sexta-feira, agosto 05, 2011

Capitão América - o primeiro vingador

Steve Rogers (Chris Evans, que já interpretou outro super-herói, o Tocha Humana) é um jovem esmilinguido que sonha em entrar para o exército e lutar nas frentes de batalha. Persistente, já tentou se alistar em cinco cidades diferentes, mas não é aprovado no exame médico, por conta de uma série de problemas, como asma. O jovem cresceu no Brooklyn, acostumado a apanhar de guris maiores. Características de sua personalidade - a pertinácia aliada à coragem, a inteligência aliada à determinação - até fariam dele um promissor soldado. Nunca foge, sempre resiste. Nunca ataca primeiro, sempre se defende. Mas o empecilho é o físico esquelético. Nada que o dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci) não resolva. O cientista vê em Rogers o potencial de se tornar um supersoldado justamente por seu temperamento bondoso e pacato. Assim, ele é recrutado para participar de uma "peneira". A tenente britânica Peggy Carter (Hayley Atwell) e o oficial turrão James Barnes (Tommy Lee Jones, como sempre interpretando a si próprio) fazem parte do grupo de avaliação.
Esse é o resumo dos primeiros vinte, trinta minutos de Capitão América - o primeiro vingador, o novo filme de Joe Johnston, diretor que estreou com Querida, encolhi as crianças (1989) e construiu um currículo estranho, em que predominam filmes de "fantasia" como Jumanji (1995), Jurassic Park 3 (2001, também roteirista) e O lobisomem (2010).
Sem arroubos de câmera e exibicionismos de estreante, com o comedimento que só a experiência proporciona, Johnston acaba se demonstrando a escolha ideal para a direção de Capitão América, o herói cuja arma principal sintomaticamente é um escudo. O roteiro contrabalança de modo saudável a ação trepidante e a tensão amorosa entre Peggy e Steve - e a "química" dos dois ajuda o filme a funcionar bem. No cômputo geral, Capitão América entra para o rol das boas adaptações fílmicas de histórias em quadrinhos.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Senha 1 para Eraserhead

Uma pequena contextualização sobre este post. O blog olhar cinéfilo vai completar dez anos em 6 de abril de 2013. Aqui no blogger comecei a postar em dezembro de 2005. Os primeiros dois anos e meio do blog eu considerava perdidos, depois que o blog foi tirado do ar pelo weblogger, sem prévio aviso.
Há poucos dias tive uma grata surpresa: vislumbrei a possibilidade de resgatar os primeiros textos deste blog, perdidos pela traiçoeira ação do weblogger. No Internet Archive (http://www.archive.org/web/web.php) consegui efetivamente recuperar quase 80% dos textos! Pretendo em ocasiões pertinentes republicá-los esporadicamente. Como acabo de resenhar um livro que conta a trajetória de David Lynch, o repost abaixo vem bem a calhar.


domingo, 7 de dezembro de 2003

Senha 1 para ERASERHEAD
Eu estava lá. Uma e meia da tarde do domingo. Quando chega a minha vez de comprar o ingresso, o que acontece? It’s over. C’est fini. È finito. Como consolo, ganho uma senha, caso algum dos convidados venha a desistir. O número que aparece na senha é a minha esperança: 1.
18h50, lá vou eu, e não é que dei sorte? Troco a senha mais três reais por um ingresso escrito ERASERHEAD. Um troféu no meio das mais de 100 pessoas que estavam lá tentando entrar e ficaram de fora. A primeira sessão pública de Eraserhead no Brasil não podia ser diferente: disputada palmo a palmo, ainda mais na “cidade dos sonhos”, a cidade onde pululam cinéfilos das mais diferentes tribos: a querida e amada Porto Alegre.
Antes das luzes apagarem, uma radiografia na galera. Dos 15 aos 50. Brincos, tatoos, piercings, cabelos coloridos. Tinha gente normal, também. A meu lado um cara todo de preto com o xerox de um livro, ou melhor, um verdadeiro tratado, original em inglês, sobre “filmes da meia-noite”, Eraserhead sendo um deles. E as luzes se apagam.
O meio é o dvd, o formato não é o ideal, mas o que vale aqui não é a forma, e sim o conteúdo. Tão esperado, tão comentado, tão exaltado. Eraserhead, em qualquer guia de cinema que se preze, consta como cult. É chegada a hora de saber o que é que Eraserhead tem. Em que consiste, afinal, o primeiro longa-metragem do controverso diretor David Lynch – para uns, um gênio; para outros, um enganador.
Quem vota na primeira alternativa quer ver em Eraserhead o simbolismo selvagem de A estrada perdida, o romantismo perdido de Veludo azul, o céu azul de História real, o humor real de Coração selvagem, os sonhos delirantes de Twin Peaks, os delírios de Cidade dos sonhos, a ficção alucinante de Duna, a dura realidade de O homem elefante. Quem vota na segunda, quer motivo para alegar que Eraserhead é “superestimado”, cultuado sem motivo, badalado sem necessidade, no fundo, apenas, um exercício pretensioso de um jovem cineasta maluco.
Termina a sessão. Umas poucas palmas chochas. Vai ter um debate com um psicanalista. No, thanks. Uma experiência surreal, claustrofóbica e angustiante dessas, nem Freud explica. Cada um tire as suas próprias conclusões. E a minha, qual foi? Indicaria Eraserhead para alguém? Certamente não. 99,9% odiariam. Mas, para os lynchmaníacos, Eraserhead foi bastante revelador. Revela como Lynch, desde o começo, é perseguido pelas mesmas obsessões. Os personagens esquisitos, a fêmea fatal, a aberração, o palco que surge sem mais nem menos, os momentos de puro nonsense, os toques de humor sutil, os mergulhos perturbadores no mundo dos sonhos. Cenas engraçadas, cenas sufocantes, cenas surpreendentes, cenas chocantes. Tudo isso está em Eraserhead.
Por que, então, a quase decepção ao final? Por que não houve um aplauso entusiasmado? Por três motivos: primeiro, a expectativa exagerada. Um filme é um filme é um filme, como diria Gertrude Stein. Um filme de David Lynch é só isso. Um filme de David Lynch. Segundo, verdadeiros fãs de David Lynch não aplaudem. São céticos. Terceiro, filme de David Lynch não foi feito para ser aplaudido, nem entendido, nem debatido à luz da psicanálise. Foi feito para ser visto e gravado na retina ou descartado como lixo conforme o gosto de cada um.

David Lynch

Escrito originalmente em francês pelo jornalista e cineasta Thierry Jousse, o perfil de David Lynch da coleção Masters of cinema da revista Cahiers du cinéma (Cadernos de cinema) foi transposto para a língua inglesa por Sarah Robertson e Imogen Forster. Em cento e poucas páginas, Jousse faz um apanhado da filmografia do cineasta, desde os experimentais curtas-metragens Six Men Getting Sick (1967), The Alphabet (1968) e The Grandmother (1970), passando pelo primeiro e acachapante longa, Eraserhead (1977), até o mais recente Inland Empire (2006). O autor enfatiza os motivos pelos quais David Lynch se tornou um diretor “cult” e demonstra com objetividade por que ele é um dos cineastas contemporâneos mais influentes.
Jousse esmiúça a trajetória lynchniana iniciada com Eraserhead, alegadamente o filme preferido de John Waters. O filme que teve sua primeira exibição pública no Brasil em dezembro de 2003 (e eu estava no lugar certo na hora certa) é decupado em todos os seus níveis. A obra, que serviu de “trabalho de conclusão de curso” do American Film Institute, foi concebida e gerada durante um período conturbado na vida pessoal de Lynch. Em 1974, ele se divorciou de Peggy Reavey, a mãe de Jennifer Lynch, nascida em 1968. Por um tempo Lynch chegou a morar no set de filmagens de Eraserhead. O livro conta também o obsessivo trabalho conjunto de Lynch e o engenheiro de som Alan Splet na concepção e gravação da trilha sonora do filme.
Depois de atrair atenção do circuito alternativo com seu filme de estreia, cujos atores relativamente desconhecidos iriam permear muitas de suas obras posteriores (como Jack Nance), logo no segundo longa-metragem David Lynch já dirigiu ninguém menos que Anthony Hopkins, John Hurt, John Gielgud e Anne Bancroft. A exemplo de Eraserhead, O homem elefante (1980) também foi filmado em preto e branco. Segundo Jousse, O homem elefante “acabou sendo o segundo filme ideal para o diretor; seu maior sucesso comercial e artístico até então, elogiado pelos críticos, mas de modo algum reduzindo sua condição de cineasta cult”.
As oito indicações para o Oscar recebidas por O homem elefante (mesmo sem levar nenhum) deram cacife para Lynch “escolher o próximo projeto”. Aqui um detalhe interessante: George Lucas convidou David Lynch para dirigir O retorno de Jedi. Mas o filme seguinte de Lynch seria também o seu maior fracasso: Dune (1984), adaptação do livro de Frank Herbert. De acordo com o autor Thierry Jousse, um dos poucos saldos positivos desse trabalho consistiu no surgimento de Kyle MacLachlan, ator que marcaria presença em obras fundamentais de Lynch (Veludo azul e a série televisiva Twin Peaks).
Insatisfeito com o resultado de Dune e com a perda de controle artístico no final cut de seu terceiro longa, Lynch retornou a fazer um filme de orçamento menor e em que pudesse manter o toque autoral do começo ao fim. O resultado: a perversão de Veludo azul (1986), que marca o início da união (não só em termos de cinema) com a atriz Isabela Rosselini. Como Dorothy Vallens em Veludo azul e Perdita Durango em Coração selvagem, Isabela se tornaria uma das musas imortais da obra de Lynch (a outra sendo, é claro, Laura Dern).
Thierry Jousse não considera Coração selvagem, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 1990, um dos melhores filmes de Lynch. A melhor cena, para ele, é a do acidente. (Não há necessidade de, aqui, me estender sobre o que penso de Wild at heart: já soterrei a película de Lynch com os mais variados adjetivos neste post.)
Jousse então faz um link entre Coração selvagem e História real. Dois road movies, cada qual a seu estilo. O primeiro, mais urbano e movido a rock’n’roll, o segundo, completamente rural e revestido de música country. A aventura de Alvin Straight, que atravessa os Estados Unidos pilotando um minitrator cortador de grama para visitar o irmão doente, representa na filmografia de Lynch uma volta às origens, quando, na década de 1950, o pequeno David vivenciou as constantes mudanças geográficas da família, por conta da profissão do pai (pesquisador de biologia vinculado ao Ministério da Agricultura), atravessando, assim, diferentes regiões estadunidenses.
Naquela época da vida, a meta de David Lynch (nascido em 1946) era tornar-se pintor. Em 1964, ele chegou a fazer uma viagem à Europa para tentar de modo infrutífero tornar-se pupilo do expressionista Oskar Kokoschka. Em 1965, de volta aos EUA, matriculou-se na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia. Ao perceber as limitações da pintura (falta de movimento e de som), comprou uma câmera 16 mm e começou a fazer os primeiros curtas, até que em 1970 entrou numa escola de cinema, a AFI (American Film Institute), em Los Angeles.
Se Jousse “quebra” a cronologia ao abordar as raízes rurais de Lynch revisitadas em História real (1999) logo após a análise de Coração selvagem (1990), em seguida focaliza os trabalhos entre esses dois filmes.
No mesmo ano em que Coração selvagem foi lançado, Lynch realizou o piloto da série televisiva Twin Peaks, projeto que teve duas temporadas e trinta episódios. Lynch dirigiu o primeiro, o último e mais quatro. [As palavras gaguejantes de Pete Martel, o personagem que descobre o corpo de Laura Palmer, até hoje ressoam em meu cérebro: “Lucy, this is Pete Martel. Put Harry on the horn.” Harry, o xerife, pega o fone e escuta estarrecido: “She’s dead... wrapped in plastic”.]
Lynch ainda viria a encerrar o assunto (ou dar mais pano para manga) com o longa-metragem Twin Peaks: Fire Walks With Me (1992). Aqui, mais uma “novidade” em termos da mudança do viés crítico. No lançamento esse filme teve recepção fria da crítica. Quase vinte anos depois, segundo Thierry Jousse, a obra vem sendo reavaliada e considerada com mais cuidado. Lynch, ao lidar com temas como incesto e puritanismo, “mergulha fundo na alma estadunidense”.
O outro produto da década de 1990 é A estrada perdida (1997), no qual, nas palavras de Jousse, Lynch tenta uma espécie de “contato hipersensorial” com a plateia. O autor realça as influências de Hitchcock nesse filme, como o clima de pesadelo de Um corpo que cai. E define Lost Highway: “Profundamente erótico, universal e ressonante. Um dos filmes mais contundentes de Lynch”.
O último capítulo do livro, com o sintomático título “Hollywood Turned Upside Down”, é dedicado a investigar Cidade dos sonhos (Mulholland Drive, 2001) e o digital Império dos sonhos (Inland Empire, 2006). 



Jousse mostra as semelhanças temáticas e as diferenças tecnológicas e estilísticas das duas mais recentes realizações de Lynch, que esteve em Porto Alegre em 2008.

Leitor, conte as fotos acima. Sim. Toda a filmografia de Lynch cabe em duas mãos. Dez filmes que mudaram o cinema para sempre, debatidos com maestria por quem entende do riscado.



JOUSSE, Thierry. David Lynch. Paris: Cahiers du cinéma Sarl, 2010.
Tradução (do francês para o inglês) de Sarah Robertson e Imogen Forster.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Os pinguins do papai


Richard Atwater (1892-1848), jornalista e professor de grego clássico, quando sofreu um ataque de embolia pulmonar em 1934 já havia publicado uma série de livros. Depois do problema de saúde não pôde mais falar nem escrever. Contudo, pouco antes, ele escrevera um manuscrito intitulado Ork! The Story of Mr. Popper's Penguins, supostamente inspirado num documentário sobre a expedição de Richard Byrd à Antártica. Com o marido fora de combate, eis que Florence Atwater (1896-1979) entra em cena para sustentar a família (além do marido, a filha Doris e o filho Carroll) como professora do ensino médio (francês, inglês e latim). Foi dela também a iniciativa de submeter os originais de Mr. Popper's Penguins a duas editoras, que recusaram solenemente. Então Florence, que também dava seus pitacos literários, deu uma recauchutada no texto, tornando-o mais suave e bem-humorado (imagino eu).O fato é que em 1938 a Little Brown publicou a nova versão. O livro emplacou e teve sucesso instantâneo - e duradouro. Recebeu várias láureas literárias e tornou-se um preferido das crianças de várias gerações.
Foi traduzido para inúmeras línguas e adaptado ao teatro.
Agora, com Jim Carrey no papel de Mr. Popper, ganha uma versão cinematográfica.
Não tenho informações sobre quão "fiel" o roteiro do filme é à história do livro; imagino que os roteiristas tenham tomado muitas liberdades. Independentemente disso, sempre uma adaptação fílmica acaba contribuindo para um "revival" do interesse pelo livro, num saudável círculo virtuoso.
O corretor imobiliário sr. Popper tenta reconquistar a ex-mulher Amanda (Carla Gugino) e também ser um melhor pai de Janie (Madeleine Carroll) e Billy (Maxwell Perry Cotton). Neste meio-tempo, tenta convencer a proprietária de um restaurante localizado em pleno Central Park a vender o imóvel. Como se não bastassem os desafios familiares e profissionais, surge(m) outro(s) pequeno(s) contratempo(s): Capitão, Fedor, Dengo, Bicão, Matraca e Lesado, seis adoráveis e personalíssimos pinguins recém-chegados, em duas remessas, diretamente da Antártica.
Em noventa e poucos minutos, Os pinguis do papai se metem numa série de confusões em plena Nova York: passeam no parque, fogem de casa e vão parar numa festa no museu Guggenheim, e, sobretudo, tentam fugir das garras do especialista em pinguins que insiste em levá-los ao zoológico.Jim Carrey é um palhaço nato, o que garante risadas, se não convulsivas, ao menos constantes.Nos créditos os produtores afirmam que nenhum pinguim se machucou nas filmagens, mas que o mesmo não pode ser dito sobre Jim Carrey, que foi "mercilessly bitten".

Vermelho, branco & azul

Vencedor da competição internacional do Fantaspoa.
O título do filme remete às cores estadunidenses (um dos protagonistas nas cenas finais usa uma camisa com a bandeira dos EUA costurada às costas). Também nos permite fazer um remoto intertexto com a trilogia do polonês Krzysztof Kieslowski (Três cores: azul, branco e vermelho), mas a evocação é artificial e inadequada. O diretor britânico Simon Rumley cai na tentação do apelativo.
O cenário é Austin, Texas.
A estrutura é meio tragédia em três atos. O primeiro ato aborda a rotina devassa de Erica (Amanda Fuller), moça que sempre anda com as pernas de fora e transa a torto e a direito com desconhecidos sem usar preservativos. Essa primeira parte também mostra o carinho que o calado Nate (Noah Taylor) cultiva por Erica - os dois habitam a mesma pensão. A princípio, ela o despreza, mas depois aceita a ajuda dele para conseguir um novo emprego.
No segundo ato dessa tragédia anunciada, o protagonista é Franki (Mark Senter), guitarrista de uma banda de rock. O espectador mais atento vai lembrar que ele aparece no comecinho do filme - é um dos caras que aproveita a política de "amor livre" de Erica. Aqui o roteiro focaliza a vida de Franki: a banda de garagem cujo cd alcança a marca de mil cds vendidos, a mãe que luta contra o câncer, a namoradinha que depois de uma aventura volta com o rabo entre as pernas. Até aqui o filme demonstra qualidades tanto na edição quanto na direção. E continua mostrando, só que a serviço do sensacionalismo e da exploração da imagem de uma criança.
Não vou entrar em detalhes sobre o terceiro e último ato. Apenas mencionar que a tônica será de vingança e contravingança. E dizer que gostaria muito de elogiar a direção contida de Simon Rumley, sua competência no estudo das tomadas, sua interessante premissa de montagem. Mas, como eu já disse, uma sequência jogou toda essa habilidade na vala comum do - atualmente em voga - uso de crianças em filmes ditos "extremos". Não há explicação nem justificativa para inserir uma criança inocente no meio desse bacanal de tortura.
Em outras palavras, a coisa estava indo bem até uma altura, mas de repente o filme perdeu a credibilidade comigo, pois, de modo gratuito e injustificável, incluiu (como está se tornando habitual entre diretores que pretendem "chocar" a plateia) uma criança no meio.
Sinceramente, sou do tempo em que se respeitavam certos códigos, até mesmo nos gêneros "fantástico", "horror" e "terror". De uns tempos para cá, porém, filmes com pretensas aspirações artísticas mostram sem pudor crianças sendo torturadas física e mentalmente. Estamos na era do vale tudo. E o que antes era considerado de mau gosto, hoje é sinônimo de "coragem" e "ousadia" dos realizadores e motivo de premiação.
Numa análise fria, Vermelho, branco & azul tem qualidades em seu processo artesanal que o credenciam a vencer festivais e ser incensado como cult. O personagem interpretado por Noah Taylor, o mais bem construído do filme, pode ser alvo de muitos debates. Sem dúvida, o diretor Simon Rumley não é nenhum iniciante. Tem no currículo filmes merecedores de atenção (por exemplo, o premiado, cultuado e incensado Distúrbio fatal). Talvez o objetivo de Rumley tenha sido mostrar que um torturador não tem limites. Por sinal, "terror sem limites" é o subtítulo de outro filme que se utiliza de crianças para chocar a plateia.

quinta-feira, julho 28, 2011

Malditos sejam!

Filme argentino vencedor da competição Íbero-americana do VII Fantaspoa. A dupla de roteiristas/diretores Fabían Forte e Demian Rugna estruturou o filme em um prólogo seguido de três capítulos. O prólogo se passa em 1979 e faz um link direto com o terceiro capítulo; na verdade, o terceiro capítulo explica e desenvolve as situações suscitadas no prólogo. O capítulo 1 é sobre um matador de aluguel perseguido pela imagem de uma de suas vítimas: um menino inocente. O matador consulta um vidente que lhe diz que a alma do menino só vai descansar se Hugo, o matador, colocar numa caixa o coração do mandante e do comparsa de Hugo. Mas dois corações talvez não sejam o suficiente para aplacar o tormento da jovem alma...
O interessante capítulo 2 trata de um grupo de mulheres virgens que praticam a cafeomancia, processo de ver o futuro na borra do café, que tem raízes na cultura árabe.
Um homem vai consultar as moças (entre elas, a inquietante Gabriela Mocca) e, durante a consulta, a moça vê que ele é o portador de um espírito mau. Assustada, pede para ele se retirar do recinto e consulta a vidente mais experiente, que, por sua vez, consulta o guru já meio caduco. Ele manda trazer um revólver. E acho que chega de detalhes, não é mesmo? Este capítulo é o melhor resolvido em termos de roteiro e o que mais transmite medo, por conta do asqueroso monstro que deseja trucidar todas as virgens.
O capítulo 3 volta ao prólogo para explicar como um policial desapareceu no meio dos anões de jardim. Este capítulo, o mais desconexo e mal explicado, se dá o direito de incluir cenas meio nonsense (quando aparecem os anões de verdade).
No geral, Malditos sejam! revela o bom nível do terror made in Argentina.

segunda-feira, julho 18, 2011

Stake Land

Stake Land foi o "final dish", nas palavras do simpático diretor Jim Mickle no colóquio com a plateia que lotava o Cinebancários. A terminologia é adequada, já que o filme revisita um tema que remete à fome, no caso, de sangue. Eterna fonte de cults como Fome de viver, Quando chega a escuridão e Deixa ela entrar e de abordagens mais populares como Drácula de Bram Stoker, A hora do espanto, Entrevista com o vampiro e Vampiros de John Carpenter, ultimamente o gênero andava carecendo de incursões sérias, que acrescentassem elementos à mitologia dos seres de caninos avantajados. Stake Land pode se orgulhar disso, ao entremear um clima de Red Dawn (Amanhecer violento), o apocalíptico filme de John Milius, à temática vampiresca. Talvez por isso o título Anoitecer violento que o filme ganhou no Fantaspoa. Diga-se de passagem, sem o dedicado trabalho de tradutores (tanto na legendagem quanto na tradução intercalada durante as sessões comentadas), o Festival não seria possível. O título desse filme é um exemplo de dificuldade tradutória. Com alta carga semântica, polissêmico, com um "pun" inteligente, Stake Land é o tipo do título que se costuma rotular de "intraduzível". Mas, como já dizia Paulo Rónai, se o poeta quer exprimir o inexprimível, não é surpreendente que o tradutor queira traduzir o intraduzível. Voltando à vaca fria, o diretor contou que a ideia inicial era fazer uma série para a web, com trinta episódios. O projeto estava pronto para ser realizado, mas o episódio piloto acabou se transformando nos primeiros dez minutos do filme. Elementos dos outros episódios foram reciclados e remoldados para caber no formato longa metragem. O roteiro traz ideias bem interessantes, como diversas espécies de vampiros diferentes, vide os berserkers, que não morrem com estacas no coração e sim na nuca, perfurando o cérebro reptiliano. O filme se concentra na saga de dois personagens, o jovem Martin (Connor Paolo), que perde a família num sanguinolento ataque dos vampiros, e Mister (Nick Damici, também roteirista), o tipo do cara ideal para se ter ao lado numa situação extrema: sangue frio, destemido, hábil com tudo que é tipo de arma e estudioso do comportamento transilvânico. Personagem importante também é Sister, uma religiosa que é salva pelos dois de um estupro. Surpresa: Sister é interpretada por ninguém menos que a sumida Kelly McGillis, que virou a cabeça de Tom Cruise em Top Gun - Ases indomáveis. Junto com Sister, Willie (Sean Nelson) e a grávida Belle (Danielle Harris), Mister e Martin tentam desesperadamente chegar à New Eden, um lugar pacífico e livre de vampiros. Nisso o filme lembra também Mad Max, em que os poucos humanos sobreviventes tentam chegar a um lugar melhor para se viver. Indagado sobre influências, o diretor assumiu apenas haver muita coisa de faroeste inserida na roupagem vampirífera. Antes da sessão, Jim Mickle disse que o objetivo maior do filme era fazer os vampiros parecerem "cool" again. O personagem Jebedia Loven (Michael Cerveris), o messiânico líder de uma seita, pode ser interpretado como crítica subjacente às seitas e pseudorreligiões que grassam no mundo. Jebedia talvez não seja exatamente "cool", mas o filme é.

domingo, julho 17, 2011

Harold está ficando cadavérico

Filmado em sete dias pelo diretor Keith Wright, Harold is going stiff (2010) é original e inovador. Uma epidemia de DAR (Doença do Ataque de Rigidez) acomete a população do interior da Grã-Bretanha. A primeira pessoa infectada, Harold Gimble (Stan Rowe) vira cobaia de um cientista que tenta descobrir a cura para o inédito mal. Enquanto isso, Penny (Sarah Spencer), uma cativante enfermeira, torna a vida de Harold mais suportável, com sessões de massagem para devolver um pouco da flexibilidade e retardar o avanço da doença. O estágio mais avançado conduz à "zumbificação", e o paciente se torna violento. Por isso, um grupo de "vigilantes" se forma para eliminar, com tacos de beisebol, os enfermos já desenganados. O lance genial do roteiro é "humanizar" os tão difamados e estereotipados zumbis. Regado a múltiplas xícaras de chá, Harold está ficando cadavérico surpreende pela verossimilhança interna e pelo bom humor.

sábado, julho 16, 2011

Molina's Ferozz - The Wild Red Riding Hood

O cubano Jorge Molina estudou cinema na Rússia e é considerado o principal expoente do cinema fantástico da ilha dos Castro. É o primeiro filme que vejo dele e, espero, o último.
Irritantemente tosco. E para quem já viu A Serbian Film esta semana nada mais impressiona. Muito menos um roteiro cuja única razão de ser é

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER IRRITANTEMENTE TOSCO
SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER IRRITANTEMENTE TOSCO
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DEPOIS NÃO DIGA QUE NÃO AVISEI


o desejo de um tio deflorar a sobrinha. A estética de Molina é a estética da sujeira. O personagem "Dully" é disparado o mais patético do Fantaspoa, com os cabelos compridos sebentos, o rosto sempre imundo e a obsessão onanista.Irritantemente tosco.
Onanismo, aliás, é uma boa explicação para esse novo gênero que surge em nossos dias, que une sexo com decapitações. Novo pretexto para se fazer pornochanchada. A única tensão existente no filme é justamente a sexual: um freak que se m******* vendo as moças tomando banho no rio, uma viúva que tenta seduzir o irmão do falecido marido, uma menina que usa o cachorrinho como brinquedo sexual, uma adolescente que provoca o tio, o tio que quer possuir a adolescente. Nesse meio-tempo, algumas alusões malfeitas a uma suposta entidade maligna que vive nas florestas e uma ou outra cena grotesca de magia negra. Tudo se dirige para a cena ápice, a cena auge, a cena êxtase: a cena em que toda essa tensão deve se consumar. O roteiro tem sérios problemas, mas o pior mesmo é a direção. A cena final é uma aula de antidireção, com os atores perdidos, banhados em sangue, se esforçando para, e não conseguindo, demonstrar tesão. Molina's Ferozz: definitiva e irritantemente tosco!

Krokodyle

O cineasta Stefano Bessoni (que estreou com a coprodução espanhola e italiana Imago Mortis em 2009) realiza com Krokodyle o seu segundo longa. De acordo com o diretor, que conversou com a plateia antes e depois da exibição, trata-se de uma obra essencialmente autoral e bastante particular. Kaspar, o personagem principal, é o alter ego de Stefano. Ambos são film-makers e ilustradores. A moradia de Kaspar é na verdade a moradia de Stefano na vida real. As piras do personagem, em última análise, que tem amigos imaginários e o sonho de fabricar homúnculos, são as piras do diretor. Stefano contou para os espectadores que o filme nasceu da vontade de escapar do controle artístico imposto pelos produtores, coerção que ele sentiu na pele ao fazer o primeiro filme, uma produção de mainstream. Krokodyle é uma produção mais independente, sem as concessões inerentes a uma superprodução. A proposta de Stefano, cujo sonho quando criança era ser coveiro, é realizar um cinema macabro que entretenha o público e o instigue a pensar.
Um dos fios condutores de Krokodyle é a envolvente música de Michael Nyman, compositor que se tornou famoso pela parceria com outro cineasta, Peter Greenaway, que, por sinal, é citado em Krokodyle. Wim Wenders e seu soporífero Asas do desejo (em cuja sessão às 24 horas no cine ABC eu adormeci) também são homenageados em Krokodyle. O roteiro é subdividido em rápidos capítulos que contam a saga de Kaspar, um cineasta que espera um telefonema dos produtores para poder rodar o próximo filme. Há no roteiro uma mágoa com o "sistema" que talvez não seja muito producente para um diretor que deseja se firmar. E a julgar pelas palavras acerbas de Stefano contra o cinema comercial, a intenção dele é ficar à margem e não "vender a alma". Louvável a intenção de se manter íntegro, mas é preciso ressaltar que muitos diretores conseguem autonomia artística justamente por conseguirem autonomia econômica e poder na indústria (vide Steven Spielberg).
Até que ponto essa postura de animosidade contra o "sistema" vai ajudar a carreira de Stefano, o tempo dirá. Quanto ao filme em si, não chegou a empolgar a plateia presente ao Cinebancários. Destaque para a música e as ilustrações bizarras de Kaspar/Stefano. Ilustram esse post o cartaz de Krokodyle e ilustrações feitas pelo diretor para o filme Imago Mortis. Diga-se de passagem, outro diretor italiano também gostava de desenhar: Federico Fellini.

quinta-feira, julho 14, 2011

O último empregado

Outro charme do Fantaspoa é matar as saudades do tempo em que eu morava na Duque de Caxias e caminhava muito pelas ruas do centro. Tempos em que eu subia a rampa da João Manoel depois de ter assistido no Cacique Uma noite alucinante ou no Scala a pré-estreia de O selvagem da motocicleta ostentando no sobretudo um button do Cramps, aquele da caveira com os cabelos espetados.
De volta a 2011. Ao sair da sessão de HRWWM (ver post abaixo), que passou na sala Eduardo Hirtz, da Casa de Cultura Mário Quintana, na rua dos Andradas, carinhosamente chamada de rua da Praia, me encaminhei ao Cinebancários, a cerca de três quadras dali, na célebre rua da ladeira (General Câmara). O tempo estava esquisito, meio abafado, e uma garoa morna começava a molhar as ruas. Fui assistir ao segundo filme da noite: horror made in German, O último empregado, que tem no currículo o The Mélies D'Argent, a láurea mais elevada do Festival de Cinema Fantástico de Leeds, na Inglaterra. Diferentemente dos demais filmes que assisti no Fantaspoa, este não tem nada de engraçado. Aqui a proposta é deixar o espectador com o cabelo em pé. Enervar, inquietar, encucar, apavorar, aterrorizar. E, guess what, o filme de Alexander Adolph é realmente creepy. À primeira vista, o roteiro parece um estranho híbrido de Amor sem escalas e O sexto sentido, com o tema do desemprego mesclado a assombrações. Envolve um homem que tem o mesmo trabalho de George Clooney em Up in the air, isto é, despedir uma equipe de funcionários, com a diferença que também irá fazer o inventário da empresa. David (Christian Berkel), homem que já tem um histórico de problemas psiquiátricos, ganha uma nova oportunidade no mercado de trabalho. Depois de pôr todos os funcionários no olho da rua, ele adota o abandonado e fantasmagórico escritório da empresa como local de trabalho. A mórbida presença de uma das funcionárias mais antigas da empresa, a sra. Block (Bibiana Beglau, numa performance arrepiante) vai ser sentida por David, com todos e em todos os sentidos. E o problema vai influenciar seu relacionamento com os familiares, notadamente a sogra Greta, a esposa Irina e o filho Simon.

O massacre de Reykjavic


Um dos charmes do Fantaspoa é a diversidade linguística que serve de bálsamo a ouvidos já fatigados da mais recente língua franca (o inglês). Assistir a um filme falado em islandês, com locações na longínqua Islândia, num cenário natural maravilhoso de fiordes e mares onde as baleias se reproduzem com liberdade, sem dúvida já paga o ingresso promocional de cinco pila.
E se o produto em questão for um slasher movie de roteiro razoavelmente bem amarrado com pitadas de meditação ecológica (num diálogo o Greenpeace é chamado de green piss) e, de quebra, uma abertura tipo documentário que lembra os trágicos dias da caça à baleia, então o espectador não muito exigente com certeza já está no lucro.
O massacre de Reykjavik (Harpoon: Reykjavik Whale Watching Massacre, ou HRWWM para os mais íntimos), obra de Július Kemp, retrata o que devia ser um inofensivo passeio de turistas para ver baleias em seu hábitat. No cais da capital islandesa, sobem a bordo do Poseidon, barco pilotado por ninguém menos que Gunnar Hansen (o ator que interpreta o psicopata Leatherface em Massacre da serra elétrica, o clássico de 1974, dirigido por Tobe Hooper), turistas de vários países, como Alemanha, França, Inglaterra e Japão. O intertexto com The Texas Chainsaw Massacre não é apenas no título e no elenco. É também na sede de sangue de uma família de freaks e na falta de motivos para explicar essa sede de sangue. O fato é que os desavisados turistas se veem numa situação periclitante quando acidentalmente o capitão é trespassado por um arpão. O grupo dá graças aos céus quando é "resgatado" por um dos membros da desajustada família que vive num velho barco ancorado numa pacata enseada defronte aos majestosos fiordes e a um farol (com um faroleiro weirdo, diga-se de passagem). Logo o grupo percebe que a situação que era crítica passou a ser dramática, e é um Deus nos acuda no convés quando um dos freaks enfia o martelo na testa de uma das alemãs. Cada um a seu modo procura se esconder no sinistro barco para salvar a pele, à exceção do nosso inteligente japonês, que pega um colete salva-vidas e pula no mar.

quarta-feira, julho 13, 2011

A Serbian Film - terror sem limites

Pensar em cinema iugoslavo é pensar em Emir Kusturica (nascido em Sarajevo) e em Quando papai saiu em viagem de negócios, Palma de Ouro de 1985 em Cannes. O cinema que se fazia na antiga Iugoslávia era denso e ao mesmo tempo bem-humorado; local (ao retratar os costumes, as músicas e as particularidades do povo iugoslavo) e ao mesmo tempo universal (ao retratar sentimentos que podem ser compartilhados por qualquer pessoa do mundo, independentemente da nacionalidade).
Mas se você esteve no planeta Terra nos últimos vinte anos sabe que a Iugoslávia, esta "casa muito dividida" como a National Geographic estampou numa de suas capas, se desmantelou, e se desmantelou da pior maneira possível. Um dos filmes mais interessantes sobre os conflitos da separação é Terra de ninguém (2001), do diretor bósnio Danis Tanovic, que com seu humor negro levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Depois de tantas guerras, agora é bola para frente (sem trocadilho), tanto em termos cinematográficos como políticos. Mas a verdade é que o diretor Srdjan Spasojevic e o roteirista Aleksandar Radivojevic chutaram o balde dos limites do razoável. Na sala Paulo Amorim lotada, antes da sessão, uma moça comentou com o namorado: "a sinopse é realmente promissora".
Bem, eis que não vou dar sinopse alguma do filme nem falar de nada das coisas inomináveis que acontecem nele. Em vez disso, vou procurar avaliar o filme pelas reações da plateia.
No começo, lá na fileira bem da frente, depois que deu a vinheta dos Correios, uma moça moderninha gritou tirando sarro: "Viva, é filme de terror!". O clima era de descontração e certo ceticismo sobre o conteúdo (sem trocadilho) da película. O tempo vai passando, as personagens vão se delineando, o roteiro se desencadeando, e as reações variam entre uma curiosidade crescente e certa decepção incipiente. Em alguns diálogos bate certo enfado e o público se mexe inquieto e pensa, puxa, nada acontece neste filme. Eis que o roteiro inclui numa situação inominável uma coisa que não combina de modo algum com situações inomináveis. A partir daí o filme toma um rumo extremamente hardcore. E o clima de desconcentração no cinema muda completamente. Ao ver uma cena de inusitada violência, a plateia emudece. A tensão toma conta dos espectadores, e o silêncio perdura até o fim do filme, interrompido uma ou duas vezes para uma gargalhada (quando o diretor diz que seu filme pulou pela janela) e algumas risadinhas constrangidas. Mas na sequência derradeira o nojo é tanto que, e agora eu trago o testemunho de minhas reações, confesso, cheguei a pensar em sair do cinema. Ou seja, se o objetivo dos realizadores era provocar sensações fortes e quebrar paradigmas do que se pode ou não mostrar/sugerir nas telas de cinema, bem, eles alcançaram plenamente o objetivo.
Falando em nojo e revolta, antes de escrever este texto eu pesquisei sobre o filme e encontrei uma entrevista concedida a David Harley pelos realizadores, no site Bloody Disgusting. O roteirista alega que o filme é uma metáfora sobre a condição de ser transformado em marionete pelo sistema. Abaixo transcrevo um trecho da entrevista (para ler na íntegra, siga o link http://www.bloody-disgusting.com/interview/638). Com a palavra o nada modesto roteirista, que chama as barbaridades gráficas do filme de "arte": "Catharthis through art is something that’s really liked in Serbia these days. Catharthis through really subversive, really strong art; that’s what people need because they’ve been desensitized because of the wars and it’s like they need some kind of cold shower through art to show them what really happened with their lives. The film is an exaggeration of all the problems. We took our own experiences and truths about our government and flowed it into this genre and embedded it with meaning and ferocity."
Na parte sobre o exagero, eu concordo.

sábado, julho 09, 2011

Horror gráfico sexual

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Presságio

Falado em inglês e filmado no lindo cenário da ilha de Malta, sob a batuta do mestre do cinema de horror Lamberto Bava (filho de Mario Bava), Presságio (Visions of Murder) é um thriller eficiente, que aborda um tema mórbido (rapto de meninas) com sensibilidade. Desde o início, Bava prende a atenção do espectador e cria um clima de crescente suspense. A história se concentra na personagem Anna (a bela húngara Andrea Osvart), jovem viúva que tem o dom da premonição. Ela vai ajudar o policial interpretado por Craig Bierko a investigar o rapto de uma menina. No fundo o filme é um quebra-cabeça do qual o espectador é convidado a participar, algo como um "whodunnit", ou melhor, nesse caso, um "whoisdoing". Diga-se de passagem, talvez pela minha vasta experiência como leitor de Agatha Christie, eu descobri o assassino. Mas daí para dizer que o final é previsível seria cometer o pecado da generalização. Destaques para a trilha sonora com delicados acordes de violino e para as boas atuações dos protagonistas. A produção faz parte de uma série formatada especialmente para TV. A sessão no Cinebancários foi a primeira exibição pública do filme e contou com a presença do diretor, que teceu comentários e respondeu perguntas da plateia sobre Presságio e outros filmes. O diretor italiano elogiou Christopher Lee e Max von Sydow, dois grandes ícones do cinema com quem ele trabalhou.

terça-feira, julho 05, 2011

A noite do chupacabras

Segundo longa metragem do cineasta capixaba Rodrigo Aragão, A noite do chupacabras marcou a abertura do VII Festival Internacional de Cinema Fantástico - o Fantaspoa - e teve na segunda-feira à noite uma nova sessão no Cinebancários. A sala estava lotada para conferir o novo filme do diretor do cultuado Mangue Negro. Que, por sinal, saudou os presentes antes da sessão e explicou que a versão assistida aqui em Porto Alegre ainda vai sofrer alterações. Também contextualizou o filme numa espécie de "trilogia" que focaliza três ecossistemas diferentes: mangue (Mangue Negro), montanhas com florestas (A noite do chupacabras) e praia (Mar Negro, título provisório do próximo filme).
Carlos Primati, especialista em cinema de horror e host do site Cine Monstro, alguns meses antes da estreia do filme já destacava a importância da hostilidade do cenário para o filme: "Até onde posso falar do CHUPACABRAS, não é muito diferente dos filmes de "horror caipira" estadunidenses,como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA ou VIAGEM MALDITA: o cenário é um meio do mato hostil, onde habita um monstro selvagem." (http://cine-monstro.blogspot.com/2011/03/noite-do-chupacabras-2011.html#comments). Sem dúvida, a ambientação em meio a trilhas e regatos dá ao filme um clima extremamente sombrio, o que contribui para uma sensação de claustrofobia - não há como escapar daquela selva, daquele monstro, daquela demência que comanda os atos de duas famílias que se odeiam, os Carvalho e os Silva. A saga de ódio familiar é o pano de fundo para o protagonismo da mítica figura do chupacabras. O realizador em uma entrevista declarou sobre a criatura: "Demorou oito meses de estudos e testes com diversos materiais - entre eles a espuma de poliuretano, silicone e látex -, até que encontrei uma fórmula de uma espuma de látex, leve, elástica e resistente o suficiente para dar ao ator a liberdade de movimento necessária para o personagem. Pegamos um molde de corpo inteiro do Walderrama dos Santos [ator que interpreta (?) o monstro] e modelamos a criatura, com mais de 70 chifres". O filme dá os minutos regulamentares de apresentação de personagens até a sequência chave da escatológica briga no bar. Depois disso a bem-humorada carnificina não dá trégua para o espectador. Uma cena surpreendente engata na outra, com direito a inserções de personagens horrendos como o velho do saco.
Mais informações sobre o VII Fantaspoa: http://www.fantaspoa.com/2011/novo/index.php
Mais informações sobre a produção de A noite do chupacabras: http://fabulasn.blogspot.com/p/noite-do-chupacabras.html

sábado, julho 02, 2011

Amizades e... rodas!

O que têm em comum um drama dinamarquês, uma animação ianque e uma comédia francesa? À primeira vista não muita coisa, mas em dois aspectos os enredos de Em um mundo melhor, Carros 2 e Potiche - mulher troféu se interligam de modo cristalino: a importância das amizades e a importância das... rodas!
A película dinamarquesa Em um mundo melhor, assinada por Susanne Bier, alcançou reconhecimento artístico ao abiscoitar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. O filme tem subtemas, mas em essência narra a peculiar amizade entre os meninos Elias e Christian. Elias é um garoto que sofre bullying na escola. Uma gangue sempre murcha os pneus da bicicleta de Elias. Quando Christian vem morar na cidade e começa a estudar na mesma escola, logo se revolta com aquela situação e tenta proteger Elias. Mas Christian é uma personalidade multifacetada: bom por um lado mas sem limites quando o assunto é fazer justiça com as próprias mãos, que inclui até o plano de mandar pelos ares o furgão de um cara que agrediu o pai de Elias. Amizades + rodas.
Já no hollywoodiano Carros 2, Relâmpago Mcqueen discute com Mate, e a rusga põe em xeque a velha amizade. Às voltas com muitas peripécias de uma trepidante trama de espionagem industrial, os dois percorrem o mundo num circuito de corridas em belas cidades do mundo. O filme mostra que pode haver substituto para o petróleo, para rodas tortas e pneus carecas, mas não para uma boa e velha amizade.
Da França vem o novo filme de François Ozon, Potiche - mulher troféu, que tem como trunfo a imbatível dupla Catherine Deneuve e Gerard Depardieu. Ela é Suzanne, cujo marido, Robert Pujol, tem uma fábrica de guarda-chuvas. Ele é Maurice Babin, político de esquerda. Quando o marido de Suzanne é capturado pelos funcionários em greve, Suzanne recorre a Maurice, que intercede. O episódio obriga Robert Pujol a se internar por problemas de saúde. Suzanne toma as rédeas da empresa e com a ajuda dos filhos a remodela e moderniza. E, de quebra, retoma a ligação com Maurice. Anos atrás, Suzanne trocava o pneu do carro na rodovia quando Maurice parou e se ofereceu para ajudar. Nenhum dos dois esqueceu das coisas que aconteceram naquele dia, e o que era uma paixão impossível se transformou talvez numa bonita amizade.
Três filmes de diferentes nacionalidades para diferentes públicos, mas que servem para realçar a importância das amizades e das rodas.

segunda-feira, maio 30, 2011

Os agentes do destino

Filme que marca a estreia do roteirista George Nolfi como diretor. Na função de roteirista, tem um currículo até certo ponto sólido, que inclui pelo menos dois grandes sucessos: Onze Homens e outro segredo (2004) e O ultimato Bourne (2007). Para sua estreia como realizador, para não perder o cacoete, escreveu também o roteiro, desta vez com base num conto publicado em 1954, de autoria do cultuado Philip K. Dick: The Adjustment Team. O título original do filme faz um intertexto com o título do conto: The Adjustment Bureau. Mas em português o intertexto se perdeu. Mas se algum dia o conto for traduzido para o português, o tradutor já tem um título para copiar: Os agentes do destino!
Um dos membros da "equipe de ajuste", Harry Mitchell, ajuda o jovem político David Norris (Matt Damon) a encontrar seu obscuro objeto de desejo: a bailarina Elise Sellas (Emily Blunt).
Tipo do filme que não ofende (a inteligência de) ninguém. E, incrivelmente, alcança 60 milhões de dólares de bilheteria sem ter um único tiro. Que elemento atrai o público nesta inusitada mistura de Felicidade não se compra com 1984? Em lugar do cheiro de pólvora, os beijos apaixonados de Matt Damon e Emily Blunt.

quinta-feira, maio 19, 2011

Caminho da liberdade

Quem já se deteve mais do que poucos segundos neste blog já percebeu que os textos aqui publicados não são "resenhas" nem "críticas". São textos do ponto de vista do cinéfilo. Mas não se engane: só porque o cidadão é cinéfilo não quer dizer que não tenha senso crítico nem enxergue os pontos negativos até mesmo nos filmes de seus cineastas prediletos. Caminho da liberdade tem como defeitos principais a falta de carisma de Jim Sturgess (que interpreta Janusz, algo como o protagonista) e a falta de alternativas do roteiro. Na segunda categoria, é preciso dizer que a própria ideia de fazer um filme desses é algo quase inimaginável, ainda mais num tempo em que plateias são bombardeadas com fugas vertiginosas, explosões esquizofrênicas e inversões de expectativa mirabolantes. Diferentemente de John Sturges (que fez de Fugindo do inferno uma aventura trepidante), Peter Weir decidiu realizar seu filme sobre uma longa caminhada (não é à toa que o material usado como inspiração para a película se intitula The Long Walk). De modo que depois da fuga dos prisioneiros do gulag, o espectador que se prepare para uma difícil e pedregosa jornada. Parte da crítica louvou a obra, enquanto outra parte, incluindo Beth Wilson (http://www.trespassmag.com/review-the-way-back/), destacou a incapacidade do diretor em despertar no público empatia pelas personagens. A ênfase seria nas paisagens em detrimento do drama humano.
Acho que a esta altura posso começar a fazer o contraponto, enumerando alguns dos pontos positivos do filme: a fotografia, a música, a montagem, pequenos detalhes tocantes do roteiro e a direção econômica. (Por direção econômica refiro-me a fazer uma tomada de 10 segundos quando muitos diretores metidos a sebo fariam de um minuto.)
Ainda criando um intertexto com Fugindo no inferno: Steve Mcqueen interpreta o irreverente oficial americano que sempre vai para a solitária. Caminho da liberdade tem seu americano: Mr. Smith, encarnado por Ed Harris, que também se destaca pela coragem. Completam os sete fugitivos o fora-da-lei e stalinista Valka (Colin Farrell); o padre Voss (Gustaf Skarsgård); o comediante Zoran (Dragos Bucur); o desenhista Tamasz (Alexandru Potocean) e o garoto Kazik (Sebastian Urzendowsky). Um caso à parte no elenco é o talento de Saoirse Ronan - a órfã polonesa que se une ao grupo de fugitivos no meio do caminho.
Na condição de fã do diretor, seria fácil rotular o filme com uma série de adjetivos bombásticos com o objetivo de "despertar a curiosidade" do leitor. Mas confesso que sou suspeitíssimo neste caso. Só queria dizer que é uma sensação agradável e feliz ir ao cinema para ver o filme de um cineasta do nosso top ten. Por mais defeitos que o filme possa ter, sempre vamos reconhecer nele as qualidades que nos fizeram respeitar e apreciar o seu trabalho. Se fosse para dar um adjetivo, pediria emprestado o que a rígida Isabela Boscov da Veja usou para classificar Caminho da liberdade: "extraordinário".

domingo, abril 17, 2011

A árvore

Julie Bertuccelli estreou na direção de longas-metragens com Since Otar Left (2004). Seu segundo filme (não contando o documentário sobre o artista Otar Iosseliani, filmado em 2007) começou a nascer quando uma amiga lhe deu de presente o livro Our Father Who Art in the Tree, de autoria da australiana Judy Pascoe. Além de estabelecer um curioso intertexto com seu "romance fetiche" (O barão nas árvores, de Italo Calvino, cujos direitos autorais, havia descoberto Julie, estavam indisponíveis), o livro abordava temas que ela desejava abordar em linguagem fílmica. Esses temas são, nas palavras da própria diretora: "a infância, a força da imaginação e da invenção como fonte de sobrevivência e o inexorável poder da vida superando a tristeza". Dawn (Charlotte Gainsbourg), no auge de seus trinta e muitos anos, vê-se viúva com quatro filhos. Cada um administra a perda a seu modo. Dawn entra numa depressão situacional, mas sai dela por meio do trabalho como auxiliar na loja do encanador George (Marton Csokas), o patrão que toda viúva pediu a Deus. Tim (Christian Byers), o filho mais velho, é o mais prático: não abandona os planos e, ao mesmo tempo, assume o papel de "homem da casa". O introspectivo Lou (Tom Russel) fica meio na dele. Charlie (Gabriel Gotting), o caçula de 3 anos, retarda o início da fala. Mas é Simone (Morgana Davies), de 8, que reage da maneira mais inusitada. Transfere o amor que sentia ao pai à árvore em que o pai soltou o último suspiro. Começa a falar com a imensa figueira e conta à mãe que a árvore responde, que na árvore mora o espírito do pai morto. A coprodução franco-australiana (a atriz protagonista e a diretora são francesas, o restante do elenco e os cenários são australianos) trata do assunto da perda sem pieguice e com momentos de lirismo e plasticidade. Não é para menos que o espectador sente um clima de intenso envolvimento autoral com o tema "perda". Em 2006, durante a pré-produção do filme, o renomado diretor de fotografia Christophe Pollock, então marido de Julie Bertuccelli, faleceu precocemente, aos 52 anos de idade.

sábado, abril 16, 2011

Rango e Rio

Rango e Rio. Animações tão distintas quanto balada western e samba. Um faroeste protagonizado por Rango, o desengonçado camaleão, e uma aventura protagonizada por Blu, a arara azul que não sabe voar. O humor de Rango é seco e sarcástico. O humor de Rio é leve e explícito. Rio tem lindos e fofos personagens. Rango só tem bicho feio. Rango tem poeira e seca. Rio tem areia e mar. Rio é carnaval. Rango é surreal. Em Rio, Blu é inteligente porque, apesar de ter nascido no Brasil, foi criado nos Estados Unidos. Em Rango, não há personagens inteligentes. Rio tem duas heroínas: Linda, a dona da livraria em Minnesota, americana e inteligente, e Jade, a arara azul, brasileirinha e burra. Rango não tem heroínas. Rio é colorido. Rango é fosco. Rio é alegre. Rango é soturno. Rio é sofisticado. Rango é tosco. Rio até consegue ser engraçadinho, Rango nem tenta. Em Rio, os vilões são meliantes da periferia. Em Rango, o vilão é um político acima de qualquer suspeita. Gore Verbinski dirige Rango. Carlos Saldanha, Rio. Dois filmes hollywoodianos, mas Rango tem sabor de Cannes. Faça um teste. Leve o seu filho aos dois filmes.

sábado, fevereiro 26, 2011

127 horas

O novo filme de Danny Boyle em sua superfície mostra o drama do alpinista Aron Ralston que, numa jornada solitária pelo cânion Blue John, no deserto de San Rafael, no estado de Utah, escorrega numa fenda junto com uma rocha e tem o braço direito preso entre a rocha e a parede da fenda. No fundo, porém, 127 horas é um estudo sobre autossuficiência.
Com o perdão pelo trocadilho, Aron Ralston é uma pessoa que não dá o braço a torcer: gosta de fazer as coisas a seu modo, de se sentir livre, de realizar aventuras por sua conta e risco e sem ninguém para acompanhá-lo. Antes do acidente, ele se encontra por acaso com duas moças e se oferece para servir de guia. Mas aí ainda temos o ego autossuficiente em ação. Massageia seu ego dar uma de herói e mostrar que conhece o lugar como a palma da mão. Depois de se divertirem num lago dentro da caverna, despede-se das moças e volta a ser o Aron solitário, que acha que sempre pode resolver os problemas sozinho e detesta pedir socorro. Com o braço preso durante 127 horas e pouco suprimento de água, Aron terá tempo para reavaliar sua conduta. Mas outra característica das pessoas autossuficientes é a frieza, a qual, no caso de Aron, é extraordinária. Consegue manter o raciocínio cartesiano e matemático de engenheiro focado em manter a esperança e lutar pela sobrevivência. Dedica o tempo a tarefas práticas, como tentar escavar a rocha com um canivete para ver se consegue liberar o braço.
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É natural que Danny Boyle, que ao mostrar crianças tendo os olhos extirpados em Quem quer ser um milionário? recebeu como singelo prêmio um Oscar, tenha procurado sofisticar a sua busca por cenas chocantes. De quebra, deu uma aula de como amputar o próprio braço com um canivete made in China. Antes de mais nada faça um torniquete. Depois, usando o peso do corpo como alavanca quebre o úmero. A seguir insira o canivete sem fio na carne e vá cortando sem se importar com o sangue. Não desmaie. A esta altura dos acontecimentos, a sensibilidade à dor estará quase tão embotada quanto o fio do canivete, certo? Errado! Fazer a excisão dos nervos vai doer um bocado.
Imagino que por se basear num fato real, tornar-se-ia quase impossível vender o filme e tentar "esconder" o seu final. Mas também imagino que num mundo perfeito as pessoas não precisariam contar na "sinopse" de três linhas que o cara vai amputar o seu braço. Talvez isso seja feito para prevenir pessoas com estômago fraco. Por conta desse impasse (o fato de que todas as pessoas têm a tendência de ser barriga-fria e "contar o final"), Danny Boyle procurou realizar um filme cujo mérito estaria mais na formatação do desenvolvimento que no desfecho em si. Com a ajuda da atuação soberba de James Franco, acho que ele atingiu o ponto nevrálgico.
Aron Ralston, na vida real, teve que reeducar o corpo para usar a mão esquerda (era destro). No lugar da mão e do antebraço direitos, usa uma prótese que o ajuda em suas aventuras. E ao que tudo indica a experiência lhe deixou um pouco menos autossuficiente.

sábado, fevereiro 12, 2011

Cisne negro


Quando a pessoa vai ao cinema para ver o quinto filme de Darren Aronofsky, supondo que tenha assistido os quatro primeiros, já sabe de antemão o que lhe espera: um cinema profundamente autoral, com certas obsessões recorrentes, como a drogadição com todas as suas vertentes, os meandros da psique humana, a tênue linha entre o saudável e o doentio na relação pais/filhos, o corpo humano e as metamorfoses. Tudo isso se confirma em Cisne negro (2010), filme que possibilita várias leituras e que merece ser visto mais de uma vez.
A favorita ao Oscar de Melhor Atriz Natalie Portman (que estreou em 1994 com O profissional e no próximo 9 de junho completa 30 anos) dá vida à Nina Sayers, a bailarina que sonha em ser a Rainha Cisne na nova temporada de O lago dos cisnes, o balé em quatro atos de Tchaikovski que estreou em 1877. A moça, dona de uma técnica perfeita, é também a profissional mais dedicada da companhia. Mas talvez não seja escolhida porque não consegue "se soltar", ou "let it go", nas palavras do diretor Thomas (Vincent Cassel). Para aumentar a concorrência, uma nova bailarina é contratada, a misteriosa Lily (Mila Kunis), que procura fazer amizade com a relutante e sempre tensa Nina.
Quais os motivos da tensão da moça? A mãe psicopata-dominadora (Barbara Hershey)? A fixação por Beth (Winona Ryder), a bailarina em fim de carreira? Repulsa ao sexo? Entre outras coisas, o filme tenta responder essa pergunta e investigar a essência da personagem, descobrir quem ela é. E, ao mesmo tempo, retratar sua metamorfose na busca do sucesso e da perfeição profissionais.
Cisne negro, como a sublime performance de uma bailarina, consegue ser ao mesmo tempo puro movimento e pura introspecção. O ritmo das cenas é ágil e sem firulas, mas de modo a criar na cabeça do espectador uma sensação de insólita dúvida sobre o que é realidade ou ilusão. Nina é uma personagem catártica ao extremo. Inspira na plateia um misto de compaixão, ternura e medo. O cinema de Aronofski é assim: visceral e perturbador.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

O discurso do rei

David Seidler, que teve problemas de fala na juventude, é o favorito para abiscoitar o Oscar de Melhor Roteiro Original, pelo roteiro de O discurso do rei. Numa interessante jogada de marketing, acaba de ser lançado o livro The King's Speech: How One Man Saved the British Monarchy, coescrito por Mark Logue, o neto de Lionel Logue, o terapeuta de fala de


Albert Frederick Arthur George, Bertie para os mais íntimos, mais conhecido como rei George VI. Bertie (1895–1952) foi monarca a partir de 1936, quando seu irmão abdicou do trono para se casar com uma mulher divorciada.

O discurso do rei aborda o esforço de Bertie, gago desde os 4 anos, para se tornar não um orador vocacionado, mas pelo menos alguém capaz de ler um discurso, coisa que todo rei que se preze deve ser capaz. E Bertie no fundo sabia que a batata quente (o trono) ia acabar caindo na sua mão (ou melhor...). Por isso, depois de um fiasco em um discurso ainda príncipe em 1925, decidiu procurar ajuda profissional. No caso, a de um especialista da Harley Street, o australiano Lionel Logue. Apesar de ter consultório na famosa rua, Logue não era médico, mas um ex-ator shakespeariano que criou uma técnica para ajudar soldados com problema de fala devido ao shell shock.

Além do magnífico roteiro, a película tem outros trunfos óbvios, como a dupla de atores Colin Firth (favorito para o Oscar) como o rei e Geoffrey Rush (que já tem Oscar de Melhor Ator por Shine, 1996) como Logue. Na maior parte do tempo os dois contracenam, em cenas que vão do hilário ao pungente. Durante o tratamento, Logue aconselha ao futuro rei treinar com tongue-twisters, aquelas frasezinhas difíceis de pronunciar, como “Let’s go gathering healthy heather with the gay brigade of grand dragoons” ou “She sifted seven thick-stalked thistles through a strong thick sieve”. O príncipe, enquanto aprende que cantar e falar palavrões são boas estratégias para superar os problemas de fala, tem na mulher Elizabeth (Helena Bonham Carter) uma grande e fiel incentivadora. Mas o filme tem também lá seus equívocos. O mais óbvio é de miscasting: escalar Guy Pearce (nascido em 1967) como irmão mais velho de Colin Firth (nascido em 1960) não contribuiu para a verossimilhança interna.

É bom frisar que esse detalhe não chega a comprometer o resultado deste filme inesquecível. O diretor Tom Hooper, nascido em 1972 e formado em Oxford, traz no currículo várias minisséries para a TV e firma-se com O discurso do rei como um dos talentos de sua geração.