma rodovia deveriam resultar sempre num ótimo filme. Mas não é o caso de O vale das sombras.
Há dois problemas que desvalorizam a película. O primeiro tem a ver com a incerteza de “gênero”. A partir de uma altura, o filme se transforma num ‘whodunnit’ meio capenga, e o norte do filme se perde. O mistério se desenvolve de um modo meio forçado e se precipita numa conclusão mal forjada. Mas o pior não é isso.
A qualidade de O vale das sombras é posta em xeque no momento em que se percebe que é um filme realizado nos mínimos detalhes para provar uma tese. Desde o começo, os truques de um roteirista experiente e talentoso são usados para conduzir o pensamento do espectador para um ponto de vista, que é o do próprio autor. Não há contraponto, não há margem para interpretações. Esse é o tipo de cinema mais odiável e raso, o cinema de manipulação, o cinema de Michael Moore. Não fosse tão maniqueísta, O vale das sombras poderia ser um ótimo filme.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Diretores e compositores

Parcerias duradouras entre imagem e música eternizaram muitos filmes. Alma gêmea do diretor, o compositor capta toda a carga emotiva da imagem e a traduz em som incidental, em ritmo insistente, em divina melodia.

As psicoses, o instinto assassino e as neuroses do cérebro humano. A curiosidade, o suspense, a vontade de ficar sabendo. O medo, o arrepio, o susto pulando da tela. A aventura, a espionagem, toda enrascada em que alguém pode se meter. Os cenários, os trens, as estátuas, todas perseguições pelas encruzilhadas do mundo. O toque refinado, o humor negro e sutil. Todas facadas, todos tiros, todos crimes. Tudo está em Hitchcock e Hermann.

Os intermináveis segundos antes do duelo. O forasteiro que vem ajudar os oprimidos. O cenário desértico, a barba por fazer, a rapidez no gatilho. Um pistoleiro de aluguel com escrúpulos. Um spaghetti cujo molho é o sangue de malfeitores. Os faroestes clássicos de Leone e Morricone.

As perversões da alma desnudas. Um mergulho ao subconsciente, às entranhas das dúvidas e das aspirações mais íntimas do ego. Personagens patéticos e dementes contracenam com gente normal e comum. Situações nonsense ou simples cenas de amor. O sadomasoquismo, a rebeldia, a loucura. As imagens nervosas de Lynch embaladas ao som celestial de Badalamenti.

O rompimento, a crítica, o homem em face a uma situação extrema. Um visionário numa ilha. Um repórter numa revolução. Um menino testemunha um crime. Um estudante sobe na mesa para homenagear o professor. A simbiose de "Oh, captains, my captains" Peter Weir e Maurice Jarre.

A obsessão, a luxúria, a arquitetura. O canibalismo, a tatuagem, a plasticidade. Uma profundeza irreal, uma falsa superficialidade. Um Shakespeare, um artesão de parque. Um menino cantando com voz de anjo. A viagem onírica de Greenaway e Nyman.

O sofrimento de criaturas inacabadas. A agonia de pessoas alijadas. Lendas e heróis, contos e vilões, estórias de fantasmas e seres imaginários. Cabelos que nos tapam os olhos, uma tesoura que nos faz ver. A fantasia mágica de Burton e Elfman.

Uma escada espiral descendo para o subterrâneo do coração. Um lugar onde o sol não pega, onde o inverno sempre impera. Quatro personagens com sonhos de paz e felicidade. Quatro caminhos que se separam e levam a um só fim: a degradação, a dependência, o escapismo, o vício. Futuros promissores que se despedaçam. Vidas aniquiladas, sonhos amputados. A catarse de Aronofsky e Mansell.

O cinema não seria o mesmo sem esses casamentos perfeitos.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited (Viagem a Darjeeling, 2007) é o novo filme de Wes Anderson. Ter o próprio trabalho supervalorizado pode afetar o cérebro com facilidade; no caso de Anderson isso não acontece. Continua fazendo filmes como sempre fez: um tanto insossos, um tanto engraçados, um tanto prosaicos, um tanto geniais, um tanto pretensiosos, um tanto humildes. Conseguir reunir essas características por si só é fato digno de menção. Um espectador terá classificado de insossa a escolha de Anderson pelos atores de sempre para fazer mais um rail-road-movie na história do cinema; outro rebaterá que de insosso o filme não tem nada, muito antes pelo contrário: é divertido e além disso, road movies são fontes inesgotáveis. Alguém por exemplo terá achado pretensão o fato de um diretor ter inventado um 'curta-metragem' dirigido por ele próprio para abrir seu próprio filme, numa espécie de onanismo cinematográfico; outros terão achado prova de humildade a realização de um filme sem objetivo algum. Alguns terão achado prosaicas as situações criadas para demonstrar virtuosismo na mesa de edição, enquanto outro terá considerado genialidade a simulação de um curta que é na verdade um prólogo e uma jogada narrativa. Todos os raciocínios são defensáveis, e eu mesmo oscilo entre assumir um ou outro.
Sem dúvida, Viagem a Darjeeling não é um filme que aborrece. Natalie Portman nua em pelo em Paris, uma sensual indiana dizendo 'Não goza dentro' a um americano no banheiro do trem (cena que bem poderia ter como trilha sonora 'Meet me in the bathroom' dos Strokes), um resgate na correnteza e um encontro de três irmãos amalucados: isso pode ser tudo menos aborrecido.

Um ano após o falecimento do pai, Francis (Owen Wilson) convoca os dois manos Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Schwartzman) para uma jornada em busca da mãe (Angelica Huston) que abandonou tudo e virou missionária nos confins do subcontinente indiano. Lá, conhecem personagens locais como Rita (Amara Karan), a funcionária do trem, e o pai de três meninos de uma remota vila (Irrfan Khan). O contato com pessoas e culturas novas enriquece o espírito dos três norte-americanos, cuja bagagem consiste em pomposas malas herdadas do pai (de fabricação Louis Vitton, conforme os créditos fazem questão de frisar). Numa cena de flashback, o cineasta Barbet Schroeder faz uma ponta como o dono de uma oficina mecânica.

terça-feira, novembro 13, 2007

Planeta Terror



                                                                        
O texano Robert Rodriguez anunciou, em outubro de 2007, o fim do casamento de dezesseis anos com a produtora de cinema Elizabeth Avellan, com quem teve a filha Rhiannon e os filhos Racer, Rebel, Rocket e Rogue. A razão? Rose McGowan, a atriz que interpreta Cherry, a moça-metralhadora de Planeta Terror (Planet Terror, 2007). O longa de 93 minutos é, na verdade, parte do projeto Grindhouse, que inclui, além da película de Rodriguez, Death Proof, de Quentin Tarantino. O "programa duplo" imita as matinés da década de 70, em que os cinemas passavam vários filmes encordoados pelo preço de um. O público americano, porém, não entendeu muito bem a 'proposta', e muitos espectadores abandonaram a sessão ao término do primeiro filme. Isso fez com que a distribuição em outros países fosse feita separadamente.
A experiência de ver Planeta Terror inicia com a vinheta antes do trailer, com a classificação etária; a seguir, o aperitivo perfeito: o trailer de um filme que talvez muito provavelmente nunca será realizado, Machete, estrelando Danny Trejo, de Um drink no inferno. Então começa o 12º longa de Robert Rodriguez (desde que serviu de cobaia num teste de medicamentos contra colesterol para levantar dinheiro e filmar em 14 dias El mariachi - que em 1992 lhe deu prêmios nos festivais de Sundance e de Berlim -, o texano realizou, sucessivamente, Grande hotel, A balada do pistoleiro, Um drink no inferno, Prova final, Pequenos espiões, Pequenos espiões 2, Pequenos espiões 3, Era uma vez no México, Sin City e As aventuras de Sharkboy e Lavagirl). Nos créditos de abertura, nova brincadeira: em vez de 'Written and directed by...', aparece na tela 'Directed and written by...'. Essa inversão pode parecer desimportante, como tudo aliás nesse filme parece; porém diz muito sobre o clima de brincadeira que prevalece na película. Diga-se de passagem, para degustar uma experiência como Planeta Terror não apenas são requeridas do cidadão ou cidadã boa-vontade em 'entender o espírito da coisa' e boa dose de tolerância à morbidez e à falta de noção; é necessária, também, uma inabalável queda por cenas de gosto e de humor duvidosos. Esses são os pré-requisitos mínimos para usufruir das cenas grotescas e estapafúrdias de Planeta Terror.
A forasteira Tammy (Stacey Ferguson) chega na cidade; o carro dela estraga e a loiraça vai à rodovia escura pegar carona. A anestesista Dakota (Marley Shelton) e o marido, o médico psicopata Dr. Block (Josh Brolin), preparam-se para o que aparenta ser apenas mais uma noite
de plantão no hospital. 









 
                                                                                           O casal sai, não sem antes a loirinha agir de modo suspeito ao telefone, e não sem antes duas babás gêmeas - não menos psicopatas - chegarem para cuidar de Tony (Rebel Rodriguez). Cherry (Rose McGowan) é repreendida pelo patrão porque chora ao dançar; ela manda o patrão àquele lugar e sai na noite fria. J.T. (o sumido Jeff Fahey) é o dono do Bar B Q, e um obcecado por encontrar a receita do churrasco perfeito. Seu irmão, o xerife Hague (o sumido Michael Biehn), é o responsável por manter a tranquilidade da cidade; uma de suas preocupações é o encrenqueiro Wray (Freddy Rodriguez), ex-namorado de Cherry. A vida dessas personagens será afetada pelas patéticas ocorrências em uma base militar situada perto do local. Entre as peripatéticas participações especiais, Bruce Willis como o chefe dos infectados, Quentin Tarantino como o estuprador e Tom Savini (que fazia os efeitos especiais nos filmes de George Romero e em 1990 assinou a refilmagem de A noite dos mortos vivos) como Tolo, um dos ajudantes do xerife. Ame, odeie ou escreva uma resenha.

quarta-feira, outubro 31, 2007

People - Histórias de Nova York

A estrela em ascensão Maggie Gyllenhaal em Mais estranho que a ficção interpretou a simpática dona de uma confeitaria fiscalizada pela receita federal; neste filme de Danny Leiner, Maggie continua no ramo das guloseimas: é a sisuda Emme, proprietária e "designer" da empresa The Great New Wonderful (o título original do filme), cujo nicho de mercado é projetar e executar a confecção de tortas estilizadas, de vários andares, para fregueses burgueses dispostos a investir uma grana considerável no bolo da festa. Emme comanda a equipe que visita clientes em potencial e mostra o incrível portfólio de bolos exóticos. Em vez de desenvolver as personagens dessa história, Danny Leiner opta por, aparentemente, diluir a "unidade temática" e acompanhar a rotina de outras pessoas, cujo único ponto em comum, aparentemente, é viverem na mesma cidade - Nova York. O filme se passa em setembro de 2002, e o clima na cidade é de reconstrução pelo aniversário dos atentados 11 de setembro. O metódico psicólogo Dr. Trabulous (Tony Shalhoub) tenta fazer vir à tona a raiva contida de um cliente aparentemente bem, mas no fundo perturbado por ter presenciado uma tragédia. Um casal tem problemas com o filho obeso, mimado e violento. Os seguranças Avi e Satish atuam como frilas na salvaguarda de insignificantes chefes de estado que visitam a cidade; entre um trabalho e outro, avaliam suas vidas e conquistas. A grande atriz Olympia Dukakis (Feitiço da lua) interpreta Judy Berman, senhora que não dialoga com o marido e reencontra um amigo de infância. Cinco crônicas de uma cidade que se recupera do choque e reconstrói sua auto-estima, cujas personagens vão se encontrar num momento prosaico. Cabe ao espectador costurar as - aparentemente - desconectadas histórias e descobrir sua "unidade temática".

terça-feira, outubro 16, 2007

Tropa de elite

Formado em administração de empresas, José Padilha, 40, tem, além de percepção estética, faro comercial. Sabe escolher os temas que vai abordar e, ao juntar R$10 milhões para fazer Tropa de elite, calculava obter bom retorno na bilheteria, com 2,5 milhões de espectadores. Não contava, entretanto, que cópias do filme vazassem devido à ação inescrupulosa dos técnicos de legendagem, o que provocou uma avalanche de pirataria sem precedentes. Estima-se que mais de 3 milhões de brasileiros tenham assistido ao filme antes da estréia nos cinemas. Mas a celeuma da pirataria e o 'boca-a-boca' das pessoas que viram as cópias clandestinas não parecem ter prejudicado o potencial de desempenho nos cinemas: no primeiro fim-de-semana o filme já alcançou 700 mil espectadores.
Padilha iniciou sua carreira no mundo cinematográfico na produção de documentários, como Os carvoeiros (1999, com direção do britânico Nigel Noble) e Estamira (2004). Estreiou na direção com Ônibus 174 (2002), contando a história de Sandro Nascimento, autor do seqüestro que paralisou o Brasil em junho de 2000. Tropa de elite (2007) é seu primeiro filme de ficção.
Baseado no livro Elite de tropa, em que o antropólogo Luiz Eduardo Soares, inspirado em narrativas dos policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, cria uma rede de episódios que revelam aspectos do comando, do treinamento e da atuação do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), Tropa de elite mantém a preocupação social de Padilha; agora, porém, o ponto de vista é o da polícia.
Não à toa que o atribulado Capitão Nascimento (Wagner Moura) tem esse nome. Nascimento - mesmo sobrenome do seqüestrador do ônibus 174 - é o fato que motiva o capitão a ouvir as súplicas da mulher, que está esperando um filho, e a pedir o afastamento do front do BOPE. Para isso, Nascimento precisa encontrar um substituto à altura de seu sangue frio e sua perícia operacional.
Aí que entram na história os "aspiras" André Matias (André Ramiro) e Neto (Caio Junqueira), dois amigos de infância que entraram na polícia repletos de ideais e boas intenções. Aos poucos, começam a ver como tudo funciona, mas não se rendem ao "sistema": permanecem honestos e dispostos a combater a corrupção. Os dois acabam selecionados para fazer o curso que permite a entrada no BOPE e, enquanto são avaliados pelo Capitão Nascimento, passam por experiências que causam mudanças de comportamento.
Talvez a mudança mais chocante ocorra com o aspirante André Matias, o bom moço estudante de Direito, que, para conviver no meio universitário de modo anônimo, faz vistas grossas quanto ao consumo de maconha pelos colegas. Boas cenas de violência e ação não faltam à Tropa de elite, mas uma das grandes cenas do filme se passa na sala da faculdade, em que André participa - inicialmente, calado - de um debate em que os policiais são tratados como corruptos. Outro complicador é a paixão de André por Maria (Fernanda Machado), que trabalha numa ONG encravada numa favela dominada por traficantes.
Na verdade, em Tropa de elite, as personagens têm importância secundária. O que vale é a "verdade por trás da ficção", ou seja, o quanto os episódios contados no filme retratam aspectos da realidade do meio policial. É a revelação dessa realidade espantosa que faz os espectadores terem a necessidade de falar e meditar sobre o filme.

domingo, setembro 23, 2007

Ligeiramente grávidos

O filme de estréia do roteirista e diretor Judd Apatow, O virgem de quarenta anos, rendeu 110 milhões de dólares e boas críticas, além de lançar ao estrelato Steve Carell. Nascido em 1967, Apatow obtém no segundo filme resultados não menos surpreendentes: 150 milhões de dólares, novamente com um elenco sem figurões. Os motivos do sucesso? Os mesmos que os do primeiro filme: uma premissa interessante, um roteiro simples, um elenco engajado e algumas cenas diferenciadas. E o que distingue um bom filme de um filme mediano, senão algumas cenas diferenciadas?
Knocked up (Ligeiramente grávidos, 2007) é a crônica de um romance casual que, por um detalhe logístico, transforma-se em assunto sério. Alison Scott (Katherine Heigl) trabalha na TV e, na semana em que recebe uma promoção, sai para dançar com a irmã Debbie. As duas bonitas loiras furam a fila de uma casa noturna, graças ao olhar clínico e ao crivo do porteiro. Lá dentro, dançam e recebem assédio de uns rapazes. Debbie tem que sair pois o marido ligou e a filha está com catapora. Alison fica, então, à mercê do recém-conhecido Ben Stone (Seth Rogen), um never-do-well cuja principal atividade é a criação de um site na Internet sobre nudez em filmes que nunca entra em funcionamento. Mas ele é atencioso, simpático e Alison está a fim de comemorar. Quando, depois de muitas cervejas, Ben recebe um convite para ir à casa de Alison, mal consegue acreditar em sua sorte. Alison só lembra do fato de novo dois meses depois, quando passa a sentir enjôos. O teste de gravidez dá positivo e ela manda um e-mail a Ben.
Entre as cenas diferenciadas, está a que Alison, grávida de sete meses, e a irmã Debbie tentam entrar no mesmo estabelecimento do começo do filme. O diálogo entre Debbie e o porteiro é dessas pérolas que tornam bom um filme que seria mediano. A propósito: como foi dito, Ligeiramente grávidos funciona, entre outros motivos, devido ao elenco sem estrelas, porém engajado. E há maior engajamento que o trabalho em família? Leslie Mann, a atriz que interpreta Debbie, é a mulher do diretor Judd Apatow. E as duas meninas da película são as filhas Iris e Maude Apatow. Raridade em cartaz: comédia norte-americana não apelativa e com sinais de inteligência.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Hairspray


Antes de falar sobre Hairspray (2007), umas palavras sobre o autor do 'source material': John Waters. Diretor fora do mainstream, na década de 70 especializou-se em filmes escatológicos estrelados pela travesti Divine, como o célebre Pink Flamingos (1972). Suas películas mais recentes são Cry Baby (1990), com Johnny Depp, Serial Mom (Mamãe é de morte, com Kathlen Turner, 1994) e A Dirty Shame (2004). O Hairspray original é de 1988, com Divine fazendo o papel de Edna Turnblad. Na nova versão, dirigida por Adam Shankman, Edna é interpretada por John Travolta.
Para Tracy Turnblad (Nicole Blonsky), o amanhecer é motivo de alegria em Baltimore. Sua vida é freqüentar o colégio e assistir ao "Corny Collins Show", em que vários dançarinos se apresentam. O sonho de Tracy é um dia participar do programa. O único problema é que... bem, o único problema é que Tracy é filha de Edna, e herdou da mãe, senão a altura, a sua, vamos dizer... fofura. Mas Tracy não é uma fofinha 'recalcada', muito antes pelo contrário: adora dançar e não tem vergonha de suas formas convexas. Quando uma dançarina do Collins Show precisa ser substituída devido à gravidez, abre uma vaga e Tracy tenta a sua sorte, junto com a amiga Penny Pingleton (Amanda Bynes). John Travolta e Christopher Walken estão hilários como Edna e Wilbur Turnblad, os pais de Tracy. O elenco de apoio é forte: Queen Latifah (a líder comunitária Motormouth Maybelle, que defende a integração racial), Michelle Pfeiffer (a produtora maquiavélica Velma von Tussle) e James Marsden (o engomado apresentador Corny Collins). Por sua vez, a estreante Nicole Blonsky não decepciona no papel de Tracy. Boa diversão, respeitando a tradição dos musicais norte-americanos.

A última cartada


O diretor Joe Carnahan tem no currículo Blood, Guts, Bullets and Octane (1999) e Narc (2002). Tido como (mais um?) seguidor de Guy Ritchie e Quentin Tarantino, seu novo filme é Smokin' Aces (A última cartada, 2007).
O enredo envolve um homem com coração a prêmio - o sem personalidade Buddy Aces Israel (Jeremy Piven) - e a peregrinação de policiais e matadores de aluguel até o hotel de luxo, situado em Lake Tahoe, na divisa da Califórnia com Nevada, onde o imbecilizado alvo passa os dias cheirando cocaína e transando com prostitutas. O roteiro imita filmes de outras décadas e apresenta um por um todos os candidatos (entre eles, os alucinados irmãos Tremor) a obter a recompensa de 1 milhão de dólares, que, segundo corre o boato, será paga pelo mafioso Primo Sperazza (Joseph Ruskin) a quem matar Aces - e extirpar seu coração. Paralelamente, o FBI monta uma parafernália para proteger Aces. Andy Garcia e Ray Liotta são policiais, enquanto Ben Affleck e Alicia Keys (na foto), caçadores de recompensas.
O melhor que o filme tem a oferecer, além da carnificina inevitável, é o diálogo cínico entre dois matadores no estacionamento. Não recomendado para mulheres grávidas e outras pessoas sensíveis.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Paranoia

Em Janela Indiscreta (Rear window, 1954), de Alfred Hitchcock, o fotógrafo interpretado por James Stewart tem a perna quebrada e precisa ficar de molho em seu apartamento, sob os cuidados de ninguém menos que Grace Kelly. Sem alternativas melhores para passar o tempo, entrega-se ao voyeurismo e, pela janela dos fundos, passa a esquadrinhar o prédio vizinho e fica intrigado com o comportamento estranho de um de seus moradores.
Essa ideia do voyeur que presencia - ou pensa que presencia - um crime no imóvel próximo foi reciclada em Dublê de corpo, de Brian De Palma, e agora é aproveitada em Paranoia (Disturbia, 2007).
O jovem Kale (Shia LeBeouf), após uma pescaria tranqüila com o pai, guia a pickup no caminho de volta para casa. O que acontece nesse dia deixa-o traumatizado e, por conta desses distúrbios emocionais, um ano depois, agride o professor de espanhol e é condenado à prisão domiciliar. Um sensor é colocado no tornozelo do jovem de 17 anos, limitando sua movimentação num raio de 30 metros a partir do seu quarto. Esse é ponto de partida para que o perturbado Kale começasse a usar seu tempo de modo destrutivo, ignorando as súplicas de sua mãe Julie (Carrie-Anne Matrix Moss). Inevitável nesse processo que Kale ficasse conhecendo a rotina de todos os vizinhos. Diferente do fotógrafo de Janela indiscreta, cujo campo de visão limitava-se a uma janela apenas, Kale tem várias à disposição, inclusive a que dá para a piscina de Ashley (Sarah Roemer), recém-chegada no bairro. Ao mesmo tempo em que mergulha na obsessão pela nova vizinha, Kale, com a ajuda do amigo Ronnie (Aaron Yoo), passa a investigar com bastante desconfiança os passos do misterioso Mr. Turner (David Morse).
Na atual carência de bons filmes de suspense, Paranoia não chega a ser uma decepção completa. Assina a direção D. J. Caruso (de A sombra de um homem, 2002 e Roubando Vidas, 2005), com história de Christopher Landon.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Dolores O'Riordan em Porto Alegre


Na noite de 26 de agosto, um domingo um tanto frio, o público alternativo de Porto Alegre estava reunido no Teatro do Bourbon Country, esperando subir ao palco a pequenina Dolores O'Riordan, ninguém menos que a vocalista dos Cranberries, a banda pop irlandesa que lançou 5 álbuns e empilhou hits ao longo dos anos 90 até 2002, quando interrompeu (até nova ordem) a carreira ao lançar uma coletânea. Casada com Don Burton (que foi empresário do Duran Duran), com quem tem três filhos, Taylor, Molly e a caçula Dakota Rain, a irrequieta Dolores não ficou parada: lançou em maio de 2007 seu primeiro disco solo, Are you listening? O show de Porto Alegre foi uma mistura bem dosada de hits do Cranberries (entre eles Zombie, Ode to my family, Dreams, Salvation e Linger) com as canções novas (como Ordinary day, Accept things, Black widow, October, Stay with me e When we were young).

O show teve duas partes bem distintas. Na primeira, com calça e jaqueta pretas, Dolores parecia a antítese de uma rock star, meio na dela; com sua voz poderosa, enfatizou canções introspectivas, como a emotiva Stay with me, dedicada a seu pai. Então a bela irlandesa saiu do palco, e a afiada banda continuou tocando por alguns minutos uma música bem experimental. Na próxima Dolores voltou de braços à mostra, gesticulando mais: o show ficou mais rock na veia; mas não há rock sem baladas, e bonitas baladas foram a especialidade dos Cranberries.
A boa notícia para os fãs é que as canções de Are you listening? não perdem para as antigas. Salvation is free!

Dedico a tradução a seguir para a aniversariante Andrea e ao lindo menino que gostou do show (e vai nascer em outubro).

Ordinary Day Dolores O'Riordan

This is just an ordinary day / Este é só um dia como outro qualquer
Wipe the insecurities away / Deixe as inseguranças pra lá
I can see that the darkness will erode / Posso ver: a escuridão vai desaparecer
Looking out the corner of my eye / Espiando com o canto do olhar
I can see that the sunshine will explode/ Posso ver: vai explodir a luz solar
Far across the desert in the sky / Longe através do deserto no céu

Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Won't you be my inspiration? / Não quer ser minha inspiração?
Beautiful girl / Linda (o) menina (o)
Don't you throw your love around / Não desperdice teu amor
What in the world, what in the world / O que neste mundo
Could ever come between us? / Pode ficar entre nós?
Beautiful girl, beautiful girl / Linda (o) menina (o)
I'll never let you down / Nunca vou te decepcionar
Won't let you down /Não vou te decepcionar

This is the beginning of your day / Teu dia apenas começa
Life is more intricate than it seems / A vida é mais intricada do que aparenta
Always be yourself along the way / Sempre seja você pelos caminhos
Living through the spirit of your dreams / E viva a essência de teus sonhos.

Foto: Trent Fernandes.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Sem reservas

A Sra. Michael Douglas interpreta Kate, a exigente e meticulosa chef de um restaurante movimentado. Quando sua irmã, que tem uma filha pequena, morre num acidente, Kate precisa assumir a tutela da menina. Acontece que a geniosa Zoe (vivida pela pequena estrela em ascensão Abigail Little Miss Sunshine Breslin) era muito ligada à mãe e não aceita a nova situação de ter que morar com a tia, insatisfação também demonstrada pela recusa em comer os pratos sofisticados preparados por ela. In the meantime, a ajudante da chef, que estava grávida, entra em licença maternidade e Nick (Aaron Eckart), um chef especializado em comida italiana, é contratado. Comédia inofensiva do diretor australiano Scott Hicks (Shine, 1996), versão pasteurizada da película alemã Simplesmente Martha, feita sob medida para Catherine Zeta-Jones.

Duro de matar 4 - Live free or die hard

Bruce Willis alcançou a fama primeiro na TV, no seriado A gata e o rato (Moonlighting), sobre a atrapalhada agência de detetives Blue Moon, em que contracenava com Cybill Shepherd. O seriado misto de aventura e comédia (que, por sinal, teve as primeiras temporadas lançadas em DVD no Brasil, na versão dublada, e sem opção de legendas) durou de 1985-89 e rendeu a Willis (que na época ainda tinha cabelo) um Globo de Ouro. O sucesso na série levou-o a estrelar Die Hard (1988), cujo protagonista, o teimoso policial John McClane, igualmente caiu nas graças do público - tanto que alcança sua terceira seqüência, e com fôlego.

Agente desertor da CIA resolve tumultuar a vida do povo norte-americano em pleno 4 de julho; para isso, utiliza-se do trabalho ilícito de uma rede de hackers para invadir sistemas e colocar em pane todos os serviços de infra-estrutura do país. Para salvar o mundo digital, um policial do mundo analógico: John McClane é escalado para localizar Matt Farrell (Justin Long), um dos hackers, que passa a ser perseguido pelos bandidos, que querem eliminar todas pessoas capazes de em tese reverter a polvorosa em andamento.
Um dos lances legais do roteiro é justamente esse: não há ameaça 'externa', desta vez, o mal vem das próprias entranhas do tio Sam. Há também boas tiradas quanto à questão da evolução científica. Enfim, o roteiro pouco importa: John McClane está de volta, em grande estilo. A propósito, o diretor não podia ser melhor: Len Wiseman, que tem no currículo nada menos que dois clássicos do pseudo-terror dark moderno: Anjos da Noite e Anjos da Noite - A Evolução, este último, comentado aqui em abril de 2006 (ver arquivo).

A vida secreta das palavras

A deficiente auditiva Hanna (Sarah Polley) é aconselhada pelo chefe da indústria a tirar férias. Nada a ver com a qualidade do seu trabalho: ela nunca falta e é super eficiente. Quanto à audição, o aparelho que usa a permite escutar. O verdadeiro problema é que Hanna nunca tirou férias e o sindicato pode reclamar.
Assim, a introvertida Hanna entra em férias um pouco a contragosto. Vai para a Irlanda do Norte, onde, num bar, escuta a conversa de um cara sentado à mesa ao lado. Ao que parece, estão procurando uma enfermeira para cuidar de um homem que sofreu queimaduras numa plataforma de petróleo instalado no Mar da Irlanda. Hanna, talvez por não conseguir ficar sem trabalhar, ou talvez por ser altruísta, ou ambas as alternativas, prontamente se oferece à missão. Essa personagem impulsiva e enigmática é o centro do filme da espanhola Isabel Coixet, uma produção de Pedro Almodóvar.


Na distante plataforma, Hanna chega de helicóptero, passa a cuidar de Josef (Tim Robbins) e a conhecer os poucos habitantes do local, que está com o mínimo de pessoal, depois do acidente que provocou uma morte: o cozinheiro, o faxineiro, o coordenador, um pesquisador e poucos funcionários. Mas o filme é mesmo sobre Hanna e Josef, o modo com que os dois vão se conhecendo, ele muito curioso sobre ela (devido aos ferimentos, está temporariamente privado da visão), ela muito reticente em dar qualquer espécie de informação sobre si. À medida que o tempo passa, a confiança entre os dois aumenta, culminando com revelações pungentes sobre o passado de ambos, que ajudam a entender o modo de ser e agir de cada um. Neste ápice bem nítido - uma seqüência na qual toda a verossimilhança da obra poderia ser colocada em risco - Polley e Robbins não decepcionam e, sob a mão segura de Coixet, entregam uma cena intensa, que contribui para compreender A vida secreta das palavras.

terça-feira, julho 31, 2007

Colhendo morangos silvestres


Descobrir o cinema de Ingmar Bergman é educar os sentidos para uma experiência nova e edificante, é abrir os olhos para um cinema onde a recriação da vida se cristaliza, os personagens têm carne e osso, epiderme e coração, alma e substância, fraquezas e qualidades.
Colocar um filme de Bergman no prato do DVD é uma decisão corajosa. Nos próximos aproximadamente 120 minutos vou aprender como se faz cinema sério e sem apelações. Vou tirar um tempo para conhecer até onde a sétima arte pode chegar em termos de qualidade de roteiro, direção, interpretação e simplicidade.
Vou deixar de lado a pipoca e me concentrar em cada frase, cada movimento de câmera, cada nuance de luz; cada circunstância, cada dilema, cada momento dramático e especial.
Vou esquecer que o cinema americano enlatado existe. Vou mandar ao diabo as explosões, os tiroteios sem nexo, as caricaturas, as piadas forçadas, as perseguições. Vou desopilar meus neurônios, vou rejuvenescer meus axônios, vou abrir a cachola e deixar o cérebro arejar, pegar um sol, se livrar dos ácaros e do mofo.
Vou aprender a ser cinéfilo de verdade.
Assisti a Morangos Silvestres ontem.
Morangos, quem não colou em botânica deve lembrar, são frutos compostos, ou seja, cada polpa saborosa e perfumada tem inúmeros e minúsculos frutos incrustados em sua volta. Da mesma forma, cada personagem de Bergman é multifacetado, é tridimensional, não cabe em análises lineares e superficiais.
A empregada do professor Borg, por exemplo. É uma personagem tão real, é um papel tão verídico que nem pode ser chamado de coadjuvante. Pois sem sua fiel escudeira, o professor Borg não conseguiria chegar a lugar nenhum.
Muito menos, arrumar a mala para uma viagem à cidade onde lecionou, onde será homenageado com um título honorífico. O espectador fica ciente da auto-ironia do professor Borg (Victor Sjolstrom) quando este diz de si para si merecer, na verdade, o título de idiota honorífico.
"Morangos Silvestres" (1957) conta este dia da vida do Prof. Borg, não um dia comum: o dia em que ele viaja para receber o tal título. De cara, já muda os planos. Em vez de avião, decide ir de carro, para a surpresa da empregada.
E, como Bergman costuma fazer, surpreende o espectador ao introduzir personagens inesperados. Quem imaginaria que na casa do professor rabugento e sua empregada, estaria hospedada a nora Marianne (Ingrid Thulin, o suprassumo da perfeição sueca), que na última hora pede para ir junto?
Enquanto é tempo: não pense o leitor que "Morangos Silvestres" é um "filme-cabeça", um daqueles filmes chatos e arrastados, inócuos e intelectuais. "Morangos Silvestres" é antes de tudo isso: um road movie.
Se eu entendesse de carros poderia dizer que carro é o do Prof. Borg, mas ficamos assim: é um enorme carro preto, que, como os fatos irão demonstrar, é capaz de transportar até sete pessoas com facilidade.
Durante a viagem, Borg pára em um local conhecido e revisita o canteiro de morangos silvestres. O cheiro dos frutos revive memórias de sua juventude. E o filme vai contando um pouco da vida passada do professor, ao mesmo tempo em que são inseridos novos personagens, que parecem vir do passado, na forma de Sara, uma loirinha sapeca que pede carona ao professor.
Entre os novos passageiros surgem o noivo de Sara, e outro rapaz, também apaixonado por ela. O noivo quer ser pastor, toca violão e acredita em Deus. O acólito é um agnóstico; para ele, o homem moderno deve acreditar em si e na morte biológica. Com essa dualidade em forma de gente, Bergman vai acrescentando elementos que ajudam o professor Borg neste balanço de sua vida.
A viagem de Borg irá incluir um bizarro acidente; uma visita à sua mãe, mulher idosa, porém ativa; uma parada no posto de gasolina cujo dono é Max von Sidow; uma conversa franca com a nora; onde esta vai revelar detalhes do relacionamento conturbado com o filho de Borg, e inúmeros fragmentos de sonhos que perseguem o professor.
O cinema de Bergman é o típico cinema de autor, com personalidade e estilo marcantes. Um cinema que influenciou muitos dos melhores cineastas das gerações seguintes. Influência não só no cinema. Clarice Lispector, por exemplo, era fissurada em Ingmar Bergman.
Morangos como esses não se encontram nos supermercados e nas hortas. Não têm apelo fácil. Não vêm empacotados e plastificados, rotulados e carimbados. É preciso se aventurar, arriscar, caminhar no campo à sua procura. É preciso aprender o lugar e a época certos para encontrá-los. Sua aparência não será a de morangos adubados, pulverizados e selecionados. São frutos que cresceram livremente, aproveitando a fecundidade natural do solo, frutos de forma e tamanho desuniformes, porém puros.
(Texto escrito em setembro de 2002).

domingo, julho 08, 2007

O hospedeiro

2002. Cientista americano trabalhando em Seul ordena colaborador local a despejar litros de produto químico de alta toxidez no ralo da pia do laboratório. 'Mas esse produto perigoso vai parar no Rio Han,' protesta o cientista sul-coreano. 'Obedeça', diz o ianque.
Com essa rápida cena, Bong Jong-Hoo (diretor de Puhran dah suh uigeh, 2000, microcosmos da sociedade sul-coreana, e Memories of Murder, 2005, baseado em caso verídico, sobre a investigação de uma série de estupros seguidos de assassinato) explica o que vai acontecer quatro anos depois, em 2006, ano em que se desenrola a maior parte da ação de O hospedeiro.
Antes de apresentar ao público a enorme teratologia gerada pela irresponsabilidade de um cérebro mesquinho, Bong mostra seus protagonistas humanos: a família do senhor Park Heui-bong (Byun Hee-bong), dono de um trailer que serve lulas e outros alimentos ao grande povo que usa a beira do Rio Han para lazer.
A família do pacato e justo Park inclui o filho, o meio devagar Gang-du (Song Kang-ho), que lhe ajuda no trailer e cuja maior realização foi lhe dar a neta Hyeon-seo (Ko A-seong), de treze anos de idade, por sua vez, grande admiradora da tia Nam-ju (Bae Doona), orgulho da família e premiada atleta do arco-e-flecha. Pouco mais tarde vai aparecer o terceiro filho de Park, Nam-il (Park Hae-il). Por incrível que pareça, não é na incrível criatura que habita o Rio Han que Bong baseia seu filme de 119 minutos: é nessa bem construída e caracterizada estrutura familiar.
Também para introduzir seus heróis o talentoso roteirista é extremamente econômico; o espectador não precisa esperar muito para começar a ficar com a respiração suspensa, os olhos arregalados e o queixo caído. A ação vertiginosa de O hospedeiro, com pitadas de ironia social e de crítica a governos totalitários, é uma mistura inusitada de nonsense, humor negro, ficção científica, melodrama, terror e terrir, para mencionar alguns dos ingredientes.
O fato de o filme imprimir um ritmo intenso de surpresas (leia-se maneiras surpreendentes de aproveitar velhos clichês) ajuda a explicar o sucesso mundial de crítica e público; e justamente porque o roteiro é 'uma surpresa após a outra' vou me abster de contar detalhes. O que não me impede de tentar explicar melhor o porquê desse monstruoso sucesso: O hospedeiro não é a fantástica história de um aterrorizante e gigantesco anfíbio; é a simples história de uma família que luta para resgatar um bem valioso.

quinta-feira, julho 05, 2007

She's having a baby

O roteirista, produtor e diretor John Hughes conquistou o público norte-americano na década de 80, com seu ciclo 'high school', que incluiu filmes como The breakfast club (Clube dos cinco, 1985, direção, produção e roteiro) e Pretty in pink (A garota de rosa-shocking, 1986, produção e roteiro, com direção de Howard Deutch). Ao longo da carreira, Hughes foi gradativamente abandonando a direção para se concentrar nos roteiros e na produção. Foi assim que alcançou seu maior sucesso comercial: Home alone (Esqueceram de mim, 1990), com Chris Columbus na direção. O filme gerou duas seqüências, e Hughes aproveitou o filão e roteirizou outros sucessos 'família': Beethoven (1992) e Dennis the menace (Dennis, o Pimentinha, 1993). Nas palavras do site Yahoo Movies, John Hughes 'em sua melhor forma, mistura com destreza a comédia e o drama, penetrando a tranqüilidade superficial suburbana para investigar a teimosa qualidade da vida americana moderna'.


Em 1988, Hughes escreveu, produziu e dirigiu "She's having a baby". O filme abre com Jake (Kevin Bacon) conversando com seu melhor amigo Davis (Alec Baldwin) dentro de um carro conversível, à frente de uma igreja. Jake Briggs está em dúvida. Davis coloca lenha na fogueira e tenta convencer Jake a desistir do casamento. Mas Jake é apaixonado por Kristy (Elizabeth McGovern) desde os 16 anos. Apesar do frio na barriga, entra na igreja para consumar o inexorável, o inevitável.

Essa comédia aborda os primeiros anos do casal Briggs, anos de readaptação e confronto com novas realidades. Jake precisa abandonar temporariamente o sonho de se tornar escritor: consegue um emprego de redator numa agência de publicidade. Quatro anos depois, começam as pressões dos pais por netos.

Comédia leve, sem apelações, com Gene Loves Jezebel, Bryan Ferry, Love and Rockets e Everything but the girl na trilha sonora. O jovem marido e futuro pai está sempre dando asas à imaginação e tentando responder a questões difíceis, e no final conclui que "o que estava procurando não era algo para ser encontrado, e sim para ser construído". Filme ideal para se assistir com a mão sobre uma graciosa barriga de 24 semanas, sentindo os chutinhos de um guri bem agitado.