terça-feira, agosto 26, 2008

DAVID LYNCH NO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO



AUTOAJUDA 
Em 10 de agosto de 2008, o diretor de cinema David Lynch esteve em Porto Alegre para a divulgação de seu livro de autoajuda Catching the Big Fish (que no Brasil recebeu o título Em águas profundas). Quem foi ao auditório da Reitoria da UFRGS esperando palavras sobre cinema saiu decepcionado: noventa por cento do tempo Mr. Lynch teceu elucubrações sobre a importância da meditação e de que como o bem-estar pode ser canalizado para boas coisas, inclusive para fazer obras de arte.

OUR NATURE IS BLISS
Se fosse para resumir o colóquio de Mr. Lynch em uma simples frase, seria “Our nature is bliss!”. O bordão foi repetido várias vezes pelo convicto cineasta, afirmando sua crença em que o ser humano nasceu para ser feliz. A natureza humana, frisou Mr. Lynch, é encantamento e felicidade. Felizes, produzimos mais em todos os sentidos. Sentindo-nos miseráveis e depressivos não conseguimos alcançar nossos objetivos.

PERGUNTAS

A palestra de David Lynch foi dada em formato “perguntas e respostas”. Um “host” um tanto deslumbrado e fazendo piadas no mínimo desnecessárias (como aquela sobre Quem matou Laura Palmer) seguiu um protocolo de perguntas-padrão. Teoricamente, o público poderia enviar perguntas, mas o critério de seleção das perguntas do público foi também no mínimo equivocado. Tanto que a última e constrangedora pergunta (novamente a insistência, “O sr. pode nos dizer quem matou Laura Palmer?”) recebeu a única e límpida resposta: “Essa pergunta é absurda”.

DONOVAN
Para ajudar David Lynch em sua peregrinação e pregação pró-meditação, acompanha-o mundo afora o bem-sucedido músico dos anos 60, Donovan, que naquela década emplacou vários hits. Assim, a plateia pôde curtir quatro de suas canções, interpretadas ao melhor estilo ‘voz e violão’.

AUTÓGRAFOS
Os tietes de Mr. Lynch após o evento enfileiraram-se no pátio da Reitoria para conseguir um autógrafo do carismático cineasta e artista multimídia, que no momento não trabalha em nenhum projeto na área de cinema. Um dos fãs porto-alegrenses pediu um autógrafo no braço e depois mandou tatuar. Minha irmã contentou-se com a assinatura no livro e um simpático recado verbal: “Take care”. 
Foto: Ana Guerra

terça-feira, agosto 19, 2008

Mangue Negro



Fantástica realização de Rodrigo Aragão. Nascido em 1977 na comunidade de pescadores do Perocão, em Guarapari, cresceu no meio de muita imaginação e fantasia – o pai era mágico profissional e dono de cinema. Com esse background, nada menos surpreendente que, ao assistir a filmes como O Império Contra-Ataca, de George Lucas, e Uma Noite Alucinante, de Sam Raimi, o menino ficasse entusiasmado por efeitos especiais e terror. O interesse adolescente estava lá, mas só com muito esforço transformou-se em habilidade para fazer efeitos eficientes e roteiros funcionais. Essa habilidade, desenvolvida e posta em prática nos curtas Chupa Cabras (2004), Peixe Podre (2005) e Peixe Podre 2 (2006), pode agora ser conferida em seu primeiro longa: Mangue Negro.

O filme integrou a mostra de filmes fantásticos de Porto Alegre – o conceituado Fantaspoa – e também teve sessão no Clube do Cinema de Porto Alegre, na presença do realizador.
Antes da sessão, o diretor capixaba disse que o objetivo dele ao fazer o filme era apenas possibilitar momentos de diversão ao público, deixando claro que se tratava de um filme com certo “nicho de mercado”.

Ao cabo da película (?) (o filme foi passado em dvd) a platéia estupefata pôde tecer considerações e críticas, tirar dúvidas e fazer perguntas. Uma dessas perguntas envolveu justamente o comentário de antes da sessão: qual a relação entre diversão e horror? O que há de divertido em colocar os heróis do filme na madrugada no meio de um mangue cheio de zumbis esfomeados e alucinados? A resposta concisa: o horror, para Rodrigo Aragão, é algo intrinsecamente divertido.
O custo do filme? Estarrecedoramente baixo para a qualidade do produto final: 60 mil reais, levantados com um empreendedor privado após assistir a 15 minutos do filme produzidos com sacrifício do elenco e da equipe, pagando despesas de transporte com dinheiro do próprio bolso.

Com simpatia, Aragão respondeu a todos, inclusive a mim, que perguntei o que diacho era um caramuru. Na minha ignorância de gaúcho, não sabia o nome dessa espécie de moréia do manguezal, de carne não muito apreciada, mencionada no filme. E como essa há outras referências bem regionais que dão a Mangue Negro sua autenticidade e visceralidade.

Vísceras, aliás, não faltam. Nem sangue de mentira. Nada menos que setecentos litros de sangue (cuja receita inclui até chocolate) foram gastos nas filmagens, inteiramente realizadas no quintal da casa de Rodrigo - onde ele construiu com madeiras velhas os barracos que serviram de cenário e por onde passa o principal astro do filme: o mangue.

Logo na primeira cena o espectador é apresentado ao bizarro meio em que as ações ocorrem. Uma câmera meio Peter Jackson-meio Sam Raimi aproxima-se depressa de um bote e enquadra o rosto de Agenor dos Santos (Markus Conká), um pescador contador de causos que percorre lentamente o mangue em busca de um pesqueiro, na companhia do colega remador. A tomada tem grande eficácia para incitar a curiosidade, criar a atmosfera de suspense e introduzir as personagens.

Batista (Reginaldo Secundo) enterra as mãos na lama à cata de caranguejos cada vez mais escassos. A brejeira Raquel (Kika de Oliveira) lava roupas na beira do mangue para ajudar a mãe, presa a uma cama e deficiente visual. O tímido Luís (Valderrama dos Santos) ensaia uma declaração de amor. O asqueroso Valdê (Ricardo Araújo), pai de Raquel, recebe a visita do asqueroso atravessador (Antônio Lâmego), que, enquanto espera um lote de caranguejos asquerosos, dá em cima de Raquel, para desespero de Luís.

Mas, quando o mundo enlouquece e seres desvairados e esfaimados despertam do fundo do manguezal, Luís é obrigado a adiar os momentos idílicos e a se preocupar com o essencial: salvar a pele (e a carne) da amada (e a sua também). Em meio à gosma e ao sangue, Luís maneja a machadinha com perícia, tentando repelir o ataque irresistível dos zumbis à cabana. Quando a doce carne de Raquel é dilacerada por dentes infectos, a única chance passa a ser a preta velha Dona Benedita (André Lobo), que aconselha Luís a (em plena madrugada e no mangue infestado de mortos-vivos) pescar um baiacú, cujo fel pode salvar Raquel. A preta velha é importante e bem interpretada, além de emprestar certo misticismo ao filme, mas o ritmo cai nessa parte. Aliás, no final, a única crítica feita pelos cineclubistas foi que o filme poderia ser um pouco mais curto.

Mesclando crítica ecológica e humor negro, fotografia dark e tomadas eficazes, Mangue Negro é um clássico do horror tupiniquim. A versatilidade do diretor lembra a de outro criador de efeitos especiais: Tom Savini, o responsável pelos efeitos dos filmes de George Romero. Com a diferença que Savini só estreou na direção em 1990, no remake de A noite dos mortos vivos. O Tom Savini brasileiro logo na estréia dirige, cria efeitos especiais e roteiriza. Com a pretensão apenas de divertir, mas despretensão não torna um filme bom. Talento, sim.

sábado, julho 19, 2008

O Cavaleiro das Trevas

Christopher Nolan despontou com seu segundo filme, Amnésia (Memento), prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Sundance, em 2000. Antes filmara Following (1999). Com forte tendência de focalizar o interesse de seus filmes mais na edição do que em outros fundamentos como algo a contar (faça uma simples experiência: alugue Amnésia e selecione o extra em que o filme passa na ordem cronológica dos eventos), de modo curioso Nolan viu-se alçado à condição cômoda de novo queridinho da crítica. A partir daí, teve carreira meteórica: fez o sonolento Insônia (2002), com cenas patéticas de perseguição protagonizadas por um obeso Robin Williams e um quase ancião Al Pacino. Apesar disso, seus filmes iniciais demonstraram certa originalidade só percebida em cineastas promissores. Mas, tendo apenas 3 filmes no currículo, foi comprado pelo sistema. Escalado para dirigir a nova série de filmes do Batman, passou a dedicar-se quase que exclusivamente à franquia (a exceção foi a pausa para realizar O Grande Truque - The Prestige, 2005, com Hugh Jackman). Então, o que poderia se tornar uma carreira inventiva, inovadora e imaginativa passou a ser mero exercício de competência e aprimoramento.
Em Batman Begins (2005), e também agora com O Cavaleiro das Trevas, Nolan não decepcionou os fãs dos primeiros filmes, além de agradar aos endinheirados produtores que o contrataram. E, é claro, agradou também a crítica. Seria Nolan uma pessoa com o poder de agradar a atenienses e espartanos?

O fato é que o poder corrompe. E no caso de Nolan esse poder aparece em minutos a mais de película. Senão, vejamos:
Following (1999) = 1 hora e 10 minutos;
Memento (2000) = 1 hora e 56 minutos;
Insomnia (2002) = 1 hora e 58 minutos;
Batman Begins (2005) = 2 horas e 20 minutos;
The Prestige (2006) = 2 horas e 15 minutos;
The Dark Knight (2008) = 2 horas e 32 minutos.
Como é fácil de observar, os filmes mais recentes de Nolan tem metragem mais extensa. Tudo isso para dizer que O Cavaleiro das Trevas seria um ótimo filme caso tivesse menos duração.
Se Nolan não tivesse tido a ânsia de contar muitas histórias num filme só, teria realizado um filme melhor - mas ninguém em sã consciência poderia dizer que "não ficou bom". Apenas quero dizer que a parte final é excessiva. Como prova disso, dou o testemunho de ter cochilado na parte daquela função dos barcos.
Quanto à atuação de Heath Ledger, é algo de memorável e surpreendente. Falar mais do que isso seria correr o risco de cometer clichês e ser... excessivo.

sábado, julho 12, 2008

O escafandro e a borboleta


Estudo de Julian Schnabel sobre a necessidade humana de comunicar pensamentos de forma articulada. Podendo mover apenas um olho, Mathieu Amalric interpreta Jean-Dominique Bauby, redator de uma revista de moda que, aos quarenta e dois anos, tem um acidente vascular cerebral. O filme focaliza as sensações de Bauby no hospital, ao perceber sua situação desesperadora (compreende tudo o que se passa mas só consegue mover o olho esquerdo). Por exemplo, numa cena de puro terror, Jean-Do vê o seu olho direito sendo costurado por decisão do médico-chefe Dr. Lepage (Patrick Chesnais). Com a pertinácia da fonoaudióloga, Bauby aos poucos começa a expor o que pensa. Primeiro, piscando uma vez para dizer "sim" e duas vezes para dizer "não". Mais tarde, ao ver repetida uma seqüência das letras do alfabeto (a partir da letra de uso mais freqüente até a menos freqüente), piscando letra a letra para formar palavras e frases. O método, apesar de demorado, seria otimizado pelo treino e renderia - com a colaboração exaustiva de Claude (Anne Consigny) - um livro aclamado pela crítica. Entremeadas ao drama da recuperação atual, cenas ajudam a montar o passado da personagem, sua agitada vida profissional, seu relacionamento com o pai Papinou (Max von Sydow), o amor pelos filhos, a relação contraditória com a ex-mulher Celine e a paixão pela namorada Inès (Agatha de la Fontaine). São inúmeros os momentos tocantes do filme, mas gostaria de mencionar um: quando Inès liga ao hospital e a ex-mulher Celine (encarnada de modo inesquecível por Emanuelle Seigner) precisa intermediar a conversa.

sábado, julho 05, 2008

WALL-E


Filho, com teus 9 meses, tu é muito novinho para ir ao cinema. Mesmo assim, estou tentando convencer tua mãe a participar dessa aventura.

Wall-E é um robozinho solitário e incansável, um dos únicos habitantes do planeta Terra, fabricado para coletar o lixo, esmagá-lo em pequenos cubos e fazer pilhas gigantescas de resíduos. A propósito, Wall-E é uma sigla em inglês (Waste Allocation Load Lifter - Earth Class), que significa algo como "Carregador e Transportador de Resíduos - Classe Terrestre". Indiferente à sua quase total solitude, Wall-E faz o que está programado a fazer. Mas está na cara que ele é um robozinho inteligente e sensível. Misto de obediência robótica e inteligência artificial, tem como único amiguinho uma barata, e como seu único momento de lazer assistir ao musical de Gene Kelly, Hello, Dolly (1969). Faz isso sempre que chega em casa - o container em que descansa depois do longo dia de trabalho. No seu cantinho, coleciona um monte de tralhas que vai achando durante o dia e que acha interessante. Mas por que Wall-E mora quase só na imensa Terra? É que os terráqueos, devido à poluição, tiveram de abandonar o planeta. Agora agora moram numa estação espacial numa galáxia próxima. Na rotina de Wall-E, também está o convívio com estranhas, freqüentes e ruidosas movimentações vindas da atmosfera. Um dia, Wall-E vai descobrir do que se trata, e conhecer uma robozinha que vai mudar sua vida. Não te preocupa, não vou contar toda a história pra ti. Acho que assim tu já pode ter uma idéia. O diretor do filme (a pessoa que toma as decisões mais importantes, planeja as tomadas e escolhe os movimentos da câmera) é Andrew Stanton, o mesmo de Procurando Nemo. Wall-E é um alerta não apenas para a tua geração, mas para toda a humanidade cuidar melhor desse tênue ponto azul chamado Terra.

sexta-feira, junho 27, 2008

Antes que o diabo saiba que você está morto

O legendário Sidney Lumet (nascido em 25 de junho de 1924) traz a lume um aterrador estudo sobre a corrupção moral e ética de membros de uma família de classe média alta. Com cinqüenta filmes no currículo, entre eles Doze Homens e uma Sentença (1957), Serpico (1973), Assassinato no Expresso Oriente (1974), Um Dia de Cão (1975), Rede de Intrigas (1976) e O Veredito (1982), Lumet ganhou fama como "diretor de atores", ou seja, o tipo de cineasta que costuma fazer ensaios das cenas (nas décadas de 50 e 60 dirigiu teatro na Broadway) e extrair do elenco atuações iluminadas. Ethan Hawke está frágil e manipulável como Hank, o irmão mais novo do maquiavélico Andy (Philip Seymour Hoffman). Apesar de pertencerem a uma "boa família" e de terem crescido como satélites de um pai bem sucedido nos negócios, os dois mancebos chegam na maturidade quebrados e desesperados por dinheiro. Andy concebe um plano perfeito: roubar uma pequena joalheria cuja atendente é uma senhora de idade e lucrar com o roubo a bagatela de 600 mil dólares, entre o caixa e as jóias. Com um pequeno detalhe: a joalheria pertence a Charles (Albert Finney), ninguém menos que o pai deles. Outro detalhe sórdido (?) desta sórdida história tem a ver com Gina (Marisa Tomei), esposa de Andy e amante de Hank. É legal lembrar que as lúcidas películas de Lumet continuam iluminando a arte dos irmãos Lumière - como é legal perceber que o corpo de Marisa Tomei continua perfeito.

Na minha cabeça este filme faz intertexto com a canção abaixo:

Pace is the trick (Interpol)
You can't hold it too tight
These matters of security
You don't have to be wound so tight
Smoking on the balcony
But it's like sleaze in the park
You women you have no self-control,
We angels remark outside
You are known for insatiable needs
I don't know a thing
I've seen love
And I follow the speed in the starlight
I've seen love
And I follow the speed in the starswept night
Yeah pace is the trick
And to all the destruction in man
Well I see you as you take your pride, my lioness
Your defences seem wise I cannot press
And attentions at demise, my lioness
Can't you hurt it some, think I hurt it
I've seen love and I follow the speed in the starlight
I've seen love
And I follow the speed in the starswept night
And now I select you,
Slow now I let you
See how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I bet you
See how I stun, see how I stun
and to all the destruction in man
and to all the corruption in my hand...
And now I select you,
Slow now I let you see how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I bet you see how I stun, see how I stun
Now I select you,
Slow now I let you, see how I stun, see how I stun
Now I select you, slow now I let you
I always follow the speed in the starswept night...
You don't hold a candle

sábado, junho 21, 2008

Chega de saudade

Filme conceitual de Laís Bodanzky, o segundo da cineasta de Bicho de sete cabeças. Diferentemente de O baile (1983), de Ettore Scola, que por meio da música e das memórias das personagens de um salão de baile retoma 60 anos de história da França, Chega de saudade (2008), bem menos pretensioso, conta
apenas a história de um baile. Neste democrático salão paulista, dançam pessoas de todas as idades, cores e credos. Desde o malevolente Eudes (Stepan Nercessian), que dá em cima de Marici (Cássia Kiss), mas tira para dançar Bel (Maria Flor), namorada do DJ Marquinhos (Paulo Vilhena), colega de trabalho do garçom Gilson (Marcos Cesana), conselheiro do viúvo Álvaro (Leonardo Villar), que briga com a também viúva Alice (Tonia Carrero), que dança com o argentino Hugo (Raul Bordale), que protagoniza cenas tórridas com a fogosa Rita (Clarisse Abujamra), até a triste Elza (Betty Faria), que inutilmente tenta atrair atenção dos coroas. Uma cornucópia de personagens que flutua num salão onde tudo pode acontecer. Entre blecautes e cenas de ciúmes, embalado por som ao vivo ou "mecânico", o baile progride e revela a essência de cada personagem. Uma boa (e dançante) surpresa.

domingo, junho 15, 2008

O Incrível Hulk

Começo a achar que sou "do contra". Quando "crítica" e "fãs" decepcionaram-se com Hulk (2003), publiquei texto intitulado Hulk, King Kong e o Lobisomem (http://olharcinefilo.weblogger.terra.com.br/200306_olharcinefilo_arquivo.htm)
elogiando o trabalho de Ang Lee. Portanto, se supostamente este O Incrível Hulk (2008) foi feito no intuito de desfazer a impressão do primeiro, no meu caso essa tese não se aplica. O francês Louis Leterrier, o diretor do novo filme (que tem no currículo Cão de Briga - Unleashed, 2005 - e Carga Explosiva 2 - Transporter 2, 2005), prefere um discurso humilde e conciliador. Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo, comenta sobre as reações ao primeiro Hulk: "É engraçada a reação ao filme de Ang Lee. Os fãs mais radicais odiaram de verdade, mas alguns gostaram por seu valor cinematográfico. Esse foi o desafio, fazer algo suficientemente diferente para agradar aos fãs, mas não irritar quem gostou do filme de Ang. Tentei fazer um complemento à obra dele". O diretor Louis Leterrier alcançou o objetivo: o novo Hulk não desagrada as pessoas que gostaram do primeiro (entre outros, pessoas que admiram o trabalho de Ang Lee como diretor e o trabalho de Jennifer Connelly como atriz). E, ao buscar as raízes da personagem nas HQs e na série televisiva, procura satisfazer e renovar os fãs do anti-herói esverdeado.
Segundo Stan Lee, o criador da personagem, Hulk é um misto da criatura de Victor Frankenstein (concepção de Mary Shelley, no livro Frankenstein, de 1818) e Mr. Hyde, a face monstruosa do Dr. Jekyll (O Médico e o Monstro, 1886, de Louis Robert Stevenson). Fã de aliterações (vide Peter Parker), Stan Lee deu ao cientista nome e sobrenome com a mesma letra: Bruce Banner. Interpretado por Bill Bixby (mais aliterações!) na série televisiva dos anos 70 e por Eric Bana em 2003, agora Banner é vivido por Edward Norton (As Duas Faces de um Crime, 1996; O Clube da Luta, 1999). O papel de Jennifer Connelly, Betty Ross, agora é de Liv Tyler. O general Ross é encarnado por ninguém menos que o oscarizado William Hurt. O ator inglês Tim Roth é o militar Emil Blonsky, que depois se transforma na Abominação. Curiosidade: o fisiculturista Lou Ferrigno, que pintado de verde fazia o Hulk da TV, faz a voz do Hulk 2008, além de uma ponta como o segurança que aceita uma pizza como propina.
O roteiro nos leva ao Rio de Janeiro, na Favela da Rocinha (na verdade as cenas foram filmadas na favela Tavares Bastos, com tomadas aéreas da Rocinha), onde Bruce Banner trabalha numa antiga indústria de bebidas. Aqui, um parênteses nacionalista. É constrangedor o modo que os "brasileiros" do filme falam português. Arrevesado, enrolado e totalmente fora do vernáculo. Segundo o diretor Louis Leterrier explicou-se à Folha, ficaria muito "caro" contratar atores brasileiros para filmar no Canadá (onde a maioria das cenas foi realizada). Daí, nós brasileiros somos obrigados a tolerar este tipo de coisa. Diga-se de passagem, os dois únicos atores genuinamente brasileiros do elenco enriquecem esta fase do filme: a brejeira Débora Nascimento, colega de Banner na fábrica, e o convincente Rickson Gracie, instrutor de artes marciais que ensina Banner a dominar a respiração e a adrenalina. Banner está no Brasil atrás de uma flor que pode servir como antídoto para a sua condição (de se transformar num monstro poderoso e incontrolável quando sente muita raiva, medo ou emoções fortes). Pela Internet, Banner mantém contato e recebe dicas de um misterioso cientista, Mr. Blue (Tim Blake Nelson). Mas o incansável General Ross (Hurt) está no encalço de Banner, a fim de transformá-lo numa cobaia-modelo para um super-soldado. Para a missão de capturá-lo no Brasil, contrata o veterano Emil Blonsky (Roth, não o Celso). Quando a missão gringa chega ao Brasil atrás de Banner, começa a ação, a perseguição - e os crimes contra a geografia. Não é à toa que o povo americano não entende patavinas de geografia. Hulk foge do Rio e Banner acorda na Guatemala! Tudo bem que ele se locomove com pulos quilométricos, mas não precisavam exagerar tanto. Podia ter feito uma paradinha na Venezuela, ou até mesmo no Panamá. Da Guatemala ao México e do México aos Estados Unidos, Banner vai atrás dos dados que podem lhe ajudar a alcançar a cura. Leterrier capricha na agilidade da câmera, mas seu O Incrível Hulk perde para o Hulk de Ang Lee.

sábado, junho 14, 2008

Bella

Filme preferido do público em Toronto 2006, Bella é o longa de estréia do mexicano Alejandro Gomes Monteverde. Segundo alega superiormente o crítico Roger Ebert, ele "consegue entender" por que este filme foi a escolha popular e, em vez de dizer o que o filme é, prefere dizer o que não é: nem "profundo" nem "estúpido".
Puxa vida! O famoso resenhista não esclarece, porém, o que ele considera um filme "profundo" e um filme "estúpido". Filme profundo seria, talvez, aquele que possibilita leituras variadas, faz intertextos, gera reflexões, provoca o intelecto ao mesmo tempo que carrega ternura? Filme estúpido seria, talvez, a antítese do filme profundo, aquele que não possibilita leitura alguma, faz pastiches, não gera reflexão alguma, afronta o intelecto ao mesmo tempo que carrega repulsa? Profundo seria Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman? Estúpido seria Fome Animal, de Peter Jackson?
O raciocínio de que Bella "não é estúpido" soa-me uma tremenda estupidez.
Bella é bem mais do que apenas isso. Comparado com a maioria dos filmes atuais, Bella é um filme profundíssimo. Tipo do filme que dá vontade de cultuar e de ver repetidas vezes, assim como Lúcia e o Sexo (leia sobre o filme de Julio Medem em

(http://olharcinefilo.weblogger.terra.com.br/200305_olharcinefilo_arquivo.htm). Por sinal, Monteverde deve ter algum tipo de admiração por Julio Medem. Os dois filmes tecem retalhos intertextuais e sob certos aspectos abordam temas afins.
Em Bella, Jose (o carismático Eduardo Verastegui) trabalha como cozinheiro-chefe do restaurante de seu irmão Manny. No dia em que o exigente Manny despede Nina (Tammy Blanchard) por ter chegado a terceira vez com atraso ao trabalho, Jose abandona a cozinha e segue Nina. Os dois passam o dia juntos, numa jornada de conhecimento mútuo e revelações pessoais. Delicado e sensível, Bella merece a atenção de quem é capaz de apreciar cinema - desde os filmes mais profundos até os mais estúpidos.

terça-feira, junho 10, 2008

As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian

A obra acadêmica mais importante do irlandês C. S. Lewis (1898-1963) chama-se The Allegory of Love: A Study in Medieval Tradition (1936). É na fonte da literatura medieval e das mitologias romana, grega e nórdica que Lewis embasa o mundo de seres fantásticos e animais falantes criado nas Crônicas de Nárnia, série de 7 livros infanto-juvenis lançada ao longo da década de 1950 (1950, O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa; 1951, Príncipe Caspian; 1952, A Viagem do Peregrino da Alvorada; 1953, A Cadeira de Prata; 1954, O Cavalo e seu Menino; 1955, O Sobrinho do Mago; e 1956, A Última Batalha). Marcadas pela apologética cristã, as Crônicas de Nárnia são uma metáfora da luta do bem (os habitantes de Nárnia - animais, centauros, faunos) contra o mal (o povo Telmarine, de aparência humana). O único personagem presente em todos os livros é o leão Aslam (que, para alguns, representa Jesus Cristo). Dublado por Liam Neeson, Aslam em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa comanda as ações; em Príncipe Caspian aparece pouco, mas decisivamente. O diretor do primeiro filme das Crônicas de Nárnia, Andrew Adamsom (co-diretor de Shrek e Shrek 2), continua o maior responsável pelo processo de trazer à tela a obra rica de Lewis. Partícipe da roteirização, Adamson enfatiza a ação e as batalhas, sem, entretanto, privar a película da alegoria do amor, no caso, entre Caspian (Ben Barnes), príncipe dos Telmarines, e Susan Pevensie (Anna Popplewell), tímida estudante londrina/rainha arqueira de Nárnia. A sessão contou com a simpática presença de um grupo de adolescentes do sexo feminino, que dominou a fileira de cima e, por sua inquietude, impaciência e certa falta de etiqueta cinéfila, provocou contínuas (e infrutíferas) reclamações de Telmarines, digo adultos rabugentos.

quinta-feira, maio 29, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal


Qualquer pessoa um pouco ligada em cinema sabe que não há mistério na receita para se fazer um bom filme. Bom roteiro, bom elenco, boa equipe e bom diretor quase invariavelmente resultam num bom filme. Há casos, porém, em que o roteiro parece ótimo, o elenco é cheio de figurões, a equipe técnica é oscarizada e o diretor tem uma filmografia quase impecável, mas o resultado é uma droga. Em que categoria se enquadra Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal?

Comecemos nossa análise pelo roteiro. Bem estruturado, faz o espectador entrar na história de modo envolvente. Com ingredientes clássicos como mapas em código, povos remotos, tesouros perdidos, objetos mágicos e segredos misteriosos, traz também pitadas de humor e inúmeras citações intertextuais com os primeiros três filmes da série. Além disso, ao fixar o ano das ações em 1957, lança mão de humor político, com menção à guerra fria EUA x Rússia e à "caça às bruxas" ianque contra os "comunistas", ocorrida na década de 1950. Por isso, com um ou outro senão, é possível afirmar que o roteiro foi muito bem trabalhado e executado.

O elenco do filme? Bem, é chover no molhado falar, por exemplo, na qualidade de Cate Blanchett, mas a verdade é que ela comprova mais uma vez o grande talento como a gélida Irina Spalko, militar e pesquisadora russa que procura de modo obstinado descobrir a origem e a verdade sobre a Caveira de Cristal. Karen Allen, no papel de Marion Ravenwood, numa ótima jogada dos roteiristas, dá o ar de sua graça na série, depois de um longo e tenebroso inverno (só tinha estrelado Os Caçadores da Arca Perdida). Ela contribui com seu charme (que não diminuiu com a idade) para tornar o filme melhor. Já Shia LaBeouf (isso lá é nome de gente?), um dos atores mais versáteis e solicitados na Hollywood atual (senão, vejamos: participou do blockbuster Transformers [2007], do obscuro Paranóia [2007] e do alternativo Bobby [2006]), não podia deixar de marcar presença e não decepciona na pele de Mutt Williams, o rebelde motoqueiro que pede ajuda a Indy para resgatar o Professor Oxley, perdido em algum lugar da América do Sul. Oxley, por sua vez, é interpretado por um descabelado e alucinado John Hurt, outro mestre da metamorfose (já fez por exemplo O Homem Elefante, de David Lynch e serviu de pasto para o primeiríssimo Alien, de Ridley Scott). Ray Winstone interpreta Mac, parceiro de Indy nas aventuras, enquanto Jim Broadbent encarna o reitor da Universidade que é obrigado a afastar Indiana Jones, devido às investigações da CIA. Em resumo, o elenco tem peso, inspiração e todos os clichês mais que você conseguir lembrar. Mas, falta falar dele, não é?
Sim, e o que dizer do nosso velho Harrison Ford? Em 35 anos de carreira, já trabalhou com alguns dos melhores diretores, como George Lucas (American Grafitti, 1973; Guerra nas Estrelas, 1977; O Império Contra-Ataca, 1980 e O Retorno de Jedi, 1983); Francis Ford Coppola (A Conversação, 1974 e Apocalypse Now, 1979); Steven Spielberg (Os Caçadores da Arca Perdida, 1981, Indiana Jones e O Templo da Perdição, 1984, Indiana Jones a A Última Cruzada e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, 2008); Peter Weir (o filmaço imortal A Testemunha, 1985, e o incompreendido A Costa do Mosquito, 1986); Ridley Scott (o cult dos cults Blade Runner, 1982); Mike Nichols (Uma Secretária de Futuro, 1988); Roman Polanski (Frantic, 1988); Alan Pakula (Presumed Innocent, 1990); Phylip Noyce (Jogos Patrióticos, 1992, e Perigo Real e Imediato, 1994); Andrew Davis (O Fugitivo); Sidney Pollack (que os Deuses do bom cinema o tenham, Sabrina, 1995) e Kathryn Bigelow (K-19, 2002). Diga-me com quem andas, que eu dir-te-ei quem és. Só o fato de ter trabalhado com tanta gente genial já poderia atestar a qualidade e o carisma de Harrison Ford. Mas não se trata disso, de citar currículo por citar, de criar fama e cair na cama. O carpinteiro que virou ator humilde nunca quis ser diretor. Ford é um cara que sabe as próprias limitações. E apesar delas, deu vida a inúmeras personagens e cenas gravadas na retina de quem ama cinema.
Falando em retina, essa é a deixa para comentar sobre a equipe reunida para otimizar o filme. Sim, pois O Reino da Caveira de Cristal tem uma das características marcantes dos filmes de Spielberg: a excelente fotografia assinada por Janusz Kaminski. A música? John Williams. A produção? George Lucas e Frank Marshall. O roteiro? David Koepp, baseado em história de George Lucas. Para quem não lembra de David Koepp: ele assinou nada menos que Jurassic Park, Missão Impossível, Homem Aranha, Quarto do Pânico, sem falar nos dois filmes de Brian De Palma: Carlito's Way e Olhos de Serpente. Em suma, uma bela equipe como era de se esperar.
O que nos leva ao homem que ganha o crédito artístico: o diretor. No caso, Steven Spielberg. Desde que estreou com o baixo orçamento de Encurralado (1971), passando pelo blockbuster Tubarão (1975), pelo pioneiro Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e pela magia de E.T. (1982), até chegar ao Oscar em A Lista de Schindler (1993), unindo faro comercial, talento visual e timing infalível, mesclando o senso de humor (1941 - Uma guerra muito louca, 1977; Prenda-me se for capaz, 2002; O Terminal, 2004) à capacidade de urdir dramas (A Cor Púrpura,1985) e de retratar realidades cruéis (vide Munique, 2005), eclético, indo da aventura (O Império do Sol, 1987) à guerra (O Resgate do Soldado Ryan, 1998), do suspense (Twilight Zone, 1983) à ficção (A.I., 2001, Minority Report, 2002, A Guerra dos Mundos, 2005), Spielberg é o protótipo do CINEASTA. Completo.
Bem, dirá um leitor crítico, que tal parar de citar nomes e currículos e falar um pouco sobre o filme? Ora, um filme é feito de nomes e de currículos. O que eu posso dizer é que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal faz jus ao currículo das pessoas envolvidas. Claro que tudo tem um pequeno senão, e, nesse caso, já havia comentado en passant que o roteiro, mesmo excelente, tinha seus senões. Pois bem, o senão é que a fundamentação científica (?) está mais para Erich von Däniken do que para Carl Sagan. Mas isso não chega a comprometer a 'obra como um todo'.

domingo, maio 18, 2008

Encurralados

O título original de Encurralados (Butterfly on a Wheel), produção independente britânica (cujo DVD recebeu nos EUA o título Shattered ), é uma referência à frase "Who breaks a butterfly upon a wheel?", citação de Alexander Pope; por sua vez, alusão à forma de tortura em que as vítimas eram amarradas a uma roda e tinham fêmures e úmeros quebrados por uma barra de ferro. Uma das conotações da expressão "estraçalhar uma borboleta sobre uma roda" é dispender um esforço grande para alcançar algo sem importância. Para quem gosta de música pop: Butterfly on a Wheel é, também, o título da bela canção do Mission, cujo refrão é Love breaks the wings of a butterfly on a wheel.
E o amor de Amy (Maria Bello) e Neil Warner (Gerard Butler) pela filha Sophie será colocado à prova. Neil Warner, bem-sucedido executivo do ramo de publicidade, na agência onde trabalha cultiva a inveja de alguns e a admiração de outros, como o seu chefe e a secretária Judy (Claudette Mink). Num fim-de-semana em que Neil tem programado um encontro com o chefe e Amy um encontro com as amigas, o casal é obrigado a contratar uma babá para cuidar da filha Sophie (Emma Karwandy). Tudo parece estar calmo, mas de súbito os dois se vêem raptados por Tom Ryan (Pierce Brosnan) e informados de que a filha deles, na verdade, está nas mãos de uma cúmplice. A partir daí, o roteirista William Morrissey tenta fazer de Tom Ryan um vilão implacável com objetivos obscuros. Os fatos sucedem-se de modo tão vertiginoso que, se o espectador se deixar confundir, pode até chegar a pensar que está vendo um bom thriller. Porém, a despeito dos esforços dos atores, o argumento é mesmo frágil como asas de borboleta. Não bastasse o exagero e a falta de bom senso das situações, o filme conta com uma das cenas finais mais mal-resolvidas e constrangedoras dos últimos tempos. Não à toa o filme nem entrou em cartaz nos Estados Unidos: ir ao cinema para assistir Encurralados é despender muito esforço para um retorno ínfimo.


sábado, maio 17, 2008

Homem de Ferro

Gwyneth Paltrow em Iron Man está linda como Pepper, a fiel e eficiente secretária particular de Tony Stark; Robert Downey Jr. não deixou por menos e fez um trabalho fenomenal como Tony Stark/Iron Man. Paltrow, de modo contido, faz de Pepper o protótipo da secretária competente, que nutre pelo chefe algo mais que respeito e admiração. Downing Jr., por sua vez, faz com maestria e charme o papel do patrão frio e calculista, que finge não saber da paixão da secretária.
O diretor Jon Favreau conduz a história de modo ágil, focando (méritos para o roteiro) sempre a personalidade contraditória, carismática e enigmática do engenheiro nato Tony Stark. Herdeiro da Stark Industries, empresa líder em produção de armas pesadas, após a demonstração de um novo armamento no Afeganistão, é capturado por uma milícia local. Seriamente ferido, é salvo por um estratagema científico de seu colega de prisão Yinsen (Shaun Toub). A situação obriga Tony a usar toda a sua habilidade e o seu conhecimento para fazer uma armadura rudimentar mas poderosa e tentar escapar com vida.
Esse é apenas o resumo da situação inicial de Homem de Ferro. A experiência abala as convicções de Stark, o que provocará choque de interesses com o sócio Obadiah Stane (Jeff Bridges) (a propósito, o veterano e eficiente ator faz de Obadiah um dos vilões mais carecas e mais patéticos do cinema). Nos EUA, com toda tecnologia à disposição em pleno porão de sua casa encravada num penhasco à beira-mar, Tony desenvolve uma nova espécie de energia, constrói a armadura perfeita e se torna o Homem de Ferro, para tentar desfazer males criados pela sua própria indústria. A voz de Jarvis, o computador que é a 'alma' da armadura, é do ator Paul Bettany.
A equação do Homem de Ferro: boa fonte + roteiro inspirado + atores consistentes + direção ágil = puro divertimento.

sexta-feira, maio 16, 2008

Um beijo roubado

Jeremy (Jude Law), um imigrante inglês, toca o próprio negócio - espécie de confeitaria intimista - em Nova York. Uma das freguesas assíduas é Elizabeth (Norah Jones), com quem Jeremy trava aquele tipo de amizade inocente e desinteressada, mas com potencial de quem sabe, talvez, um dia, ir um pouco, bastante, muito além de uma relação cordial-comercial. Porém, entretanto, todavia, eis que o fato desencadeador acontece: o relacionamento de Elizabeth está se desintegrando. Sem aviso prévio, pára de freqüentar a confeitaria, por um simples motivo: está a centenas de milhas, em busca da auto-estima perdida.
Para os novos amigos, justifica o fato de trabalhar noite (com o nome Lizzie num bar) e dia (com o codinome Beth numa lancheria) pelo objetivo de juntar dois mil dólares para comprar um carro.
Mas, entre um emprego e outro, entre uma cidade e outra, entre o testemunho de uma história paralela e outra (que incluem o relacionamento tempestuoso de Arnie [David Strathairn], um policial beberrão, e sua sensual, mas perdida esposa [Rachel Weisz]; e as aventuras da jogadora de pôquer Leslie [Natalie Portman]), Elizabeth mantém o contato com Jeremy por meio de cartões-postais enviados à confeitaria.
Wong Kar Wai, diretor oriundo de Hong Kong, abusa dos closes, das câmaras lentas e das cores fortes para tentar dar um tom 'artístico' a My Blueberry Nights (que virou Um beijo roubado). Alguém poderia ponderar que, devido às andanças de Elizabeth, a amizade dela com Jeremy fica em segundo plano boa parte do filme. Outro rebateria que perde o 'romance', mas ganha o 'road movie'. Um espírito mais crítico poderia avaliar que, devido à dispersão de foco nas histórias paralelas, a história 'principal' (Jeremy e Elizabeth) acaba mal-desenvolvida. Outro retrucaria que, na verdade, o filme não é sobre Jeremy e Elizabeth, e sim sobre a viagem de reconstrução da vida de Elizabeth. Talvez essa seja uma boa definição - e uma das qualidades - de Um beijo roubado: difícil de rotular.

sexta-feira, maio 02, 2008

A vida começa aos 40

A médica ginecologista Elisabeth Staf estaciona o carro com pressa e com mais pressa sai do carro em direção à igreja. É o casamento do filho. A pressa não a impede, porém, de argumentar com a fiscal de trânsito, ansiosa por multá-la. A conversa entre doutora e fiscal vira bate-boca (com direito a tapa no quepe e troca de comentários não muito elogiosos). É assim que Colin Nutley, diretor britânico radicado na Suécia, apresenta as protagonistas de seu novo filme: A vida começa aos 40 (Schwedisch für Fortgeschrittene / Heartbreak Hotel).

Por essa primeira cena, o espectador pode avaliar a personalidade das duas. Elizabeth: decidida, petulante, do tipo que não leva desaforo para casa. Gudrun: discreta, zelosa, do tipo que leva as coisas ao pé-da-letra. Claro que essas personagens vão se encontrar de novo e a desavença inicial será esquecida em prol de uma amizade irresistível, avassaladora, do tipo que não acontece muitas vezes. Afinal, as duas têm muita coisa em comum: quarentonas, (enrustidamente) fogosas e (teoricamente) desimpedidas. Dessa forma, Gudrun e Elizabeth passam a freqüentar juntas nas frias noites suecas a pista animada do Heartbreak Hotel.

Misto de Embalos do Sábado à Noite com Thelma e Louise, o tema da película realizada na Suécia (como os demais filmes de Nutley) é a importância de certos itens: a amizade, a música, a dança, a diversão, a compreensão dos filhos, a colaboração dos cônjuges (no caso, êx-conjuges). Se esses itens já são importantes em situações ditas normais, mais importantes se tornam num contexto de reestruturação. Aos quarenta e poucos anos, a recatada Gudrun (Maria Lundqvist) e a extrovertida Elisabeth (Helena Bergström, esposa do diretor e presença constante em seus filmes) não precisam mais ter vergonha de nada (nem mesmo de aceitar o fato de nunca ter tido um orgasmo). No auge das células cinzentas, dão-se ao luxo de escolher o momento apropriado de não utilizá-las.


A trajetória do diretor Colin Nutley é no mínimo inusitada:
mesmo sem falar sueco fluente firmou-se como um dos mais importantes realizadores contemporâneos do país escandinavo. Seu maior sucesso foi talvez Änglagard (House of Angels, 1990), sobre a estranha chegada de dois forasteiros numa pequena cidade. Nas palavras do jornalista Rob Hincks, o filme é "provavelmente a quintessência dos filmes suecos de verão de todos os tempos". Foi tanto o sucesso que rendeu uma seqüência.

Nutley já foi procurado por Hollywood, mas até o momento tem resistido a "vender a alma". Gosta mesmo é de trabalhar na Suécia e fazer os filmes a seu modo, com pouco de roteiro e muito de improviso. Segundo Nutley (ver entrevista em
http://www.sweden.se/templates/cs/Article____14295.aspx),
seu método de trabalho é simples. O elenco só fica sabendo sobre o que vai ser a cena três minutos antes dela ser rodada. Então Nutley discute com o elenco como seria a reação deles àquela situação na vida real. E o resto é por conta dos atores. A vida começa aos 40 é uma boa amostra dos prós e contras desse método.

segunda-feira, abril 07, 2008

A megera domada


Com este post, o olhar cinéfilo comemora o quinto aniversário.

A peça A megera domada, encenada no Teatro de Câmara Júlio Piva, na R. da República 575, em Porto Alegre, é teatro de alto nível made in Porto Alegre. Assisti ao espetáculo no dia 5 de abril, já com Sandra Possani no papel da megera (em substituição a Roberta Savian). Três espetáculos no próximo fim de semana encerram a breve temporada.

Bebendo um vinho oferecido por cortesia, o público aguarda a abertura da sala. Enquanto entra e se acomoda, a primeira surpresa: os atores passam a apresentar números denominados por eles como "de risco". Dessa forma, o público retardatário tem oportunidade de chegar, e os atores de "quebrar o gelo", além de mostrar outras facetas do seu talento.

Começa o espetáculo propriamente dito, e o que se vê encheria de orgulho até mesmo o próprio Shakespeare, que dirá os gaúchos: um show de tradução, direção, iluminação e interpretação.

Batista (Carlos Mödinger) só vai liberar a linda Bianca (Elisa Volpatto) para casar depois que a irascível primogênita e consumada megera Catarina (Sandra Possani) desencalhar. Os sedentos candidatos a abiscoitar o coração de Bianca torcem para que Petrúquio (Heinz Limaverde), seduzido pelo dote de 20 mil coroas, consiga dobrar a indobrável Cati, em meio a palpitantes jogos de palavras.
A tradução realizada (sob encomenda e sob medida) por Beatriz Viégas-Faria revela-se brilhante sempre, com destaque para o embate verbal aguçadíssimo entre o resoluto Petrúquio (o pretendente) e a irredutível Catarina (a "megera"). Como bem ressalta o jornalista Renato Mendonça, Beatriz "não evita o desafio de reinventar em português os muitos trocadilhos do texto". Ou seja, dá uma inspiradora aula de tradução.
A moderna direção de Patrícia Fagundes não é menos inspirada e segura. O espectador tem a impressão de que nada acontece no palco sem ter sido meticulosamente pensado, e que o elenco segue as determinações/orientações/sugestões da diretora à risca. Tudo isso sem perda da naturalidade de cada um. Em resumo, a diretora aproveita ao máximo a verve e o talento de cada um dos atores.

Iluminação e figurino enfatizam o preto, o branco e o vermelho. Parte técnica, produção executiva, trilha sonora: o apuro nos detalhes contribui para o excelente resultado. Por fim, a trupe de atores é realmente algo! Além dos citados acima, Rafael Guerra, Álvaro Vilaverde, Felipe de Paula, Lisandro Belloto e Leonardo Machado dão show na hora exigida, e são coadjuvantes quando lhes compete.

Noite perfeita, apesar das cadeiras-destruidoras-de-coluna do charmoso Teatro de Câmara.

Thanks, grandma, for taking care of the baby!

domingo, março 09, 2008

10.000 a.C.



No papel de Tic'tic, o gabaritado ator neozelandês de etnia maori Cliff Curtis (o 'uncle Bully' de O amor e a fúria, de Lee Tamahori) dá ao elenco de 10.000 a.C. a mínima consistência necessária para tentar tornar verossímeis um roteiro pífio e um amontoado de efeitos especiais baratos. Integram o elenco Steven Strait (D'Leh), Nathaniel Baring (Baku), Mo Zinal (Ka'ren), Marco Khanlian (One-Eye) e Camille Belle (como a bela Evolet).

A história (?) do novo filme de Roland Emmerich [o cineasta autor de The Day After Tomorrow (2004), The Patriot (2000), Godzilla (1998), Independence Day (1996), Stargate (1994), Universal Soldier (1992), Moon 44 (1990), Ghost Chase (1988), Joey (1985), Making Contact (1985) e The Das Arche Noah Prinzip (1985)] parece toda chupada de Apocalypto, o filme de Mel Gibson. Senão, vejamos: tribo é invadida por caçadores de escravos; alguns integrantes da tribo lançam-se em busca do regate dos capturados. A seqüência final - a exemplo de Apocalypto - mostra o local aonde os escravos são levados e os sacrifícios a que são submetidos.
Sem uma cena sequer memorável, 10.000 a.C. perde a oportunidade de ser um retrato aventuroso do período em que o homem inventou a agricultura para ser um mosaico de referências toscas e mal costuradas. Repleto de cenas previsíveis e com efeitos pasteurizados ao extremo, o novo filme de Roland Emmerich é coerente e se encaixa bem dentro de sua filmografia - fácil de deglutir e de descartar.

domingo, janeiro 13, 2008

Um beijo a mais

Tony Goldwyn dirigiu o roteiro de Paul Haggis, baseado no roteiro original do filme italiano L'ultimo bacio (2001) de Gabriele Muccino. O resultado, Um beijo a mais (The last kiss, 2006) é uma 'comédia romântica' ianque com jeito e estofo europeus, personagens críveis e situações delicadas, normalmente não debatidas em filmes do gênero. Zach Braff é Michael, arquiteto de 29 anos que namora uma bela e inteligente mulher, Jenna (interpretada pela estrela em ascensão Jacinda Barrett). No começo do filme, num encontro de família, o casal de namorados comunica os pais de Jenna que
ela está grávida de dez semanas. Tudo estaria ótimo, não fossem as dúvidas na cabeça de Zach. Prestes a completar 30 anos, o promissor arquiteto se pergunta: estou pronto para assumir compromisso para o resto da vida? Sou capaz de ser um bom pai, um bom marido, um bom genro? Posso abdicar de "conhecer" outras mulheres? Em resumo: é isso mesmo que eu quero para minha vida?
Os amigos de Michael, todos da mesma faixa etária, estão em situações distintas, e, cada um a seu modo, enfrentam a "crise dos trinta anos". Chris (Casey Affleck) tem um filho de dois anos com a esposa Lisa; pensava que o filho sedimentaria a união, mas as brigas são constantes; Izzy (Michael Weston) está transtornado pois acaba de romper um relacionamento com a namorada da adolescência; Kenny (Eric Christian Olsen) não tem namorada fixa e tem pânico de estabelecer relacionamentos duradouros.
Como ia dizendo, tudo estaria ótimo para Zach, não fossem suas dúvidas. Essas se materializam ainda mais quando conhece Kim, uma moreninha insidiosa, insistente e nem um pouco insossa.
O diferencial de Um beijo a mais, além da qualidade do roteiro e o do elenco bem escolhido, é a coragem de 'tocar o dedo na ferida', ou seja, abordar sem hipocrisia questões até certo ponto revoltantes. Típico filme ideal para assistir em DVD, ainda mais que os extras trazem dois curiosos finais alternativos.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Inland Empire




A trintona quase quarentona gordinha e faceira e o filho magro e sisudo de treze anos sobem as escadas do Unibanco Arteplex 1. Estou sentado numa das fileiras superiores, na seção central, numa poltrona mais ou menos no meio. A dupla sobe as escadas e senta-se na seção lateral à direita. Outras pessoas vão chegando aos poucos, a sessão atrasou – como, com toda polidez, o bilheteiro havia avisado – devido a um cálculo errado sobre a duração do filme anterior (Gigante, como o Inter conquistou o mundo). O clima na sala é de pura expectativa. Neste meio-tempo, a dupla anteriormente citada abandona o local escolhido, a mamãe passa sorrindo e pedindo licença, eu recolho as pernas e acompanho-a com o olhar até os dois se acomodarem na estreita seção de poltronas da esquerda. Mais pessoas vão sentando cá, ali, acolá, aqui e lá. Então mamãe e filho fãs de David Lynch levantam-se dos novos lugares escolhidos, descem alguns degraus e sentam-se novamente. A sessão está prestes a ter início. Um clima de água na boca no ar. A dupla dinâmica levanta-se mais uma vez e senta-se, agora definitivamente, na primeira fila da extrema esquerda, esperando, ansiosos, o início do banquete.
Sim, pois um filme de David Lynch é para cérebros o que a Festa de Babette é para olhos e estômagos: um cardápio rico e multicor, nutritivo e substancial. A digestão pode não ser muito fácil, mas o prazer sublime do consumo compensa. Mas e por que toda essa introdução sobre a indecisão da cinéfila mãe e do cinéfilo filho sobre onde sentar? Porque isso exemplifica um pouco o tipo de pessoa que estava no cinema. Fãs de Lynch são pessoas um tanto imprevisíveis, não-lineares, pouco dadas a seguirem uma mesma e repetitiva linha de ação. Lynchnianos são seres cientes de que pagar ingresso para ver um filme de Lynch é assinar um contrato de risco. Nada garante nada e nada se prende a nada nos próximos 120 ou 180 minutos. O que vai passar? Um filme sem pé nem cabeça, enigmático, como A estrada perdida, ou um filme com começo, meio e fim, como História real? Pouco importa. É um novo filme de David Lynch, que aos 22 anos virou pai e, baseado em suas experiências assustadoras, fez o primeiro e acachapante longa-metragem: Eraserhead (1978). O filme assombrou o produtor Mel Brooks que convocou o diretor novato para realizar O homem elefante (1980), a história de um homem gentil e culto interpretado por John Hurt que sofre de elefantíase e por isso é explorado como atração de circo. Em 1984, após ter declinado o convite para fazer O retorno de Jedi, lançou Duna, que, devido a uma série de cortes, ficou desfigurado, e o próprio Lynch pediu sem sucesso para que seu nome fosse retirado dos créditos. Em 1986 e 1990 fez dois filmes especialíssimos: Veludo azul e Coração selvagem. Veludo azul, com Dennis Hopper e Isabela Rosselini, explora o mistério sobre uma orelha cortada e os desejos masoquistas de uma bela morena, enquanto Coração selvagem traz o casal mais quente e alucinado do cinema (Lula Fortune / Laura Dern e Sailor Ripley / Nicolas Cage). Para mais detalhes sobre Coração selvagem, ler post neste blog. Twin Peaks: Fire Walks With Me (1992) aproveita o sucesso da séria televisiva; o quebra-cabeças A estrada perdida (1997); o belíssimo História real (1999), o mais concreto e rural dos filmes de Lynch (as lindíssimas cenas aéreas das lavouras são uma espécie de tributo à profissão do pai, pesquisador do Departamento de Agricultura) (mais detalhes sobre a biografia dele pode encontrar no livro David Lynch, resenhado aqui); e o onírico Cidade dos sonhos (2001) completam sua filmografia prévia. Abre parênteses. A julgar pela tendência tradutória dos recentes dois filmes, o próximo filme de Lynch será “'Alguma coisa' dos sonhos”: Mulholland Drive virou Cidade dos sonhos e Inland Empire virou Império dos sonhos. Fecha parênteses.
E tudo isso nos leva ao exato minuto em que as luzes se apagam e começa a passar Inland Empire, e Lynch começa a fazer uma queda de braço com a paciência do espectador comum. Por espectador comum, leia-se o neófito em assuntos lynchnianos. A queda de braço é a seguinte: quando você vai cansar e abandonar a sala? Quando vai ter sangue na veia o suficiente e simplesmente jogar a toalha? E é assim do princípio ao fim de Inland Empire. Mesmo para quem já conhece as piras de Lynch, em alguns momentos passa isso na cabeça. E foram várias pessoas que abandonaram a sessão. Pelo sitcom com homens-coelhinhos? Pelas demências de uma mulher traída? Pelas confusões de uma atriz decadente? Pela ausência de um fio condutor? Pela ausência de um fio? Pela ausência de um condutor? Pelo formato digital sem charme? Pela fotografia escura? Pela falta de noção? Pela falta de nós? Pela falta de ação? Não sei... sei não... O fato é que muitos desertaram, e me chamou a atenção uma hora que na tela aparece na legenda algo como “o que é que eu estou fazendo aqui” e, ato contínuo, vários espectadores aproveitaram a deixa e se arrancaram para respirar ar puro.
Ah sim, e o filme? Sim, Inland Empire (2006) é sufocante; uma experiência introspectiva, intimista e claustrofóbica. Um filme que exige muito a atenção do espectador, pois não há história linear para acompanhar; um filme que provoca muita tensão no espectador, a tensão de tentar entender, de amarrar os fios soltos e de formar um todo coerente. Sim, pois, conforme Charolles, por mais que nos defrontemos com algum texto aparentemente absurdo, todo texto é coerente, ou seja: tentamos vislumbrar um contexto ou uma situação em que aquele teórico absurdo adquira coerência. Pois bem, eis que o contexto é um filme de David Lynch. O elenco inclui Laura Dern e Justin Theroux, ambos com papéis duplos, mais Jeremy Irons, como o diretor de cinema.
Como o que me faz lembrar de Lynch são cenas, a cena que mais me tocou  

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER
PLEASE DON'T READ IT IF YOU ARE A SPOILER-SENSITIVE PERSON 

foi aquela em que Laura Dern, ferida de morte, desaba na calçada da fama, no meio de duas mulheres, uma afro-americana e uma oriental, que avisam Laura placidamente que ela está morrendo e, a despeito disso, entabulam uma conversação envolvente sobre variados tópicos, não sem de vez em quando dedicar um pouco de cuidado à moribunda que vomita sangue e estrebucha no meio delas. A afro-americana inclusive fala palavras de conforto e acende a luz bruxuleante do isqueiro na frente da que está morrendo pouco antes de ela expirar. É a típica situação lynchniana, surreal e ao mesmo tempo desconcertante, por isso bonita. Essa cena se passa bem ao fim do filme, portanto, depois que os desistentes se foram. No jogo de paciência com o espectador, o mais fiel e mais resistente é recompensado com a cena mais surpreendente e refrescante do ano.
Não recomendo este filme para ninguém, nem tampouco quero defendê-lo, ou sugerir que quem abandonou o cinema não tinha motivos para isso. A graça do cinema de Lynch é justamente essa: cada um tire suas próprias conclusões. Se você foi ver este filme e odiou, isso não faz de você uma pessoa menos intelectual que a trintona gordinha e faceira e o filho magrinho e sisudo, que permaneceram até o fim dos créditos. E que créditos!
Aproveito o ensejo para dedicar aos leitores deste blog um 2008 tão cheio de surpresas e tão fora dos padrões lineares quanto Inland Empire.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

No vale das sombras

Paul Haggis, ao roteirizar Million Dollar Baby (2004), ganhou cacife para escrever e realizar Crash (2005). O filme surpreendeu e venceu o Oscar 2006. Agora Haggis reúne em O vale das sombras (In the valley of Elah, 2007) ninguém menos que Tommy Lee Jones, Susan Sarandon e Charlize Theron. De um elenco assim, não se espera menos que atuações estudadas e contidas, e é isso que temos. A cena com o diálogo ao telefone entre Lee Jones e Sarandon, com revelações sobre o paradeiro do filho, pode ser um bom exemplo do nível de competência desses atores. Tommy Lee Jones é Hank Deerfield, pai do soldado Mike (Jonathan Tucker), recém chegado da Guerra do Iraque. O filho não se comunica com a família e desaparece. Hank se despede da mulher Joan (Sarandon) e guia durante um dia inteiro até chegar à base militar em que o filho deveria estar. Uma cena emblemática para definir a personagem de Hank se passa nessa viagem. Num prédio à beira da estrada, ele nota a bandeira americana hasteada de cabeça para baixo. Um minuto depois, está ensinando a pessoa que havia hasteado a bandeira ao contrário – um estrangeiro – e explicando que hastear uma bandeira invertida significa que há algo errado com o país e que a nação precisa de ajuda. Com a bandeira hasteada do modo certo, segue viagem. Ao chegar na base, ninguém sabe dizer nada sobre onde está seu filho. Ele pede ajuda à investigadora Emily Sanders (Charlize Theron), que a princípio nega porque o caso envolve pessoal do exército.
O roteiro é cheio de detalhes bons, como o contato de Hank com um expert em mídia, que vai restaurando e enviando por e-mail os arquivos contidos no celular do filho Mike. Assim, o pai pode acompanhar um pouco da assustadora rotina do filho no Iraque. Cena digna de menção – e que dá título ao filme – é a em que Hank, após jantar na casa da investigadora, vai contar uma história para o filho dela. A história contada é a de Davi e Golias, passada no vale de Elah. É uma cena terna e bonita.
Em suma, um consagrado diretor, um elenco fenomenal, uma premissa interessante e um corpo esquartejado e queimado à beira de uma rodovia deveriam resultar sempre num ótimo filme. Mas não é o caso de O vale das sombras.
Há dois problemas que desvalorizam a película. O primeiro tem a ver com a incerteza de “gênero”. A partir de uma altura, o filme se transforma num ‘whodunnit’ meio capenga, e o norte do filme se perde. O mistério se desenvolve de um modo meio forçado e se precipita numa conclusão mal forjada. Mas o pior não é isso.
A qualidade de O vale das sombras é posta em xeque no momento em que se percebe que é um filme realizado nos mínimos detalhes para provar uma tese. Desde o começo, os truques de um roteirista experiente e talentoso são usados para conduzir o pensamento do espectador para um ponto de vista, que é o do próprio autor. Não há contraponto, não há margem para interpretações. Esse é o tipo de cinema mais odiável e raso, o cinema de manipulação, o cinema de Michael Moore. Não fosse tão maniqueísta, O vale das sombras poderia ser um ótimo filme.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Diretores e compositores

Parcerias duradouras entre imagem e música eternizaram muitos filmes. Alma gêmea do diretor, o compositor capta toda a carga emotiva da imagem e a traduz em som incidental, em ritmo insistente, em divina melodia.

As psicoses, o instinto assassino e as neuroses do cérebro humano. A curiosidade, o suspense, a vontade de ficar sabendo. O medo, o arrepio, o susto pulando da tela. A aventura, a espionagem, toda enrascada em que alguém pode se meter. Os cenários, os trens, as estátuas, todas perseguições pelas encruzilhadas do mundo. O toque refinado, o humor negro e sutil. Todas facadas, todos tiros, todos crimes. Tudo está em Hitchcock e Hermann.

Os intermináveis segundos antes do duelo. O forasteiro que vem ajudar os oprimidos. O cenário desértico, a barba por fazer, a rapidez no gatilho. Um pistoleiro de aluguel com escrúpulos. Um spaghetti cujo molho é o sangue de malfeitores. Os faroestes clássicos de Leone e Morricone.

As perversões da alma desnudas. Um mergulho ao subconsciente, às entranhas das dúvidas e das aspirações mais íntimas do ego. Personagens patéticos e dementes contracenam com gente normal e comum. Situações nonsense ou simples cenas de amor. O sadomasoquismo, a rebeldia, a loucura. As imagens nervosas de Lynch embaladas ao som celestial de Badalamenti.

O rompimento, a crítica, o homem em face a uma situação extrema. Um visionário numa ilha. Um repórter numa revolução. Um menino testemunha um crime. Um estudante sobe na mesa para homenagear o professor. A simbiose de "Oh, captains, my captains" Peter Weir e Maurice Jarre.

A obsessão, a luxúria, a arquitetura. O canibalismo, a tatuagem, a plasticidade. Uma profundeza irreal, uma falsa superficialidade. Um Shakespeare, um artesão de parque. Um menino cantando com voz de anjo. A viagem onírica de Greenaway e Nyman.

O sofrimento de criaturas inacabadas. A agonia de pessoas alijadas. Lendas e heróis, contos e vilões, estórias de fantasmas e seres imaginários. Cabelos que nos tapam os olhos, uma tesoura que nos faz ver. A fantasia mágica de Burton e Elfman.

Uma escada espiral descendo para o subterrâneo do coração. Um lugar onde o sol não pega, onde o inverno sempre impera. Quatro personagens com sonhos de paz e felicidade. Quatro caminhos que se separam e levam a um só fim: a degradação, a dependência, o escapismo, o vício. Futuros promissores que se despedaçam. Vidas aniquiladas, sonhos amputados. A catarse de Aronofsky e Mansell.

O cinema não seria o mesmo sem esses casamentos perfeitos.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Viagem a Darjeeling

The Darjeeling Limited (Viagem a Darjeeling, 2007) é o novo filme de Wes Anderson. Ter o próprio trabalho supervalorizado pode afetar o cérebro com facilidade; no caso de Anderson isso não acontece. Continua fazendo filmes como sempre fez: um tanto insossos, um tanto engraçados, um tanto prosaicos, um tanto geniais, um tanto pretensiosos, um tanto humildes. Conseguir reunir essas características por si só é fato digno de menção. Um espectador terá classificado de insossa a escolha de Anderson pelos atores de sempre para fazer mais um rail-road-movie na história do cinema; outro rebaterá que de insosso o filme não tem nada, muito antes pelo contrário: é divertido e além disso, road movies são fontes inesgotáveis. Alguém por exemplo terá achado pretensão o fato de um diretor ter inventado um 'curta-metragem' dirigido por ele próprio para abrir seu próprio filme, numa espécie de onanismo cinematográfico; outros terão achado prova de humildade a realização de um filme sem objetivo algum. Alguns terão achado prosaicas as situações criadas para demonstrar virtuosismo na mesa de edição, enquanto outro terá considerado genialidade a simulação de um curta que é na verdade um prólogo e uma jogada narrativa. Todos os raciocínios são defensáveis, e eu mesmo oscilo entre assumir um ou outro.
Sem dúvida, Viagem a Darjeeling não é um filme que aborrece. Natalie Portman nua em pelo em Paris, uma sensual indiana dizendo 'Não goza dentro' a um americano no banheiro do trem (cena que bem poderia ter como trilha sonora 'Meet me in the bathroom' dos Strokes), um resgate na correnteza e um encontro de três irmãos amalucados: isso pode ser tudo menos aborrecido.

Um ano após o falecimento do pai, Francis (Owen Wilson) convoca os dois manos Peter (Adrien Brody) e Jack (Jason Schwartzman) para uma jornada em busca da mãe (Angelica Huston) que abandonou tudo e virou missionária nos confins do subcontinente indiano. Lá, conhecem personagens locais como Rita (Amara Karan), a funcionária do trem, e o pai de três meninos de uma remota vila (Irrfan Khan). O contato com pessoas e culturas novas enriquece o espírito dos três norte-americanos, cuja bagagem consiste em pomposas malas herdadas do pai (de fabricação Louis Vitton, conforme os créditos fazem questão de frisar). Numa cena de flashback, o cineasta Barbet Schroeder faz uma ponta como o dono de uma oficina mecânica.

terça-feira, novembro 13, 2007

Planeta Terror



                                                                        
O texano Robert Rodriguez anunciou, em outubro de 2007, o fim do casamento de dezesseis anos com a produtora de cinema Elizabeth Avellan, com quem teve a filha Rhiannon e os filhos Racer, Rebel, Rocket e Rogue. A razão? Rose McGowan, a atriz que interpreta Cherry, a moça-metralhadora de Planeta Terror (Planet Terror, 2007). O longa de 93 minutos é, na verdade, parte do projeto Grindhouse, que inclui, além da película de Rodriguez, Death Proof, de Quentin Tarantino. O "programa duplo" imita as matinés da década de 70, em que os cinemas passavam vários filmes encordoados pelo preço de um. O público americano, porém, não entendeu muito bem a 'proposta', e muitos espectadores abandonaram a sessão ao término do primeiro filme. Isso fez com que a distribuição em outros países fosse feita separadamente.
A experiência de ver Planeta Terror inicia com a vinheta antes do trailer, com a classificação etária; a seguir, o aperitivo perfeito: o trailer de um filme que talvez muito provavelmente nunca será realizado, Machete, estrelando Danny Trejo, de Um drink no inferno. Então começa o 12º longa de Robert Rodriguez (desde que serviu de cobaia num teste de medicamentos contra colesterol para levantar dinheiro e filmar em 14 dias El mariachi - que em 1992 lhe deu prêmios nos festivais de Sundance e de Berlim -, o texano realizou, sucessivamente, Grande hotel, A balada do pistoleiro, Um drink no inferno, Prova final, Pequenos espiões, Pequenos espiões 2, Pequenos espiões 3, Era uma vez no México, Sin City e As aventuras de Sharkboy e Lavagirl). Nos créditos de abertura, nova brincadeira: em vez de 'Written and directed by...', aparece na tela 'Directed and written by...'. Essa inversão pode parecer desimportante, como tudo aliás nesse filme parece; porém diz muito sobre o clima de brincadeira que prevalece na película. Diga-se de passagem, para degustar uma experiência como Planeta Terror não apenas são requeridas do cidadão ou cidadã boa-vontade em 'entender o espírito da coisa' e boa dose de tolerância à morbidez e à falta de noção; é necessária, também, uma inabalável queda por cenas de gosto e de humor duvidosos. Esses são os pré-requisitos mínimos para usufruir das cenas grotescas e estapafúrdias de Planeta Terror.
A forasteira Tammy (Stacey Ferguson) chega na cidade; o carro dela estraga e a loiraça vai à rodovia escura pegar carona. A anestesista Dakota (Marley Shelton) e o marido, o médico psicopata Dr. Block (Josh Brolin), preparam-se para o que aparenta ser apenas mais uma noite
de plantão no hospital. 









 
                                                                                           O casal sai, não sem antes a loirinha agir de modo suspeito ao telefone, e não sem antes duas babás gêmeas - não menos psicopatas - chegarem para cuidar de Tony (Rebel Rodriguez). Cherry (Rose McGowan) é repreendida pelo patrão porque chora ao dançar; ela manda o patrão àquele lugar e sai na noite fria. J.T. (o sumido Jeff Fahey) é o dono do Bar B Q, e um obcecado por encontrar a receita do churrasco perfeito. Seu irmão, o xerife Hague (o sumido Michael Biehn), é o responsável por manter a tranquilidade da cidade; uma de suas preocupações é o encrenqueiro Wray (Freddy Rodriguez), ex-namorado de Cherry. A vida dessas personagens será afetada pelas patéticas ocorrências em uma base militar situada perto do local. Entre as peripatéticas participações especiais, Bruce Willis como o chefe dos infectados, Quentin Tarantino como o estuprador e Tom Savini (que fazia os efeitos especiais nos filmes de George Romero e em 1990 assinou a refilmagem de A noite dos mortos vivos) como Tolo, um dos ajudantes do xerife. Ame, odeie ou escreva uma resenha.