segunda-feira, abril 27, 2020

Morte às seis da tarde




Este post é dedicado aos brasileiros de sangue polonês. É salutar poder assistir a um filme em língua estrangeira, conhecer um país pouco badalado, mergulhar na história e na cultura da quarta maior cidade polonesa, tudo isso embutido num thriller de primeira categoria.


Plagi Breslau na Showmax. Kożuchowska w filmie Vegi

Plagi Breslau em inglês foi intitulado The Plagues of Breslaw. Faz muito sentido. Já no Brasil sempre tem o "jeitinho brasileiro" e alguma sumidade teve a brilhante ideia de "mudar o approach" e inventar um nome mais "chamativo". Mas é preciso reconhecer que o título original contém uma espécie de "spoiler", e o título tupiniquim ficou funcional. 

Patryk Vega está fazendo filmes há décadas e, portanto, não é nenhum neófito.

Isso salta aos olhos pelo ritmo desenfreado do roteiro, as cenas econômicas e eficazes.

Às vezes, o pragmatismo chega a ser chocante, mas o cineasta/roteirista polonês abre mão de tudo para que a história ande.

Morte às Seis da Tarde - Vertentes do Cinema

Essa qualidade também pode ser listada como o maior defeito do filme.

Vega não faz questão de "guardar surpresas" para o final, ou de manter o suspense. O que ele quer é que o espectador não abandone o barco e isso ele consegue, pelo modo como a história é construída - e pela metragem relativamente curta.

Morte às Seis da Tarde - Vertentes do Cinema

Essa ideia na mão de um David Fincher renderia um moroso filme de 2 horas e meia. 

Nas mãos do polonês Patryk Vega tornou-se um hit instantâneo mundo afora, chamando a atenção para a vasta filmografia do diretor, cujo currículo versátil traz comédias e dramas, sempre centrado em mostrar o que o ser humano tem de mais controverso.

Se você curte filmes de serial killers com uma detetive prestes a explodir, Morte às seis da tarde é o filme ideal para curtir após o expediente.

domingo, abril 26, 2020

Brincando com fogo

Too Hot to Handle's Francesca Reveals Retreat Life Was Strict ... 

Tudo que é droga vicia, e o nome já diz, 

é uma droga mesmo.

E toda droga que se preze tem seus efeitos colaterais.

Estou atualmente viciado no seriado Brincando com fogo, e o efeito colateral é que, a cada episódio que assisto, tenho a desagradável sensação de que meu QI está baixando.


 Too Hot to Handle: See Matthew 'Jesus' Smith Beardless on New Girl ...

A minha sorte é que tudo termina em 8 episódios.


Francesca, ah, Francesca...

O nome dela deveria ser "Franfresca". 

Às vezes me dá um dejàvu e fico me perguntando se em outra reencarnação terei quem sabe conhecido alguém tão volúvel e desmiolada quanto. Ela faz jus ao título original do seriado:

The Problem With 'Too Hot To Handle' | Grit Daily News



Temos também Kelv, o contador, que pretende resistir bravamente às tentativas de sedução de todas as bonitinhas, mas ordinárias do recinto.



Sharron é o que mais inspira pena.

Pateticamente se agarra às recordações de um relacionamento malfadado para justificar suas atitudes porcochauvinistas.

O seu obscuro objeto de desejo, a esvoaçante Rhonda, sofre os ataques do sensível David, o amigo perfeito, mas muito sincero para se tornar atraente para as moçoilas que pelo jeito não gostam de bons moços.

Too Hot To Handle: Who Actually Deserved to Win the Prize Money ...











Estou no ponto em que um novo garotão chegou no pedaço, despertando o interesse da magérrima britânica. Ele toca teclados e se vangloria de levar ao seu iate uma garota por dia. E sempre uma garota diferente! 

Como será que vai acabar este trepidante reality show, em que seres humanos são comandados por um cone chamado Lana?

 Com sorte, a perda de QI não será irreversível e, ao cabo dos 8 episódios, eu consiga regenerar meus combalidos axônios relendo algum livro como Sapiens ou A história da filosofia ocidental. 



domingo, abril 19, 2020

O velho e o mar

The Old Man and the Sea (1958) - John Sturges, Fred Zinnemann ... 
Dirigido pelo especialista em faroestes e filmes de ação John Sturges (que está no meu TOP 10 de diretores que já não estão mais entre nós), o filme O velho e o mar, lançado em 1958, transporta com sobriedade ao cinema o clássico literário de Ernest Hemingway.

A grande qualidade de Sturges sempre foi ser um cara "matter-of-fact", ou, em outras palavras, um dos caras mais "no-nonsense" com quem você pode se deparar na indústria do cinema.



Seu envolvimento nesse filme é algo que à primeira vista pode parecer um tanto estranho, como se ele fosse um "peixe fora d'água", se me perdoem o trocadilho. Na verdade Fred Zinneman desistiu de dirigir o filme e Sturges foi chamado para substituí-lo. Mas, pensando bem, Hemingway também tem um estilo meio "pão, pão, queijo, queijo" e gostou do resultado ao ver o filme.


The Old Man and the Sea filme - Onde assistir

Eis que Sturges usa e abusa das cenas de estúdio, pega metragens de documentários, um roteiro que mescla partes narradas com trechos de ação, sonhos com duras realidades e, como sempre, cumpre a sua função de realizador que leva ao cabo a sua missão.

Para isso, contou com um grande ator no papel principal, com quem já havia trabalhado no filme Conspiração do silêncio (1955).

Spencer Tracy faz o que pode para tornar verossímil o seu personagem, e consegue isso com mais propriedade nos diálogos com o menino Manolin, que foi seu aprendiz, mas agora está pescando em outro esquife, pois Santiago (o nome do "velho) anda sem sorte na pesca.

Hemingway's The Old Man And The Sea: Part 1 — The Novel

Completando 84 dias sem pescar um peixe decente, lá vai Santiago em uma nova tentativa, levando apenas uma garrafa d'água e nenhum almoço.


No alto-mar fisga um marlim-azul, o maior que ele jamais imaginou um dia fisgar.

O peixe inicia uma luta ferrenha pela vida e arrasta o esquife de Santiago cada vez mais para longe da costa.

The Old Man and the Sea (1958)







A luta dura 3 dias. As mãos de Santiago estão em carne viva. Dominado pelo cansaço e pelas cãibras, o velho percebe que a visão está turva. 

O fim desta história não é um segredo para ninguém, mas não vou contar aqui.



27 Inspiring Survival Movies To Make You Appreciate Life - onedio.co







Vale a pena ver o filme e ler o livrinho, que em número de páginas está mais para uma "noveleta" do que para um "romance".

A luta de Santiago para provar que não é uma pessoa sem sorte é um conto que tem tudo o que de melhor pode ter a melhor literatura: ironia, dor, humildade, respeito, arrependimento.


A trilha sonora valeu mais um Oscar a Dimitri Tiomkin, que já vencera pela música do clássico Matar ou morrer (1953).  Os acordes de Tiomkin contribuem para que O velho e o mar mereça ser assistido, apesar de ser, nas palavras de John Sturges, "tecnicamente o filme mais desleixado que eu já fiz".

Mundo Fantasmo: 0109) O velho e o mar (27.7.2003) 








Esta página comenta também outras adaptações do livro para as telas, como a versão de 1990 com Anthony Quinn e a elogiada animação russa de 1999.

quinta-feira, abril 09, 2020

O bar

O Bar | Netflix

Bizarra mistura de O anjo exterminador de Luis Buñuel com Uma noite alucinante de Sam Raimi.

De Buñuel, temos aquela velha e saudosa sensação claustrofóbica de ser incapaz de evadir de um determinado espaço.

De Raimi, temos aquele velho e bom recurso do alçapão que dá para um porão escuro e horrendo.

A diferença em relação aos dois filmes é que O bar (2017) não é um filme fantástico nem surrealista.

Pega esses elementos e os transforma numa história perfeitamente plausível, ainda mais nos tempos pandêmicos atuais.

Foto de O Bar - O Bar : Foto Jaime Ordóñez - AdoroCinema

Talvez outra referência pudesse ser citada aqui: Doze homens e uma sentença.

De Lumet, O bar não tem os doze homens. Afinal de contas, são oito homens e três mulheres que ficam presos no bar. 

Mas os dois filmes têm em comum uma característica muito própria: a de que a história se desenrola num só ambiente, com personagens interagindo entre si e demonstrando suas fraquezas e pontos fortes.

Sim, o roteiro de O bar poderia perfeitamente ser adaptado e virar uma peça teatral de suspense, crítica social e drama existencial.


Apesar de ser relativamente "pés no chão" (ou seja, tudo acaba tendo uma explicação científica), Álex da la Iglesia (de Crime Ferpeito e O dia da besta) caprichou no gore e no body horror, e nisso também se afasta de dois dos filmes citados, à exceção, é claro, do filme de Sam Raimi, que também é bastante violento e sanguinolento.

The Bar – Review | Netflix Horror Comedy 'El bar' | Heaven of Horror

Em O bar paulatinamente as pessoas vão descendo às profundezas do subsolo e, ao mesmo tempo, degradando seu grau de humanidade.

Do térreo ao porão, do porão ao esgoto: no descenso as pessoas vão se revelando como realmente são, hediondas e asquerosas como chafurdar nas galerias do esgoto.

Mais uma referência! Os miseráveis. 

Diga-se de passagem, aliás, a melhor versão da clássica história de Victor Hugo é a de Richard Boleslawski com Fredric March e Charles Laughton, realizada em 1935.

Um filme que nos faz lembrar de tantos outros filmes bons não poderia ser ruim, é claro. 

Mas, e tudo tem sempre um "Mas"...

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER NÃO ABRA ESTE TENEBROSO ALÇAPÃO 

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER 

SÓ ABRA ESTE TÉTRICO ALÇAPÃO
DEPOIS DE ASSISTIR A "O BAR"
FUNESTO FILME 
DE HUMOR MACABRO 
NA NEFANDA NETFLIX

O Bar - Filme 2017 - AdoroCinema

A única crítica que o diretor e o seu corroteirista poderiam receber é de terem sido politicamente "incorretos"...

Um personagem que até a metade do filme é uma espécie de anti-herói, crítico da sociedade, acaba "sacrificado" pelo roteiro, apenas para ganhar mais alguns minutos de terror.

Esse é um "clichêzinho" que poderia ter sido evitado, mas foi tão irresistível que acabou sendo inevitável, pelo jeito.

Cair em tentação, eis algo que todos bons roteiristas e bons diretores acabam fazendo.

E por cair nessas tentações, seus filmes deixam de ser excelentes para se tornarem apenas bons.

Para encerrar o post em tempos de notícias tristes, uma triste informação: O bar foi o último trabalho da atriz Terele Pávez.

Terele Pávez muere a los 78 años





quarta-feira, abril 01, 2020

Kika





Só um diretor no mundo é capaz de pegar ingredientes como sexo, traição, complexo de Édipo, catalepsia, suicídio, voyeurismo, invasão a domicílio, estupro, êxtase, homicídio, sensacionalismo, onanismo, lesbianismo, invasão de privacidade e assassinatos em série, colocar tudo isso no liquidificador e produzir uma surpreendente... comédia!


Kika (1993) é um filme da fase intermediária da carreira do diretor espanhol. 

Veio depois de Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), Ata-me (1990) e De salto alto (1991), todos sucessos internacionais. Portanto, Almodóvar já era um diretor reconhecido e muito respeitado. 

O livro Pedro Almodóvar, de Thomas Sotinel, da coleção Masters of cinema, da Editora Cahiers du Cinema, é taxativo. Sentencia que "Kika é o menos apreciável dos filmes de Almodóvar" (the least likable of Almodóvar's films).




Sotinel apresenta uma série de motivos para a recepção fria da crítica e do público, como a "bizarra brutalidade", a "raiva violenta contra os programas de TV", uma agressividade "raramente comovente e, às vezes, desagradável".

O autor cita, porém, o contraponto de Almodóvar, que se defendeu das críticas declarando: "Eu decidi imbuir Kika de um otimismo incorrigível, mas as outras três personagens se compuseram por si sós".


ATENÇÃO: Por favor, se ainda não assistiu ao filme, NÃO leia a "sinopse" acima reproduzida, que consta na contracapa do dvd. Além de conter vários spoilers, traz a intragável expressão "Como resultado", que vem da tradução literal de "As a result".

Não cometerei uma sinopse e sim apresentarei os personagens principais: Kika (Verónica Forqué) é uma maquiadora que se apaixona por um cadáver... Andrea Caracortada (Victoria Abril) é uma apresentadora de TV que protagoniza a célebre cena da gota de sêmen no rosto. Ramón é um fotógrafo atormentado pela lembrança da mãe morta. E Nicholas (Peter Coyote) é um escritor, padrasto de Ramón.  

Kika representa um marco negativo na carreira de Almodóvar, pois ele nunca havia recebido críticas tão duras. Talvez tudo isso tenha contribuído para que Almodóvar desse um salto de qualidade e encontrasse um equilíbrio, moldasse um estilo mais maduro, a ser concretizado em filmes mais "sérios", que vieram depois de Kika: 

A flor de meu segredo (1995);

Carne trêmula (1997);

Tudo sobre minha mãe (1999);

Fale com ela (2002) e 

Volver (2006).

Sob um prisma mais otimista, Kika também pode ser visto como um filme importante, que marca o fim (ou seria o ápice?) da fase mais genuína e divertida deste cineasta sui generis que fez do cinema espanhol um produto de exportação.


quinta-feira, março 26, 2020

Flu

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O cinema sul-coreano ultimamente anda "surrando" os filmes "made in Hollywood".
Em se tratando de filme sobre pandemias, não perca seu tempo assistindo a Contágio, Epidemia e enlatados quejandos. O suprassumo do terror viral é encontrado em Flu, profético filme de 2013 disponível em famosa plataforma de streaming.


Após um grupo de imigrantes clandestinos morrer em um contêiner, uma perigosa doença começa a se espalhar em uma cidade metropolitana perto de Seul. Apenas um dos imigrantes sobrevive e contribui para espalhar o vírus na cidade.

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A agressiva enfermidade ataca as vias respiratórias do infectado, causando erupções cutâneas e, na fase terminal, tosse com sangue. Em menos de 36 horas a pessoa vai a óbito.

Um médico faz o alerta e aconselha o isolamento dos moradores, mas ninguém lhe dá ouvidos.

Bundang residents run toward the line drawn in the middle of Bundang-Suseo Highway, to which the authorities have forbidden access, in order to prevent them from spreading the virus to the rest of the country

Quando o pânico começa a se disseminar, os políticos entram em cena, e adivinhe: as decisões começam a ser tomadas não pelo bem da população em perigo, mas sim para agradar as "grandes potências".

Um dos gestores da crise é justamente um norte-americano, preocupado apenas em evitar as consequências econômicas de uma pandemia mundial.Resultado de imagem para flu movie 

A grande sacada do diretor sul-coreano Kim Sung-su foi criar um envolvente núcleo dramático, composto pelo bombeiro Kang (Jang Hyuk), a médica Kim In-hae (Soo Ae) e a filhinha dela, Kim Mi-reu (Park Min-ha). Esse trio conduz o filme em cenas de alta dramaticidade e que salientam os valores sul-coreanos da amizade, do respeito e do amor.

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Outro destaque do elenco é Ma Dong-seok, que faz uma espécie de vilão, um sujeito que está infectado e quer desesperadamente conseguir anticorpos, nem que para isso seja necessário aterrorizar uma menininha. Esse ator já é conhecido dos espectadores ocidentais que apreciam filmes de terror, porque é um dos heróis do filme Train to Busan (Invasão zumbi), outro grande filme sul-coreano desta década.

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Na China este filme se transformou em um hit em janeiro deste ano, em plena crise da covid-19. No Twitter chinês, o Weibo, um comentário sobre Flu resume a estratégia: "The best way to conquer fear is to confront fear".


Você pode ler mais sobre essa maneira catártica de criar coragem para enfrentar a pandemia no artigo In China, people are fighting the coronavirus outbreak by watching disaster movie "The Flu".


quarta-feira, março 25, 2020

A testemunha

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Existe algum filme que você possa rever e logo na primeira sequência sentir seus pelos se arrepiarem?

E deixar que esse prazer se repita ao longo da sessão em muitas cenas?

Existe algum filme que você conheça que tenha aventura, romance, suspense e drama?

Que misture os gêneros de um modo que beira a perfeição?

E de quebra faça

crítica social, 

crítica à corrupção, 

crítica ao preconceito contra membros de uma religião e seus costumes,

elogio à solidariedade,

elogio à coragem,

elogio à honra e aos valores humanos?

Esse filme existe para mim e chama-se A testemunha, do australiano Peter Weir.

Esse é o tipo de filme ideal para a quarentena. 

Que distraia e faça pensar, que suscite emoções à flor da pele.

Que lhe permita ser piegas o suficiente para verter lágrimas pela alegria de revisitar um filme que mora em seu coração.

Primeiro filme da "fase estadunidense" de Peter Weir (que chamou a atenção de Hollywood ao realizar filmes do calibre de O ano que vivemos em perigo, Gallipoli e Piquenique na montanha misteriosa), A testemunha tem como protagonista John Book, interpretado magistralmente (a seu modo inconfundível, que para alguns beira a canastrice, e para outros, é uma mescla de carisma e sex appeal) por Harrison Ford.

E em quais cenas voltei a me arrepiar?

São muitas.

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Aquela em que o Lukas Haas identifica o assassino é simplesmente cinema puro.

Nenhuma palavra é pronunciada, a câmera apenas acompanha o olhar de Harrison Ford que num vislumbre percebe a importância do que está acontecendo.

É nisso que A testemunha se sobressai: a maneira quase insana em que um diretor conseguiu unir o "lado comercial" com o "lado artístico".

Não é à toa que A testemunha é considerado um dos melhores e mais significativos filmes que Hollywood produziu na década de 1980.

O australiano Peter Weir é um realizador discreto, que faz seus filmes sem muito alarde, e, dizem os entendidos, não procura deixar "a sua marca registrada" em todos os filmes que faz. Isso não impede que o diretor tenha um ou outro "fã" perdido nesse mundo afora. A propósito, este artigo da IndieWire é uma boa introdução à filmografia deste grande diretor.






terça-feira, março 24, 2020

O enigma do outro mundo

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Tosco.

É o adjetivo que define melhor John Carpenter's The Thing, ou, conforme o imaginativo título nacional, O enigma do outro mundo.

Apesar de tosco, essencial.

Efeitos especiais, por exemplo, são da época em que usavam-se modelos, maquiagem, dublês, e nada era trabalhado em imagens digitais.

O nosso herói é o operador de helicóptero viciado em uísque (Kurt Russel) que trabalha numa estação científica da Antártica.

O filme começa com ação pura.

Um helicóptero persegue um cão que corre na neve.

Alguém tenta abater o cão que desesperadamente tenta escapar.

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A cena praticamente inexplicável será explicada.

Pessoas praticamente vacinadas contra o pavor serão apavoradas.

Uma equipe inteira de cientistas, funcionários de apoio, gente preparada para tudo, será testada ao extremo em um ambiente inóspito.

E a palavra "testada" aqui não é metáfora.

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Talvez a sequência mais emblemática do filme seja aquela em que os sobreviventes da equipe são submetidos a um teste para saber se estão ou não estão contaminados pelo imperceptível invasor.

Um por um, com terror nos olhos, cada integrante da equipe vai cortando a pele e deixa o sangue pingar na placa de petri.

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Este artigo defende que The Thing de John Carpenter seria o "supremo" cult movie clássico. 

Já este outro, mais realista, acompanha a mudança na forma como o filme vem sendo encarado ao longo dos anos, e, aos poucos, foi passando de "trash" a "clássico".

Um filme sem presença feminina.

Um filme sem amenidades.

Um filme tosco, mas essencial.




segunda-feira, março 23, 2020

A terra treme

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Com elenco amador (composto principalmente por pessoas da comunidade pesqueira da Sicília), o diretor italiano Luchino Visconti cria uma história sobre a insatisfação humana.

'Ntoni é o nome do protagonista.

Ele é um jovem pescador revoltado com o "status quo". 

E qual é o estado das coisas?

Os pescadores trabalham para os donos dos barcos, arriscando a vida, velejando ao mar aberto todas as noites, voltando pela manhã, após ter lançado e recolhido suas redes inúmeras vezes. O produto de sua faina é então comprado em "leilões" tumultuados, nos quais os pescadores são obrigados a aceitar preços escorchantes.

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Pelo menos, é com esses olhos que 'Ntoni enxerga os fatos.

Encasqueta que a solução é hipotecar a casa centenária da família e, com o dinheiro da hipoteca, comprar um barco próprio e vender os peixes em Catania, a cidade vizinha.


Visconti conta a história quase como se ela fosse um documentário, e algumas cenas realmente retratam o cotidiano dos pescadores. Seja como for, o resultado artístico obtido com um elenco não profissional é digno de nota.

Atenção: a leitura dos próximos parágrafos é indicada apenas para quem já teve o prazer de assistir ao filme.


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As tramas paralelas envolvem as esperanças amorosas de Ntoni e suas duas irmãs. E a trajetória do irmão mais novo de 'Ntoni, que, ao ficar desempregado, envereda por caminhos tortuosos.


Este artigo do Wikipédia conta como o filme foi encomendado pelo Partido Comunista e é inspirado no livro Malavoglia (1881), de Giovanni Verga. A página também menciona o elenco que não é creditado no filme. Já este artigo lista os 8 melhores títulos da filmografia do diretor italiano.


Uma cena chave do filme é aquela em que os empresários estão contratando pessoas para tripularem os novos barcos recém-batizados. Em meio ao modo humilhante que a classe "empresarial" oprime os pobres e esfarrapados candidatos, a câmera mostra na parede um slogan de Mussolini.



A terra treme pode ser visto como um libelo contra a exploração do homem pelo homem.

Ou simplesmente como uma prova de que, às vezes, é melhor contentar-se com o que temos, progredir aos poucos e não dar um "passo maior que a perna".

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sexta-feira, março 13, 2020

Indústria americana

 

Intrigante documentário que acompanha a fundação de uma empresa de capital chinês nos Estados Unidos, desde a instalação, os oscilantes resultados iniciais, a reengenharia (com a nomeação de um CEO chinês), a votação interna entre as facções pró-sindicato e contra, até a "volta por cima", com a indústria começando a melhorar a lucratividade nos dias de hoje.


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É fantástica a maneira aberta como os fatos são mostrados. Os dois lados da moeda aparecem. Novas oportunidades, mas salários menores.
A "estabilidade financeira" vem a duras penas. Pressão por resultados, distância da família. 
Uma parte dos colaboradores locais reclama das más condições de trabalho e querem a criação de um sindicato. O dono da empresa diz que se o sindicato for criado, a empresa e todos os funcionários vão sair perdendo.

Claro que a própria escolha do tema (um estudo de caso sobre a evolução do capitalismo em tempos de globalização acirrada) é contundente por si só. Mas os cineastas não caem na armadilha do maniqueísmo.
Não existe um ponto de vista a ser defendido, uma ideologia a ser comprovada.

Esse é o maior diferencial de Indústria americana em comparação a Democracia em vertigem. 
Não se agarra a um viés ideológico, não declara que algo é verdadeiro, não quer ansiosamente imputar rótulos a este ou àquele personagem.


Essa capacidade de fazer uma denúncia social e, ao mesmo tempo, saber manter-se relativamente neutro  também ajuda a explicar o fato de Indústria americana ter levado vantagem no Oscar. O filme dialoga com mais pessoas, toca mais gente e é compreensível para mais povos mundo afora.


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Aqui, os realizadores querem contar a história das pessoas envolvidas sem querer provar uma tese.
Funcionários de ambas as nacionalidades (China e EUA) são retratados; suas aspirações e angústias.

O chinês, dono da empresa de vidros automotivos, também tem um momento no filme para falar um pouco sobre si mesmo.
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Assim, a montagem do documentário sabiamente alterna os diferentes pontos de vista, e o resultado é um filme provocante e inspirador.

Em tempo: a Netflix fez um curta em que os realizadores Steven Bognar e Julia Reichert dialogam com Barack e Michelle Obama; recomendo assistir a este curta após ver o filme.


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Raridades da Zilvia: Aeroporto

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Encerrando a série de 4 posts em homenagem às bravas locadoras que ainda resistem em pleno 2020, nada melhor que um belo exemplo de "cinema-catástrofe" à moda antiga: Aeroporto, o filme dirigido por George Seaton lançado em 1970, com Burt Lancaster liderando o elenco.

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Com roteiro mais bem trabalhado que Inferno na torre, outro filme desta série de posts, Aeroporto revela uma série de meandros que envolvem a rotina de um gestor de aeroporto, no caso, Mel Bakersfeld (Burt Lancaster).

Burt Lancaster and George Kennedy in Airport (1970)

O alívio cômico é por conta de Helen Hayes, a velhinha especializada em embarcar clandestinamente em voos internacionais.

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Cada filme espelha as preocupações da época. O começo dos anos 70 foi marcado por filmes que mostram a realidade periclitante dos relacionamentos. Em Aeroporto as tramas humanas que permeiam a história principal (a de um homem desesperado que faz seguro de vida e embarca num voo para Roma com a firme intenção de derrubar o avião com uma bomba caseira) envolvem a fragilidade do matrimônio, mostrando nada menos que a iminência de dois relacionamentos extraconjugais.

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O veterano roteirista e diretor George Seaton, cuja obra-prima foi De ilusão também se vive (1947, pelo qual ganhou Oscar de Melhor Roteiro), conduz Aeroporto de modo cirúrgico, mas naquele ritmo próprio da época, nada a ver com os filmes de ação "vertiginosos" e "frenéticos" de hoje.

Se você aprecia bons diálogos e a construção dos personagens, não perca tempo e embarque nesse voo. Disponível nas melhores locadoras de sua cidade (em Porto Alegre, na E o vídeo levou; em Passo Fundo, na Zílvia).
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POSTS DA SÉRIE "RARIDADES DA ZÍLVIA":

1. O cão dos Baskervilles.
2. Arizona nunca mais.
3. Inferno na torre.
4. Aeroporto.



domingo, março 08, 2020

O homem invisível


O homem invisível de Leigh Whannell transforma Adrian Griffin, o clássico, multifacetado e repleto de conflitos personagem da literatura numa figura rasa e previsível.

Essa é a maior heresia do filme cuja história se concentra em acompanhar os passos da sem carisma Cecilia, mulher que foge do marido e pensa estar sendo perseguida por ele. 

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"Aclamada" entre os críticos de plantão (que provavelmente jamais pegaram o livro de H. G. Wells nas mãos), a nova roupagem de O homem invisível não explora a complexidade de dramas enfrentados pelo Griffin original.



A pegada "feminista" do filme contribui para o reducionismo patético da psicologia daquele que deveria ser o personagem mais aprofundado pela história, mas acaba sendo mera marionete das intenções canhestras dos roteiristas.

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Foram necessários mais de 70 minutos para que o primeiro diálogo inteligente acontecesse, e ele se dá durante o jantar entre as irmãs Emily (Harriet Dyer) e Cecilia (Elisabeth Moss) num restaurante chique. Incrivelmente as frases que Emily diz para o garçom são as melhores do filme.

A sessão se arrastava, e pouco tempo depois, em pleno "clímax" do filme, uma família inteira debandou do cinema, em protesto por ter sido enganada. Vender o filme como "refilmagem do clássico dos anos 30" é sem dúvida no mínimo uma propaganda enganosa. 

"The Invisible Man"

Este O homem invisível mais parece uma esquecível refilmagem de Dormindo com o inimigo (1991), de Joseph Ruben, em que Julia Roberts é perseguida pelo marido de quem ela foge. Com a diferença que o filme de Ruben aborda o problema sem precisar esculachar uma história clássica sobre conquistas científicas e a angústia de ser humano, demasiadamente humano. 


Ao longo das décadas a ideia sublime de H. G. Wells tem sido adaptada de várias e diferentes formas. Cansativo e manipulador, O homem invisível versão 2020 não empolga nunca e praticamente não traz momentos que "valem o ingresso".