Sunday, October 29, 2017

Gilbert Grape: aprendiz de sonhador




Cada grande cineasta tem a sua marca, e a marca do sueco Lasse Hallström é retratar com singeleza as relações e angústias humanas.

Ele tem uma predileção inusitada por histórias que retratem personagens relativamente corriqueiros em situações relativamente corriqueiras, mas em cada um de seus filmes transparece esse otimismo, essa convicção de que a humanidade tem jeito.

Esse olhar terno às vezes é precipitadamente rotulado de "água com açúcar", mas aí que está a diferença: até mesmo os aparentemente mais "bobinhos" filmes de Hallström têm uma qualidade superior, e valem a pena serem vistos, analisados e admirados.

Este site português traz um bom resumo de sua filmografia, que inclui, entre outros belos filmes, Um lugar para recomeçar. A lista de seus filmes com os títulos no Brasil aparece aqui.

Não foi à toa que Hallström, depois de ganhar destaque com Minha vida de cachorro e migrar para os EUA, atraiu-se pelo conteúdo do livro What's Eating Gilbert Grape, de Peter Hedges, publicado originalmente em 1991. O escritor também fez o roteiro para o filme.

O que está consumindo Gilbert Grape?

Esse "aprendiz de sonhador" de fala mansinha está cansado de segurar as pontas de todos...

Está prestes a estourar.


A história é um prato cheio para investigar as relações familiares e a lassidão de um jovem que mora e trabalha na pequena mercearia da pequena Endora, cidadezinha do Iowa. Interpretado por Johnny Depp, Gilbert Grape, com suas madeixas ruivas, é a pessoa que dá um certo equilíbrio à esquisita família, que vive numa casa afastada, e tenta se recuperar do suicídio do pai, anos atrás.

O mais comovente no filme é o carinho com que Gilbert cuida do irmão Arnie, que tem problemas de desenvolvimento.

A estupenda atuação de Leonardo DiCaprio, na época com apenas 18 anos, mereceu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.

Johnny Depp também cria um Gilbert bastante convincente. Neste artigo ele comenta sobre o momento em que estava passando e sua parceria com DiCaprio.


O elenco se completa com a oscarizada Mary Steenburgen, que encarna a fogosa dona de casa que seduz Gilbert quando ele vai fazer as entregas; John C. Reilly e Crispin Glover, que vivem os amigos de Gilbert; Mary Kate Schellhardt e Laura Harrington, suas duas irmãs; e, last but not least, Juliette Lewis, como a forasteira que fica morando um tempo nas redondezas, até que o veículo da avó seja consertado.

A propósito, a atriz Darlene Cates, que vive a mãe dos Grape, essa "família disfuncional", protagoniza uma das cenas mais surpreendentes do filme, ou seja, a que ela resolve sair de casa após 7 anos de reclusão para resgatar Arnie da cadeia, preso por seu comportamento de subir na caixa d'água da cidade.

Em cada cena, cabe ao espectador decidir se vai se enternecer ou cair na risada, se vai se emocionar ou achar graça.

Uma das raras cenas em que a família Grape está toda reunida sem brigar é diante da tevê, assistindo a um filme clássico de 1954, em preto e branco. Ninguém menos que Montgomery Clift arranca suspiros das mulheres da casa, na película intitulada Bare Indiscretion of an American Wife (Quando a mulher erra).



Um drama com leve tom de comédia, ou uma comédia dramática?

Um dos filmes mais emblemáticos sobre o sentimento fraterno, que os Hollies imortalizaram na canção He Ain't Heavy, He's My Brother?

O fato é que, em Gilbert Grape, aprendiz de sonhador, o diretor Lasse Hallström aborda vários temas importantes (preconceito, obesidade, problemas de desenvolvimento, adultério, falta de perspectivas) sem aparentemente se aprofundar neles. 

Talvez porque, para entender a obra de Lasse, é preciso ir além das aparências.



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