Provoca no cinéfilo uma certa sensação de reconforto assistir a um filme estrelado pelo filho de Dennis Quaid com a Meg Ryan, cujo vilão é interpretado pelo filho de Jack Nicholson.
Eis que Jack Quaid e Ray Nicholson não são meros "nepobabies" a serviço da indústria, mas sim jovens talentosos que elevam a qualidade deste filme difícil de classificar.
Com pitadas de romance, estudo de personagem, ação ininterrupta, estudo de condição genética rara, roubo de banco, é um filme que lembra muitos outros filmes.
No quesito romance, lembra todos os filmes em que alguém "acaba se envolvendo", e se eu falar mais estarei cometendo spoiler.
No quesito estudo de personagem, a rotina e as agruras do protagonista Nathan Caine são dissecadas. Portador de uma síndrome rara que o impede de sentir dor, ele tem perspectiva de vida curta, mas tem aprendido a conviver com sua condição, embora isso reflita em sua vida antissocial de pessoa reclusa, que não sai de casa, cuja distração única se resume a jogos de computador com um amigo virtual.
No quesito ação ininterrupta, entra na linha de muitos filmes atuais, em que a ação é de "tirar o fôlego", uma cena trepidante emenda na outra, anestesiando o espectador com tanta violência, sangue e brutalidade.
No quesito estudo de condição genética rara, leva ao extremo a ironia de viver em um mundo em que, como diria Buda e Renato Russo, "Toda dor vem do desejo de não sentirmos dor", em que a dor é um tabu, a dor preocupa, a dor castiga, a dor irradia, a dor oprime, a dor debilita, a dor transcende, a dor limita, a dor explode, a dor impede, a dor liberta, um mundo em que não sentir dor é o que todo mundo quer, mas em que sentir dor nenhuma pode ser um problema doloroso.
No quesito roubo de banco, lembra Um dia de cão, Caçadores de emoção, etc. etc. gênero em extinção porque muitos bancos já nem tem mais caixa e não trabalham com dinheiro físico em suas agências.
E o que a pessoa constata ao assistir esse filme que mescla tantos gêneros e se propõe a uma lúdica "brincadeira" com o espectador, responder a pergunta: até quando você vai aguentar sem fechar os olhos ou, pior ainda, levantar-se e abandonar a sessão?
Das 8 pessoas que estavam na sala, 25% se retiraram antes da perseguição da ambulância. Nadaram, nadaram e morreram na praia. Indignadas, as duas pessoas saíram, certas de que não iam perder nada, certas de que já haviam sofrido o suficiente, certas de que o cinema não tem mais presente nem futuro, certas de que elas são donas da razão, do seu dinheiro, certas de que foram vítimas de propaganda enganosa, certas de que alguém vendeu o filme de um jeito e entregaram outro produto, bem diferente.
Não tiro a razão delas, afinal de contas, se você ler a sinopse, não há um aviso de isenção de responsabilidade, dizendo, atenção, este é um filme para quem tem estômago forte e bem forte, é um filme alternativo, não é um filmeco qualquer facilmente deglutível.
Complicado um filme desses entrar no circuito assim, é estranho como esses empresários do ramo de distribuição raciocinam (?), mas talvez a rigorosa classificação indicativa pudesse ter servido como alerta aos incautos.
Mas Novocaine é fichinha para quem não se abala com essas suscetibilidades, afinal, assistiu ainda criança sozinho no cinema o filme com mais suplícios que um protagonista criança já sofreu nas telas (Dirkie, perdido no deserto).
O cinema também serve para nos educar e nos preparar para a vida, não se abalar por coisas pequenas, a aguentar o suplício até o fim, nem que este suplício seja um filme para o qual você não estava preparado, seja por desinformação, seja por um problema inerente a sua personalidade, qual seja, ter uma alma sensível e delicada.
A discussão sobre a dor está no cerne da vida de todos nós, é um tema palpitante. Quantas pessoas que conhecemos têm uma qualidade de vida que elas consideram precária devido às dores crônicas ou agudas que sentem?
Pimenta nos olhos do outros é refresco, e nem todos sentem empatia com a dor alheia, por mais que a Bíblia pregue esse sentimento.
Conversa de eleva-dor:
"Não consigo correr porque sinto muita dor nas panturrilhas".
"Dor é vida."
Você não precisa ser um detetive para concluir quem falou a segunda frase, levando em conta que sou um corredor que corre 11 km e sente muitas dores enquanto está correndo, correr é sinônimo de sentir dor, primeiro é a dor psicológica de ter que correr, afinal de contas é bem mais fácil não correr do que correr, depois vem as dores do corpo que se esforça para se equilibrar durante o exercício.
Há duas décadas corro duas vezes por semana, com sol ou chuva, com pouca dor ou muita dor, é uma questão de disciplina, não de dor.
Para os dengosos que sempre inventam uma dorzinha como desculpa, Novocaine deve ser uma ofensa máxima.