sexta-feira, agosto 11, 2023

Barbie

 


Eis outra experiência emocionante para os cinéfilos rio-grandenses. Na reestreia do que hoje se tornou o único "cinema de rua" da capital gaúcha, o Cine Vitória, levar a família para curtir um filme recém-lançado, digo, o mais badalado filme de nossos dias.

Hordas de detratores tentam erguer vozes que são abafadas pela multidão avassaladora de fãs.

Enquanto isso, o cinéfilo pondera:

"Assisto a filmes, logo existo".

Aos cinéfilos essa discussão toda ideológica é inútil.

O cinéfilo e a cinéfila têm a mente aberta.

São livres-pensadores.

Eles se interessam por Barbie tanto quanto se interessam por Sound of Freedom.

Levei a esposa e meus dois filhos varões para assistir ao novo filme da Greta Gerwig, cujo roteiro provocou muitas lágrimas em minha esposa, conforme ela me relatou no fim do filme. Já os meninos se divertiram e tenho a certeza de que o filme não vai influenciar negativamente no desenvolvimento deles.

Quanto a mim, curti muito a experiência de revisitar uma sala que me traz boníssimas lembranças, de Serpentes a bordo até Planeta Terror, de Robert Rodriguez (parte do projeto Grindhouse, que inclui um programa duplo com À prova de morte de Quentin Tarantino), para citar apenas alguns filmes que eu havia assistido no antigo Vitória.

O renovado Vitória lotou com uma plateia de adultos, jovens, adolescentes, meninas e meninos para assistir a uma reflexão sobre o feminismo e o machismo, uma imersão no mundo do consumismo com senso crítico e autocrítico. 




Alguns momentos do roteiro podem ser destacados, que se transformam quase em discursos fervorosos na fala dos personagens. Um deles é quando Gloria (America Ferrera) toma a palavra e comenta as agruras e dilemas de ser mãe e trabalhadora no mundo atual.

No geral o filme é bem divertido, e a diretora Greta Gerwig, auxiliada pelo ótimo corroteirista Noah Baumbach, conseguiu a façanha de realizar um filme que agradou aos fãs da Barbie e, ao mesmo tempo, abordou temas importantes do ponto de vista social e filosófico.

E que o remodelado e charmoso Cine Vitória siga em sua trajetória de mesclar o tradicional e o novo.

domingo, julho 30, 2023

Oppenheimer

 Experiência de cinefilia da mais alta potência, caso o espectador seja realmente cinéfilo e faça o esforço para assistir ao filme em um cinema com tecnologia IMAX.

Após Dunkirk, a minha relação com o cinema de Christopher Nolan já havia entrado em uma nova e mais apreciativa fase.

Com Oppenheimer sou obrigado a tirar o chapéu para o cineasta e dizer que agora ele fez algo realmente admirável.

Levar hordas de jovens ao cinema para assistir a um drama em que os diálogos são a base de sustentação do filme é sem dúvida uma façanha digna de nota e que ajuda a criar novas gerações de cinéfilos pensantes.

Já quanto às gerações de cinéfilos mais céticas e maduras, o potencial do filme é outro, ainda mais notório.



O filme de Nolan é daqueles capazes de levar um cinéfilo ao "êxtase de cinefilia", um estado em que os sentidos ficam supridos de imagens, sons, palavras, gestos, sentimentos, tudo em um nível soberbo.

O tema é palpitante em sua superfície, mas Nolan consegue imergir o espectador em vários aspectos do universo da trajetória do físico que comandou o Projeto Manhattan, e faz isso com muito talento e aproveitando ao máximo as oportunidades visuais.

O roteiro é um primor e dificilmente poderia ter uma vírgula tirada ou acrescentada.

Oppenheimer é a obra-prima de Nolan, seu melhor trabalho, e pelo qual receberá mais louros.

O elenco entrega um trabalho magnífico, e temos vários candidatos a indicações a Oscar.


Cillian Murphy sempre fez boas atuações (vide Ventos da liberdade de Ken Loach), mas em Oppenheimer mostra o mesmo que o diretor, um misto irresistível de inspiração e maturidade.

Sim, esse é o tipo de filme capaz de levar o cinéfilo ao êxtase.

E se alguém aí pensa em ver o filme em uma sala que não for IMAX, assista ao featurette a seguir e repense o seu plano:





quinta-feira, julho 13, 2023

Indiana Jones e a relíquia do destino

 Eis o tipo de filme que entrega o que promete.
 

Fãs da franquia, saudosos por um filme de aventura com fundo arqueológico-científico, e, de quebra, com brechas e viagens no tempo, sairão do cinema plenamente satisfeitos.




Recém-chegados e novatos ansiosos por criticar, seja lá por que motivo, terão também um prato cheio para se deleitar: "os furos" do roteiro, as cenas proverbialmente absurdas, a falta disso, a sobra daquilo.

Então, Indiana Jones alcança em seu quinto filme uma nova proeza: agradar e desagradar a gregos e troianos, romanos e cartagineses.

Uma coisa vai ser difícil para os detratores e críticos e sua postura blasé: criticar o "casting" e a presença forte da atriz Phoebe Waller-Bridge na pele de Helena Shaw, e também a do francês Ethann Isidore, que encarna Teddy Kumar, o garoto marroquino fiel escudeiro de Helena em suas peripécias.

Charmosa e carismática, Phoebe é a coadjuvante ideal para Harrison Ford brilhar novamente como um de seus personagens mais icônicos.  




Outros pontos fortes do filme são a recriação de um ano específico no tempo, no caso, 1969, de um modo cuidadoso e minucioso, com uma direção de arte e figurinos maravilhosos; a presença de Antonio Banderas como o capitão do barco caçador de tesouros; e múltiplos detalhes mirabolantes do roteiro, envolvendo uma figura importante da Matemática: Arquimedes (287-212 a.C.), o cientista que ao entrar numa banheira descobriu o princípio do empuxo e saiu pelado nas ruas gritando "Eureca!" (Descobri!). 




E justamente essa ânsia de gritar "Eureca!", de fazer novas descobertas, que move as psiques de Helena Shaw e de Indiana Jones, cada um por motivos aparentemente distintos: a primeira, para ganhar dinheiro; o segundo, por paixão.

No frigir dos ovos, e no fundo, no fundo, porém, Helena também traz em seu espírito um sopro de idealismo, e é nessa ambiguidade que se constrói a relação entre padrinho e afilhada.


O título em inglês, The Dial of Destiny, foi vertido pragmaticamente no título nacional como "Relíquia do destino".

Dial é um termo técnico demais para um título. Ao longo do filme, na dublagem, o termo foi traduzido como "mostrador".

Os distribuidores apelaram para o batido e genérico "relíquia".

Algo que era específico se torna vago, e é isso que os "críticos" do filme têm feito.

Deixam de lado tudo que a franquia tem de especial e mágico para se ater às banalidades de quem adora criticar só por criticar.

Um programa dominical com a família, comprar ingressos e pipoca, foi isso que o diretor James Mangold nos proporcionou com louvor.








quinta-feira, maio 25, 2023

Homenagem a Nádia Polidori (10/6/31-25/5/23)

 Faleceu hoje a Professora de Piano Nádia Barbosa Polidori, no município de Porto Alegre. Ela atuou décadas no ensino dos primeiros passos no instrumento. D. Nádia tinha um carinho especial pelos(as) aprendizes e bordava o nome de cada um(a) no feltro verde que usava para proteger as teclas. 

Uma senhora culta que adorava ler Seleções Reader's Digest, ouvir óperas, desfrutar da companhia das filhas Inara e Thais, andar de bicicleta na praia com a neta Andrea (que lhe deu a alegria de ter 2 bisnetos), ir ao cinema com a irmã Namir e reunir as amigas para um chá.

Abaixo ilustro esta pequena homenagem com fotos das 5 seções do citado feltro.















quinta-feira, maio 11, 2023

A montanha dos sete abutres

 Ace in the Hole movie review & film summary (1951) | Roger Ebert 

Filme que deveria ser passado no primeiro semestre de Jornalismo.

Billy Wilder dirige Kirk Douglas num papel de um repórter sem escrúpulos, Chuck Tatum.

Ele é obrigado a sair dos grandes centros e busca refúgio num jornal do interior.

Quando surge a oportunidade de fazer uma grande cobertura de um fato digno de nota, um homem preso numa mina de uma montanha chamada pelos índios d' A Montanha dos 7 abutres, Tatum a agarra com a mesma avidez que aves necrófagas consomem uma carcaça.

 Leo Minosa (Richard Benedict) acredita que tudo é culpa dos espíritos que não gostavam de suas pilhagens de artefatos, que ele vendia em seu estabelecimento jogado às moscas.

Mas com a publicidade que os artigos de Tatum trazem ao acontecimento, tudo vai mudar.

 O título brasileiro é evocativo e resume bem a história... Até poderíamos citar quem seriam os 7 abutres no filme. 

Ace in the Hole (1951) - Turner Classic Movies

Uma delas com certeza é Lorraine (Jan Sterling, estupenda), a esposa inconfiável de Leo, que se torna cúmplice de Tatum num plano maquiavélico: retardar o socorro para conseguir mais sensacionalismo, mais atenção midiática. 


Ace in the Hole (1951) - A Review - HaphazardStuff

Daí o título original, o ás na manga, Ace in the Hole (a.k.a. The Big Carnival).

O segundo título com o qual foi lançado enfatiza o "circo" que é formado. O drama do homem preso na mina se transforma uma "mina" de dinheiro, em que até uma roda-gigante é montada para distrair os visitantes que chegam aos milhares.

 

Ace in the Hole

 Em tempos de fake news, em que a ética e a verdade no jornalismo adquirem cada vez mais importância, assistir a um filme assim nos ajuda a fortalecer o respeito por uma imprensa livre, honesta e isenta.

sexta-feira, maio 05, 2023

O sol é para todos


 To Kill a Mockingbird (1962) valeu o Oscar de Melhor Ator a Gregory Peck. É o tipo de filme para ver e rever, um filme modelar em todos os sentidos.

Do roteiro às atuações, do desenvolvimento ao desenlace, tudo no filme é bem realizado e consumado.

Além de Melhor Ator, o filme abiscoitou também Melhor Direção de Arte em P&B e Melhor Roteiro Adaptado.

No caso, Horton Foote, o responsável por adaptar o romance homônimo de Harper Lee, que venceu o Pulitzer em 1961.



Todos os personagens são significativos, mas claro que tudo gira em torno de Atticus Finch, o viúvo pai da caçula Scout (Mary Badham) e do menino Jem (Philip Alford). A família vive numa cidade do interior no Alabama.

O filme não é um filme de tribunal, muito embora uma de suas sequências mais famosas seja a do tribunal.

Com isso quero dizer que o filme aborda outros temas e outras tramas paralelas, como a de Boo Radley, um morador da cidade que nunca aparece na rua e que as crianças da vizinhança temem.

O ponto de vista do filme é sempre o das crianças. 

A narradora é Scout, que, em idade adulta, relembra as aventuras da infância. 

Muitas vezes o roteiro do filme passa o protagonismo a Jem, quando o menino acompanha o pai numa visita à família do réu de um chocante caso que está mexendo com a sociedade local.

Um negro está sendo acusado de estuprar uma jovem branca.

Atticus Finch é o único advogado capaz de defendê-lo, e vai fazer isso com unhas, dentes e muita perspicácia.

O ator Gregory Peck afirmou que raramente passou um dia sem pensar em quanto foi afortunado em ser escalado para fazer este filme. 

O astro de Os canhões de Navarone, Os bravos morrem de pé e A conquista do Oeste encarnou o personagem com uma naturalidade tamanha que muitos afirmam ter apenas sido ele mesmo, já que Gregory também diz que o roteiro o lembrou de seu background, um menino nascido em cidade pequena.



O post que eu fiz sobre Os bravos morrem de pé traz um texto extra, que escrevi em 2003, há 20 anos portanto, por ocasião do falecimento de Gregory Peck.

O texto, intitulado Poderosa, nua e imortal, refere-se a um dos recursos mais característicos do ator: a sua voz inconfundível.

O júri formado por homens brancos terá que decidir o futuro do rapaz afroamericano.

O dvd tem um extenso making of, um verdadeiro longa-metragem que aborda vários aspectos da realização do filme. 

Uma coisa que só notei nessa revisita foi que o ator Robert Duvall faz parte do elenco, num papel surpreendente.

Tocante e singelo, O sol é para todos é um eterno libelo contra as injustiças. 

sexta-feira, abril 28, 2023

Amor em tempos de polarização + Plano de aula

 Eu apoio o novíssimo cinema polonês na Netflix. 

Sempre que assisto a um filme polonês seleciono os dois joinhas, mesmo sabendo que, no fundo, o filme não merecia tanto.

É um sinal de minha reverência e respeito à escola polonesa de fazer filmes e um voto de confiança a esses jovens cineastas, ainda tateantes, mas que revelam facetas de um talento ainda não completamente polido.

PLANO DE AULA

Estranha mistura de "Sociedade dos poetas mortos" com "Um dia de treinamento", Plano de aula é um bom filme de ação dos "Daniels" poloneses.

O diretor: Daniel Markovicz. O roteiro: Daniel Bernardi.


O herói (sim, herói ainda tem acento, meus amigos e minhas amigas, porque é oxítona terminada em ditongo decrescente, como hotéis) aqui é um ex-policial traumatizado, que afoga no uísque as mágoas de ver a esposa assassinada em represália a sua atuação no combate ao tráfico de drogas.

Um professor amigo dele pede ajuda para investigar um esquema de distribuição de drogas numa escola. 

Não espere profundidade na construção dos personagens. Mesmo assim, o roteiro, apesar dos deslizes e exageros, tem lá seus bons momentos e algumas reviravoltas.


No final tudo meio que se precipita, e essa é a maior crítica que tenho a fazer, tanto a Plano de aula (Plan Iekcji) quanto ao próximo filme.

AMOR EM TEMPOS DE POLARIZAÇÃO

Palpitante assunto abordado com viés tragicômico. 

O filme de Pietr Kumik aposta no maniqueísmo do "eu estou certo e você está errado".

A "certa", no caso, é a heroína (sim, heroína tem acento, meus amigos e minhas amigas, porque o "i" é a vogal tônica do hiato), Pola, uma linda e inteligente estudante, apesar de "esquerdista radical". 

O "errado" é Staszek, um jovem que, após abandonar o futebol por conta de uma lesão, se deixa levar pela influência de um primo e começa a acompanhar um grupo de neonazistas. A ideologia deles não interessa a Staszek, mas sim o fato de ser aceito em um grupo. O roteiro se esforça para mostrar que, apesar disso, Staszek é no fundo um cara legal. 


Eventually (cuja tradução NÃO é "eventualmente") o grupo começa a radicalizar suas ações.

O líder dos neonazistas, Roman, e primo de Staszek, é um doido de pedra que planeja ora explodir uma sinagoga, ora mandar pelos ares um ônibus numa parada gay.

Eventually (cuja tradução NÃO é "eventualmente") Staszek acaba se apaixonando por Pola e a posição política da gatinha também o faz balançar e a questionar sua participação no grupo.

O que sustenta o filme não é, como seria de se esperar, um roteiro com tiradas inteligentes mostrando os pontos fracos de alguém ser "polarizado", mas sim a química entre os dois protagonistas.

Sim, o casal de pombinhos consegue sustentar o interesse pelo filme, que é deveras limitado do ponto de vista de crítica social, mas que tem lá suas ironias tipicamente polonesas e o humor tipicamente polonês.

Entre os clichês que funcionam está o do neonazista que descobre, digamos, uma nova faceta de sua personalidade.

Amor em tempos de polarização (Kryptonin: Polska) também se resolve apressadamente e dá uma sensação de frivolidade no final. Mas tem lá seus momentos engraçados, principalmente quando mostra a estupidez dos extrema-direitas. E aí que reside o principal problema do filme. Ele só ridiculariza um dos lados. 


Faltou, é claro, mostrar o quanto os extrema-esquerdas também podem ser estúpidos, o quanto a esquerda caviar pode ser contraditória e patética.

O desafio seria fazer um filme sério, em que alguém de centroesquerda se apaixonasse por alguém de centrodireita e cada um se esforçasse sinceramente por tentar entender o pensamento do outro. Isso seria algo construtivo.

Mas, pensando bem, seria um tanto boring! É tão mais fácil e divertido se deixar atrair pelos polos, mesmo para quem mora num país governado pelo centro, digo, centrão. 

terça-feira, abril 25, 2023

Joe Kidd


Raridade no catálogo da Netflix, um faroeste "das antigas", de um diretor clássico, John Sturges, estrelado por ninguém menos que Clint Eastwood. 

Diversão incontestável numa história em que o protagonista Joe Kidd é uma mistura de todos os personagens já encenados por Eastwood, um sujeito sem muitos escrúpulos para algumas coisas, com alguns escrúpulos para outras, cheio de recursos práticos, ótimo com armas de fogo, amado pelas mulheres, odiado pelos oponentes e respeitado pelos locais.



O antagonista Frank Harlan é encarnado por Robert Duvall, ambicioso empresário do ramo fundiário com menos escrúpulos do que Joe Kidd, que planeja fazer uma expedição para caçar Chama, o revolucionário da região (John Saxon).

O filme tem boas cenas de ação, além de uma inusitada sequência não facilmente encontrável em outros filmes, mas não posso contar porque seria spoiler. 

Digamos que tem a ver com o modo surpreendente usado por Joe Kidd para "chegar chegando" na hora do tiroteio final...

Assista e deleite-se, não é sempre que a Netflix tem disponível um filme de John Sturges, que está na lista de meus TOP TEN DIRETORES FALECIDOS. 




quinta-feira, março 23, 2023

O homem que matou o facínora

 


Faroeste clássico dirigido por John Ford, tendo como base a atuação de três atores: John Wayne, James Stewart e Lee Marvin, respectivamente nos papéis de Tom Doniphon, o típico caubói que sempre anda armado, um cara do bem, mas cético em relação a resolver certos assuntos no diálogo e dentro da lei; Ransom Stoddard, um advogado que é espancado durante um ataque à diligência e depois se torna senador; e Liberty Valance, que os distribuidores brasileiros do filme transformaram no "Facínora" mais famoso do cinema.

E Liberty é realmente um facínora de marca maior. Usa e abusa da violência com as pessoas mais fracas, e com seu rebenque (ou relho) gosta de surrar pessoas quase até a morte. Foi ele é claro quem espancou Stoddard no roubo à diligência. Mais tarde no filme, os dois voltam a se encontrar. Desta vez, Stoddard está trabalhando como atendente num restaurante em que Liberty aparece para tumultuar o ambiente. Os dois se reconhecem, e novamente Stoddard vai sofrer nas mãos (e nos pés) de Valance.


Tom Doniphon está presente e intervém, mas Stoddard não quer saber de violência. Ele almeja um país onde as leis prevaleçam em vez da força.

Mas a questão da justiça com as próprias mãos não é a única situação importante a ser focalizada por John Ford. Também a relevância de um sistema eleitoral forte e livre, em que as pessoas não sejam coibidas de votar nesse ou naquele candidato, é abordada no filme.



A atriz Vera Miles é o pivô de um triângulo amoroso. Tom Doniphon a ama, Ransom Stoddard também. Ela parece indecisa entre o másculo caubói e o intelectual urbano. 

Woody Strode e Lee Van Cleef são nomes de peso no elenco de apoio.

A frase mais famosa do filme é falada por um jornalista: 

"This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend.”

Eu resolvi assistir a esse filme que ano passado completou 60 anos (e foi homenageado com um artigo no The Guardian) após a referência em Os Fabelman de Steven Spielberg, cuja resenha ainda não tive tempo de fazer. 

Enquanto não a faço, vou citar en passant a cena final do mais recente filme de Spielberg, em que um outro cineasta famoso encarna John Ford dando uma dica importante ao jovem que começava no ramo de dirigir filmes.

É uma cena em que os fãs de David Lynch se deliciam.

SPOILER SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER SPOILER

SPOILER SPOILER SPOILER

Se pretende assistir ao filme e ainda não o assistiu: não recomendo que leia o parágrafo a seguir. Não chega a ser um spoiler, mas dá uma informação que pode diminuir a surpresa no final. Se bem que venhamos e convenhamos, o título meio que entrega in the first place.

Em O homem que matou o facínora, é notável o pioneirismo no quesito "ângulos diferentes". Deve ter sido um dos roteiros precursores a mostrar a mesma cena sob diferentes pontos de vista, o que causa uma reviravolta na história.


segunda-feira, março 13, 2023

Peter Weir ganha Oscar pelo conjunto da obra


Quem ama cinema está feliz com a cerimônia de ontem, no 95º ano do Oscar. Foi a mais divertida e tocante dos últimos anos, uma cerimônia que marca o retorno do Cinema aos bons tempos. Após a pandemia, uma retomada vem por aí.

Momentos emocionantes não faltaram, como o de Jamie Lee Curtis homenageando o pai, Tony Curtis, e a mãe, Janet Leigh, dois ícones do cinema. Ela lembrou o fato de o pai e a mãe terem sido indicados ao Oscar (Tony Curtis, em 1959, ao Oscar de Melhor Ator, por Acorrentados, e Janet Leigh, em 1960, ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, por Psicose) e agora ela havia acabado de garantir o único Oscar da família, como Atriz Coadjuvante.

Ke Huy Quan, o vencedor da categoria Melhor Ator Coadjuvante, foi um caso à parte. Grande sucesso na infância, ostracismo, e agora a volta por cima. 

Brendan Fraser encarou o prêmio de Melhor Ator como uma redenção, uma benção ainda que tardia. A baleia, de Darren Aronofski, também abiscoitou o Oscar de Melhor Maquiagem.

Michelle Yeoh, a veterana atriz da Malásia, que iniciou sua carreira na forte indústria cinematográfica de Hong Kong, também lembrou que é preciso perseverar e nunca desistir de nossos sonhos.

O compositor da trilha sonora de Nada de novo no front, para mim, foi um dos destaques da cerimônia, falando com uma simplicidade e uma calma admiráveis. O filme terminou com 4 Oscars de categorias importantes: Melhor Filme Internacional, Melhor Trilha Sonora, Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia.

Falando em música, a cerimônia contou com ótimos números musicais, em que os candidatos à Melhor Canção Original se apresentaram em performances otimamente bem feitas e dirigidas. Quem venceu a categoria foi "Naatu Naatu", a canção do filme indiano RRR, um aceno para a diversidade.

Durante a cerimônia bem conduzida pelo apresentador Jimmy Kimmel, foram mostrados trechos de outro evento do Oscar, acontecido em novembro de 2022, em que pessoas receberam Oscars honorários.

Um desses Oscars eu não poderia deixar de mencionar aqui.

Peter Weir, meu diretor favorito, teve enfim sua obra reconhecida com a estatueta mais importante da indústria do cinema. E justamente um Oscar pelo conjunto da obra, uma honraria que ganha ainda mais relevância porque equivale a um Nobel da Literatura, que também é pelo conjunto da obra.

O cara que fez




Picnic na montanha misteriosa,

O ano em que vivemos em perigo 

e

Gallipoli

para ficarmos só na fase australiana.

Parabéns, Peter! 

Vale a pena ler a transcrição e ouvir o seu discurso de agradecimento:



Sobre o grande vitorioso da noite, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo, isso carrega também tem um simbolismo. O novo prevalece sobre o velho. O inovador supera o tradicional. Novos caminhos se abrem para Hollywood.

domingo, março 05, 2023

Shtisel

 Sou o tipo de pessoa avessa a "maratonar" qualquer série.

Mas o que fazer se você se torna addicted a uma série que está com uma tarja 

"Última data para ver este título: 24 de março"?

Se eu ver dois episódios por dia ainda consigo ter uma ideia das três temporadas sobre as peripécias desta família ultraortodoxa judaica.

Estou assistindo a episódios avulsos, e a cada episódio, o vício aumenta, e quero mais e mais.

Como não querer mergulhar noutra cultura e noutra religião,

o estranhamento do idioma, dos costumes,

e ao mesmo tempo se identificar com o que temos em comum,

a humanidade,

a vida como ela é, 

com humor e realismo,

beleza e simplicidade, pureza e sensibilidade?

Postei aqui para quem tem Netflix e nunca viu, que se permita esse prazer antes que a série seja "descontinuada".



Por que um católico deve assistir à série dramática Shtisel? Os roteiros, as personagens e o elenco são primorosos. Afora isso, tem mais cinco motivos, citados aqui, em outras palavras.

 



sábado, março 04, 2023

O espantalho


 O bom de ser cinéfilo é que sempre acabamos descobrindo que não "entendemos nada" de cinema.

Pois é exatamente assim que o cidadão se sente ao assistir O espantalho (1973).

Esse filme não tem nada de extraordinário.

Uma história banal de dois amigos, um movie road de melancolia e sonhos que sabemos ser meros sonhos...

Mas quando o filme acaba você pensa: seu bobinho, você se achava um entendido sobre cinema e não tinha visto ainda O espantalho.

Seu paspalho!

Onde é que esse filme esteve todos esses anos?

Na estante da Zílvia Locadora, à tua espera.

Antes tarde do que nunca, parafraseando o nome da banda de rock carazinhense.

Gene Hackman e Al Pacino são os amigos que nos levam nessa jornada. 

Hackman declarou que sua melhor atuação na carreira foi esta.

Nesta entrevista do site Film Comment, o cineasta Jerry Schatzberg compara o modo de atuação dos dois, Al Pacino mais imersivo, Hackman construindo no andar da carruagem e apenas diante das câmeras... 

Schatzberg, que antes de ser cineasta tinha uma carreira sedimentada como fotógrafo, foi o responsável por escolher um ator de teatro que depois ganharia Oscar de Melhor Ator em 1993 por Perfume de Mulher.

Al Pacino estreou no cinema em Os viciados (Panic in Needle Park, 1971), também de Schatzberg.



Segundo Roger Ebert, o filme nos leva a fazer uma associação com outro clássico com dois atores, um alto e um baixo: em Perdidos na noite, os dois amigos são Joe Buck (Jon Voight) e Enrico Rizzo (Dustin Hoffman). A associação é meio óbvia pelo jeito. Eu pensei, o Ebert pensou, e o site Artifice fez um paralelo entre os dois filmes. Outra associação que Ebert fez foi com Ratos e homens, o livro clássico de John Steinbeck, cuja dupla de personagens principais era Lennie Small e George Milton. Ratos e homens teve várias adaptações ao cinema, mas esse é assunto para outro post.

Os personagens de Schatzberg são Francis Lionel (Al Pacino) e Max Millan (Gene Hackman). Os dois formam uma amizade em que Francis é o palhaço, o brincalhão, e Max é o sisudo, brigão. Max não perde uma oportunidade de entrar numa briga, e por isso, sempre está se metendo em confusão. Em países como os EUA, isso equivale a dizer que Max é um assíduo visitante das casas de correção penal.

Recém-saído da cadeia, conhece Francis à beira de uma rodovia californiana, ambos tentando pegar carona. O objetivo de Francis é chegar a Detroit para conhecer o filho ou filha que deixou para trás. O objetivo de Max é chegar a Pittsburgh para abrir um lava-carros.

No caminho visitam a irmã de Max, e participam de algumas situações que levam a amizade deles a se reestruturar.



Tudo culmina na sequência em que Francis, já tendo sofrido poucas e boas recentemente,
procura a casa da mãe de seu filho. A partir daí temos a sequência que torna o filme um cult.

Contar aqui seria injusto com quem está curioso para ver.

Acredite, você se tornará um cinéfilo melhor.

Para os interessados no Festival de Cannes, O espantalho ganhou a Palma de Ouro em 1973, empatou com outro filme, O assalariado, algo raro na história do Festival. Confira aqui todos os vencedores da Palma de Ouro nos anos 1970.

segunda-feira, fevereiro 06, 2023

Babilônia

Após a sessão de Babilônia cheguei a várias conclusões:




1) Babilônia é um filme extremamente divertido.  Desde o começo, dei muitas gargalhadas. Um riso espontâneo, que os antigos chamariam de "a bandeiras despregadas". 

2) As pessoas estão perdendo o senso de humor? Ou o meu senso de humor é diferente de 99,9% das pessoas? É que na maioria das vezes ninguém mais da plateia achou graça. Sei que o meu senso de humor é o senso de humor de um cinéfilo até o tutano dos ossos.

3) Um cinéfilo até o tutano dos ossos se diverte do começo ao fim em Babilônia. 3 horas inéditas de Damien Chazelle é pouco! Poderia ter tido um intervalo no meio e uma segunda parte de mais 3 horas.




4) Uma sequência inicial tão acachapante e imersiva quanto essa só me lembro de algo parecido em O resgate do soldado Ryan.

5) É evidente que alguém que bateu o recorde de Norman Taurog (que, a propósito ou não, dirigiu quase 10 filmes com Elvis Presley) como o diretor mais novo a ganhar um Oscar de Melhor Diretor não precisa provar nada para ninguém, e aí que começam os pontos fracos de Babilônia, os pontos em que essas pessoas especiais, os críticos de cinema, vão cair em cima como abutres.

6) A diferença entre um cinéfilo raiz e um crítico é essencialmente esta: o crítico é uma pessoa treinada para apontar os defeitos, enquanto o cinéfilo desde que se conhece por gente se criou se deleitando com as qualidades, poucas, médias ou muitas, do filme (literalmente) em tela.



7) E o filme em tela, Babilônia, é algo que vai se tornar objeto de culto entre cinéfilos. As partes que os críticos gostariam de deixar na mesa de edição são as partes que eles mais vão comentar e se lembrar. As partes exageradas do roteiro, as partes que os críticos torcem o nariz e acham "extra-vagantes" ou "um pouco meio muito", os cinéfilos as terão na ponta da língua. Serão as partes mais cultuadas.



8) A transição do cinema mudo para o cinema falado é um tema palpitante, mas Babilônia não é um filme monotemático.

9) A melhor atuação de Lukas Haas continua sendo em A testemunha de Peter Weir. 



10) Dificilmente vou sair do cinema tão fascinado este ano, mas vou assistir em breve Os Fabelman(s) e Os Banshees de Inisherin. Aguardem os posts.


Elvis



Falar deste filme de Baz Lurhmann para mim tem um sabor especial.

Tive a sorte de estar no lugar certo na hora certa.

A sorte favorece os preparados, alguém poderá dizer.

O fato é que sorte nunca faltou a Elvis Presley. 

Após traduzir os dois volumes da biografia de Peter Guralnick, formei uma imagem do Rei que é a minha imagem.





Cada um enxerga as coisas com os seus próprios olhos, e se enquanto tradutor tentei respeitar ao máximo as palavras, o estilo e a visão do autor, isso não me impede de encarar os fatos a meu modo, aqui em meu humílimo blog.


Sortudo, esse rapaz. Em primeiro lugar, é o sobrevivente de dois gêmeos.

O irmãozinho dele nasceu morto.

Sorte ou azar? Depende do ponto de vista.

Tudo na vida dele aconteceu em seu devido tempo e na devida hora.

De tanto passar na gravadora Sun, de tanto bater na tecla, de tanto bater na pedra dura com sua água cristalina (uma voz nunca antes ouvida e uma confluência de estilos nunca antes vista), Sam Phillips lhe deu a chance. Sam Phillips lhe entregou a banda que ia se tornar clássica, um baixista que toca baixo acústico, um guitarrista muito técnico, um gênio em se tratando de passar do simples e eficaz ao sofisticado e virtuoso. Nos primeiros tempos nem tinham baterista fixo. Sam Phillips lhe entregou os primeiros singles de sucesso, o primeiro empresário...

O jovem cantor entra no radar de outro empresário, de mais cacife e com ampla rede de contatos em Hollywood e na RCA Records.



O resto é história, e assistir ao filme de Baz Luhrmann tem um grande efeito catártico para os admiradores de Elvis, tanto os mais antigos quanto os recém-chegados como eu.

O leitor de Último trem para Memphis vai reconhecer no filme muitos e muitos momentos narrados no livro.

E a partir de agosto, quando chegar às livrarias a segunda parte da biografia, Amor descuidado, o ciclo se completa. A segunda parte de sua vida, a vida na Alemanha como soldado, o namoro com Priscilla, a volta para casa, a participação no programa de Frank Sinatra, a retomada da carreira em Hollywood (antes de ir à Alemanha, tinha feito 4 filmes), a estagnação da carreira como ator, a reviravolta no especial da tevê em 1968, as muitas temporadas em Las Vegas.

Esse roteiro é um roteiro de muitas alegrias entremeado com muitos contratempos. A vida de Elvis não foi um mar de rosas, mas também não foi uma tragédia. Sob quase todos os prismas foi a vida de um vitorioso.

Respeito muito quem sente "pena" de Elvis, mas para mim Elvis viveu a vida que ele quis. 

Inteligente como era, sempre participou ativamente de todas as decisões artísticas e assinou quase todos os contratos. 

Concordo que os roteiros de alguns de seus filmes como ator poderiam - até deveriam - ser melhores, mas até nisso considero que as pessoas em geral (Elvis e Peter Guralnick inclusos) subestimam a carreira cinematográfica de Elvis Presley.

Mas voltando à vaca fria, esta deveria ser uma resenha sobre o filme de Baz Luhrmann.

Um triunfo do excesso, o filme tem mais qualidades que deméritos.

O principal está ali, inclusive o influxo da música e da cultura negras na vida e na formação artística de Elvis. Isso Luhrmann captou com maestria, essa coisa quase mística que envolve a ligação de Elvis com a música gospel, a música spirit e o blues.

Elvis é uma esponja não preconceituosa que absorveu várias influências musicais, amalgamou-as num cadinho e fez explodir a mente de Sam Phillips nos estúdios Sun. O dono da gravadora não teve dúvidas desde que ouviu a versão de Elvis para "That's All Right" que estava ouvindo música revolucionária.

Essas coisas não são exatamente o foco do filme, o roteiro se concentra em coisas mais polêmicas da vida do Rei, e tenta transformar o Coronel Parker em vilão; talvez esse seja o maior lapso do filme, se bem que muitos fãs concordem com essa visão um tanto rasa do relacionamento entre cantor e empresário.



Peter Guralnick, por exemplo, não defende isso. Essa é uma das coisas que está no filme, mas não está no livro. Tanto isso é verdade que o próximo livro de Guralnick é uma coletânea das cartas do Coronel Parker, para mostrar um pouco mais dessa personalidade multifacetada.

Seja como for, assistir a Elvis no cinema foi um deleite, e rever o filme será também um deleite. 

O ator Austin Butler concorre ao Oscar e até mereceria a estatueta, não fosse a concorrência de Brendan Fraser em A baleia, filme de um meus diretores no TOP TEN DIRETORES VIVOS, Darren Aronofski.