sexta-feira, março 13, 2020

Raridades da Zilvia: Aeroporto

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Encerrando a série de 4 posts em homenagem às bravas locadoras que ainda resistem em pleno 2020, nada melhor que um belo exemplo de "cinema-catástrofe" à moda antiga: Aeroporto, o filme dirigido por George Seaton lançado em 1970, com Burt Lancaster liderando o elenco.

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Com roteiro mais bem trabalhado que Inferno na torre, outro filme desta série de posts, Aeroporto revela uma série de meandros que envolvem a rotina de um gestor de aeroporto, no caso, Mel Bakersfeld (Burt Lancaster).

Burt Lancaster and George Kennedy in Airport (1970)

O alívio cômico é por conta de Helen Hayes, a velhinha especializada em embarcar clandestinamente em voos internacionais.

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Cada filme espelha as preocupações da época. O começo dos anos 70 foi marcado por filmes que mostram a realidade periclitante dos relacionamentos. Em Aeroporto as tramas humanas que permeiam a história principal (a de um homem desesperado que faz seguro de vida e embarca num voo para Roma com a firme intenção de derrubar o avião com uma bomba caseira) envolvem a fragilidade do matrimônio, mostrando nada menos que a iminência de dois relacionamentos extraconjugais.

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O veterano roteirista e diretor George Seaton, cuja obra-prima foi De ilusão também se vive (1947, pelo qual ganhou Oscar de Melhor Roteiro), conduz Aeroporto de modo cirúrgico, mas naquele ritmo próprio da época, nada a ver com os filmes de ação "vertiginosos" e "frenéticos" de hoje.

Se você aprecia bons diálogos e a construção dos personagens, não perca tempo e embarque nesse voo. Disponível nas melhores locadoras de sua cidade (em Porto Alegre, na E o vídeo levou; em Passo Fundo, na Zílvia).
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POSTS DA SÉRIE "RARIDADES DA ZÍLVIA":

1. O cão dos Baskervilles.
2. Arizona nunca mais.
3. Inferno na torre.
4. Aeroporto.



domingo, março 08, 2020

O homem invisível


O homem invisível de Leigh Whannell transforma Adrian Griffin, o clássico, multifacetado e repleto de conflitos personagem da literatura numa figura rasa e previsível.

Essa é a maior heresia do filme cuja história se concentra em acompanhar os passos da sem carisma Cecilia, mulher que foge do marido e pensa estar sendo perseguida por ele. 

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"Aclamada" entre os críticos de plantão (que provavelmente jamais pegaram o livro de H. G. Wells nas mãos), a nova roupagem de O homem invisível não explora a complexidade de dramas enfrentados pelo Griffin original.



A pegada "feminista" do filme contribui para o reducionismo patético da psicologia daquele que deveria ser o personagem mais aprofundado pela história, mas acaba sendo mera marionete das intenções canhestras dos roteiristas.

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Foram necessários mais de 70 minutos para que o primeiro diálogo inteligente acontecesse, e ele se dá durante o jantar entre as irmãs Emily (Harriet Dyer) e Cecilia (Elisabeth Moss) num restaurante chique. Incrivelmente as frases que Emily diz para o garçom são as melhores do filme.

A sessão se arrastava, e pouco tempo depois, em pleno "clímax" do filme, uma família inteira debandou do cinema, em protesto por ter sido enganada. Vender o filme como "refilmagem do clássico dos anos 30" é sem dúvida no mínimo uma propaganda enganosa. 

"The Invisible Man"

Este O homem invisível mais parece uma esquecível refilmagem de Dormindo com o inimigo (1991), de Joseph Ruben, em que Julia Roberts é perseguida pelo marido de quem ela foge. Com a diferença que o filme de Ruben aborda o problema sem precisar esculachar uma história clássica sobre conquistas científicas e a angústia de ser humano, demasiadamente humano. 


Ao longo das décadas a ideia sublime de H. G. Wells tem sido adaptada de várias e diferentes formas. Cansativo e manipulador, O homem invisível versão 2020 não empolga nunca e praticamente não traz momentos que "valem o ingresso". 

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Parasita

Parasita, no Brasil, é documentário

Afinal de contas, por que Parasita ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme?

Resposta: o filme coloca o dedo na ferida, mostra verdades inconvenientes e desnuda as podridões do ser humano, seja qual for sua classe social.

Em Parasita as diferenças sociais são abordadas para estudar a alma humana, o modo como ela é corrompida, e, nessa análise, ninguém escapa, não fica pedra sobre pedra nas fundações do capitalismo selvagem. 

Parasita foi o terceiro filme de Bong Joon-ho a que eu tive o prazer de assistir. Conhecedor do estilo único do diretor, eu já sabia que o filme não seria previsível e que surpresas aconteceriam no percurso.

Diferentemente do horror de O hospedeiro e da fantasia de Okja, em Parasita o diretor coreano decidiu se concentrar mais no social, uma espécie de "comédia de costumes", em que revela os contrastes de uma sociedade pautada pelas diferenças econômicas e estratos sociais.



Diga-se de passagem: a família coreana que mora num bairro simples e cujas entranhas são mostradas em Parasita me lembrou um pouco a família retratada no filme A Home with a View, produção de Hong Kong, disponível na Netflix.

Claro que o diretor honconguês Herman Yau não aparece nesta lista de influências de Bong Joon-ho (na qual, por sinal, constam os diretores Alfred Hitchcock, John Sturges, John Carpenter, Nicolas Roeg e Wes Anderson), mas os dois filmes retratam famílias asiáticas vivendo em condições relativamente precárias, em contextos relativamente "capitalistas".


Hong Kong e Seul devem ter lá suas semelhanças culturais e sociais, e outro ponto de intersecção é que A Home with a View é uma comédia de humor negro. Se fosse para classificar Parasita, tenho lá minhas dúvidas se não seria esse o gênero mais indicado.

As habitações semissubterrâneas mostradas por Bong Joon-ho em Parasita (e registradas pela reportagem da BBC neste artigo) estabelecem um paradoxal contraste com a residência ampla e moderna da família "abastada", que, por ingenuidade e boa-fé, acaba sendo envolvida pelos meios pouco éticos da família "proletária", que vai conquistando, um a um, os cargos de confiança da família.

Por isso que afirmei lá no começo deste texto que o diretor não deixa pedra sobre pedra. Em seu roteiro vencedor do Oscar, Bong Joon-ho realça os "podres" de "pobres" e "ricos". 

Parasita, de Joon-ho Bong - cena do filme

De um lado, a falta de ética, o desrespeito, o aproveitar-se da confiança alheia. Do outro, o desdém velado, as pequenas humilhações, o inerente ar de superioridade.

Onde - e como - é que tudo isso pode acabar?

É essa pergunta que Boon Joon-ho tenta responder em Parasita

*************

E eu por acaso me surpreendi com os prêmios que Parasita abiscoitou?

Claro que não!


Quem acompanha este blog, sabe: eu já sabia!

Para quem já conhecia o talento do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, não chegou a ser nenhuma surpresa tudo o que aconteceu na festa do Oscar deste ano.

Afinal de contas, desde que meu primogênito (que hoje está com 12 anos) estava na barriga da mãe, a família acompanha a carreira do diretor Bong Joon-ho.

Em 2007 assistimos ao filme O hospedeiro num dos finados cinemas do aeroporto Salgado Filho. Grávida, a minha esposa ficou um pouco impressionada, não era bem o estilo de filme que ela gosta, mas enfim, para o bem ou para o mal, tolerou o meu gosto excêntrico.

Hoje temos o dvd do filme na estante, e o garoto que então estava no útero já pode "rever" o filme.

Recentemente também assistimos a Okja, uma produção Netflix bem ao estilo bizarro de Bong Joon-ho, mesclando elementos fantásticos com crítica social, humor com instantes de ternura.

E entre 2007 e 2017, por onde andou Bong Joon-ho?

Fez um episódio do filme Tokyo, o drama Mother - a busca pela verdade e a ficção Expresso do amanhã.

Ainda não foi possível assistir a esses filmes. Não é exatamente uma tarefa muito fácil manter-se atualizado na carreira de um diretor cujos filmes estão fora do mainstream, não passaram no circuito comercial, não foram lançados em vídeo e estão fora do catálogo da Netflix.

Quiçá agora essas lacunas sejam preenchidas e um cinéfilo que mora no interior possa num clique comprar ou ter acesso a essas obras da enxuta, porém especial filmografia de Bong Joon-ho.

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terça-feira, fevereiro 11, 2020

Democracia em vertigem

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Eu entendo Petra Costa. 

Saudades do Orkut.

O que uma coisa tem a ver com a outra?

Explico. Eu participava de uma comunidade no Orkut chamada "Eu entendo David Lynch".

Algum pândego poderia comentar de passagem: "Claro que é bem mais fácil entender Petra Costa do que entender David Lynch".

Mas, enfim, e seja como for, eu entendo Petra Costa.


Ela elegeu Lula em sua primeira vez como eleitora e viveu momentos de euforia e de esperança.

Depois foi acompanhando as mudanças no país que culminaram com os fatos cujos bastidores ela tão bem mostra em seu bem realizado filme.


Democracia em vertigem é um filme sobre a desilusão. A melancolia. 

A voz de tristeza com que Petra narra o filme é de partir o coração.

Não escrevo com ironia.

É o que eu penso mesmo.

Em essência, ela é uma cineasta que transformou sua tristeza com tudo que estava presenciando em um documentário.

O momento mais marcante do filme é a tomada de cima que mostra o ex-presidente antes de se entregar à polícia, sendo carregado pelos braços de uma multidão inconformada e inconsolável.



Basicamente, Democracia em vertigem é o filme de uma mulher que pertence a uma família de mulheres que filmam.

Tanto isso é verdade que o documentário de Petra Costa contém cenas filmadas pela avó e pela mãe dela.

Um instante de curiosidade histórica é justamente a parte em que a montagem inclui cenas de uma Brasília em construção, em takes feitos pela avó de Petra.

É um fato muito relevante um documentário nacional ser honrado com uma indicação ao Oscar.

O filme traz imagens importantes sobre os bastidores de momentos históricos na vida política recente do Brasil.

Merece ser visto e debatido.


terça-feira, janeiro 14, 2020

Minha mãe é uma peça 3

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Verdadeiro fenômeno do cinema nacional, a franquia Minha mãe é uma peça chega ao terceiro filme com fôlego e dá sinais que vai continuar ainda por muitos e muitos filmes...

Pelo menos, enquanto estiver enchendo as salas com seguidores ávidos pelas aventuras e desventuras da Dona Hermínia, a desbocada personagem encarnada pelo ator, produtor, roteirista e empresário Paulo Gustavo.


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A impressão que se tem ao assistir ao terceiro filme da série é que realizar um novo filme é algo muito fácil para Paulo Gustavo.

Quero dizer, sei que tudo tem bastante trabalho por trás, mas ele tem uma avidez por fazer que deixa tudo mais fluente, uma gana por resolver problemas (porque fazer um filme, no fim das contas, é resolver uma série de problemas de natureza logística, artística e prática), uma vontade de compartilhar visões de vida, um faro comercial apurado e, é claro, a necessidade (que é mãe de todas as virtudes) de ganhar dinheiro, e agora, cada vez mais, afinal de contas, criar gêmeos não deve ser brincadeira!

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A gente vai acompanhando o enredo do filme (que nada mais é que uma série de sketches ligados por um tênue fio condutor) e vai se divertindo à beça com o jeito despachado da D. Hermínia. 

E qual é o tênue fio condutor? O casamento do filho e a gravidez da filha. Ou seja, o dia-a-dia de uma senhora com filhos "já criados".

Qual o segredo do sucesso aqui?

Sabe-se lá? Por que "Os trapalhões" lotavam as salas de cinema brasileiras? Por que no Brasil a bilheteria dos filmes de Mazzaropi é maior que a dos filmes de Fellini? O povo brasileiro é brega?? Ou gosta de dar risada e reconhece o talento cômico quando se depara com ele?

Tudo isso pode ser comentado, mas a verdade é que um dos elementos do sucesso dos filmes da franquia Minha mãe é uma peça é uma certa ternura maternal que está por trás de (quase) todos os atos de D. Hermínia. Ela é "gente como a gente", as pessoas se identificam com ela.
 
E sobre a direção do filme, algo que você sempre comenta? Quase nem falei dessa vez. A verdade é que a direção de Susana Garcia é tão, digamos, "light", que chega a ser meio invisível, e olha que isso pode ser um baita elogio. Ela parece o tipo de diretora que deixa o elenco à vontade, inclusive o maridinho Herson Capri.


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Em minha resenha de Minha mãe é uma peça 2, eu afirmei: "É evidente que a personagem tem fôlego para prosseguir, mas seria interessante vê-la em situações que outros personagens e atores possam brilhar, numa história que tenha começo, meio e fim".

Nesse sentido, acredito que o roteiro do 3º filme é superior ao segundo, mas ainda temos as proverbiais cenas para "encher linguiça", ou seja, sequências que não tem nada a ver com o "enredo" principal.

 Paulo Gustavo criou uma fórmula que deu certo e acha que em time que está ganhando não se mexe. Os cães ladram e a caravana passa.






domingo, dezembro 08, 2019

Dança dos pássaros + Passarinhando

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Documentários rápidos e muito informativos disponíveis em streaming. 

Passarinhando tem menos de 40 minutos e Dança dos pássaros, 51. Os dois filmes trazem muitas curiosidades sobre o comportamento e a ecologia dos pássaros. Dois pratos cheios para passarinheiros e ornitólogos amadores.




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Passarinhando tem a produção executiva do ator Gael García Bernal e mostra a situação de um santuário de aves do México que fica na divisa com os Estados Unidos. O site 10,000 Birds comenta sobre o filme nesta resenha.


O documentário aborda uma questão crucial e "coloca o dedo na ferida": uma das funestas consequências de se construir um muro no local seria a destruição do rico ecossistema.

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Por sua vez, Dança dos pássaros tem a narração do ator Stephen Fry e mostra os rituais de acasalamento de diversas aves de plumagens multicoloridas, em diferentes partes do mundo. Uma das aves estudadas é o galo-da-serra (Rupicola rupicola), espécie que ocorre no Brasil.

Outra espécie abordada constrói pacientemente uma torre de palha para impressionar a fêmea e depois faz um incrível show de imitações sonoras e ainda brinca de esconde-esconde com ela.


Os dois documentários foram destaque no site Bird Wire, dos editores da revista Bird Watcher's Digest.


Passarinhando (Birders) e Dança dos pássaros (Dancing with the Birds) são duas excelentes pedidas para os apreciadores da natureza.


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sábado, dezembro 07, 2019

Perdi meu corpo






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 Naofel trabalha como entregador de pizzas, e um dia se apaixona por uma voz no interfone. Explico.

Ao tentar entregar a pizza, a moça que havia encomendado entabula uma conversação bizarra com ele, uma conversa daquelas que a gente só tem com uma alma gêmea...

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A partir daí o jovem (cujo passado é contado em flashbacks) tenta tomar as rédeas de seu destino.

Essa é uma das linhas do tempo desta animação repleta de ternura, de uma sensação de incompletude, de busca de uma felicidade sempre tão difícil de alcançar.

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A outra traz o ponto de vista da mão direita de Naofel, que foi excisada do braço, de um modo que não posso contar, pois seria spoiler.

A mão ceifada parte numa busca incessante em busca do corpo do qual foi apartada.

Esta jornada é alternada com cenas da "memória afetiva" da mão, que tem uma belezinha entre os dedos.


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As teclas de um piano. A areia fininha e quente da praia. A tinta fresca de uma superfície de madeira. O botão "REC" de um gravador.

Tudo isso é revivido e mostrado enquanto a mão enfrenta perigos como aves, ratos, formigas, cães e outros incontáveis obstáculos.

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O roteiro é de Guillaume Laurant, que também assinou o texto de um dos maiores cults do cinema (O fabuloso destino de Amèlie Poulain).

O argumento denso, a certeira direção de Jérémy Clapin e a atmosférica trilha sonora de Dan Levy nos deixam meio anestesiados (ou inebriados) por uma gama de sensações.
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Tanto isso é verdade que vou concluir este post com um comentário de meu filho de 7 anos, que assistiu ao filme comigo. Na hora em que flocos de neve começam a cair devagarinho, ele disse:

"Pai, está nevando sentimentos". 





sexta-feira, novembro 15, 2019

Raridades da Zílvia: Inferno na torre

O auge do cinema-catástrofe. O ápice do exagero em termos de criar situações extremas e colocar pessoas numa arapuca sem saída. 



Inferno na torre, de John Guillermin, é o símbolo de uma época, o ponto alto de um tipo de cinema direcionado a retratar a morte de inocentes (e nem tão inocentes assim).

O roteiro é o grande astro do filme, para o bem e para o mal. Primeiro, pela capacidade de criar personagens com os quais o público vai criar uma certa empatia.


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O arquiteto vivido por Paul Newman é um bom-caráter, um sujeito que está disposto a arriscar a própria pele para salvar outras pessoas e se indigna ao descobrir que o construtor do prédio "economizou" no material elétrico.

E, é claro, o bombeiro encarnado por Steve McQueen, ícone de coragem, sangue frio e heroísmo.

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A antipatia é direcionada ao genro (Richard Chamberlain) do construtor (William Holden), os dois responsáveis pela desprezível decisão de "baratear" os custos da obra, colocando em risco a segurança.


Resultado: no dia da inauguração do prédio, em plena festa, com senador e prefeito presentes, o pandemônio está prestes a acontecer. O incêndio está se alastrando e o dono do prédio tenta minimizar e deixar a festa rolar. Situação parecida acontece em Tubarão (1975), quando os locais tentam abafar as ocorrências para não espantar os veranistas.


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O filme é uma adaptação de dois livros, e imagino que isso tenha permitido ao roteirista tentar aproveitar o melhor de cada um. É uma curiosa situação em que dois estúdios resolveram unir forças para que um filme não "canibalizasse" o outro. Fox e Warner Brothers, que tinham os direitos de The Glass Inferno e The Tower, respectivamente, uniram forças para realizar este tenebroso, sombrio e catastrófico arrasa-quarteirão. Imagino o produtor Irwin Allen dizendo ao roteirista: quero uma catástrofe atrás da outra, quero catástrofe que não acabe!

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Essa miríade de situações-limite dos dois livros e mais a imaginação fértil de Stirling Silliphant (que venceu o Oscar em 1967 com o roteiro de No calor da noite) deixaram o filme um pouco inchado em termos de metragem (165 minutos), mas as resenhas foram boas em 1974: Roger Ebert, por exemplo, deu 3 estrelas em 4. E o público também respondeu bem, com as bilheterias decuplicando o custo do filme.

O elenco também traz William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Susan Blakely, Richard Chamberlain, O. J. Simpson, Robert Vaughn, Robert Wagner, entre outros menos cotados.

O filme teve 8 indicações ao Oscar, inclusive Melhor Filme. Ganhou em edição, fotografia e canção.

A seu modo, Inferno na torre é meio profético sob certos prismas, levando em conta tudo que tem acontecido no mundo do século XXI. E a homenagem aos bombeiros que é feita no começo do filme é um merecido reconhecimento a esses profissionais. 

O que salva o filme de ser um mero caça-níqueis, um entretenimento descartável?

Aí que entra o talento do diretor. A sutileza do britânico John Guillermin (que também faria King Kong, 1976, e Morte no Nilo, 1978) dá ao filme uma tônica de ironia, sempre mantendo aceso o suspense, tentando pegar os clichês e imprimir seu toque pessoal. Por essas e outras que Inferno na torre subsiste como um dos imbatíveis filmes do cinema-catástrofe. 






quinta-feira, novembro 14, 2019

Peter Weir dispara em Madrid: "A cultura e o cinema se infantilizaram"

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O diretor australiano Peter Weir foi a Madrid acompanhar uma mostra sobre sua filmografia.

A retrospectiva teve a curadoria da Filmoteca Espanhola e foi anunciada neste artigo.

Yago Garcia do site Cinemanía aproveitou e fez uma entrevista com ele.

Tópicos como Netflix, filmes Marvel e outros foram abordados no bate-papo.

Um dos assuntos foi a "baixa prolificidade" do diretor.



Weir compara o ofício de cineasta ao de esquiador, e a câmera a uma arma carregada.

Quem quiser treinar um pouco o espanhol, é só visitar a página da entrevista.

Outro meio de comunicação que aproveitou a ocasião foi o periódico El mundo.

Peter Weir concedeu entrevista ao jornalista Luis Martínez e disparou: "A cultura e o cinema se infantilizaram".

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segunda-feira, novembro 11, 2019

Raridades da Zílvia: Arizona nunca mais

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Este é o segundo de 4 posts de uma série que
reverencia as valentes locadoras que resistem Brasil afora.
 

A vida é curta, e os filmes são tantos...

Existem filmes excelentes que jamais conseguiremos ver.

Existem filmes ótimos que nos contentamos em ver uma única vez na vida.


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Existem outros, porém, que nem são tão bons assim, mas pelos quais temos um carinho especial. 

Esses filmes são aqueles que somos compelidos a vê-los e revê-los, em diferentes épocas e com diferentes companhias.

Por exemplo, namorada minha, no começo do namoro, tem que assistir a Coração selvagem de David Lynch. Isso serve como uma espécie de vacina ou "batismo de sangue", para que elas conheçam com quem estão lidando. Com um cinéfilo de gosto eclético e predileção por bizarrices, filmes dinamarqueses, vencedores da Palma de Ouro, etc.

Coração selvagem venceu a Palma de Ouro.

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Arizona nunca mais (1987) não é, evidentemente, um filme dinamarquês.

Mas é uma bizarrice, uma comédia bastante alternativa, repleta de non-sense, de um humor bastante específico.

O humor dos irmãos Coen.

Este é o segundo longa de Joel Coen, com roteiro dele e do irmão Ethan.

O primeiro foi o soturno Gosto de sangue.

Um contraste e tanto com Arizona nunca mais.
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Nicolas Cage e Holly Hunter mostram uma "alquimia" tão perfeita quanto é possível para um casal composto por uma policial e um presidiário reincidente.

Herbert "Hi" McDunnough e Edwina "Ed" McDunnough são personagens inesquecíveis do cinema.

Hi, com seus sonhos ou premonições oníricas, com seu cabelo desgrenhado e sua paquidérmica sutileza.

Ed, com seus rompantes de ternura, com sua explosividade prática e seu avassalador instinto maternal.

 O filme ainda traz John Goodman e Frances McDormand, mas a melhor atuação mesmo é do bebê TJ Kuhn, que na cena da perseguição baixa o capuz para não enxergar os riscos aos quais é exposto.

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Arizona nunca mais pega um tópico seriíssimo, que é a dificuldade para ter filhos, e transforma essa dor numa comédia de redenção e catarse.

Em sua singeleza e seu orçamento relativamente baixo, a originalidade das tomadas, a riqueza do roteiro e o elenco bem selecionado dão a tônica e
transformam o filme em um tipo de cult. 

Uma raridade dessas, fora de catálogo para compra, só se acha em uma locadora de respeito.

No caso, a Zílvia Locadora, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul.

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Heidi





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Quem escreveu Heidi? Esse é um dos casos em que a fama da obra precede a fama da autora. O fato é que Heidi é um livro imortal da literatura universal.

Quer uma prova disso?

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Esta adaptação fílmica do clássico literário Heidi é, nada mais, nada menos, que uma das cerca de 25 adaptações já feitas para o cinema e a televisão, entre filmes de live-action e animações.

É, portanto, uma história que cativa a todos e continua se reciclando, geração após geração.


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Esta adaptação em específico tem alguns trunfos.

O diretor é suíço.

As belas locações são na Suíça.

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Anuk Steffen, a menina que interpreta Heidi, é suíça.

Bruno Ganz, o ator que interpreta o avô, é suíço.


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O romance Heidi, em que o filme se inspira, publicado em 1881, foi escrito por Johanna Spyri, que nasceu em 1827 na área rural do cantão de Zurique, na Suíça, é claro.

Ou seja, tudo nesse filme tem tudo para funcionar como um relógio suíço, e realmente funciona.

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A carismática Anuk Steffen aparece na entrevista abaixo junto com Quirin Agrippi, o guri (coincidentemente ou não, também suíço) que encarna o rústico Peter.




O resultado de tanta autenticidade? Não só um filme genuinamente suíço até o tutano dos ossos, mas um filme excelente para ser assistido junto com a esposa e os filhos de 7 e 12 anos.

Cabanas nada básicas

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Quem não gosta de design? Quem não gosta de arquitetura? Quem não gosta de coisas do tipo "faça você mesmo"? Quem não gosta de belas paisagens? Quem não gosta de ver uma competição?

Todos esses ingredientes estão presentes nesta docussérie Netflix.

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Cabanas nada básicas acompanha a trajetória de vários times que concorrem ao prêmio de Melhor Cabana num projeto de hotel itinerante (pop-up hotel) no País de Gales.

Os anfitriões do reality show também são designers e, paralelamente, estão construindo a sua cabana especial.

Tudo isso torna os episódios bastante leves, interessantes e divertidos.

Cada um dos 4 episódios dura em torno de 45 minutos.


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Esse tipo de produto é o diferencial da Netflix e está obrigando empresas como Sky e outras a repensarem seus modos de atuação.

A Sky precisa urgentemente fazer uma reengenharia em suas ideias.

 Uma ideia seria permitir que cada usuário escolhesse à vontade entre os canais e pagasse somente os que efetivamente usa.

Seja como for, a Sky vai ter que "cair na real" e baixar os preços, caso contrário vai continuar a perder clientes para a Netflix.

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