quarta-feira, dezembro 23, 2009

Avatar


James Cameron retorna às telas em grande estilo. Depois de Titanic (1997), o realizador que estreou com o trash Piranhas Voadoras II (1982) ficou exatos doze anos no limbo para simplesmente lançar um filme revolucionário. Che Guevara ficaria orgulhoso de Jake Sully.

O roteiro de Avatar tem todos os ingredientes que fizeram o sucesso dos outros filmes de Cameron. Senão, vejamos:

* a ação de O exterminador do futuro (1984);
* o trabalho em equipe de Aliens (1986) e a capacidade de criar frases que entraram para a história do cinema (vide Get away from her, you bitch);
* a concepção de seres estranhos de O abismo (1989);
* as lutas de O exterminador do futuro 2 (1991);
* o humor de True Lies (1994);
* o romance de Titanic (1997).

Cameron colocou todos esses ingredientes em seu caldeirão de ficção científica e surgiu Pandora, um mundo fantástico para onde os humanos vão com o objetivo de colonizar o local e obter grandes quantidades de um valioso minério. Mas em Pandora vive uma espécie de seres inteligentes, os Na'vi. Para melhor conhecer os hábitos desse povo, os cientistas, com a ajuda da engenharia genética, criam em laboratório híbridos cuja consciência é comandada pelo cérebro de um humano que, ao entrar numa cápsula, adormece e acorda no corpo do Avatar (a denominação dos híbridos). É assim que Jake Sully (Sam Worthington), soldado que ficou paraplégico e é selecionado para trabalhar no programa, pela primeira vez abre os olhos e tem todas as informações sensoriais de um Na'vi. Essa cena, embora muito emocionante, é apenas uma pálida demonstração das sensações que Cameron nos reserva.

Para se relacionar com os Na'vi, Jake Sully recebe os conselhos de dois 'gurus': Grace (Sigourney Weaver, a eterna Ripley da série Alien), a cientista-chefe, e o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), o comandante das operações militares, duas personagens contraditórias e difíceis de lidar. O elenco conta também com Giovanni Ribisi, no papel do asqueroso e ganancioso Parker Selfridge, o gerente de operações da colônia humana em Pandora, e Michelle Rodriguez, que encarna a confiável Trudy Chacon, amiga de Jake Sully e piloto de uma das aeronaves de combate.
Do lado dos Na'vi temos Wes Studi como o chefe Eytukan, Laz Alonso como Tsu'tey e a ótima Zoe Saldana (ver foto abaixo tirada na première de Avatar em L. A.) como a esquisita e misteriosa Neytiri.
Qualquer coisa que se comente sobre Avatar será inócua e sem sentido se a pessoa não ver o filme num cinema 3-D. A experiência é inigualável e inesquecível e impossível de não querer repeti-la.


domingo, dezembro 06, 2009

Abraços partidos


A primeira cena de Abraços partidos (Los abrazos rotos, 2009), do diretor espanhol Pedro Almodóvar, é plena de sensualidade. Uma bela moça pede a um homem qual parte do jornal ele deseja ouvir. O homem diz que não está interessado no jornal, mas sim nela. Pede que ela se descreva. Ela então diz que é "ruvia de pelo largo" e tem olhos verdes, meio azulados no verão. Ele toca de leve o cabelo dela e desce os dedos, passando por pálbebras, rosto e seios. Os dois se beijam.
Assim o espectador é apresentado ao protagonista (que, como Almodóvar, é diretor de cinema e roteirista). E vai saber como ele chegou a essa situação por meio de um roteiro tipo vaivém, indo e voltando no tempo. Colcha de retalhos costurada sem pressa, quebra-cabeça montado devagar. Na verdade, o foco não é na dinâmica do contar e sim no que é contado, nas personagens desnudadas (algumas literalmente) ao longo da película.
Personagem importante na vida de Harry Caine é a produtora Judit (Blanca Portillo), que cuida de tudo na vida de Harry, desde problemas domésticos até os detalhes da produção.
Numa das idas e vindas do roteiro, ficamos conhecendo uma atriz que vai acabar se tornando uma grande paixão de Harry: a sensual Madalena (Penélope Cruz), mulher de um rico empresário. Mas antes novo rewind para apresentar todo o contexto no qual Lena se envolve com o possessivo Ernesto Martel (Jose Luis Gomez). O fato é que Lena faz um teste para participar de uma película de Harry, que se perturba com a presença dela e resolve contratá-la. O marido para não perder a ingerência sobre a amada resolve patrocinar o filme e manda o filho gravar o making-of. E uma das grandes ideias de Almódovar: o enciumado marido contrata uma leitora de lábios para, a partir das cenas do making-of, ler o que o o diretor conversa com sua atriz principal.
Outra personagem no mínimo interessante: o projeto de diretor de cinema Ray X (Ruben Ochandiano), enigmática figura que aparece em cenas estranhas. Ele também é retratado em duas épocas, e, quando adolescente, sua postura é caricatural, pendendo ao cômico.
Uma das cenas mais bonitas do filme é a cena de pura paixão entre Lena e Mateo/Harry à beira-mar, ao som de Werewolf da banda Cat
Power. O bom dos filmes de Almodóvar é que sempre se fica com vontade de revê-los e mesmo antes de rever fazemos novas releituras mentais das cenas e chegamos a conclusões diferentes sobre as atitudes tanto das personagens quanto do realizador. Só um cinema rico de ideias e imagens significativas permite esse tipo trabalho mental do surpreso e grato espectador.


sábado, novembro 28, 2009

500 dias com ela


Narrativa não linear de um não romance entre um não casal. Tom é um cara que curte bandas dos 80 como Smiths e Joy Division, e Pixies dos 90. Lê Alain de Botton e Salinger. É arquiteto, mas trabalha como criador de cartões de dia dos namorados. Devido a uma leitura errada do filme A primeira noite de um homem, e ao contato com músicas dos 80, tornou-se um introvertido ultraromântico. Acredita em amor à primeira vista, em destino e coisas assim. Tom conhece Summer (Zooey Deschanel), morena de olhos azuis que vai trabalhar na mesma empresa que ele, e se apaixona. Não exatamente à primeira vista, mas à medida que vai descobrindo que ela gosta das mesmas coisas bizarras que ele. Por exemplo, uma cena em que os dois estão sozinhos no elevador, ele escutando Smiths no fone de ouvidos e ela canta um trecho da música There's a light that never goes out.
É assim, aos pouquinhos, que Tom forma a certeza de que Summer é "the one". Summer, por sua vez, apenas acha Tom um carinha interessante, talvez uma nova conquista. Mas desde o começo deixa bem claro a ele que não quer se apaixonar e sim apenas um relacionamento "casual".
Invertem-se os papéis: a posição masculina de defesa é adotada justamente por Summer, e a posição feminina de morrer de amores é encarnada por Tom. Quando eles têm a primeira noite de amor (para ele) e de sexo (para ela), na manhã seguinte Tom acorda sentindo-se o melhor dos homens, e as pessoas que passam por ele contagiam-se com sua felicidade.
Que, como sói acontecer, is a warm gun...
Este filme de boa bilheteria nos EUA é o segundo trabalho dos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber (o outro foi Pantera Cor de Rosa 2) e a estreia do diretor Marc Webb. Vale conferir pelas inúmeras referências, pela trilha sonora e pela (clichê!) química mesmo não estequiométrica da dupla de protagonistas.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Código de conduta


Law Abiding Citizen (algo como "cidadão cumpridor das leis")* virou Código de conduta no título brasileiro. Desta vez, o ubíquo e onipresente Gerard Butler encarna Clyde Shelton, que assiste a família (mulher e filha pequena) ser assassinada de modo brutal em plena casa invadida por dois assaltantes. Um deles, ao esfaquear Clyde, fala "you can't fight fate" (é inútil lutar contra o destino). Mas é exatamente isso que Clyde vai fazer durante toda a sua saga de busca de vingança. Que, como costuma acontecer, é um prato que se come frio. 
       O promotor de justiça Nick Rice (o oscarizado Jamie Foxx, em atuação burocrática) faz um acordo com o advogado do assassino mais violento: ele entrega o comparsa (que na verdade foi cúmplice do roubo mas não esfaqueou as vítimas) e ganha uma pena branda (cinco anos).
       Depois dessa breve introdução, logo o filme se transporta para dez anos depois, quando um dos bandidos vai ser executado (enquanto o mais violento já está solto). Não vou contar mais nada do 'plot', basta dizer que Clyde, guardadas as proporções, lembra um pouco o D-Fens de Michael Douglas em Falling Down de Joel Schumacher (Um dia de fúria, 1993). 
      No filme de Schumacher, um cidadão indignado com a mediocridade, a violência e a estupidez das pessoas reage com mediocridade, violência e estupidez. No filme de F. Gary Gray, um cidadão cumpridor das leis resolve desafiar o sistema judiciário, que, segundo ele, está "broken" (falido) (na legenda saiu como 'imperfeito', boa solução tradutória). O clichê de sempre: "o roteiro tem boas sacadas que valem o ingresso; o filme entretém ao mesmo tempo em que provoca certas discussões interessantes." Mas não deixa de ser verdade. Não recomendado para pessoas sensíveis (algumas cenas insinuam situações ultraviolentas).
Filmografia resumida do eficiente F. Gary Gray, que em 2019 assinou o novo filme da franquia Men in Black:
2011 = The Brazilian Job (que acabou sendo cancelado!)
2009 = Law Abiding Citizen (Código de conduta)
2005= Be Cool (O outro nome do jogo)
2003 = A Man Apart (O vingador)
2003 = The Italian Job (Uma saída de mestre)
1998 = The Negotiator (O negociador)
1996 = Set it Off (Até as últimas consequências)
1995 = Friday (Sexta-feira em apuros)
* (To abide é conformar-se, tolerar, suportar, cumprir; a expressão 'law abiding' está adjetivando o 'citizen', então 'law abiding citizen'=~ "cidadão cumpridor das leis")

quinta-feira, outubro 15, 2009

Bastardos inglórios

Com exceção de uma sequência (a protagonizada por Mike Myers), Bastardos inglórios é impecável. A cena de Myers não convence porque fica indecisa entre o esculacho e a verossimilhança interna. Tipo de cena que destoa e pode ser sacada com ganhos.
No mais, os capítulos do novo filme de Quentin Tarantino são repletos de suspense e humor na medida certa. O charmoso e ao mesmo tempo tenebroso cenário é a França controlada pelos nazistas, retratados no capítulo 1 como manipuladores, asquerosos, racistas e antissemitas. O coronel Hans Landa (Christoph Waltz), um dos personagens mais nojentos da história do cinema, visita a residência de um produtor de leite à procura da família Dreyfus, que estaria refugiada na propriedade. A sequência toda é um primor e já vale o filme, com uma cena homenageando o filme Rastros de ódio (The searchers), de John Ford. O capítulo 1 introduz além de Landa outra personagem essencial da história: a selvagem Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent, na foto).

Para contrabalançar a violência nazista, a América envia um micropelotão comandado pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt) com o único objetivo de instalar o terror nas hostes alemãs por conta de barbáries como tirar o escalpo dos inimigos mortos e marcar a suástica na testa dos vivos. Logo a fama dos "Inglourious basterds" se espalha e alguns de seus integrantes ganham alcunhas sugestivas como o sargento Donnie Donowitz (Eli Roth), que passa a ser conhecido como o "Urso Judeu" e o tenente Aldo como "Apache". O sargento Donnie ganha fama por destroçar prisioneiros indefesos com um taco de beisebol em espetáculos dantescos.

Os desdobramentos e episódios seguem a estrutura tarantiniana de diálogos cortantes e inusitados com suspense crescente que acabam em múltiplos ápices banhados de sangue, suor e lágrimas. A selvageria dos dois lados é enfatizada sem firulas. Não há mocinhos nem bandidos, apenas pessoas sem moral ou vingativas. Vingança fenomenal é a planejada por Shosanna, agora morando em Paris e proprietária de um cinema. Com a ajuda do amante Marcel (Jacky Ido) ela vai provar que a vingança é um prato que se come frio.

Ser impecável não significa ser ótimo ou genial, mas fato inegável é a rapidez com que os 210 minutos frenéticos se escoam. As duas horas e meia passam num piscar de olhos, e isso é sinal de que o filme é pelo menos bom. É bem verdade, Tarantino não usa o cinema para denunciar nem para provocar profundas meditações. Realiza uma espécie de entretenimento com conteúdo estético e texto apurado. Num século em que o cinema e a literatura se banalizaram, um diretor como Tarantino se destaca por sua originalidade, ironia e capacidade de desconcertar.

terça-feira, outubro 06, 2009

Deixa ela entrar


Desde Minha vida de cachorro (1986), de Lasse Hallström, o cinema sueco não renovava tanto. Desde que o menino Ingemar entalou o pênis numa garrafa e ficou orfão não víamos outro menino sueco passar por peripécias tão angustiantes. Agora é a vez de Oskar, menino perseguido por colegas da escola que ganha uma nova vizinha no prédio onde mora. Falo do filme Deixa ela entrar, de Tomas Alfredson.

Mas como assim? Renovar é algo difícil hoje em dia. E como falar em renovação num filme com uma profusão de citações, referências e intertextos? Onde está a renovação se cada cena de Deixa ela entrar nos remete a Martin (1978, de George Romero) e a Near Dark (Quando chega a escuridão, 1987, de Kathryn Bigelow), para citar apenas dois? Tudo bem, então. Deixa ela entrar (2008) não renova nada, apenas impressiona. E como.

Para começar, é impressionante a musicalidade deste idioma, o sueco, o modo como ele reverbera em nossos tímpanos já cansados de tanto português e inglês. Passar duas horas ouvindo sueco é algo definitivamente impressionante (e renovador).

Em segundo lugar, em que filme um ser humano é pendurado de ponta cabeça numa árvore e tem a jugular cortada como um porco e o sangue coletado num frasco com a ajuda de um funil? Se isso não é renovador, então pelo menos é impressionante.

Em terceiro lugar, que filme é vendido como terror, mas no fundo tem como tema a amizade ou o amor como queiram? Sem falar nos temas básicos de filmes de vampiros: dependência, instinto, imortalidade.

Fome de viver é o que não falta para Eli (Lina Leandersson), a nova inquilina do prédio de Oskar (Kare Hedebrant). O guri é filho de pais separados e mora com a mãe. Na escola, é maltratado e humilhado por um trio de colegas. Em vez de revidar, Oskar sofre enxovalhos e se cala. Em linha reta continua sua trajetória até que conhece Eli, e seu mundo vira ao avesso. Poderoso vínculo de amizade os une, que evolui para um namoro impúbere e puro.
E em que consiste uma amizade senão em aceitar o amigo como ele é? Em que consiste um namoro senão estar sempre presente para o que der e vier?

A primordial qualidade de Deixa ela entrar é contar uma história de modo simples e eficiente. Terror? Depende do ponto de vista. Para mim, é uma bela história de amor. E de como o amor tem um ciclo de ápice e extinção. Para se renovar outra vez.

domingo, setembro 27, 2009

A verdade nua e crua

Este filme do mesmo diretor de Legalmente loira (2001) e A sogra (2005) foi roteirizado por três mulheres. Esse fato poderia levar alguém a pensar que a sua linguagem seria delicada. Sem dúvida, num filme rotulado como "comédia romântica" escrito por três mulheres, a palavra mais falada seria "amor". Entretanto, The ugly truth (A verdade nua e crua) contém um festival de palavras de baixo calão, e a palavra de quatro letras mais usada certamente não começa com l de love e sim com f***. Claro que as moças autoras do roteiro tiveram o cuidado de colocar essas palavras na boca de um homem, Mike Alexander (Gerard Butler), apresentador de um polêmico programa de TV que recomenda mulheres queimarem livros de autoajuda e aprenderem a conquistar os homens pelas curvas e pela habilidade sexual. No dicionário de Mike nem existe a palavra amor. O programa tem o mesmo nome do filme e elevada audiência apesar de ser de uma emissora pequena. Eis que a emissora maior onde trabalha a produtora Abby Richter (Katherine Heigl, de Ligeiramente grávidos) contrata a nova sensação. Mas o problema é que Abby abomina o tipo de TV feito por Mike, sensacionalista e vulgar. Os dois terão que aprender a trabalhar juntos e, neste meio-tempo, Abby terá que aprender a conquistar um homem (no caso, o médico interpretado por Eric Winter) e para isso vai contar com os sábios conselhos de Mike. Butler está impagável em várias cenas e Heigl não deixa por menos, protagonizando cenas hilárias como as retratadas aqui neste post (a do jogo de beisebol, e a cena do restaurante, em que Abby está vestindo uma calcinha com dispositivo para massagear o clitóris cujo controle remoto acaba caindo na mão de um menino). A verdade nua e crua é que The ugly truth mantém a coerência e a qualidade relativa da carreira de Luketic.

Two lovers (Amantes)




If you want an easily forgettable experience, keep away from Two lovers. But if you want to enjoy rich, fulfilling moments you should seriously consider about trying Two lovers at once.
In other words, if you are longing to see an “unpretentious romantic comedy” or a funny popcorn movie just to pass your time, you had better avoid Two lovers. But if you like movies with a couple of unpredictable characters and, after the movie session, you would enjoy going to a pub with your lover(s) and discuss such relevant questions as “Why are we humans so self-destructive?” or “Why do when we have two clear options in our lives, one of which is safe and the other is risky, and the former would lead you to stability and happiness while the latter to uneasiness and despair, why do we always tend to take the wrong decision?” then Two lovers could be a nice alternative.
Director James Gray tells us the story of Leonard Kraditor (Joaquin Phoenix), who recently broke up with his fiancée due to genetic incompatibility. They have made some tests before marrying and the tests appointed that if they were going to have children, their children would be born with Tay-Sachs disease. This is a severe genetic condition most common in Eastern European (Ashkenazi) Jews whose symptoms include feeding difficulties, loss of motor skills, blindness, deafness and loss of intellectual skills; death usually comes before children are 5 years old). This unfortunate situation has made Leonard come back to live with his parents, a natural thing to do since he works at his father business, a laundry. His job is actually very subaltern, a job that doesn’t offer him a way to develop his intellect and abilities. So what would you try do to in a cloudy day if you were a guy with a pitiful job and a broken heart passing over a bridge?
But not everything is dark in Leonard’s live. After all, he has a loving mother and a flexible father. And, in order to definitely forget his fiancée, he is going to meet two very different girls. The first one is Sandra Cohen (Vinessa Shaw), a beautiful brunette with who is daughter of the future commercial partners of the family. There is going to be a merger between the two laundries companies, and is always good and advisable to join the useful to the pleasant. Sandra is almost too perfect to be true, and the most incredible thing: she is very interest in Leonard.


The other girl lives at his building. Her name is Michelle. As Sandra, she is a very acttractive girl, but the similarities end here. Michelle is one of those mysterious blondie girls who seem to have a painful secret. Emotionally disturbed and with a puzzling attitude, she immediately sparks Leonard's interest and they become friends. But how on earth could a man want just friendship with a woman like Michelle?

The way in which James Gray conducts the plot is smart and slow, without any hurries. And he doesn’t seem to be ashamed of inserting a lot of references to other movies, such as Le Notti Bianchi, de Luchino Visconti (which, as Two lovers, is also based on Dostoyesvsky's novel White nights), The Rear Window, by Alfred Hitchcock and Body Double by Brian De Palma, and even TV series such as Twin Peaks, by David Lynch.
From Visconti's movie, Gray steals some scenes and the idea of updating the spirit of Dostoyevsky characters. The link with The Rear Window happens because Leonard can see Michelle’s apartment through his rear, indiscreet window. And the voyeur theme explored by De Palma in Body Double is revisited when Leonard takes photographs of Michelle through the open window. Connection with Twin Peaks comes because of Michelle’s distressed character, who remembers us of the helpless Laura Palmer. Other link with David Lynch’s movies could be the presence of Lynch's ex-wife and muse, Isabella Rossellini, as Leonard’s mother.
The cast is pretty well-chosen and includes Elias Koteas as someone important in Michelle's live. Leading actor Joaquin Phoenix is fairly convincing as Leonard and finally proves that he can be so gifted as his late brother River. The soundtrack probably is good because it doesn’t call our attention at all. On the whole, Two lovers is worth seeing, because not only is a well written, acted and directed movie, but also it allows some thought and discussion about key issues to our lives.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Vestido de noiva

Conforme Décio de Almeida Prado, Vestido de Noiva é uma peça impregnada não de amor, mas de sexo, e Nelson Rodrigues aborda sem vulgaridade um assunto que alguém poderia considerar "vulgar".
O texto do controvertido dramaturgo, tido como ponto referencial no teatro moderno brasileiro, ganha em 2009 montagem dirigida por Gabriel Villela. A trupe tem viajado Brasil afora, levando a plagas distantes como a nossa província um espetáculo desafiador e, para usar um adjetivo proibido pelo Manual de Estilo do Estadão, "instigante". A explicação do manual é que instigante é um adjetivo clichê. Mas venhamos e convenhamos, sempre que um livro ou filme ou peça não empolga muito mas provoca os sentidos e o intelecto, lá vem o adjetivo à mente. Instigante.
O fato é que ao cabo da peça houve gritos de "Bravo!" e o público aplaudiu de pé. Se bem que eu nunca sei se o público porto-alegrense aplaude de pé por gratidão ou por merecimento.
Analisar o elenco seria pretensão, mas é preciso destacar a presença hipnótica de Luciana Carnieli, que encarna a sensual Madame Clessi, e a interpretação divertida de Marcello Antony, que lembra com seu Pedro um Hamlet pândego. Completam o elenco Vera Zimmermann e Leandra Leal, as irmãs Lúcia e Alaíde, respectivamente. No elenco de apoio, provoca risos na plateia o desconhecido ator que vive a sogra de Alaíde. A peça inicia com o atropelamento de Alaíde e conta de modo nada linear a história da tragicômica competição entre as irmãs pelo amor (sexo?) de Pedro.

domingo, agosto 16, 2009

Drag me to hell

Hardcore. Tem que ser hard, tem que ser core.
Tem que ser hardcore. Dificilmente Sam Raimi conhece Replicantes, mas seguiu o conselho à risca ao realizar a pedrada nos nervos Drag me to hell. Se nos primeiros quinze minutos o espectador que se considera experiente no gênero "terror-fantástico-escatológico" ainda consegue dar algumas risadinhas para disfarçar o medo, como se Sam Raimi ainda estivesse se decidindo se faria um filme mais à la Evil Dead II do que à Evil Dead I, eis que a impressão logo passa e fica difícil não se encolher na poltrona num crescente de inquietude, opressão, pesadelo e pavor. Não resta dúvidas: desta vez Raimi não está para brincadeiras.
A ambiciosa heroína da película, a bancária Christine Brown (Alison Lohman, a bela da foto abaixo), compete para conquistar uma promoção no trabalho. Para isso, tenta provar ao chefe Mr. Jacks (David Paymer) que é uma aposta melhor do que o concorrente Stu Rubin (Reggie Lee). Namorada do insosso, porém apaixonadinho professor de Filosofia Clay Dalton (Justin Long), Christine é responsável por administrar os empréstimos e as hipotecas. Um belo e fatídico dia senta-se à sua mesa a sra. Sylvia Ganush (Lorna Raver, a fera da foto acima). Mas até que a netinha dela Ilenka Ganush (Bojana Novakovic!) não é de se jogar fora. E não convém contar mais do que isso para não ser estraga-prazeres, se é que pode se chamar de prazer sentir o sangue enregelar nas veias. Bom saber que Raimi não vendeu a alma ao demônio Hollywood.

Tempos de paz


Adaptação da multipremiada peça Novas diretrizes em tempos de paz, do dramaturgo Bosco Brasil, sucesso no eixo Rio-São Paulo nos anos de 2002-2003 que depois excursionou pelo país de Blumenau a Belém. A tradutora e crítica de teatro Barbara Heliodora classificou a peça como "imperdível" e o texto como "(...) uma trama fascinante, que ao mesmo tempo descobre para os brasileiros um Brasil de crueldade até aqui ignorada e cria uma linda e comovente metáfora sobre as razões de ser do teatro". Heliodora destaca o engenhoso uso feito por Bosco Brasil de um excerto da peça "A vida é sonho" de Calderón de la Barca. A crítica publicada no Jornal O Globo em setembro de 2002 pode ser lida na íntegra

18 de abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial em vias de terminar. Os presos políticos do governo Vargas são libertados, entre eles o Doutor Penna (o diretor Daniel Filho), decidido a reencontrar alguém.
Nesse meio-tempo, o polônes Clausewitz (Dan Stulbach) está chegando ao Brasil num transatlântico. Tem visto mas precisa de salvo-conduto para permanecer em terras brasileiras. Declara-se na alfândega como agricultor, mas sabe português e declama Drummond, o que desperta as suspeitas de Honório (Ailton Graça), que leva ao caso ao superior, o temido Segismundo (Tony Ramos). Cabe a Segismundo a decisão sobre o destino do migrante. Fica ou não fica em terras tupiniquins? Eis a questão.
Os dois personagens travam um embate psicológico enquanto contam um ao outro suas lembranças. Segismundo, que se diz vindo do Rio Grande do Sul, conta sem emoção os "serviços" que fazia a mando de seu padrinho e outras memórias que envolvem sua irmã (interpretada por Louise Cardoso); Clausewitz, o polonês que se declara agricultor, conta as agruras da guerra e tenta provar ao inquiridor que merece a honra de ficar no Brasil, afinal, o país "precisa de braços para a lavoura".
O filme funciona porque as adaptações feitas para a tela não chegam a comprometer a qualidade do texto original. O diretor Daniel Filho, que se compara a Woody Allen, nesta película está mais para um David Mamet, dramaturgo e cineasta que escreveu no livro Os três usos da faca: "A peça de mensagem é um melodrama isento de inventividade".
Justamente porque escapa da armadilha de querer "passar uma mensagem", Tempos de paz é um filme que merece ser visto.

terça-feira, março 31, 2009

Dúvida


Quem não se lembra dos diálogos cirúrgicos e cenas inusitadas de Feitiço da Lua (1987)? O filme valeu Oscar de Melhor Atriz para Cher e Atriz Coadjuvante para Olympia Dukakis. De quebra, um de Melhor Roteiro original para John Patrick Shanley, então com 37 anos de idade.
A estreia de John Patrick Shanley no cinema não poderia ter sido mais auspiciosa. Vamos dizer que depois as expectativas meio que se frustraram. Dirigiu o filme Joe contra o vulcão (1990) e passou a roteirizar adaptações de cotação duvidosa, como Alive (1993) e Congo (1995). Volveu o foco ao teatro: Psychophatia Sexualis (1996) e Where is my Money (2001)? Em 2004, lançou Doubt, parábola sobre a dúvida. A peça estreou fora da Broadway mas depois transferiu-se para a meca do teatro norte-americano, e dali para a telona, sob a batuta do próprio autor e diretor da peça. No cinema, é o segundo trabalho como realizador.
Dúvida baseia-se na desconfiança da Madre Superior Beauvier (Meryl Streep) com o comportamento do padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman). A dúvida surge a partir do relato da professora de História, a irmã James (Amy Adams), sobre a forma enfática com que o padre protege o único aluno negro da escola. Com o tempo, a Madre Beauvier passa a ter a certeza de que há uma relação "imprópria" entre padre e aluno. Para investigar o caso, convoca a mãe do menino de doze anos, a sra. Miller (Viola Davis).
Todo o filme se desenvolve a partir dessa situação. Pelas cenas mostradas, o espectador não tem elementos para avaliar se a desconfiança da Irmã Beauvier tem ou não fundamento. Há motivo real para suspeita ou será apenas implicância com um padre carismático e bondoso? A dúvida permeia cada fotograma, e cada pessoa enxerga a história com seus olhos, princípios e preconceitos.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Mamma Mia!

O Cine Brasília é um herói da resistência. Encravado no meio do planalto gaúcho, sua bilheteria (muitas vezes capitaneada pelo próprio dono) se abre na calçada da gloriosa Av. Flores da Cunha, da gloriosa cidade de Carazinho.
É, portanto, um dos últimos e remanescentes "cinemas de rua" dessas plagas distantes demais das capitais. Depois de décadas recebendo multidões que assistiam abismadas filmes como Guerra nas Estrelas, Super-Homem (em que a fila dava a volta na quadra) e Alien, o Oitavo Passageiro, o Brasília encerra 2008 e entra em 2009 firme e forte. Claro, a capacidade diminuiu. Hoje a platéia fica no que antes era o mezanino. Já os funcionários (o porteiro e o projetista-lanterninha) são os mesmos há trinta ou quarenta anos. Só o vendedor de balas mudou. E o pipoqueiro se aposentou. Agora as pipocas são estouradas na hora... no microondas da bomboniere. Dá orgulho de ser carazinhense e poder assistir de vez em quando bons filmes no Brasília.

É o caso de Mamma Mia! da diretora Phyllida Lloyd, que pude conferir na resiliente e histórica tela do Brasília. O filme conta a história de Sophie (Amanda Seyfried), que mora com a mãe numa ilha grega. Sophie está empolgada, pois vai se casar. A alegria só não é completa pois ela não tem quem a conduza ao altar: a mãe é solteira e nunca revelou quem é o pai. Antes do casamento, a moça acha o diário da mãe. O diário conta que Donna (Meryl Streep, fonte de juventude) conheceu (inclusive no sentido bíblico) três homens cerca de nove meses antes de Sophie nascer. Então Sophie convida à festa os três prováveis pais: Sam (Pierce Brosnan), Harry (Colin Firth) e Bill (Stellan Skarsgard). O roteiro é mero veículo para as atmosféricas canções do Abba, cantadas pelo próprio elenco. O modo com que as letras se encaixam no roteiro é no mínimo engenhoso. Divertida alternativa de verão.

domingo, novembro 30, 2008

Queime depois de ler

Filme sobre a ridicularidade do ser humano. Filme sobre a banalidade das relações. Filme sobre a inutilidade de órgãos oficiais. Filme sobre a vaidade feminina. Filme sobre a veleidade masculina. Filme sobre a infidelidade feminina e masculina. Filme sobre a previsibilidade do ser humano. Filme sobre a complexidade das relações. Filme sobre a necessidade de exercícios físicos. Filme sobre a frieza feminina. Filme sobre a superficialidade masculina. Filme sobre a fraqueza feminina e masculina.
Filme sobre Harry Pfarrer (George Clooney), Linda Litzke (Frances McDormand), Chad Feldheimer (Brad Pitt), Osborne Cox (John Malkovich) e Katie Cox (Tilda Swinton). Filme sobre a eficiência de reunir um elenco. Filme sobre a versatilidade dos atores. Filme sobre a criatividade do roteiro. Filme sobre a genialidade dos realizadores. Filme dos irmãos Coen.

domingo, novembro 16, 2008

007 - Quantum of Solace (Quanto solaço)

Pelo que pesquisei no google pouca gente sabe o que significa Quantum of Solace. Nem mesmo um dos roteiristas, o oscarizado e ubíquo Paul Haggis. O onipresente Haggis declarou a jornalistas: esse não era o título de sua escolha. Ao que consta, a expressão aparece num dos livros de Ian Fleming para definir o tênue grau de conforto existente numa relação amorosa. "(...) um número exato que define o conforto, a humanidade e o sentimento de amizade necessários entre duas pessoas para o amor perdurar. Sem quantum of solace, o amor está morto". Talvez os produtores tenham achado o título dos roteiristas muito comercial e tenham resolvido complicar ou sofisticar um pouquinho. Ou talvez eles queiram disfarçar no título pomposo a série de erros cometidos na realização de Quanto Solaço.



Main Entry: quan·tum
Pronunciation: \ˈkwän-təm\
Function: noun
Inflected Form(s): plural quan·ta
\ˈkwän-tə\
Etymology: Latin, neuter of quantus how much
Date: 1567
1 a:
quantity , amount b: portion , part c: gross quantity : bulk2 a: any of the very small increments or parcels into which many forms of energy are subdivided b: any of the small subdivisions of a quantized physical magnitude (as magnetic moment)

Fora o engano de escolher um título tão enigmático que nem os próprios roteiristas têm idéia do que se trata, o erro que mais salta aos olhos no novo filme de 007 é de 'miscasting'. Fique tranqüilo/a, não é de Daniel Craig que estou falando. Nem tampouco de Gemma Arterton, que interpreta a ruiva agente Fields, muito menos de Olga Kurylenko, que encarna Camille. Nem de Jeffrey Wright (o agente da CIA Felix Leiter, um dos poucos acertos do roteiro). Refiro-me a Mathieu Amalric, ator gentil e clássico, capaz de comover mexendo apenas um olho (ver abaixo comentário sobre O escafandro e a borboleta), escalado aqui como o vilão Dominic Greene. Carismático nas cenas de diálogo, mas não o tipo de ator para confrontos físicos. E contra Daniel Craig, então, torna-se até ridículo e sem graça uma luta. Mas é esse o 'clímax' do filme: um 'violento e emocionante' combate entre o brucutu, o brutamontes, o neandertal Craig contra o nanico, o mirrado, o esmilingüido Amalric. Não, não me venham dizer que isso é detalhe. Mesmo se fosse, Deus está nos detalhes, já disse um arquiteto famoso. E não me venham dizer também que estou cometendo spoiler, pois todo filme de 007 tem um confronto final entre ele e o vilão, ou o capanga do vilão. Pois até nisso houve miscasting: o capanga também é magricela e pateta.



Main Entry: solace
Function: noun
Etymology: Middle English solas, from Anglo-French, from Latin solacium, from solari to console
Date: 14th century
1 : alleviation of grief or anxiety 2 : a source of relief or consolation

Esses produtores estão ficando previsíveis demais. Pegam um dos melhores diretores atuais, Marc Forster para ser mais exato (2004, Finding Neverland; 2005, Stay; 2006, Mais estranho que a ficção; e 2007, O caçador de pipas), para dar credibilidade e algum estilo (a propósito, seria curioso saber que cenas ele dirigiu, já que a maioria das cenas tem o perfil de terem sido filmadas pelo 'diretor de segunda unidade', por serem cenas específicas de ação). Contratam roteiristas promissores e pelo menos um renomado (Paul Haggis), também para dar um ar de 'puxa, a história deve ser interessante, afinal o roteirista escreveu e dirigiu Crash' (mas em compensação cometeu No vale das sombras). Temperam isso tudo com duas mulheres longilíneas e o resultado da equação deve ser um novo sucesso de bilheteria.


Sucesso de bilheteria à parte, desta vez o pudim perdeu a forma, pois a trama de Haggis e companhia é por demais forçada e descabida. Esses roteiristas partem do princípio que o cérebro do espectador é um depósito de lixo bem grande, capaz de receber montanhosas doses de besteirol, com pretensas críticas políticas embutidas e pretensas piadas. Haggis é o roteirista mais pretensioso da atualidade. E não se recicla, todo filme que ele assina é invólucro das mesmíssimas idéias. Se ainda não viu Quantum of solace: cuidado com a insolação.

sábado, novembro 08, 2008

Em busca da vida

Consta que o diretor Jia Zhang-ke era pintor antes de dedicar-se ao cinema. Em busca da vida pinta com tintas soturnas uma China em literal demolição. Prédios demolidos em locais em breve inundados por uma barragem. Vidas demolidas pela incompreensão e pelo desamor. Uma sociedade desarticulada em processo de desconstrução, face às exigências do "mundo globalizado". Uma China na corda bamba (como os demais países do BRIC, grupo de países emergentes que inclui também o Brasil, a Rússia e a Índia), oscilando entre a revolução tecnológica e o uso de métodos que privilegiam a mão de obra barata.

Pois é como trabalhador no ramo das demolições que Han (Han Sanming) consegue emprego enquanto procura localizar a esposa e a filha que não vê há dezesseis anos. História inserida dentro da história principal é a de Shen (Zhao Tao), outra pessoa em busca de alguém, no caso o marido que a deixou numa província para trabalhar num centro maior e parou de mandar notícias. Sempre bebericando água de uma garrafa plástica, não sossega até encontrar o marido. Mas o filme centra-se mesmo na saga de Han. Na jornada em busca da filha, conhece pessoas como o dono da pensão desalojado devido às demolições e o simpático colega de trabalho que acaba soterrado no meio dos entulhos.

Com fotografia opressiva, toques non-sense e falta de pressa em contar a (?) história, Jia Zhang-ke ostenta o posto de um dos "mais importantes cineastas mundiais". Talvez o mais correto fosse rotulá-lo como um dos "mais engajados cineastas mundiais". Que os recursos artísticos utilizados pelo diretor (lentidão, poucas cores, escuridão, ausência de fatos relevantes no enredo) atingem seus objetivos não há dúvida.

A China pintada por ele é uma China de prédios em demolição, vales inundados, pessoas enganadas, trabalhadores explorados com baixos salários e sem o mínimo de segurança, esposas compradas. Uma China em que prevalecem sentimentos como o desamor e a intolerância. Uma China sem esperança. Uma China cuja globalização parece faltar a "face humana", apregoada pelo indiano Jagdish Bhagwati na obra Em defesa da globalização.

REM in POA: Living well is the best revenge


A quinta-feira dia 6 de novembro amanheceu nublada em Porto Alegre. Em alguns pontos da cidade uma fina cerração dava lugar a uma chuva tímida. Tudo levava a crer que poderia chover e estragar as condições do gramado. Mas, para a felicidade geral da nação roqueira, o tempo clareou, e quinze mil felizardos presenciaram o show do R.E.M. no campo do Zequinha (Esporte Clube São José, fundado em 1913 e considerado o time "mais simpático" do RS).

Os colorados torciam para o seu time, que naquela mesma hora enfrentava o Boca Juniors da Argentina pela Copa Sul-Americana. Os gremistas secavam o Inter. Mas todos sem exceção esperavam ansiosos os primeiros acordes da guitarra de Peter Buck, do baixo de Mike Mills e das abençoadas cordas vocais de Michael Stipe.

Abre parênteses. O que faz do R.E.M. uma banda tão apreciada pelos fãs e até mesmo pelos não-fãs, o 'público em geral'? Talvez eles estejam para o rock como o Zequinha está para o futebol gaúcho, ou seja, uma banda que mesmo sem querer agrada a gregos e a troianos, ou pelo menos não desagrada. E volta e meia emplacam hits inesquecíveis e quase unânimes, como é o caso de Imitation of Life e Losing (e não 
"Loosing", como saiu no Correio do Povo!) My Religion, para citar apenas dois exemplos. Fecha parênteses.

Bem, o fato é que às 20 horas e trinta, lá estava eu em companhia da mãe de meu filho de treze meses (que ficou aos cuidados da supervovó) na quilométrica fila para entrar no estádio. Fomos de táxi, por isso aproveitamos para comprar cervejas. 473 ml para cada um depois, adentrávamos no modesto mas (novamente) simpático estádio do Zequinha, que certamente depois deste show tornar-se-á um dos locais do circuito rock porto-alegrense. Tudo preparado, o show de abertura começa, com o Nenhum de nós tocando, entre outras, Camila e Paz e amor. In the meantime, começa o jogo do Inter na Bombonera. O vocalista do Nenhum de nós declara que o R.E.M. é a banda predileta deles. Entonces, com a platéia devidamente aquecida, eles saem e os roadies desmontam a bateria da banda gaúcha.

Como vai ser o show? Qual será o setlist? Melhor que o do Rock in Rio 3, em 2001? Repleto de hits, um show pop? Ou mais direcionado aos fãs de carteirinha, que conhecem as músicas mais obscuras? Ou um meio-termo? Em que situação eu me enquadraria, by the way? Tenho todos os álbuns da banda, mas confesso que escutei pouco alguns deles. Por outro lado, domino bem alguns discos relativamente desconhecidos, como Life's Rich Pageant, de 1986 (o nome desse disco é uma expressão idiomática; 'be part of life's rich pageant/tapestry'; difficult experiences are part of our lives' rich tapestry). Mas felizmente nossa vida é feita de retalhos bons também. Como, por exemplo, ficar imaginando quais canções serão escolhidas de um fantástico repertório.


Living Well is the Best Revenge, a faixa de abertura do recente Accelerate (2008), é a escolhida para iniciar os trabalhos. Depois vieram duas que eu não conhecia, que depois fiquei sabendo serem do álbum Monster, muito admirado por uns mas que ainda precisa me conquistar. Enquanto lá na Bombonera o Inter segurava o empate de 0 x 0 no primeiro tempo, no campo do Zequinha a banda norte-americana de Athens, Geórgia, emendava uma canção após a outra, com extrema competência, mas nem sempre com o domínio pelo público do material apresentado. Parecia que a platéia esperava ouvir uma das mais 'conhecidas'. Foi então que a banda disparou a clássica Drive, a faixa um de Automatic for the People (1992). Com sua atmosfera psicodélica e sua cadência hipnotizante, a canção serviu para aproximar mais o público e engrenar um show até ali um pouco frio. Ao mesmo tempo, na Bombonera, o Inter abriu o placar no começo do segundo tempo. Metade do público do show vibrou e entoou "Vamo, vamo, Inter". A outra metade desdenhou e torceu para o Boca empatar, o que aconteceu dez minutos depois.

No palco, a banda continuava a tecer sua colcha de retalhos, alguns um tanto inesperados mas muito bem-vindos (como o caso de Walk Unafraid, jóia incrustada no álbum Up, de 1998). Enquanto isso, o colorado caminhava sem medo rumo à vitória em plenas plagas argentinas. Depois de jogada de D'Alessandro, Alex marcou o segundo gol gaúcho, para desespero dos gremistas. O R.E.M., por sua vez, marçou um golaço ao tocar Imitation of Life (de Reveal, 2001) . O público animou-se e entoou com ardor o refrão da canção: That's sugarcane, that tasted good /That's cinnamon that's hollywood/ C'mon c'mon no one can see you try... Do álbum novo, mais duas: Man-Sized Wreath e, mais tarde, Horse to Water. Os destaques da primeira fase do show, foram, sem dúvida, além da já mencionada Imitation of Life, The One I Love (do LP Document, de 1987) e It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine), também do Document.

Então a banda retirou-se do palco (lá na Bombonera, o Inter retirava-se do gramado, após o apito final: Boca 1 x 2 Inter). No telão, Stipe brincou com o público mostrando recadinhos manuscritos de "Mais R.E.M.?", "não estou esutando (sic) vocês". Com Mike Mills envergando a canarinho, o bis começou com a esperada Supernatural Superserious, uma das melhores do Accelerate. Então Peter Buck largou a guitarra e pegou a viola com que ele toca um dos clássicos imortais da banda: Losing My Religion, de Out of Time (1991). Depois disso, parecia que nada poderia dar continuidade, era a apoteose consumada. Mas eis que a banda guardava mais surpresas. Uma delas foi fazer subir ao palco a placa "We are Obama too", erguida pelos fãs-porto-alegrenses. Stipe aproveitou a deixa e fez o link com a música seguinte, uma preciosidade pinçada de Life's Rich Pageant: Cuyahoga. A canção fala sobre salvar o Rio Cuyahoga e construir um novo país (ver letra abaixo). Nessa parte do show senti-me um pouco estranho, pois eram poucas as pessoas que como eu cantavam o refrão "Cuyahoga". Depois deste momento inusitado, o que ainda restaria? Duas canções belíssimas do Automatic for the People: Everybody Hurts e, para encerrar uma noite perfeita, Man on the Moon.

Mais fotos e comentários sobre este memorável show, ver
http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp de onde foi retirada a primeira foto (de Omar Jr.) que ilustra este post. A foto do jogo Inter x Boca é do site http://www.scinternacional.net/.

P.S. Escrevi um texto sobre o R.E.M. no zine Wall of Sound. Pode ser lido aqui.







Foto: Rio Cuyahoga no inverno (http://usparks.about.com/od/parkphotographs/ig/cuyahogaphotos)

CUYAHOGA (Berry/Buck/Mills/Stipe)
Let's put our heads together and start a new country up
Our father's father's father tried, erased the parts he didn't like
Let's try to fill it in, bank the quarry river, swim
We knee-skinned it you and me, we knee-skinned that river red
(chorus 1)
This is where we walked, this is where we swam
Take a picture here, take a souvenir
This land is the land of ours, this river runs red over it
We knee-skinned it you and me, we knee-skinned that river red
And we gathered up our friends, bank the quarry river, swim
We knee-skinned it you and me, underneath the river bed (repeat chorus 1)
(chorus 2)
Cuyahoga
Cuyahoga, gone
Let's put our heads together, start a new country up
Underneath the river bed we burned the river down
This is where they walked, swam, hunted, danced and sang
Take a picture here, take a souvenir
repeat chorus 2)
Rewrite the book and rule the pages, saving face, secured in faith
Bury, burn the waste behind you
This land is the land of ours, this river runs red over it
We are not your allies, we can not defend

segunda-feira, novembro 03, 2008

R. E. M.


Em semana de show do R.E.M., resgato um texto do baú de relíquias.


R.E.M.

Rapid Eye Movement. Enquanto você sonha, dormindo, eletrodos levemente afixados às suas pálpebras podem detectá-lo. Movimento ocular rápido, rápido; trajetória de cometas, beija-flores, granizo...

Relâmpago, êxtase, mágica! Eletrizante e onírica, pulsante e otimista, trilha para dias de céu azul intenso e noites flechadas por estrelas cadentes; assim é a música do R.E.M., banda de rock. Mills, Berry, Stipe e Buck, respectivamente baixo, batera, voz e guitarra.

Reinaram nas garagens de Athens, Georgia, no circuito independente e nas rádios alternativas; hoje estão no cast da Warner e tocam para platéias de 20.000 pessoas. Entrelaçam acordes country ao urbano desespero; a acústica suave, o ar, a poesia, ao mais pesado dos metais. “MURMUR”, o primeiro LP, de 83, soou como um grito de lucidez no universo pop, tão forte e compacto como a canção símbolo desta estréia, Radio Free Europe.

“RECKONING”, o segundo trabalho, veio no ano seguinte e marcou a sedimentação do estilo único do grupo e, embora os mais entendidos o tenham taxado como de “menor inspiração”, tem sete irmãos chineses e muita transpiração. “Este é o meu erro, deixe-me fazê-lo bem feito”, letra do LP “GREEN”, seria perfeita para abrir “FABLES OF THE RECONSTRUCTION”, o terceiro e o “menos bom” da carreira, por sinal, o primeiro a ser lançado em nossas plagas, na amarela moldura da New Rock Collection. Meses depois, “LIFE’S RICH PAGEANT”, o quarto, de 86, segundo os entendidos não alcançou “resultado satisfatório”; levou os fãs, porém, ao orgasmo.

Rispidamente começa, com a canção de trabalho mais refinada, a hora mais primorosa: “DOCUMENT”, o quinto, documenta a ascensão do R.E.M. para além das nuvens, uma tour alucinante na alta estratosfera, na carona da supersonicamente acelerada “It’s the end of the world (as we know it)”. E sobra tempo para brincar: “DEAD LETTER OFFICE”, que Thomas Pappon bem conceituou como o disco que todas as bandas gostariam de fazer: sobras de LPs, covers, lados B de singles. Mata nativa em dia de sol, com suas diferentes tonalidades de verde – imagem comparável a “GREEN”, laranja de capa e, na realidade, maduro, foi o disco mais bonito, mais vivo, mais transmissor de esperança lançado no Brasil no ano passado.

Publicado originalmente no zine Wall of Sound (editora Jussara Neves), em janeiro de 1990.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Busca implacável



O diretor Pierre Morel, após estrear em 2006 com o elogiado District B13 (também rodado em Paris e também co-escrito por Luc Besson), lança um filme direto ao ponto. Sem frescuras ou trejeitos, lembra o ritmo de O profissional, de Luc Besson. Pra começar, o maior e indiscutível mérito dos produtores foi o de selecionar o cara certo para o papel ideal: Liam Neeson, do alto de seus 56 anos, está perfeito na pele de Bryan, agente do governo. Agora aposentado, de vez em quando colabora com ex-colegas na segurança de eventos. Paralelamente, procura aproximar-se da filha de 17 anos Kim (Maggie Grace), sem contar com a ajuda da ex-mulher Lenore (a sublime Famke Janssen). Quando na ativa, o trabalho de Bryan era impedir que coisas ruins acontecessem. Mas isso não impede que uma coisa pra lá de ruim aconteça com Kim, a passeio em Paris. Bryan pega o primeiro avião a Paris para tentar resgatá-la. Ação sem firulas.


terça-feira, outubro 07, 2008

The Cult World Tour, Porto Alegre, 02 de outubro de 2008

Na última quinta-feira subiu ao palco do Pepsi on Stage em Porto Alegre a banda britânica The Cult. A "formação original" prometida consistia na dupla que constitui a espinha dorsal do Cult: o vocalista Ian Astbury e o guitarrista Billy Duffy. Os outros músicos não constam no cd Pure Cult, que traz as formações mais importantes da banda. Mas o aloirado baixista Chris Wyse, o estranhíssimo guitarrista Mike Dimkich e o discreto (nas atitudes, não na habilidade) baterista John Tempesta não deixaram a peteca cair e fizeram a base sonora para a voz de Astbury e a guitarra de Duffy se destacarem.

Astbury, que na década de 80 usava uma vasta cabeleira negra e cantava que os seus cabelos eram uma extensão de sua alma, agora naturalmente está com um corte mais comportado. Por isso é um tanto irônico que tenha comentado sobre o cabelo dos porto-alegrenses, segundo ele, dignos de uma convenção de jovens empresários. Mas Astbury falou pouco, cantou muito e tocou bastante pandeiro.

Em uma hora e dez minutos de show pulsante, a banda apresentou canções do novo álbum Born into this, e sucessos como Rain, Wild Flower, Eddie (Ciao Baby) e Love Removal Machine. Ao cabo do tempo regulamentar, a banda retornou para um magro, cronometrado mas elétrico bis: Sweet Soul Sister e a clássica das clássicas She Sells Sanctuary.

Foto: Omar Freitas.

terça-feira, agosto 26, 2008

DAVID LYNCH NO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO



AUTOAJUDA 
Em 10 de agosto de 2008, o diretor de cinema David Lynch esteve em Porto Alegre para a divulgação de seu livro de autoajuda Catching the Big Fish (que no Brasil recebeu o título Em águas profundas). Quem foi ao auditório da Reitoria da UFRGS esperando palavras sobre cinema saiu decepcionado: noventa por cento do tempo Mr. Lynch teceu elucubrações sobre a importância da meditação e de que como o bem-estar pode ser canalizado para boas coisas, inclusive para fazer obras de arte.

OUR NATURE IS BLISS
Se fosse para resumir o colóquio de Mr. Lynch em uma simples frase, seria “Our nature is bliss!”. O bordão foi repetido várias vezes pelo convicto cineasta, afirmando sua crença em que o ser humano nasceu para ser feliz. A natureza humana, frisou Mr. Lynch, é encantamento e felicidade. Felizes, produzimos mais em todos os sentidos. Sentindo-nos miseráveis e depressivos não conseguimos alcançar nossos objetivos.

PERGUNTAS

A palestra de David Lynch foi dada em formato “perguntas e respostas”. Um “host” um tanto deslumbrado e fazendo piadas no mínimo desnecessárias (como aquela sobre Quem matou Laura Palmer) seguiu um protocolo de perguntas-padrão. Teoricamente, o público poderia enviar perguntas, mas o critério de seleção das perguntas do público foi também no mínimo equivocado. Tanto que a última e constrangedora pergunta (novamente a insistência, “O sr. pode nos dizer quem matou Laura Palmer?”) recebeu a única e límpida resposta: “Essa pergunta é absurda”.

DONOVAN
Para ajudar David Lynch em sua peregrinação e pregação pró-meditação, acompanha-o mundo afora o bem-sucedido músico dos anos 60, Donovan, que naquela década emplacou vários hits. Assim, a plateia pôde curtir quatro de suas canções, interpretadas ao melhor estilo ‘voz e violão’.

AUTÓGRAFOS
Os tietes de Mr. Lynch após o evento enfileiraram-se no pátio da Reitoria para conseguir um autógrafo do carismático cineasta e artista multimídia, que no momento não trabalha em nenhum projeto na área de cinema. Um dos fãs porto-alegrenses pediu um autógrafo no braço e depois mandou tatuar. Minha irmã contentou-se com a assinatura no livro e um simpático recado verbal: “Take care”. 
Foto: Ana Guerra

terça-feira, agosto 19, 2008

Mangue Negro



Fantástica realização de Rodrigo Aragão. Nascido em 1977 na comunidade de pescadores do Perocão, em Guarapari, cresceu no meio de muita imaginação e fantasia – o pai era mágico profissional e dono de cinema. Com esse background, nada menos surpreendente que, ao assistir a filmes como O Império Contra-Ataca, de George Lucas, e Uma Noite Alucinante, de Sam Raimi, o menino ficasse entusiasmado por efeitos especiais e terror. O interesse adolescente estava lá, mas só com muito esforço transformou-se em habilidade para fazer efeitos eficientes e roteiros funcionais. Essa habilidade, desenvolvida e posta em prática nos curtas Chupa Cabras (2004), Peixe Podre (2005) e Peixe Podre 2 (2006), pode agora ser conferida em seu primeiro longa: Mangue Negro.

O filme integrou a mostra de filmes fantásticos de Porto Alegre – o conceituado Fantaspoa – e também teve sessão no Clube do Cinema de Porto Alegre, na presença do realizador.
Antes da sessão, o diretor capixaba disse que o objetivo dele ao fazer o filme era apenas possibilitar momentos de diversão ao público, deixando claro que se tratava de um filme com certo “nicho de mercado”.

Ao cabo da película (?) (o filme foi passado em dvd) a platéia estupefata pôde tecer considerações e críticas, tirar dúvidas e fazer perguntas. Uma dessas perguntas envolveu justamente o comentário de antes da sessão: qual a relação entre diversão e horror? O que há de divertido em colocar os heróis do filme na madrugada no meio de um mangue cheio de zumbis esfomeados e alucinados? A resposta concisa: o horror, para Rodrigo Aragão, é algo intrinsecamente divertido.
O custo do filme? Estarrecedoramente baixo para a qualidade do produto final: 60 mil reais, levantados com um empreendedor privado após assistir a 15 minutos do filme produzidos com sacrifício do elenco e da equipe, pagando despesas de transporte com dinheiro do próprio bolso.

Com simpatia, Aragão respondeu a todos, inclusive a mim, que perguntei o que diacho era um caramuru. Na minha ignorância de gaúcho, não sabia o nome dessa espécie de moréia do manguezal, de carne não muito apreciada, mencionada no filme. E como essa há outras referências bem regionais que dão a Mangue Negro sua autenticidade e visceralidade.

Vísceras, aliás, não faltam. Nem sangue de mentira. Nada menos que setecentos litros de sangue (cuja receita inclui até chocolate) foram gastos nas filmagens, inteiramente realizadas no quintal da casa de Rodrigo - onde ele construiu com madeiras velhas os barracos que serviram de cenário e por onde passa o principal astro do filme: o mangue.

Logo na primeira cena o espectador é apresentado ao bizarro meio em que as ações ocorrem. Uma câmera meio Peter Jackson-meio Sam Raimi aproxima-se depressa de um bote e enquadra o rosto de Agenor dos Santos (Markus Conká), um pescador contador de causos que percorre lentamente o mangue em busca de um pesqueiro, na companhia do colega remador. A tomada tem grande eficácia para incitar a curiosidade, criar a atmosfera de suspense e introduzir as personagens.

Batista (Reginaldo Secundo) enterra as mãos na lama à cata de caranguejos cada vez mais escassos. A brejeira Raquel (Kika de Oliveira) lava roupas na beira do mangue para ajudar a mãe, presa a uma cama e deficiente visual. O tímido Luís (Valderrama dos Santos) ensaia uma declaração de amor. O asqueroso Valdê (Ricardo Araújo), pai de Raquel, recebe a visita do asqueroso atravessador (Antônio Lâmego), que, enquanto espera um lote de caranguejos asquerosos, dá em cima de Raquel, para desespero de Luís.

Mas, quando o mundo enlouquece e seres desvairados e esfaimados despertam do fundo do manguezal, Luís é obrigado a adiar os momentos idílicos e a se preocupar com o essencial: salvar a pele (e a carne) da amada (e a sua também). Em meio à gosma e ao sangue, Luís maneja a machadinha com perícia, tentando repelir o ataque irresistível dos zumbis à cabana. Quando a doce carne de Raquel é dilacerada por dentes infectos, a única chance passa a ser a preta velha Dona Benedita (André Lobo), que aconselha Luís a (em plena madrugada e no mangue infestado de mortos-vivos) pescar um baiacú, cujo fel pode salvar Raquel. A preta velha é importante e bem interpretada, além de emprestar certo misticismo ao filme, mas o ritmo cai nessa parte. Aliás, no final, a única crítica feita pelos cineclubistas foi que o filme poderia ser um pouco mais curto.

Mesclando crítica ecológica e humor negro, fotografia dark e tomadas eficazes, Mangue Negro é um clássico do horror tupiniquim. A versatilidade do diretor lembra a de outro criador de efeitos especiais: Tom Savini, o responsável pelos efeitos dos filmes de George Romero. Com a diferença que Savini só estreou na direção em 1990, no remake de A noite dos mortos vivos. O Tom Savini brasileiro logo na estréia dirige, cria efeitos especiais e roteiriza. Com a pretensão apenas de divertir, mas despretensão não torna um filme bom. Talento, sim.

sábado, julho 19, 2008

O Cavaleiro das Trevas

Christopher Nolan despontou com seu segundo filme, Amnésia (Memento), prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Sundance, em 2000. Antes filmara Following (1999). Com forte tendência de focalizar o interesse de seus filmes mais na edição do que em outros fundamentos como algo a contar (faça uma simples experiência: alugue Amnésia e selecione o extra em que o filme passa na ordem cronológica dos eventos), de modo curioso Nolan viu-se alçado à condição cômoda de novo queridinho da crítica. A partir daí, teve carreira meteórica: fez o sonolento Insônia (2002), com cenas patéticas de perseguição protagonizadas por um obeso Robin Williams e um quase ancião Al Pacino. Apesar disso, seus filmes iniciais demonstraram certa originalidade só percebida em cineastas promissores. Mas, tendo apenas 3 filmes no currículo, foi comprado pelo sistema. Escalado para dirigir a nova série de filmes do Batman, passou a dedicar-se quase que exclusivamente à franquia (a exceção foi a pausa para realizar O Grande Truque - The Prestige, 2005, com Hugh Jackman). Então, o que poderia se tornar uma carreira inventiva, inovadora e imaginativa passou a ser mero exercício de competência e aprimoramento.
Em Batman Begins (2005), e também agora com O Cavaleiro das Trevas, Nolan não decepcionou os fãs dos primeiros filmes, além de agradar aos endinheirados produtores que o contrataram. E, é claro, agradou também a crítica. Seria Nolan uma pessoa com o poder de agradar a atenienses e espartanos?

O fato é que o poder corrompe. E no caso de Nolan esse poder aparece em minutos a mais de película. Senão, vejamos:
Following (1999) = 1 hora e 10 minutos;
Memento (2000) = 1 hora e 56 minutos;
Insomnia (2002) = 1 hora e 58 minutos;
Batman Begins (2005) = 2 horas e 20 minutos;
The Prestige (2006) = 2 horas e 15 minutos;
The Dark Knight (2008) = 2 horas e 32 minutos.
Como é fácil de observar, os filmes mais recentes de Nolan tem metragem mais extensa. Tudo isso para dizer que O Cavaleiro das Trevas seria um ótimo filme caso tivesse menos duração.
Se Nolan não tivesse tido a ânsia de contar muitas histórias num filme só, teria realizado um filme melhor - mas ninguém em sã consciência poderia dizer que "não ficou bom". Apenas quero dizer que a parte final é excessiva. Como prova disso, dou o testemunho de ter cochilado na parte daquela função dos barcos.
Quanto à atuação de Heath Ledger, é algo de memorável e surpreendente. Falar mais do que isso seria correr o risco de cometer clichês e ser... excessivo.

sábado, julho 12, 2008

O escafandro e a borboleta


Estudo de Julian Schnabel sobre a necessidade humana de comunicar pensamentos de forma articulada. Podendo mover apenas um olho, Mathieu Amalric interpreta Jean-Dominique Bauby, redator de uma revista de moda que, aos quarenta e dois anos, tem um acidente vascular cerebral. O filme focaliza as sensações de Bauby no hospital, ao perceber sua situação desesperadora (compreende tudo o que se passa mas só consegue mover o olho esquerdo). Por exemplo, numa cena de puro terror, Jean-Do vê o seu olho direito sendo costurado por decisão do médico-chefe Dr. Lepage (Patrick Chesnais). Com a pertinácia da fonoaudióloga, Bauby aos poucos começa a expor o que pensa. Primeiro, piscando uma vez para dizer "sim" e duas vezes para dizer "não". Mais tarde, ao ver repetida uma seqüência das letras do alfabeto (a partir da letra de uso mais freqüente até a menos freqüente), piscando letra a letra para formar palavras e frases. O método, apesar de demorado, seria otimizado pelo treino e renderia - com a colaboração exaustiva de Claude (Anne Consigny) - um livro aclamado pela crítica. Entremeadas ao drama da recuperação atual, cenas ajudam a montar o passado da personagem, sua agitada vida profissional, seu relacionamento com o pai Papinou (Max von Sydow), o amor pelos filhos, a relação contraditória com a ex-mulher Celine e a paixão pela namorada Inès (Agatha de la Fontaine). São inúmeros os momentos tocantes do filme, mas gostaria de mencionar um: quando Inès liga ao hospital e a ex-mulher Celine (encarnada de modo inesquecível por Emanuelle Seigner) precisa intermediar a conversa.

sábado, julho 05, 2008

WALL-E


Filho, com teus 9 meses, tu é muito novinho para ir ao cinema. Mesmo assim, estou tentando convencer tua mãe a participar dessa aventura.

Wall-E é um robozinho solitário e incansável, um dos únicos habitantes do planeta Terra, fabricado para coletar o lixo, esmagá-lo em pequenos cubos e fazer pilhas gigantescas de resíduos. A propósito, Wall-E é uma sigla em inglês (Waste Allocation Load Lifter - Earth Class), que significa algo como "Carregador e Transportador de Resíduos - Classe Terrestre". Indiferente à sua quase total solitude, Wall-E faz o que está programado a fazer. Mas está na cara que ele é um robozinho inteligente e sensível. Misto de obediência robótica e inteligência artificial, tem como único amiguinho uma barata, e como seu único momento de lazer assistir ao musical de Gene Kelly, Hello, Dolly (1969). Faz isso sempre que chega em casa - o container em que descansa depois do longo dia de trabalho. No seu cantinho, coleciona um monte de tralhas que vai achando durante o dia e que acha interessante. Mas por que Wall-E mora quase só na imensa Terra? É que os terráqueos, devido à poluição, tiveram de abandonar o planeta. Agora agora moram numa estação espacial numa galáxia próxima. Na rotina de Wall-E, também está o convívio com estranhas, freqüentes e ruidosas movimentações vindas da atmosfera. Um dia, Wall-E vai descobrir do que se trata, e conhecer uma robozinha que vai mudar sua vida. Não te preocupa, não vou contar toda a história pra ti. Acho que assim tu já pode ter uma idéia. O diretor do filme (a pessoa que toma as decisões mais importantes, planeja as tomadas e escolhe os movimentos da câmera) é Andrew Stanton, o mesmo de Procurando Nemo. Wall-E é um alerta não apenas para a tua geração, mas para toda a humanidade cuidar melhor desse tênue ponto azul chamado Terra.