terça-feira, outubro 23, 2018

Venom



Tom Hardy (Mad Max 4) dá verossimilhança a este anti-herói dos quadrinhos. Marginalizado nas bandas desenhadas e agora no cinema, Venom passa no teste quando se leva em conta o público-alvo.

E qual é o público-alvo de Venom?

O público descompromissado que aprecia um misto de ficção científica e aventura realizado com liberdade criativa, orçamento classe A e um personagem com certo charme.

E qual é o charme de Venom?Resultado de imagem para venom lobster tank

Venom/Eddie Brock é gente como a gente. 

Perde o emprego, a namorada.

Torna-se um produto simbiótico que tem tudo para ser considerado um vilão, mas um vilão simpático, digamos assim.

A cena em que Hardy, acometido por sérios problemas orgânicos, constrange a ex-mulher Anne (Michelle Willliams) ao entrar no tanque das lagostas num restaurante pode estabelecer um paralelo com outras situações constrangedoras que muitos de nós, reles mortais, enfrentamos ao longo de nossa existência.

A propósito, de acordo com o relato do diretor Ruben Fleischer, foi de Hardy a ideia de entrar no tanque das lagostas.

O diretor Ruben Fleischer, que completa agora 4 filmes no currículo, desta vez me agradou mais do que em Zumbilândia. 

Nesta entrevista que contém spoilers, ele explica alguns detalhes sobre a realização do filme e declara que o objetivo foi "divertir e agradar a plateia".

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segunda-feira, outubro 22, 2018

Gosto de cereja (com alerta a pessoas spoilers-sensitivas)

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A bordo de sua Range Rover P38A, o sr. Badii percorre as vias urbanas em busca de alguém que se disponha a lhe prestar um serviço.

Primeiro,  ele tenta com o operário de uma construção. O moço se nega a entrar no carro, e, diante da insistência do sr. Badii, ameaça “quebrar a cara dele” se ele não for embora.

Na sequência, o sr. Badii dá carona a um jovem soldado de etnia curda. O moço aceita dar uma volta de carro antes de chegar ao quartel.
À medida que Badii se afasta da urbe e entra no meio rural, o soldado fica inquieto e pede para ser levado de volta. Badii continua e diz que o serviço será muito bem pago, o equivalente a seis meses de soldo por 10 minutos de trabalho.

Em meio à paisagem árida, estaciona à beira de uma estrada vicinal e tenta convencer o jovem a descer. Ele não concorda. Sr. Badii insiste e explica. Basta o rapaz ir até o local na manhã seguinte e chamar duas vezes pelo nome dele. Se ele não responder, é só jogar 20 pás cheias de terra para tapar a cova.

O soldado diz que não é coveiro e súbito foge espavorido.

O sr. Badii continua a tentativa de aliciar alguém. O próximo da lista é o vigia de uma pedreira, este de origem afegã. Ele tenta convencer o vigia a se ausentar do posto, mas ele não concorda.

Lá vai o sr. Badii de novo em sua Range Rover creme, cor que combina com a vegetação seca ao redor, e logo adiante oferece carona a um senhor que está na beira da estrada.

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E assim por diante.

A busca continua.

Estradas sinuosas e poeirentas serpenteiam em meio à vegetação seca.

Aqui e ali, uma árvore mantém o verdor de suas folhas.

Mas a cor deste filme é a cor de areia, a cor do deserto, em meio à qual a perua avança com seus dois ocupantes.

O motorista troca ideias com seus interlocutores, tentando explicar o seu intento, a sua decisão.

Um deles, um idoso taxidermista, procura demover o suicida de suas ideias, falando sobre as coisas bonitas da vida.

O ponto de vista da câmera ora é o do caroneiro, ora é o do motorista. Mas a câmera raramente sai do interior do veículo. As tomadas são longas, os diálogos espaçados. A câmera se detém nas expressões faciais dos atores, nem sempre decifráveis.

Gosto de cereja é o road movie mais parado da história da cinema.

O destino do sr. Badii não se afasta muito do burburinho da cidade. Um casal de turistas pede para ele tirar uma foto deles.

Quando o taxidermista do Museu de História Natural concorda em cumprir a missão, o sr. Badii terá de tomar uma decisão.

Na noite iluminada por relâmpagos, um táxi conduz o sr. Badii ao local. Ele fica contemplando as luzes da cidade, acende um cigarro.

Os sons da madrugada, o prenúncio da tempestade.

O homem se deita na cova e fita a lua em meio às nuvens negras. Será o fim para o sr. Badii? 

O filme foi covencedor da Palma de Ouro de 1997, junto com A enguia, de Shohei Imamura.

Roger Ebert esteve no Festival e fez uma resenha bastante desfavorável.

A resenha foi respondida por Jonathan Rosenbaum, um ocidental que procura entender a complexa obra de Kiarostami.

Outro crítico, Martin Purvis, em seu blog The Film Sufi, assevera que "In fact the film appears to appeal primarily to those viewers whose experience and appreciation of film is not direct and intuitive, but must always be mediated by intellectual reflection. Indeed to a certain extent the film illustrates the difference between the aesthetic qualities of film and text."
Por sua vez, Rosenbaum,  nesta entrevista, comenta a polêmica entre ele e Ebert, e faz uma análise elogiosa sobre a filmografia do controverso diretor iraniano falecido em 2016.
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Thunderbolt




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Com direção de ninguém menos que William Wyler e John Sturges, Thunderbolt é um documentário de 41 minutos sobre a atuação de um esquadrão de aviões na campanha da Segunda Guerra Mundial.

Os Thunderbolts tiveram uma grande importância para cumprir os objetivos dos aliados na Itália.

O ator James Stewart faz a introdução lendo um telegrama.O roteiro conta o dia a dia de uma companhia aérea baseada na Córsega, que apoiava a Infantaria em Anzio e Cassino, nos arredores de Roma.Os ataques aéreos visavam a retaguarda das linhas inimigas, para cortar o suprimento de combustível, alimentos, munições e reforços dos alemães.
Os caças-bombardeiros Thunderbolt decolavam da base, entravam em formação e depois se espalhavam para cumprir as missões. As missões incluíam destruir estradas, ferrovias, trens, pontes, viadutos.

O caça-bombardeiro P-47 Thunderbolt tinha um
 homem, um motor, uma bomba em cada asa e combustível extra.

Os diretores instalaram câmeras nas asas, no trem de aterrissagem, na cabine, perto das armas.



Os aviadores, na faixa dos 20 e poucos
 anos, já tinham patentes como capitão, major, etc.

Antes de partir, cinco minutos protocolares para pensar, meditar. Um tempo de concentração e, quem sabe, uma oração, antes de decolar para aquela que poderia ser a sua última

missão.

Foguetes, armas, bombas de 200 kg,  câmeras, o Thunderbolt é uma aeronave pesada para decolar.

Os aviões decolam de dois em dois.

 A edição das imagens é nada menos
 do que fantástica.

O modo como os aviões cumprem sua
 missão não é menos surpreendente.

O trajeto em perfeita formação, os
 caças seguindo o líder.

 Parece que estamos num videogame de
 primeira pessoa que imita a cabine de um caça-bombardeiro.

 Súbito abaixamos o nariz do avião e
 disparamos a metralhadora, os foguetes. nivelamos, soltamos as bombas.

O documentário assinado por dois grandes
 cineastas revela que a rotina desses aviadores era
 trabalhosa, mas eles dispunham de condições de trabalho.

 Tinham tempo de lazer, direito à
 higiene.

 Coisa que os soldados da Primeira
 Guerra Mundial não tiveram, ao menos na campanha de Gallipoli.

Os aviões decolavam e quase sempre
 retornavam.

Um deles sofre uma queda a 200 metros
 da base.

O piloto morre carbonizado.

 Thunderbolt é um filme rápido
que vale a pensa ser visto por sua importância histórica, tanto sob o prisma do cinema quanto da Segunda Guerra.

A propósito, existe disponível em serviço de streaming um interessante minisseriado chamado 
Five Came Back, que trata justamente do trabalho de cinco renomados diretores (John Ford, Frank Capra, John Huston, George Stevens e William Wyler) durante a Segunda Guerra Mundial. 

segunda-feira, outubro 08, 2018

Okja

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Bong Joon-ho é o nome dele. Bong é o sobrenome, pois se trata de um diretor coreano. Está construindo uma filmografia respeitável e interessante. Em O Hospedeiro (2006), abordou as consequências de mutações genéticas que transformaram um bagre numa criatura perigosa, em uma cidade banhada por um rio. Em 2009, lançou Mother - a busca pela verdade, um drama que virou cult. Expresso do amanhã (Snowpiercer, 2013) mostra um trem futurista com divisões sociais e é seu primeiro filme falado em inglês. 

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Okja (2017) é uma inventiva fábula sobre a amizade de uma menina e sua porca-gigante. O animal faz parte de uma experiência científica da Mirando, empresa que enviou 26 espécimes para fazendas do mundo todo. Okja tem DNA suíno, mas cresceu para ficar do tamanho de um hipopótamo tamanho família. O inteligente e vivaz animal é criado pelo avô de Mikha, com quem a menina vive porque se tornou órfã. Sem irmãos, Mikha tem em Okja sua principal companhia na rotina diária da montanhosa fazenda. Mas a empresa vai escolher o melhor espécime e levá-lo a Nova York para promover seu novo produto alimentício. Quando Okja é escolhida e a separação é inevitável, Mikha viverá uma saga na desesperada tentativa de resgatar a amiga.

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À primeira vista, não parece uma ideia muito original a do roteiro de Bong. Mas ao longo do filme são muitas as surpresas. Paul Dano, Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal estão muito bem, mas quem rouba a cena é a menina Ahn Seo-hyun, que contracena com a criatura muito bem desenvolvida pela equipe de efeitos especiais.



Assisti ao filme na companhia de meus dois filhos, de 11 e 6 anos de idade, e os dois curtiram as várias cenas de ação, como a que Mikha vai cair no penhasco, o resgate rodoviário de Okja pela FLA (Frente de Libertação dos Animais) e a contundente sequência final, entre outras.

Com um elenco de primeira categoria e boas ideias, Okja entretém e, de quebra, provoca discussões filosóficas e ambientais.

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terça-feira, outubro 02, 2018

Eu não sou um homem fácil (com spoilers)

Em 2014, Eléonore Pourriat realizou um curta-metragem chamado Maioria oprimida. Nesta entrevista, a diretora francesa explica as reações que o curta provocou, culminando com sua contratação pela Netflix. O curta-metragem está disponível no YouTube, com legendas em inglês:




O longa-metragem Eu não sou um homem fácil aprofunda as ideias lançadas no curta-metragem e tenta dar umas pitadas de humor na premissa. 

É um filme que está sendo promovido na base do "boca a boca", ou seja, está sendo muito comentado por radialistas e usuários de plataformas digitais.

Disso resulta a necessidade de "conferir" para ver se é muito barulho por nada ou se existe algo diferente ali.

A brincadeira de Eu não sou um homem fácil é fazer uma bem-humorada crítica ao machismo, coisa que o curta-metragem havia conseguido com bastante contundência. Apenas o tom do curta é mais sério, e o humor fica em segundo plano.  
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A diretora-roteirista Eléonore Pourriat (que interpreta a psicanalista no filme) teve de enfrentar o desafio de inserir humor e drama nesse universo de troca de papéis.

Após bater a cabeça num poste e perder a consciência, um solteiro que dá em cima de muitas mulheres desperta num mundo em que os homens são oprimidos sexualmente pelas mulheres.

Essa é outra diferença em relação ao curta, que provoca perplexidade justamente por não explicar a "causa" da inversão de papéis na sociedade.

Nesse mundo alternativo, são as mulheres que correm sem camisa, os homens que são obrigados a transar em posição passiva sem alcançar o orgasmo e engolir tudo que é tipo de sapo para "agradar" as mulheres.

A premissa é a genialidade da coisa, mas será que uma boa premissa resulta em um bom filme de 98 minutos? That's the question.

Sei que é complicado e arriscado criticar este filme. Por isso, antes de eu fazer o meu comentário, vou citar o de Fernanda Brito do Beco Literário: Eu não sou um homem fácil traz o choque para iniciar essa reflexão e nos proporciona momentos de riso com a tão clichê dificuldade masculina de se adaptar ao mundo feminino, porém, não pode ser levado como uma cartilha, pois, em um mundo igualitário, nenhum dos lados deve ser oprimido.

E agora, uma das razões pelas quais ele não funcionou completamente para mim, é a de que

SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER

SPOILER QUE AS FEMINISTAS

PODERÃO TACHAR

DE

MACHISTA,

MASCULISTA E

ANTIFEMINISTA

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o romance dos dois protagonistas não passou naturalidade.

Em outras palavras, eu não consegui desenvolver uma empatia com os personagens (nem com o homem dominado, nem a com a mulher dominadora), não me identifiquei com nenhuma dessas pessoas estereotipadas ao contrário, não fiquei torcendo para elas "ficarem juntas". Em suma, o amor do casal não me convenceu.

E, no fim das contas, Eu não sou um homem fácil é uma história de amor, apenas com os papéis invertidos. 

Claro que a crítica social eleva a categoria do filme e permeia todas as situações.

Um detalhe que considerei espirituoso foi a tomada da estante, em que até os clássicos da literatura mudaram de nome: Ratos e mulheres, Monsieur Bovary.

Por outro lado, acredito que a experiência de assistir ao longa-metragem de Eléonore Pourriat foi válida para mim, como cinéfilo inveterado e ortodoxo.

Foi um exercício de humildade, de dar o braço a torcer aos sinais dos novos tempos. 

Um modo de reconhecer a qualidade e a importância dos filmes realizados por iniciativa criativa das plataformas digitais, para o consumo fora das salas escuras do cinema.

Por mais que eu tenha soltado um profundo suspiro ao escrever a frase anterior, é preciso acompanhar as mudanças e tentar aproveitar o que há de artístico nesse processo.



domingo, setembro 30, 2018

Gallipoli (2005)

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Este post é sobre o documentário realizado pelo turco Tolga Örnek e lançado em 2005. Existe um filme homônimo do diretor australiano Peter Weir, lançado em 1981.

Por considerar o segundo um dos melhores filmes de todos os tempos, naturalmente fui atraído a colocar o primeiro em "Minha lista", e você deve saber de qual serviço de streaming eu estou falando.


É um serviço de streaming que após você ver o filme, tem duas opções para classificar. Você se sente um imperador romano na arena: polegar para baixo, ou polegar para cima.

Isso já é um bom demonstrativo do tipo de mentalidade das pessoas que comandam esse serviço.

Maniqueisticamente tentam obter "dados" simplórios sobre as preferências dos usuários. Consideram-se sábios administradores dos "Big Data" coletados pelas estatísticas de seus desavisados assinantes, felizes em classificar simploriamente os filmes como "gostei" e "não gostei".


Voltarei a tratar sobre esse assunto na resenha de "What the Waters Left Behind", um trash argentino a que assisti recentemente.

O documentário de Örnek baseia-se principalmente em correspondências dos soldados e oficiais que participaram da campanha de Gallipoli.



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O mais interessante é que os dois "lados" da guerra são igualmente representados. Os turcos, que apoiam a Alemanha, têm o seu território invadido pelas forças aliadas. Australianos e neozelandeses, aliados dos britânicos, são expostos a batalhas insensatas em um país de terreno inóspito.

A pesquisa sobre as condições insalubres das trincheiras é estarrecedora. Fotos dos combatentes e dos campos de batalha são utilizadas como fio condutor, trabalhadas em tecnologia tridimensional. Algumas situações são recriadas e filmagens dos locais completam as imagens narradas por Sam Neill, Jeremy Irons, Zafer Ergin e Demetri Goritsas.
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A grande qualidade do filme turco é "não puxar a brasa para o seu assado". Uma das provas da imparcialidade é que o documentário Gallipoli recebeu uma honraria, a Medalha da Ordem da Austrália, na categoria divisão geral, por serviços dignos de reconhecimento especial.

Um drink no inferno (From Dusk Till Dawn, 1996)

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No post anterior, você ficou sabendo que Tom Savini é um especialista em efeitos especiais que colaborou nos filmes de George Romero. E também que ele dirigiu a refilmagem de A noite dos mortos-vivos. Pois bem, agora, mais um acréscimo para a sua cultura zumbi-vampiresca: Tom Savini atua no elenco de From Dusk Till Dawn, o cult de 1996 dirigido por Robert Rodriguez.


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Tom Savini é Sex Machine, personagem de Um drink no inferno


Savini é Sex Machine, um dos frequentadores do Titty Twister, "o meu tipo de lugar", nas palavras de Seth Gecko. Ou seja, o inferninho onde se passa a segunda parte do filme.

A primeira parte de Um drink no inferno é um road movie em que dois irmãos fogem da polícia. O destino deles se cruza com uma família que viaja num motor-home. Os bandidos sequestram a família para tentar passar a fronteira e entrar no México, onde têm um encontro marcado.
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Harvey Keitel, Fred Williamson, George Clooney e Tom Savini














                                                                                 
 A segunda parte é uma espécie de O anjo exterminador versão vampiresca. Explico. No clássico de Buñuel, um grupo de burgueses não consegue sair de uma casa. No cult de Rodriguez, as pessoas também não conseguem sair do Titty Twister. Claro que a sensação de claustrofobia é maior no filme do espanhol. Rodriguez é bem mais visual e menos psicológico.


A diversão de Um drink no inferno está nos diálogos cortantes de Tarantino e no humor negro das situações. O texano Robert Rodriguez dirige o roteiro de Quentin Tarantino com um elenco que fez a diferença: George Clooney (o ladrão de bancos Seth Gecko), Harvey Keitel (o ex-pastor Jacob Fuller) e Juliette Lewis (Katherine Fuller) sustentam os personagens principais.


Danny Trejo, o protagonista de Machete

Entre os coadjuvantes, temos Quentin Tarantino (na pele de Richie Gecko, o perturbado irmão de Seth), Salma Hayek (Santanico Pandemonium), Danny Trejo (Razor Charlie) e Tom Savini (o motociclista Sex Machine).

A filmografia de Rodriguez talvez seja uma das mais irregulares e "ecléticas" do cinema. Mescla filmes com baixo orçamento, como El Mariachi;  infantojuvenis (a série Pequenos espiões, entre outros); ficção científica (Prova final); filmes trash (os dois Machete); parcerias com Frank Miller (os dois Sin City) e parcerias com Quentin Tarantino (Grindhouse).

Como já dissemos, From Dusk Till Dawn entra nesta última categoria, pois Tarantino, além de escrever o roteiro, contribuiu (?) como ator, interpretando o demente facínora Richie Gecko.

Um drink no inferno é mais um filme disponível nos serviços de streaming e que "vale a pena ver de novo", em especial para mostrar a alguém que ainda não viu.




sábado, setembro 29, 2018

A noite dos mortos-vivos (1990)


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Este post é uma homenagem póstuma ao legado de George Romero (1940-2017), o diretor estadunidense que sofreu críticas severas ao lançar, em 1968, um filme em preto e branco com uma temática mórbida: um surto inexplicável provoca a reanimação de cadáveres humanos.

A noite dos mortos-vivos (1968) tornou-se um filme cult por delinear as regras de um universo que seria muito explorado nas décadas seguintes. Algumas dessas regras (zumbis são seres lentos apenas detidos com uma bala ou uma estocada na cabeça) foram sendo desafiadas com o tempo, mas todos que abordaram esse mundo tiveram de beber na fonte e dar o braço a torcer: Romero foi o precursor. O sucesso no meio underground possibilitou que Romero realizasse a sua famosa trilogia:

A noite dos mortos-vivos (1968)
Madrugada dos mortos (1978)
Dia dos mortos (1985)

que se transformou em quadrilogia em 2005 com

Terra dos mortos.

Este post faz uma homenagem à trajetória de George Romero focalizando a refilmagem A noite dos mortos-vivos, lançada em 1990.

Com a intenção de dar uma nova roupagem ao filme de 1968, a refilmagem foi dirigida por Tom Savini e teve produção e roteiro de George Romero.

Até nisso Romero era um visionário: era um homem de negócios.

Não abria mão de fazer um comentário social em seus filmes de terror, mas sem perder de vista a lucratividade.

As produções eram relativamente baratas, tendo como principal investimento os efeitos especiais de Tom Savini.

Assim, quando decidiu refilmar seu clássico, Romero, na condição de produtor, tomou a decisão pragmática de autorizar Savini a acumular funções e receber o crédito de diretor.
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Elenco? Ninguém famoso. Atores e atrizes relativamente desconhecidos. A noite dos mortos-vivos (1990) traz como dupla principal Tony Todd (que depois encarnaria Candy Man) e Patricia Tallman, que trabalhou na série Jornada nas Estrelas como atriz e dublê.

Roteiro? Custo praticamente zero. Só pegou o seu próprio roteiro de 1968 e deu uma atualizada, aumentando a importância da heroína Barbara. A linha narrativa é basicamente a mesma.

Algumas cenas são idênticas.

Os cenários evocam aqueles do filme do final da década de 1960, apenas com a diferença que, 22 anos depois, estão coloridos, afinal de contas, as novas gerações geralmente abominam filmes em P&B.

Assistir novamente à refilmagem permite chegar a algumas conclusões.
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O roteiro tem uns probleminhas na primeira parte, pecando pela opção de "contar" em vez de "mostrar", em especial, quando Ben começa a narrar os fatos ocorridos antes de ele se refugiar na emblemática casa.

No terço final o filme engrena e a refilmagem traz algumas inovações, principalmente na conclusão.

Em suma, A noite dos mortos-vivos (1990), dirigido por Tom Savini e estrelado por Tony Todd, é um bom complemento à quadrilogia de George Romero
.

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sábado, setembro 15, 2018

Raw



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Raw é um filme sobre laços, distúrbios e repressões. Filmes são resultados do esforço de muita gente, mas quem leva o mérito artístico são os diretores. Diretores são seres que dominam a arte de escrever roteiros e transformá-los em produtos para serem veiculados em festivais e no circuito comercial. Por circuito comercial entende-se um leque de mídias que incluem salas de cinema, dvds, blu-rays e serviços de streaming. Serviços de streaming são uma espécie de locadora de filmes que cobra uma mensalidade para oferecer títulos escolhidos sem critério aparente. 


Raw é um filme sobre transes, compulsões e transtornos. Filmes são uma mistura de arte com entretenimento que cada pessoa consome por motivos próprios. Motivos são tudo aquilo que levam algo a acontecer ou uma pessoa a cometer os seus atos. Atos são tudo aquilo que as pessoas fazem com ou sem motivo aparente.  





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Raw é um filme dirigido pela francesa Julia Ducournau, uma loira articulada que gosta de humor negro e afirma que Raw não é um filme de terror no sentido de assustar, mas uma mescla de drama, comédia e "body horror". Um dos clássicos de body horror para Julia Ducournau é Fome animal de Peter Jackson. Fome é uma sensação corporal comandada por uma série de substâncias químicas que provocam a vontade de ingerir alimentos. Vontade é aquilo que nos move a querer assistir a um filme com sinopse interessante.

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Sinopse é um texto técnico feito para resumir um filme contando elementos do roteiro, mas sem cometer spoilers. Spoilers são informações colocadas em sinopses, resenhas ou críticas escritas por pessoas loucas para cometerem spoilers. Eu não me considero uma pessoa louca para cometer spoiler. Considerar-se é um verbo meio relativo que depende de como a pessoa se enxerga perante o mundo, e, portanto, carrega uma boa dose de subjetividade. 

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Uma boa dose de subjetividade é o que os críticos de cinema tentam esconder com textos técnicos que contêm uma sinopse e uma análise sobre a qualidade geral do filme. Uma análise sobre a qualidade geral de Raw poderia ser a de que é um filme que provoca reações sensoriais da plateia passíveis de serem classificadas na categoria de repulsa e incompreensão.

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Em se tratando de cinema, incompreensão é algo muito fácil de acontecer, pois existe um descompasso entre a intenção do diretor e a intenção do espectador. Até mesmo quando a pessoa que se acha inteligente declara ter "gostado" do filme, ao formular perguntas para o(a) cineasta revela não ter entendido as intenções dele(a), ou ter entendido de forma diametralmente oposta. É o que mostra esta entrevista com Julia Ducournau:



A propósito, loiras são seres humanos do sexo feminino cuja cabeleira tem fios claros ou dourados. Nenhum cientista comprovou que a coloração dos fios de cabelo tem relação com o QI da pessoa, apesar de no Brasil existir um rótulo que discrimina as loiras. Discriminar é algo típico de quem não tem uma característica e quer sentir-se superior em relação às pessoas que têm aquela característica.

Características são qualidades inerentes ou adquiridas, atribuídas a seres inanimados ou vivos, a produtos ou obras de arte. A característica mais proeminente de Raw é suscitar uma série de pensamentos aparentemente desconexos conhecida como fluxo de consciência. O romance Ulysses supostamente seria um exemplo desse jorro incessante de ideias que se encadeiam de modo não linear.

Linear é quando a história tem começo, meio e fim, mas o fim pode ser aberto, ou seja, deixar elementos sem resolução. Nesse sentido Raw é um filme linear. Tem começo, meio e fim. 

Fim é quando você percebe que um filme ou um texto está prestes a acabar. Fim também pode ser sinônimo de finalidade. Mas se tudo aquilo que você viu naqueles 90 minutos terminar no fim do filme, o filme realmente não teve uma finalidade. 

Filmes com finalidade não têm fim.

Textos sem finalidade, sim.

quinta-feira, setembro 13, 2018

Ilha dos cachorros


O novo filme de Wes Anderson foi realizado com a técnica de stop-motion. No Brasil, foi veiculado nos cinemas em cópias legendadas. Como diz Beatriz Fialho na Folha, não se trata de uma animação infantil, e sim de uma "alegoria bem-humorada de problemas sociopolíticos".

Nas férias de julho, eu fui assistir ao filme em companhia de meu filho de 10 anos. Ele é um menino que gosta de comer sushi e de ler mangás do Yokai-Watch, por isso, tem um apreço especial pela cultura do Japão.



A história de Ilha dos cachorros se passa em 2038 na terra do sol nascente. Todos os cachorros de uma cidade são exilados em uma ilha, inclusive Spots, o cãozinho de Atari.

O garoto decide resgatar o seu fiel amigo e vai até a ilha a bordo de um avião roubado. Lá conhece o rosnador Chefe, que passa a ajudá-lo na tarefa de procurar Spots.

Wes Anderson é um cineasta da estirpe de David Lynch e outros, que realizam poucos, mas significativos filmes. Ilha dos cachorros é apenas seu nono longa-metragem de uma carreira que inclui Os excêntricos Tenembaum, Viagem a Darjeeling e Moonrise Kingdom.

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Um dos temas preferidos de Anderson é a família, com seus valores e percalços. O diretor gosta de abordar e investigar os problemas familiares, ou esmiuçar grupos que se transformam numa "grande família". Vide Grande Hotel Budapeste e O fantástico Sr. Raposo. Em Ilha dos cachorros, as relações entre os cães da ilha e o menino Atari acabam se desenvolvendo para criar laços.

Ilha dos cachorros tem uma acidez permanente que impede o espectador de achar algo "cute" ou "bonitinho". O cinema de Anderson não é condescendente com a plateia. Assim, eu espero que meu filho sem se dar conta tenha dado um passo para moldar um olhar cinéfilo capaz de apreciar diferentes e ousadas manifestações artísticas.

Um intertexto inusitado: o gaúcho Jorge Furtado realizou em 1989 Ilha das flores. Aqui você encontra o texto do curta-metragem, que você pode conferir abaixo:



quarta-feira, setembro 12, 2018

O Babadook

O segundo filme de Jennifer Kent, The Nightingale (2018), acaba de receber dois prêmios no Festival de Veneza: o Special Jury Prize e o Marcello Mastroianni Award for Young Performer (pela atuação do jovem Baykali Ganambarr). Durante uma das sessões, um jornalista insultou a diretora.

Mas o assunto deste texto é o primeiro filme da australiana que aprendeu com Lars von Trier a importância de ser teimosa: The Babadook (2014).


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Reza a lenda que, após desiludir-se com a carreira de atriz, Jennifer Kent ofereceu-se para participar do staff do diretor dinamarquês nas filmagens de Dogville, e conquistou o cargo de assistente do diretor. Reza a lenda que o principal aprendizado de Jennifer no estágio foi a importância da teimosia.

E depois de muita persistência, conseguiu realizar o primeiro longa-metragem, inspirado num curta de sua autoria. The Babadook, produzido pela Causeway Films, foi divulgado em mais de 70 festivais e aclamado em muitos deles, como Sitges e Sundance.

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Com um elenco mínimo e cenários intimistas (nada a ver com o estereótipo dos filmes australianos), Jennifer Kent faz o espectador se embrenhar na assustadora história de Samuel (Noah Wiseman), menino de 6 anos que carrega consigo a culpa de ter nascido no dia da morte do pai, falecido enquanto levava a esposa à maternidade.

A mãe de Samuel, Amelia (Essie Davis), isolou-se no luto pela perda do marido, concentrando-se na rotina diária de criar o filho e trabalhar na casa geriátrica, praticamente sem vida social, e uma vida sexual (?) típica de uma pessoa solitária.

O cachorrinho de Samuel, a vizinha Gracie Roach (Barbara West), simpática anciã que às vezes cuida do garoto, a irmã de Amelia, a priminha de Samuel, o colega de Amelia na casa geriátrica e Oscar Vanek, o pai de Samuel que morreu há 6 anos e cujos pertences são guardados no porão da casa, completam o quadro de personagens deste horror gótico.

O roteiro é muito bem construído e na parte inicial apresenta Amelia como uma mãe dedicada e abnegada, que abriu mão da vida pessoal em prol de criar o filho. Apesar dos esforços da mãe, o menino Samuel, por sua vez, é problemático, obcecado em armas e violento na escola e na interação com outras crianças.

Amelia enfrenta a situação com estoicismo até que o filho começa a enxergar uma criatura chamada Babadook, personagem de um livro que surge misteriosamente em meio aos demais.

A história progride até em torno da metade do filme como um drama sobre perda, dificuldades para criar os filhos, medos inerentes à infância, etc.

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Daí em diante há uma reviravolta de tom e o foco no menino dá espaço para o foco na mãe. O filme de Jennifer Kent se torna um terror hardcore, daqueles de "scare the shit out of" até do mais corajoso espectador.

O forte de O Babadook é explorar ao máximo o tênue limite entre o que é delírio e o que é sobrenatural. À medida que a transformação de Amelia vai se consolidando, a fragilidade da situação de Samuel se escancara, e caberá ao espectador avaliar quem são os verdadeiros monstros da história.

Ridiculamente o filme não foi lançado nos cinemas e inexiste no Brasil em dvd e Blu-ray. Para ter acesso a algumas preciosidades assim, a alternativa do cinéfilo relutante é engolir em seco e aceitar as limitações patéticas dos serviços de streaming. 


terça-feira, setembro 11, 2018

O ataque dos vermes malditos

O diretor Ron Underwood começou na tevê e estreou no cinema com Tremors (1990), que em Portugal recebeu o título de Palpitações.  Misto de filme B, trash e terrir, O ataque dos vermes malditos atraiu um séquito de fãs que alimentou uma demanda por 5 continuações em longa-metragens e mais uma série televisiva. Disso tudo resultou que o filme foi alçado à inesperada condição de "cult".Resultado de imagem para o ataque dos vermes malditos

O ataque dos vermes malditos atualmente está disponível no catálogo da Netflix. Traz Fred Ward e Kevin Bacon como Earl e Val, a dupla de faz-tudos do pequeno vilarejo  de Perfection, Nevada. De alambradores a manejadores do lixo, incluindo a função menos nobre de drenar poços negros, os nossos heróis sobrevivem de um biscate em outro na inóspita paisagem do novo Oeste.

Rhonda (Finn Carter), uma estudante universitária, faz uma pesquisa sismográfica nas terras locais, e pergunta aos dois se sabem de algo que pode estar causando registros de tremores sísmicos nas redondezas.

As coisas começam a ficar bizarras quando um morador local é encontrado morto por desidratação no alto de um poste de luz. 

Logo tudo se precipita e ataques sangrentos começam a se intensificar, deixando os poucos moradores em polvorosa.

Alguns fatos são descobertos: as criaturas assassinas locomovem-se no subsolo, são cegas e se orientam pelas vibrações e sons das vítimas em potencial.

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Uma das coisas legais de Tremors é que as criaturas (batizadas de "graboids" por Walter Chang, o dono da mercearia onde o grupo de sobreviventes se refugia) são feitas em escala real, de um tipo de espuma. 

O ataque dos vermes malditos mescla ação, humor e ironia com efeitos especiais um tanto toscos, mas eficazes. Uma penca de personagens divertidos, incluindo os Gummer, um casal viciado em armas, completa a lista de ingredientes que explica por que o sucesso de O ataque dos vermes malditos resiste ao tempo.

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Uma palavrinha sobre a trajetória de Ron Underwood, o diretor: o auge de sua carreira no cinema aconteceu nos anos 90, em que realizou também Amigos, sempre amigos (1993) e Poderoso Joe (1998). Gradativamente foi perdendo o fôlego nessa competitiva indústria e retornou às origens, firmando-se como diretor de episódios para múltiplos seriados de tevê. 

domingo, setembro 09, 2018

Alfa

Com a fotografia esplendorosa ideal para IMAX 3-D, Alfa conta a história de Keda (Kodi Smit-McPhee), que durante uma caçada da tribo é dado como morto após ser jogado num penhasco por um bisão.
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Relutante, o chefe Tau (Jóhannes Haukur Jóhannesson), pai do adolescente, volta à tribo com a difícil missão de contar a tragédia para Rho (Natassia Malthe), a mãe do rapaz. O filme acompanha a saga do jovem em sua tentativa de voltar para casa em meio a perigos e intempéries.
           Com direção de Albert Hughes, que junto com o irmão gêmeo Allen assinou filmes importantes como Menace II Society e From Hell, Alfa pertence à estirpe de filmes sobre a relação ser humano e natureza, como, por exemplo, O urso, de Jean-Jacques Annaud. Outra característica que Alfa compartilha com O urso (1988) é o número de tomadas com pontos de vista originais e surpreendentes.

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Alfa também nos remete obviamente a outros filmes com foco na pré-história, como Guerra do fogo (1981, também de Annaud) e 10.000 a.C.
Alguém poderia afirmar que Alfa também estabelece um intertexto com Dirkie, perdido no deserto. Nos dois filmes, hienas perseguem os respectivos protagonistas. Dirkie fica perdido sob o sol escaldante do deserto, com a companhia de seu cãozinho, e vaga pelas dunas intermináveis na esperança de reencontrar o seu pai. O objetivo de Keda também é rever o pai, apenas o cenário é o gelo, e o bicho que o acompanha não é um cachorro. 
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Ao retratar a amizade de Keda e um lobo, Alfa se enquadra em mais uma ampla categoria ou “gênero” de filmes: aqueles que abordam esse estranho e forte vínculo que une seres humanos e alguns animais.

Por fim, o filme também me fez recordar uma canção do U2, A sort of homecoming, que seria uma boa trilha sonora para a saga de Keda em busca do retorno ao lar:

Uma curiosidade: Alfa, o fiel amigo de Keda, é interpretado por Chuck, que pertence a uma raça nova híbrida, o cão lobo checoslovaco, desenvolvida por meio do cruzamento de pastor-alemão com lobos.
Com todos esses ingredientes, não é à toa que Alfa mereceu três estrelas no site do Roger Ebert e torna-se um programa interessante para fazer com a família. Conferir as aventuras de Keda e sua amizade com Alfa pode ser um ponto de partida para discussões sobre história e respeito à natureza.