domingo, março 19, 2017

TOP 12 DECEASED DIRECTORS


Ao elaborar esta lista, adotei o seguinte critério:
enumerar, entre os cineastas já falecidos, os 12 mais importantes em minha formação de cinéfilo.


Em ordem alfabética:



Akira Kurosawa




Alfred Hitchcock




David Lean





Federico Fellini







Frank Capra



 








 







Ingmar Bergman








John Sturges






Louis Malle






Luis Buñuel







Stanley Kubrick




William Wyler









Devido ao falecimento de David Lynch alterei a lista com os TOP TEN LIVING DIRECTORS.

sábado, março 18, 2017

Tico e teco: confusões na árvore

Esta coletânea de 8 desenhos animados realizados na década de 1950 mostra a evolução dos personagens que infernizam a vida do Pato Donald.


No início, os desenhos tinham a ver apenas com disputa por comida. A gula dos esquilos era o leit-motiv das histórias: de maçãs a panquecas, de amendoins a pipocas, Tico e Teco só pensavam em comer.

Nos últimos desenhos da coletânea os personagens evoluem e se tornam mais abrangentes, deixando de lado as guloseimas.

Em "O dragão", o que interessa é defender o território, no caso, a frondosa árvore em que vivem, mas que está bem no meio de uma estrada a ser aberta por um operador de escavadeiras muito sádico, o Pato Donald, é claro.

Já "Nozes para o inverno" envolve a preocupação com a comida, mas sob outro prisma: o de ter o suficiente para passar o inverno. Não é apenas comer por saborear, é uma questão de sobrevivência.

Diga-se de passagem, em nenhum dos desenhos os esquilos são protagonistas, na verdade os desenhos são todos do Pato Donald, coestrelados pelos esquilos mais famosos da animação.

O meu filho de 5 anos adorou todos os episódios, em especial As maçãs de Donald.

Cada vez que ele assiste as patacoadas do Donald é como se fosse a primeira vez: ele cai na risada nas mesmas partes e nunca se cansa de rever.




Sete homens e um destino (2016)

Quinze anos depois de Dia de treinamento, o diretor Antoine Fuqua volta a escalar Denzel Washington e Ethan Hawke na refilmagem do clássico de 1960 dirigido por John Sturges.

O aficionado que alugar o Blu-ray pode assisti-lo no 'Vengeance Mode', que intercala as cenas do filme com uma descontraída conversa do elenco. Essa experiência é aconselhada para quem já viu o filme uma vez pelo menos.

Caso contrário, o melhor mesmo é assistir ao filme de cabo a rabo, com um pause apenas para estourar as pipocas sabor manteiga de cinema.


São essas as delícias de se morar no interior, numa cidade que deixou de ter cinema há alguns anos.

Assistir tranquilo a um faroeste num sábado à tarde, e depois assistir aos extras, bônus, etc.

Fuqua conta que "samurai" significa "aquele que serve", e essa foi a sua intenção ao refilmar The Magnificent Seven: to serve others.

No caso, homenagear o clássico de John Sturges com um filme e um roteiro completamente novo, e em cuja realização não foram poupados esforços para dar verossimilhança ao gênero: nunca um filme mostrou tantas quedas de cavalos. Também o treinamento com as armas foi bastante exigente, para que os sete mercenários revelassem muita intimidade com revólveres e rifles.

A exemplo do que acontece no original, no filme de Fuqua cada personagem contribui com suas habilidades, que incluem adagas (especialidade de Billy Rock, o asiático do grupo) e arco e flecha (na qual o comanche Red Harvest é exímio).

Como se percebe, a versão de Fuqua acrescenta também a multiplicidade étnica: mexicano, afro-americano, índio comanche (na verdade, um nativo do Alaska) e asiático.

Outra diferença é o maior espaço para a presença feminina, na pele da viúva interpretada por Haley Bennet, que assume a liderança dos camponeses perseguidos pelo famigerado Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard).

A piada sobre o cara que cai de um prédio e a cada andar vai dizendo, "So far, so good" (no original, contada pelo personagem de Steve McQueen) reaparece na versão de 2016 na simpatia de Chris Pratt. 


Uma das coisas legais para comentar sobre Os sete samurais de Kurosawa e as duas versões de Sete homens e um destino é a ambiguidade do que realmente move os mercenários de cada história.

Os samurais de Kurosawa abraçam a causa por uma refeição diária de arroz branco. No filme de Sturges a oferta para a perigosa missão é irrisória, praticamente não paga a munição. E na versão de Fuqua também os recrutados parecem aderir ao grupo mais por orgulho de estar participando de uma missão justa do que pelo vil metal. 



Sully - o herói do rio Hudson

Clint Eastwood dirige Tom Hanks e Aaron Eckart neste relato simples sobre um fato extraordinário. Como sempre, o cineasta mantém o seu estilo discreto para contar uma história que, por si só, já tem atrativos suficientes. A perícia de um experiente piloto é posta à prova quando as duas turbinas de sua aeronave são danificadas pouco após a decolagem. Não é uma simulação. Vidas humanas estão em jogo. Uma decisão precisa ser tomada, e rápido.



Só pessoas com extrema autoconfiança e capazes de decisões cirúrgicas poderiam ter tomado aquela decisão e depois executado o plano de modo irrepreensível. Para a sorte de todos os passageiros, o piloto e o copiloto do voo 1549 da US Airways são exemplos desse tipo de profissional, mas a decisão deles, sejam lá quais fossem as consequências, seria completamente investigada e esmiuçada.

Decisão que também colocou à prova toda uma rede de apoio a sinistros, num misto de solidariedade e eficiência que poucos povos podem se orgulhar de demonstrar.

Eastwood e o roteirista utilizaram como fonte o livro que Sully coescreveu com o jornalista Jeffrey Zaslow. Publicada em 2009 (mesmo ano do heroico pouso no rio Hudson), a obra narra os bastidores da investigação que aconteceu após os eventos do dia 15 de janeiro.
As autoridades e partes envolvidas instauraram uma rigorosa investigação para avaliar por que Sully não simplesmente voltou para um aeroporto em vez de arriscadamente pousar no rio.
Sully seria mesmo um herói?

Uma das qualidades de Sully é a metragem enxuta: o filme passa rápido e se concentra no voo, na investigação e no resgate.



A parte usual de filmes-catástrofe, que desenvolve o background de alguns personagens, é minimizada, quase ignorada.

Nem à família do próprio Sully é dado algum estofo, à exceção de umas ligações aleatórias para a esposa Lorraine (Laura Linney). As filhas do piloto só aparecem de relance e não participam do drama paterno. Essa decisão do roteiro talvez tenha sido a mais discutível, porque seria de se esperar uma abordagem mais intimista, algo que valorizasse a importância da família na vida de um piloto, e essa seria a minha única "ressalva" quanto ao filme.
   

terça-feira, março 14, 2017

Deadpool

A trajetória de Tim Miller lembra um pouco a de David R. Ellis, que, após uma sólida carreira como coordenador de dublês e diretor de 2ª unidade, mais tarde se tornou o cara que diz "Action" e "Cut", ou seja, a pessoa que fica majestosamente sentada na cadeira de Diretor. (Embora eu creia que, por ser um ex-dublê, o saudoso Ellis de Serpentes a bordo e Terror na água não devia ficar muito tempo sentado no set.)

A diferença é que Tim Miller, antes de estrear como diretor aos 50 anos com Deadpool, construiu um currículo respeitável à frente do Blur Studio, conceituada empresa de efeitos especiais.

Deadpool se tornou o mais lucrativo filme de um diretor estreante. Custou a bagatela de 58 milhões e rendeu polpudos 783 milhões de dólares.


Contribuíram para esse êxito a bioquímica entre o casal interpretado por Ryan Reynolds e a brasileira Morena Baccarin e também o fato de o roteiro não se preocupar em ser "politicamente correto". Ou fazer o possível para não sê-lo.

Os roteiristas adicionaram gratuitamente características que o Deadpool dos quadrinhos supostamente não tinha: linguajar "bagaceiro" e cenas de sexo.

Eis que a ideia funcionou, afinal de contas, quem não gosta de um pouco de dirty language de vez em quando?

E jogue a primeira pedra quem passa uma semana inteira sem ser "desbocado", sem falar um nome feio que o filho pequeno de 5 anos escuta e logo sai repetindo na primeira oportunidade que aparece?

Tá certo: o tradutor das legendas se empolgou um pouco, quando Deadpool fala

"Whatever"

e na legenda aparece

"F***-se".

No frigir dos ovos, creio que, além dos fatores supracitados, foi justamente a bagagem de Tim Miller nos efeitos especiais que transformou Deadpool nesse retumbante sucesso comercial e artístico.

Miller enfatizou um estilo de efeitos mais verdadeiros, não muito "computadorizados", deveras adequados a um filme de (relativo) baixo orçamento, pelo menos, em se tratando de um filme de super-herói da Marvel.

Baixo orçamento, aliás, que vira piada até na fala de Deadpool, que critica o fato de só aparecerem dois membros dos X-Men ao longo do filme, no caso, Míssil Adolescente Megassônico e o Colossus.


domingo, março 12, 2017

Madrugada dos mortos

- Zack Snyder refilmou o clássico de George Romero!
- Jamais pensei.
- Como assim, jamais pensou?
- Justo você.
- Justo eu, o quê?
- Querer defender filme de zumbi. Não faz sentido.
- Esse papo que não faz sentido. "De gustibus et coloribus non est disputandum."
- Gosto se discute, sim. Reconheça: filme de zumbi não acrescenta nada à humanidade.
- Se acrescenta ou não, sei lá. O fato é que é divertido pra caramba.
- É divertido ver humanos destripados, entranhas à mostra, canibalismo?
- Seres humanos lutando pela sobrevivência. É didático.
- É patético.
- É orgânico.
- É ridículo.
- É metafórico.
- É ignóbil.
- É visceral.
- Só Freud explica essa sua obsessão por vísceras.
- Falando em Freud, você deve ter tido algum trauma para não gostar.
- Isso é golpe baixo.
- Sei lá, algum medo que não superou.
- Tá me chamando de medroso?
- Não ponha palavras na minha boca.
- Só tripas.
- Só estou sugerindo que talvez esse medo pudesse ser enfrentado.
- Nada me atrai nesse universo ficcional, pode respeitar?
- Posso, sim. Só se você começar a respeitar os zumbizófilos.
- Respeito, mas não entendo. Justo você.
- Sabe qual é o seu problema com os zumbis? Você é muito pé no chão. Matter-of-fact.
- E você tem imaginação fértil demais.
- Faço um desafio. Dê uma chance aos zumbis. Assista ao filme Madrugada dos mortos.
- Não gosto de filme antigo.
- Não é tão antigo. É de 2004. Refilmagem do clássico de 1978 feito por George Romero.
- Esquece. No chance. Não gosto de diretores obscuros.
- Zack Snyder estreou com este filme. Depois fez 300, Watchmen, Lenda dos guardiões, Sucker Punch, Homem de aço, Batman vs Superman. E vai dirigir agora Liga da justiça.
- Acho que nem vou pedir outro chope. Esta conversa não vai a lugar nenhum.
- Já foi.
- Como assim? E a resenha de Madrugada dos mortos?
- Está pronta.
- Vai dizer que este diálogo forjado substitui a resenha sobre essa refilmagem estapafúrdia?
- Estapafúrdia, não. Estupenda.




sábado, março 11, 2017

Cegonhas

"Duas cabeças pensam melhor do que uma." No mundo da animação, esse ditado vale ouro. De uns tempos para cá, tornou-se bastante comum assistirmos a filmes cuja direção é assinada por dois profissionais. A experiência e o talento da dupla se complementam, e o resultado é uma obra de mais qualidade. Cegonhas tem na direção um duo de múltiplas habilidades: o roteirista Nicholas Stoller e o animador Doug Sweetland.
Nicholas Stoller já dirigiu Vizinhos (2014) com Seth Rogen, e tem no currículo créditos como roteirista de filmes como Os Muppets (2011) e Os Muppets 2: procurados e amados, sem falar no ainda não lançado Captain Underpants: The First Epic Movie, que Stoller roteirizou, inspirado no personagem da série de livros infanto-juvenis criada por Dav Pilkey.
Doug Sweetland já dirigiu o curta Presto (aquele do mágico que passa antes de Wall-E) e participou da equipe de desenhistas de filmes como Carros (2006, Os Incríveis (2004), Procurando Nemo (2003), Monstros S.A. (2001), Toy Story 2 (1999), Vida de Inseto (1998) e Toy Story (1995).

Da soma desses dois currículos e conjuntos de conhecimentos surge Cegonhas, um leve estudo sobre a vontade de ter um irmão e a necessidade de pertencer a uma família.
Nando é um menino cujos pais vivem uma vida atribulada, sem tempo para pensar no filho e, muito menos, em aumentar a família Gardner, ou Jardim na versão brasileira (a mamãe, por sinal, tem a voz de Jennifer Aniston). Por isso, ele toma a iniciativa de escrever uma carta para as cegonhas pedindo um(a) irmãozinho(a). Só que nos dias de hoje as cegonhas mudaram de ramo: agora têm um centro logístico colossal onde processam encomendas de toda sorte, menos bebês. A fábrica está desativada há tempos, e a nova organização é comandada por cegonhas como Júnior.

Tulipa é uma moça que cresceu com as cegonhas porque não pôde ser entregue na ocasião propícia (culpa de Jasper, a cegonha com a voz de Danny Trejo). Hoje, ela se sente um estorvo naquele mundo, e fica imaginando como teria sido a sua vida se o destino tivesse sido diferente.

Quando Tulipa recebe a carta de Nando, o rumo desses dois personagens solitários está prestes a mudar, mas para isso terão de viver muitas peripécias, e enfrentar uma insólita trupe de lobos que sabe como nunca a importância do trabalho em equipe (os lobos servem de "peças" para fabricar toda sorte de meios de transporte, como carro, avião, helicóptero e até submarino).

É o tipo do filme ideal para quem já tem um filho e está relutante para ter o segundo e dar um irmãozinho ao primogênito. Haja pique para começar tudo de novo, mas teria uma vantagem: álibi garantido para ao menos mais uma década indo a matinês!

Réquiem para um sonho


            Harry e sua namorada Marion sonham em abrir uma loja de roupas. Tyron, o amigo de Harry, só quer um pouco de paz e felicidade. Sara Goldfarb, a mãe de Harry, sonha em aparecer na tevê com  seu vestido vermelho. Requiem for a dream é sobre o que as drogas fazem com os sonhos desses quatro personagens.

            Réquiem para um sonho (EUA, 2000) estreou em novembro de 2001 nos cinemas brasileiros, contando com 6 salas na estreia. Seu público total no Brasil foi de apenas 35.335 pessoas.
     É, portanto, um daqueles filmes mais do que alternativos, que pouca gente se dá ao trabalho de assistir, mas, quando assiste, das duas, uma: ou odeia e desiste no meio do filme ou passa a admirá-lo.
Eu me enquadro na segunda categoria, na verdade é um dos filmes que eu mais cultuo, e, na minha estante de dvds, está na seção de "Amores doentios". (Assisti ao filme três vezes seguidas na primeira vez que o aluguei, talvez porque refletisse meu estado de espírito na época, em que um relacionamento escorria pelo ralo.) (Muita informação, concordo.) (Mas isso ajuda a explicar porque certos filmes são importantes na vida de alguém.)
  Adaptação do livro homônimo de Hubert Selby Jr., é o segundo filme do jovem diretor Darren Aronofsky, premiado em 1998 no Festival de Sundance pelo suspense "PI".

            Só câmeras e cortes originais não bastam para denotar um diretor de futuro. Saber conduzir o roteiro e permitir um grande trabalho dos atores é essencial. Ellen Burstyn, que encarna a mãe do protagonista, teve a atuação premiada. Nos extras, compara Aronofsky a Scorsese e Fellini. Exagero ou não, é um filme que não vai deixar o espectador sem reações.

            O filme é uma "fábula urbana" que se passa em três estações. Uma cena chave do filme é a visita de Harry a sua mãe, no fim do verão. Com dinheiro no bolso pela venda de drogas, quer dar a ela uma surpresa: irá presenteá-la com uma TV nova. Percebe o ranger de dentes da mãe e aconselha ela a parar de tomar as pílulas dietéticas. Vem o outono e a transformação da solitária Sara é aterrorizante.
           
O próprio Harry, vivido por Jared Leto, que emagreceu doze kg para o papel, entra numa espiral descendente, junto com a namorada Marion (Jennifer Connelly, Oscar de atriz coadjuvante por Uma mente brilhante) e o amigo Tyrone (atuação surpreendente de Marlon Wayans, de Todo mundo em pânico). A falta de heroína os leva a atos de puro desespero. Pode ser que você não aguente a barra e aperte o stop. Mas se você suportar até o inverno, irá presenciar os vinte minutos mais perturbadores do cinema contemporâneo.

            Importante no impacto do filme é a música de Clint Mansell, interpretada pelo quarteto de cordas Kronos Quartet. Desde Peter Greenaway e Michael Nyman não havia um casamento tão perfeito entre diretor e compositor, imagem e som. Mansell criou uma melodia impregnada de angústia – a trilha ideal para a trajetória de Harry.



JOHN STURGES: Fugindo do inferno

Este é o terceiro post sobre a tríade de melhores filmes do diretor John Sturges. Os outros dois foram sobre Conspiração do silêncio e Sete homens e um destino.

FUGINDO DO INFERNO


Neste filme, lançado em 1963, Sturges e seus roteiristas pegaram uma história real, romancearam um pouco, criaram personagens que cativam o público, escolheram locações onde os eventos realmente se passaram (em 1943, na Alemanha, hoje território polonês) e pronto: três horas passam num piscar de olhos.

 Thwarted... the great escape from Schoolditz: Pupils foiled as ...



            Na cartilha de Sturges, fazer um excelente filme de aventura requer umas regrinhas básicas.

      Regra número um: reunir um elenco fenomenal. Richard Attenborough, Steve McQueen e James Garner. É mole ou quer mais? Que tal James Coburn, Donald Pleasence e Charles Bronson?

          
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  Regra número dois: escolha uma história que envolva o público. A fuga de um grupo de oficiais aliados de um campo de concentração alemão, em 1943. Os personagens do filme são fictícios, mas os detalhes da fuga são exatos.

 Regra número três: inclua no roteiro situações de muita ação, mas precedidas de conteúdo, desenvolva os personagens, faça o público criar empatia com eles.

  Regra número quatro: boa música e boa montagem.

            A FILM TO REMEMBER: “THE GREAT ESCAPE” (1963) - Scott Anthony - Medium
           



         Nos comentários do DVD, James Coburn e James Garner elogiam a habilidade de John Sturges em comandar a equipe: não deixava nada mal explicado ou mal entendido. Nota-se pelas fotos que o clima nas filmagens era bem descontraído.

            Bem, resta-me comentar algo sobre os personagens imortalizados no filme. Cada um tem um drama pessoal que o espectador fica conhecendo. É justamente essa parte, a construção dos personagens, o registro da amizade, que falta nos filmes de guerra de hoje. Parece que as plateias de hoje se impacientam com dez minutos sem um tiro, uma morte escabrosa, uma explosão.

            Steve McQueen é o capitão Virgil Hilts, o aviador americano que vive descumprindo as normas e tentando escapar. Por conta disso, quase sempre está na “geladeira”, espécie de solitária, onde seu único passatempo é arremessar a bola de beisebol na parede.

            O comando da construção dos túneis é responsabilidade de Big X, interpretado por Richard Attenborough. Para o sucesso da fuga, entretanto, é preciso saber a posição do campo em relação à cidade mais próxima. Em resumo, um mapa das cercanias. McQueen recebe a incumbência, porém só concorda depois de ver um amigo sendo fuzilado e morto no arame farpado.

            O falsificador, o tenente Colin Blythe (vivido por Donald Pleasence), prepara documentos para todos os 250 homens que pretendem fugir. Mas tem um problema degenerativo de visão e só é autorizado a participar da fuga pela intervenção do seu amigo, o tenente Bob Hendley (James Garner), que se compromete a acompanhá-lo.


            O personagem de James Garner é o cara que consegue os materiais e equipamentos, é o “produtor executivo” da fuga. James Coburn é o aviador Louis Sedwick, que inventa artefatos com os materiais solicitados a Garner. Charles Bronson é o tenente Danny Velinski, o “rei dos túneis”, um cara que já construiu dezesseis túneis, como forma de combater o mal de que sofre: a claustrofobia.


Uma hora nas preliminares, uma hora na fuga e uma hora no destino dos fugitivos, mais ou menos. Assim se estrutura o filme de 172 minutos. É no terceiro ato que estão algumas das cenas clássicas, como a de McQueen saltando de moto a cerca de arame farpado na fronteira.
      

segunda-feira, março 06, 2017

O Bom Gigante Amigo


Durante a Oficina de Tradução Literária de Beatriz Viégas-Faria, os participantes tiveram o prazeroso desafio de verter para o português o conto The Enormous Crocodile, de Roald Dahl. A enriquecedora experiência despertou meu interesse pela obra do canônico autor galês, que inclui, entre outros, os livros A fantástica fábrica de chocolate, Matilda, James e o pêssego gigante e O fantástico Sr. Raposo, os quais inspiraram, respectivamente,  os filmes homônimos dirigidos por Mel Stuart (remake de Tim Burton), Danny DeVito, Henry Selick e Wes Anderson.

A nova adaptação fílmica da rica obra de Roald Dahl baseia-se no livro The BFG e é dirigida por ninguém menos que Steven Spielberg, em associação com a Disney.

Após as experiências bem-sucedidas com a captura de movimentos em As aventuras de Tintim, Spielberg volta a lançar mão da técnica para dar veracidade e verossimilhança aos personagens, que ganham o melhor dos humanos (as expressões faciais, o gestual, a movimentação corporal) aliado ao melhor da tecnologia (o tamanho gigantesco, as feições bizarras, os detalhes grotescos, as peripécias impossíveis, etc.).

O imaginativo material original é transmitido à tela com o sóbrio roteiro de Melissa Mathison, que já havia trabalhado com Spielberg em E.T. e faleceu pouco antes de O Bom Gigante Amigo chegar aos cinemas.
Ilustração de Quentin Blake para o livro The BFG (1982)


Em O Bom Gigante Amigo, publicado em 1982, Roald Dahl retoma o personagem criado por ele em 1975, no livro Danny e o campeão do mundo. Com a ajuda de Melissa Mathison, Spielberg transpõe com bastante fidelidade às telas essa fábula sobre o valor da amizade e do respeito às diferenças.

O Bom Gigante Amigo conta a história de uma órfã, Sophie (Ruby Barnhill), que avista, da janela do orfanato, na calada da noite, um misterioso gigante (Mark Rylance) perambulando pelas ruas de Londres. O gigante sem pestanejar a captura e a leva para a Terra dos Gigantes, onde ele é chamado de nanico. Na caverna do gigante, Sophie é colocada para dormir no cesto da gávea de um barco cujo tombadilho é usado como cama pelo gigante.

Com o tempo, Sophie descobre que a principal atividade do BGA, como a esperta menina começa a chamá-lo, é armazenar os sonhos em potes para inseri-los mais tarde na cabeça das crianças adormecidas. Sophie também descobre que, na Terra dos Gigantes, o BGA sofre bullying de outros nove abomináveis gigantes, que, por sinal, adoram comer um petisco, ou seja, um ser humano como ela.

Mesmo com a integridade física ameaçada, Sophie bola um plano mirabolante para salvar BGA que envolve até a Rainha da Inglaterra (Penelope Wilton).

O filme de Spielberg é um tanto cadenciado, vai contando a história paulatinamente, com atenção aos detalhes primordiais, como o léxico do BGA, digno da inventividade de outro G., no caso, Guimarães Rosa.

A sequência em que o BGA e Sophie são recebidos no palácio é a mais espirituosa, com a hospitalidade britânica sendo posta à prova de um modo inimaginavelmente desafiador. O BGA retribui as gentilezas oferecendo a fantástica frobscottle, a bebida que ele fabrica, cujas bolhas descem e não sobem.




domingo, março 05, 2017

JOHN STURGES: Sete homens e um destino

Este é o segundo post de uma série de três sobre a obra do diretor estadunidense John Sturges.


Uma das inesquecíveis sequências de Sete homens e um destino (1960) envolve um impasse. O dono da funerária está se negando a enterrar um homem, apesar das despesas terem sido pagas por um caixeiro-viajante, que, aliás, nem conhecia o falecido. O motivo? O senhor que faleceu era afrodescendente. O empresário fúnebre alega que sofreu ameaças e que o cocheiro também está com medo das represálias.
     Escutando a conversa, um forasteiro vestido todo de preto se oferece para conduzir a carruagem rumo ao cemitério local. Chris Adams sobe à boleia, enquanto outro corajoso vaqueiro, Vin, também se voluntaria para ajudar, fazendo a escolta. Ele se coloca ao lado de Chris, e o cortejo fúnebre enfim parte, seguido por muitos curiosos, ansiosos para ver o circo pegar fogo, ou seja, presenciar o inadiável e inevitável confronto entre os dois destemidos forasteiros e o grupo de preconceituosos moradores.

Por mais singela que pareça essa premissa, resultou numa das cenas mais emblemáticas e antirracistas da história do cinema.

E também uma das mais trepidantes.

Assistem à cena embasbacados três camponeses mexicanos que vieram à cidade à procura de armas para se livrarem da perseguição do temido Calvera e seu bando de quarenta ladrões.

Mais tarde, o trio pede ajuda a Chris, que sugere: é mais barato contratar pistoleiros do que comprar armas. O resto dessa história você já deve saber, ou, se não souber, tem plenas condições de imaginar.

O dvd traz como extra um documentário com depoimentos de diretores que cultuam o filme, como John Carpenter e Lawrence Kasdan, além das viúvas de Yul Brynner e Steve McQueen. A atriz Rosenda Monteros, que deu vida à encantadora Petra, fala sobre a importância de o filme ter sido realizado no México. Outras presenças no documentário são Brad Dexter, que interpreta o sonhador Harry Luck, e Robert Vaughn, que encarna o ambíguo Lee.
Nessa espécie de 'making-of a posteriori', o cinéfilo vai descobrir muitas curiosidades sobre este clássico que também teve no elenco James Coburn (no papel de Britt, especialista no arremesso do punhal) e Charles Bronson (como Bernardo, que faz uma bonita amizade com três garotos do vilarejo). Também são entrevistados Eli Wallach, o vilão Calvera, e Horst Buchholz, o ator alemão que interpreta o conturbado Chico, o sétimo a ser recrutado, num papel coadjuvante que, reza a lenda, Steve McQueen gostaria de ter feito.


Na verdade, McQueen caiu como uma luva no papel de Vin, o braço direito de Chris na dura empreitada de tentar espantar o feroz bando de Calvera.




Este post não poderia terminar sem mencionar Elmer Bernstein, o compositor da famosa trilha que se tornou inspiração para muitos. E, é claro, realçar a importância de Yul Brynner, o imponente ator que comprou os direitos de Os sete samurais, de Akira Kurosawa, para protagonizar este remake que se tornou um dos mais icônicos e divertidos westerns da história.
A propósito, aguarde em breve o post sobre o remake do remake, ou seja, a nova versão de Sete homens e um destino (2016) dirigida por Antoine Fuqua e cujo elenco é encabeçado por Denzel Washington.

Esquadrão Suicida

Na história de um grupo de foras da lei obrigados a ajudar a polícia, Arlequina, a namorada do Coringa, rouba o filme. O diretor e roteirista David Ayer (Corações de ferro) faz um trabalho com altos e baixos, à frente de um elenco liderado pelos renomados Viola Davis (agente Amanda Waller), Will Smith (Pistoleiro), Jared Leto (Coringa) e Joel Kinnaman (Rick Flag), além dos, por enquanto, menos famosos Margot Robbie (Arlequina), Jai Courtney (Capitão Bumerangue), Adewale Akinnuoye-Agbaje (Crocodilo), Cara Delenvigne (Magia), Jay Hernandes (Diablo) e Karen Fukuhara (Kitana).
Após fazer o inovador e talentoso Corações de ferro, Ayer, talvez prematuramente, envereda no lucrativo "filão do momento": a conversão de histórias em quadrinhos em filmes.
Mitologias e personagens criados ao longo de décadas são condensados em 2 horas, e, às vezes, uma parcela de espectadores, que não conhecia previamente os personagens, queda catatônica, tamanha a quantidade de informações que precisa processar.
(Em HQ, a série Suicide Squad estreou em 1959, e o grupo de anti-heróis agradou tanto que durou 66 edições; os personagens da DC Comics seriam retomados várias vezes, em sucessivas roupagens e remodelagens.)
Em outras palavras, para um leigo no assunto, talvez o filme tivesse sido melhor sem Batman e com menos aparições do Coringa. Não estou dizendo que estou cansado de Batman e Coringa, apenas que esses dois personagens já foram bem explorados no cinema, e, na verdade, eles não acrescentam quase nada à dinâmica de Esquadrão Suicida. Tipo, já que o filme obviamente teria uma continuação, talvez essa parte pudesse ter sido deixada "em suspenso", para ser abordada e desenvolvida numa etapa seguinte.
Mas, não. Afinal, vivemos na era da ansiedade e da exacerbação. A ânsia de involucrar tudo no mesmo "pacote" quase transformou Esquadrão Suicida numa mixórdia de cenas destinadas a deixar a plateia estupefata.
O que salva o filme são justamente os lúcidos momentos em que o roteiro enfatiza o background de cada um dos membros do Esquadrão e a atuação de Margot Robbie como Arlequina.


JOHN STURGES: Conspiração do silêncio



JOHN STURGES, O MESTRE DA AÇÃO



Quem gosta de aventura deve procurar nas capas do filmes um nome: John Sturges. Basta uma rápida olhada no currículo do diretor norte-americano, falecido em 1992, para notar sua predileção pela aventura, seja embalada em formato de faroeste ou guerra: A fera do Forte Bravo (1953), Sem lei e sem alma (1957), Duelo de titãs (1959), Nas trilhas da aventura (1965), A hora da pistola (1967) e A águia pousou (1976), entre outros.

Pau para toda obra, Sturges era um talento à disposição da indústria, dificilmente dizia “não” aos produtores. Para um diretor com esse perfil, é incrível como a sua filmografia consegue manter, ao mesmo tempo, diversidade e coerência. Ele sabia como poucos administrar as vaidades, tinha um faro para as boas histórias e um jeito inconfundivelmente espartano de contá-las.


As aberturas com panorâmicas, as trilhas sonoras de Elmer Bernstein, as histórias repletas de suspense e ação, os personagens heroicos, mas humanos, as tomadas originais e surpreendentes, todos esses ingredientes compõem o multiestratificado tecido dos filmes de John Sturges.


Apesar de ter realizado grandes filmes, só em 2008 foi lançada uma biografia dele: Escape Artist: The Life and the Films of John Sturges. 

Antes tarde do que nunca! E se você é cinéfilo, mas ainda não assistiu a nenhum filme de Sturges, antes tarde do que nunca.

Que tal começar pela sua tríade de melhores filmes, pelos quais Sturges sempre será lembrado e cultuado? Esses três filmes são, é claro:


 CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO (1955)

SETE HOMENS E UM DESTINO (1960)

FUGINDO DO INFERNO (1963)



CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO (Bad Day at Black Rock)

Este filme de 1955 deu a Spencer Tracy o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. Ele é John Macreedy, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial que chega de trem ao longínquo vilarejo de Black Rock e provoca alvoroço entre os desconfiados habitantes. John traz uma das mangas do paletó sempre no bolso, uma lembrança amarga de quem perdeu uma parte do braço na guerra.


Em vez de ser recebido com hospitalidade (fazia vários anos que o trem não parava naquela estação), os gatos pingados que habitam o local começam a hostilizá-lo, não dando as informações de que ele precisa e fazendo de tudo para que ele desista de sua empreitada. Até mesmo o balconista do hotel alega de modo surreal não ter quarto vago para o forasteiro.



Mas o nobre objetivo de sua incursão envolve encontrar um japonês radicado na região, o Sr. Komoko, e o obstinado John Macreedy não vai desistir tão fácil. Um clima de mistério, de algo oculto, paira no ar. Essa sensação permeia a maior parte do filme e o alçou à condição de clássico cult. Claro que o sucesso artístico do filme é o reflexo do elenco gabaritado:



Robert Ryan, que interpretava Reno Smith, o 

líder local;

 
Walter Brennan, o veterinário, três Oscars de 

Melhor Ator Coadjuvante;

 
Lee Marvin, um dos capangas de Reno, que 

dez anos depois venceria o Oscar de Melhor 

Ator por seu papel duplo em Dívida de 

sangue (Cat Ballou); 



Ernest Borgnine, Oscar de Melhor Ator por 

Marty, também de 1955; 



Anne Francis, que encarna a impetuosa Liz,  

e que mais tarde na carreira seria reconhecida 

com um Globo de Ouro de Melhor Atriz 

como protagonista da série de televisão 

Honey West.



Conspiração do silêncio entrou para a 

história do cinema não só por ter sido 

o primeiro filme a ser realizado 

em Cinemascope, 

mas principalmente pela ousada temática 

social e algumas sequências antológicas,

como o embate entre os personagens de 

Tracy e Borgnine.





Este é o primeiro de três posts da Tríade de Melhores Filmes de John Sturges. O próximo post da série será dedicado ao inesquecível western Sete homens e um destino.