quarta-feira, outubro 28, 2020

Rebecca, a mulher inesquecível

Lily James vive a personagem sem nome eternizada por Joan Fontaine no clássico Rebecca, Oscar de Melhor Filme em 1940, filme que marcou o início da trajetória hitchcockiana em Hollywood.

Aliás, é quase impossível falar do filme de Ben Wheatley sem falar no de Hitchcock.

Tudo nos leva a comparar ou tecer intertextos entre o filme de 1940 e o de 2020.

80 anos separam os dois filmes. Hitchcock viveu 80 anos bem-vividos.

Aos 40 fez Rebecca...

Plágio?: Conheça o caso do livro da filha de Joaquim Nabuco que teria  virado filme oscarizado de Hitchcock - Jornal O Globo

Os dois filmes se inspiram na obra Rebecca, da britânica Daphne Du Maurier, sobre a qual recai uma forte suspeita de plágio do livro A sucessora, da brasileira Carolina Nabuco.

O mérito do primeiro filme era justamente conseguir criar uma atmosfera de mistério sobre uma pessoa que nunca entra em cena, nem em flashbacks ou recursos quejandos. Apenas uma presença que mais está na cabeça da nova sra. de Winter do que por meio de alguma ocorrência fantasmagórica ou algo do tipo.

rebecca lily james e Kristin scott thomas | Blog de Hollywood 

Para Ben Wheatley deve ter sido um desafio revisitar Hitchcock, mas, para a delicada sra. de Winter (Joan Fontaine ou Lily James), é um fardo quase insuportável tentar competir com uma personalidade tão forte quanto Rebecca de Winter, a primeira mulher de Maxim, sobre cuja existência paira uma aura de mistério.

É sobre essa aura que se desenvolve o plot, sempre pelo ponto de vista da bonitinha, mas quase vazia nova sra. de Winter.

Falando em Maxim, uma nova e inevitável comparação: Armie Hammer tenta igualar a classe de Laurence Olivier por meio de uma característica bastante física: do alto de seus 1,96 m, o ator mostra o seu talento na célebre cena em que a nova e ingênua sra. de Winter irrompe no salão para o baile à fantasia.

Hitchcock's Rebecca was perfect – why did Netflix feel entitled to 'update'  it?

A governanta sra. Danny Danvers é um caso à parte.

Talvez este seja o trunfo de Rebecca 2020.

É o único caso em que o remake supera o original em termos de atuação.

Kristin Scott-Thomas entrega uma performance à altura da de Judith Anderson.

Personagem das mais conturbadas e complexas, a sra. Danvers tem uma conexão sinistra com a personagem paradoxalmente mais interessante da história, a falecida e inesquecível patroa.


No frigir dos ovos, Rebecca versão 2020 é uma boa introdução ao assunto, mas se você quiser conhecer o tópico a fundo, e conhecer a história sob outros prismas, com mais verossimilhança e suspense, assista ao filme de Hitchcock.

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domingo, outubro 18, 2020

O prisioneiro do rock

Rock and Roll » Elvis Presley » Jailhouse Rock :: Old Posters | Jailhouse  rock, Elvis presley movies, Elvis movies 

 

Terceiro, e até então, melhor filme de Elvis Presley.

(Diga-se de passagem, o segundo tinha sido melhor que o primeiro.)

E tudo em O prisioneiro do rock (Jailhouse Rock, 1957) é melhor que os dois primeiros.

A intuitiva e convincente atuação de Elvis.

A música visceral.

O roteiro espirituoso.

A direção cirúrgica e sem firulas de Richard Thorpe.

Rare Facts About Elvis Presley 

A primeira sequência filmada foi o "videoclipe" para Jailhouse Rock, de Jerry Leiber/Mike Stoller, compositores de outras três canções do filme. Quais sejam:"I Want to Be Free", "Treat Me Nice" e "(You're So Square) Baby, I Don't Care". Eles compuseram as 4 faixas em 4 horas, praticamente "trancados" no quarto de um hotel por um dos produtores.

The whipping scene in Jailhouse Rock | Elvis presley pictures, Elvis  presley movies, Jailhouse rock 

Leiber e Stoller (também compositores da clássica "Hound Dog") desdenhavam Elvis mas aprenderam a respeitá-lo depois que o conheceram durante as gravações.

Por sua vez, o coreógrafo Alex Romero foi inteligente o bastante para adaptar uma coreografia aos movimentos aos quais Elvis já estava acostumado.

Russ Tamblyn, um novo amigo, um ator que entendia de dança, deu também umas dicas.

O resultado é que esta cena realmente rouba o filme e hoje em dia se tornou um show à parte.

Uma curiosidade é que Elvis durante a gravação desta cena em que canta Jailhouse Rock tem que descer pelo poste de escorregar, aquele do tipo que os bombeiros usam.

Numa das tomadas ele engoliu a jaqueta dentária de porcelana do dente da frente!

 A princípio ninguém acreditou mas depois todos ouviram o chiado no peito dele.

Foi levado a um hospital por onde passou por uma broncoscopia, talvez a mais bem-sucedida e importante de todos os tempos, porque teve de passar por entre cordas vocais muito valiosas.


O roteiro conta a história de Vince Everett, que é preso e na cadeia tem como companheiro de cela Hunk (Mickey Shaughnessey), um musicista de country. Na cadeia Vince faz trabalho braçal carregando carvão com uma pá.

Um dia se envolve numa confusão no refeitório e é punido com chibatadas.

Alguns prisioneiros músicos participam de um show que é transmitido pela tevê, e Vince se apresenta cantando a balada "Young and Beautiful". O resultado: muitas fãs escrevem à penitenciária, mas as cartas nunca chegam a Vince.

Ele sai da cadeia (não sem antes ser induzido pelo esperto companheiro de cela a assinar um contrato de parceria) e conhece Peggy (Judy Tyler, que morreu logo após o término das filmagens em decorrência de um acidente automobilístico). 

 

Jailhouse Rock - cherl12345 (Tamara) Photo (41717829) - Fanpop

 

Com a nova amiga é levado ao estrelato da indústria fonográfica, não sem antes ter que superar muitas "puxadas de tapete" e outros contratempos.

Há algo no roteiro que evita que o filme descambe para o lugar-comum, algumas tiradas, algumas ironias, e a própria relação dele com Peggy se desenvolve com uma certa sensação de amor não consumado. 


Jailhouse Rock - Movies on Google Play

 

Bill Black, D. J. Fontana e Scotty Moore aparecem em várias cenas, acredito que este é o filme em que eles aparecem mais vezes. Primeiro, na cena do bar que Elvis, digo, Vince, quebra o violão. Segundo, nas cenas do estúdio gravando "Treat Me Nice". No show no gazebo à beira da piscina. E na sequência final ouvindo Elvis, digo, Vince, testando a voz após ter uma lesão na faringe.

 

 
Jailhouse Rock | film by Thorpe [1957] | Britannica


  Em tempo:

O dvd que eu tive a honra de assistir pertence ao rico acervo da E o vídeo levou e tem um curta-metragem nos extras, intitulado

"The Scene That Stole Jailhouse Rock", com depoimentos de gente importante em se tratando de Elvis Presley, como Peter Guralnick, o autor de Last Train to Memphis (ainda inédito no Brasil); George Klein, amigo e autor, etc. Esse "extra" está disponível no YouTube:

 


 

Para quem gosta de assistir ao filme com comentários, Steve Pond, autor de Elvis in Hollywood, é o companheiro dessa jornada.


 


sexta-feira, setembro 25, 2020

A mulher que eu amo




Talvez não seja exagero dizer que não existe nada no mundo a que o adjetivo "meteórica" possa ser conferido tão apropriadamente quanto a carreira de Elvis Presley.

De motorista de caminhão a astro do cinema em pouco mais de dois anos.

Em julho de 1954 ele gravou o primeiro disco com Scotty Moore na guitarra e Bill Black no contrabaixo acústico. No lado A trazia That's All Right, Mama, e no lado B, Blue Moon of Kentucky.

Com a genialidade (ou simplicidade?) de Sam Phillips na mesa de gravação da Sun Records, a sonoridade desse trio mudou a história da música.



Elvis Presley amalgamava um cadinho de influências jamais visto (misto de gospel, blues, quartetos vocais e country) e involucrava tudo isso numa voz jamais ouvida, e numa polêmica postura no palco.

Dos shows lotados à televisão, da televisão ao cinema. 

Com a carreira guiada por uma raposa do entretenimento ("Coronel" Parker), Elvis protagonizou nada menos que 31 filmes.


Loving You é apenas o segundo da lista.

(Love Me Tender, ou "Ama-me com ternura", marcou a sua estreia nas telonas, em novembro de 1956.)

O diretor e roteirista do filme acompanhou alguns shows de Elvis enquanto fazia o roteiro. E em essência o filme é a própria história de Elvis.

A mulher que eu amo (Loving You, lançado nos cinemas em julho de 1957) conta a história de um trabalhador que se transforma num fenômeno da música com o empurrãozinho de uma boa empresária.

Algumas confusões acontecem por conta da perseguição das fãs e do preconceito das pessoas quanto à arte do novo cantor (vicissitudes que Elvis também sentiu na pele).

Uma curiosidade é que o "par romântico" de Elvis, Dolores Hart, após completar 10 filmes em Hollywood, largou o show business e se tornou uma freira beneditina.

Ela também contracenou com Elvis no quarto filme de Elvis, Balada sangrenta (King Creole).


Outra curiosidade: na cena do show final, a mãe e o pai do cantor, Gladys e Vernon, estão corujosamente na plateia aplaudindo Deke Rivers, ninguém menos que o rebento deles nascido em 8 de janeiro de 1935 em East Tupelo.

Scotty Moore e Bill Black, o guitarrista e o baixista de Elvis, também aparecem no filme.

Elvis Presley mostra em A mulher que eu amo que é um artista completo, que domina várias artes, mas que ainda está evoluindo como cantor e como ator.


 

quarta-feira, setembro 09, 2020

Love Me Tender

  
 A011-AMA-ME COM TERNURA - Love Me Tender - 1956 por R$5,00
Originalmente este filme chamar-se-ia "The Reno Brothers". Por uma jogada de marketing costurada pelo "Coronel" Tom Parker, a canção tema foi alçada à condição de "canção-título".
A estreia de Elvis Presley em Hollywood pode ser analisada sob vários prismas.
A realização de um sonho de um jovem cantor que sempre se imaginou atuando. 

Elvis Presley - Ama-me Com Ternura (1958, Vinyl) | Discogs

A esperteza de produtores ávidos por aproveitar o séquito de fãs de um fenômeno da música pop.
E um exemplo típico de que "os fins justificam os meios" e o público tem sempre a razão.
Revoltado com a morte do personagem de seu ídolo, o público exigiu uma mudança.
 Na última hora a equipe foi convocada para filmar uma cena extra, de Elvis entoando Love Me Tender, e abrindo um sorriso de esperança no final. A cena foi sobreposta ao funeral de Clinton Reno (Elvis Presley), sequência anticlímax que arremata o filme. 
Onde em Love Me Tender há espaço para coisas como visceralidade, amor à arte, estofo, coisas que perduram além dos mesquinhos interesses financeiros?
Eis a questão.
 
Early Years, 1956. Scene from movie 'Love Me Tender'. Fans were angry  because Elvis died in the movie. | Elvis love me tender, Elvis presley,  Elvis presley movies
 
O roteiro é uma mixórdia tipo drama mexicano: três irmãos lutam pelo Sul na Guerra da Secessão. A guerra acaba, mas eles e seu pelotão, sem saberem disso, executam uma derradeira e violenta operação para desviar uma grande soma de dinheiro dos ianques.
De posse da grana, os irmãos descobrem que a guerra terminou e voltam para a cidade natal. Richard Egan é Vance Reno, que deixou a noiva há cinco anos.
Ao reencontrá-la a beija na boca, mas depois descobre que ela havia se casado com Clint, o irmão caçula, interpretado por Elvis Presley.
O filme se desenvolve com base nessas duas linhas narrativas: o drama familiar e amoroso, a questão ética-jurídica-policial do dinheiro roubado-saqueado-despojado.
Mas o que é que Love Me Tender tem de mais visceral e artístico, o que dá ao filme um certo conteúdo e recheio?
 

 Love Me Tender (film) - Wikipedia
 
Justamente este furacão nascido em Tupelo, cidadezinha perto de Memphis.
A atuação de Elvis compensa os problemas do filme, é de um frescor, uma autenticidade surpreendentes.
Em sua estreia no cinema, Elvis mostrou todas as qualidades que mostrou como cantor: integridade, devoção, respeito...






A carreira de Elvis no cinema continuaria em ritmo forte e ascendente em termos de qualidade. 
 
A mulher que eu amo, o segundo filme, é uma espécie de paródia da meteórica trajetória do cantor. 
 
O prisioneiro do rock, o terceiro, tem cenas antológicas como a coreografia de Elvis cantando numa prisão estilizada.

domingo, julho 12, 2020

Twin Peaks 3ª Temporada

Volta de 'Twin Peaks' é a grande aventura cinematográfica do ano ... 

O bom filho à casa torna.

Tudo tem seu tempo.

E nada melhor, nesses dias sombrios que vivemos, dedicar algumas horas por semana, ao longo de algumas semanas, para fazer algo que eu já devia ter feito há muito tempo.

Assistir aos 18 episódios da 3ª temporada de Twin Peaks, criação de David Lynch e Mark Frost.

O que distingue esta série desde as 2 primeiras temporadas é a imprevisibilidade do rumo que a coisa vai tomar.

Só uma coisa é certa em se tratando de Twin Peaks: a pessoa vai assistir a um episódio e já sabe de antemão que será surpreendido com as imagens que verá. Em 2017, quando foi lançado o revival, um artigo no The New York Times comentou que na 2ª temporada Lynch se afastou um pouco da série e agora, na 3ª, o espírito original foi recuperado. O título do artigo poderia ser traduzido assim: "Como Twin Peaks se perdeu, e como se reencontrou".


Twin Peaks: The Return é o grande evento cultural de 2017

Desta vez Lynch dedicou-se à direção de todos os episódios, e não apenas alguns salteados; de quebra, encarna Gordon Cole, o agente do FBI com problemas de audição.

Lufadas de inspiração, é o que tive durante esse período de imersão na mente lynchniana.

Tudo na obra dele me atrai, Lynch não menospreza o espectador nunca, está sempre o desafiando a pensar, a analisar, a supor, a montar o quebra-cabeça, a ligar os pontos, a inventar hipóteses, a se identificar com a situação angustiante das personagens, como a do catatônico Dale Cooper.

Atuações estupendas, cenas inusitadas, episódios sensuais, episódios oníricos, episódios violentos.

Onde a ternura e o romantismo encontram o escarro e o bizarro.

Essa é a equação infalível (para mim) de David Lynch.

A maioria dos episódios termina com uma apresentação no palco do Bang Bang Bar, num festival de bandas alternativas legais, como The Chromatics e Au revoir Simone.


Who Was the Band in the New 'Twin Peaks' Episode - Chromatics ...


Uma jornada e tanto, 18 horas de David Lynch! Um mergulho num tipo de arte que flerta com várias correntes, entre as quais alguém poderia citar o surrealismo.

Símbolos, fios soltos que não precisam necessariamente ser amarrados. Esse é o segredo da obra de Lynch, não é um cineasta para quem gosta de uma "explicação".

Quer tudo mastigadinho, linearidade, pés no chão?

Fique longe de Twin Peaks e David Lynch.  

Gosta de ironia, ousadia e originalidade? 

Embarque nessa divertida jornada.

ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE
DISCLAIMER OF LIABILITY

Uma vez tentei incentivar um amigo a assistir ao piloto da série, ele viu e ficou muito indignado comigo. Achou sem pé nem cabeça.


Não estou indicando para ninguém, ok?

Ah, mas se eu soubesse de outra pessoa que se divertiu, se emocionou e se questionou tanto quanto eu ao ver aos 18 episódios de Twin Peaks 2017!

Gostaria de conhecer esta pessoa.

Será que ela existe?





sexta-feira, junho 05, 2020

O sabiá e os pássaros de fogo


O Sabiá e os Pássaros de Fogo | Portal de Educação Ambiental

Acaba de ser lançado o e-book “O sabiá e os pássaros de fogo”, de autoria dos irmãos Allenspach e ilustrações de Charles Paixão.
O protagonista da obra é um sabiá-poca que vive na área urbana. 

Ainda no ninho, espanta-se com a curiosidade de dois humanos que ficam olhando para cima. Assustado, conta para a mãe, que fala para ele sossegar. Aqueles meninos são gente boa, só querem tirar fotos e observar os passarinhos.
Sabiá perde o medo e resolve também aparecer e posar para uns clicks.

Lá embaixo, os irmãos Elisa e Fernando, moradores de Bragança Paulista, ficam muito faceiros.

Sabiá cresce e seu destino voltará a se encontrar com os pequenos irmãos apreciadores da natureza para uma questão relevante.

Desta vez, Sabiá vai ter que descobrir um mistério.
Quais são esses sinais de que a coruja está falando? Quem são esses perigosos “pássaros de fogo” de que o inquieto beija-flor-tesoura anda alertando? Que mal podem causar para os pássaros urbanos?


Com muitas aventuras e personagens divertidos, O sabiá e os pássaros de fogo é uma obra educativa e lúdica, que vale a pena ser lida e comentada com os pequenos. A propósito, o meu filho Antônio, de 8 anos, apreciou muito a obra, e elegeu o beija-flor-tesoura como personagem mais interessante.

Primeiro volume do projeto “Aves de minha cidade”, a obra está disponível para ser baixada gratuitamente nesta página do site A Passarinhóloga.


domingo, maio 31, 2020

Minha vida de cachorro

My Life as a Dog filme - Veja onde assistir

Mitt liv som hund (My Life as a Dog, 1985), adaptação do romance de Reidar Johnsson, tornou o diretor sueco Lasse Hallström mundialmente famoso e o ajudou a fazer a transição a Hollywood.

O autor do romance é um dos corroteiristas do filme.

Ingemar (Anton Glanzelius) é um menino de 12 anos que mora com a mãe e o irmão mais velho. O pai está no Equador exportando bananas.

Ep. 142 – My Life As A Dog – The Criterion Correction

A mãe de Ingemar adoece, e uma amiga afirma que o pai deveria voltar para cuidar dele. Ao que o menino responde, muito sério: "E quem vai cuidar das bananas?".

Esse ponto de vista meio estoico, meio bem-humorado em relação aos acontecimentos é uma característica forte da personalidade de Ingemar.

Ele é apenas um garoto entrando na puberdade que vive fazendo artes e deixando a mãe ensandecida.

Ele vive fazendo comparações, lembrando de pessoas e animais que passaram por situações mais críticas do que ele. Como Laika, a cadela-cobaia sacrificada a bem da ciência espacial.

Film Appreciation: My Life As A Dog

Quando a mãe piora de saúde (está com tuberculose), os dois filhos são obrigados a se afastar, para que ela possa tentar melhorar. A cachorrinha de Ingemar é colocada num canil, e o garoto é enviado de trem para uma temporada com o tio Gunnar, numa cidadezinha do sul da Suécia.


Lá, conhece personagens diferentes, como o homem que conserta telhados, o equilibrista, o escultor, a moça contratada para ser a modelo de uma escultura e o inválido avô Arvidsson (que às escondidas pede a Ingemar ler uma revista com anúncios de cintas modeladoras femininas).

Mitt liv som hund | Deanhoxton's Blog

Aos poucos, faz novas amizades, principalmente com Saga (Melinda Kinnaman), com quem estabelece uma relação muito especial.

My Life as a Dog filme - Veja onde assistir

Com rara sensibilidade, Lasse Hallström constrói um filme que se tornou uma referência quando o assunto é a transição da infância com a adolescência, quando a criança é obrigada a amadurecer meio à força, por conta das adversidades inesperadas.

My Life as a Dog & Other Lot (Artificial Eye, 1985). British Quads ...

sexta-feira, maio 29, 2020

Cujo

Cujo movie poster image | Filmes de terror, Filmes, Personagens de ...


A máxima do Barão de Itararé, "De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo", não vale para este filme de baixo orçamento que rendeu três vezes o seu custo nas bilheterias e acabou se tornando um cult do terror. 

Lewis Teague é o nome dele. Ninguém esperava muito deste filme, então um cara sem muita expressão foi escalado para dirigi-lo. 
O moçoilo, que havia se preparado como diretor de segunda unidade de ninguém menos que Samuel Fuller no filme Agonia e glória e estreado com Alligator (1980), ao pegar o roteiro adaptado da obra de Stephen King nas mãos, murmurou consigo: "Eu não chamo Lewis Teague se este filme não fizer um baita sucesso".

Dito e feito. 





A direção é extremamente bem elaborada, e obteve resultados sensacionais no trabalho com o protagonista, levando em conta que muitas das cenas em que Cujo aparece foram feitas com um cachorro de verdade. Hoje em dia jamais esse filme poderia ter sido feito, pois as Associações de Proteção aos Animais não teriam deixado. Afinal de contas, o belo são-bernardo que interpreta Cujo é submetido a uma horrenda maquiagem e atua com perfeição em todas as cenas.



Na direção das cenas dos ataques e do pavor das personagens, Lewis Teague também mandou bem. Ele inclusive bolou uma tomada clássica, dentro do carro, em que a câmera vai girando lentamente, ora focando a mãe que está com a coxa toda arrebentada pelas mandíbulas do cão raivoso, ora o filho dela, praticamente asfixiado de terror, e a câmera vai aos poucos acelerando, até chegar a um ritmo vertiginoso...

Cujo Movie Car Scene





É mais ou menos assim que a história de Cujo se desenrola. 

A situação impasse é algo só possível na mente de um demente Stephen King: um carro estragado, um cão raivoso, duas pessoas dentro do carro sem poder sair, nem pedir socorro.

As pessoas que não concebem a vida sem telefone celular deveriam assistir a este filme. A ação ocorre há poucas décadas, mas algumas inovações tecnológicas não existiam ainda. Telefonia, só de aparelhos fixos. 

Revisiting the film of Stephen King's Cujo | Den of Geek

Mas no fundo Cujo mostra um modus vivendi pouco diferente do atual... O adultério é um subtema importante aqui, e Stephen King procura investigar se existe uma redenção possível nesses casos. 

Na ocasião, o diretor Lewis Teague mal sabia que estava dando um passo importante para dois anos depois realizar seu filme de maior orçamento: Joia do Nilo (1985, cuja lucrativa bilheteria quadruplicou o orçamento), não sem antes fazer outro inspirado em Stephen King: Olhos de gato (dobrou o orçamento).

13 Rabid Facts About 'Cujo' | Mental Floss

Não dá para entender por que cargas d'água esse diretor parou de ser aproveitado em Hollywood. Seus filmes sempre lucraram bem mais que o valor investido nas realizações, e ele demonstrou talento em seus projetos. Por algum motivo foi sendo colocado de lado pela indústria e, após a década de 80, só fez filmes para a televisão.


segunda-feira, maio 11, 2020

Jo-Jo Rabbit



Scarlett Johansson e Taika Waititi no mais novo trailer de Jojo RabbitHoje em dia há uma aparente falta de talento na indústria de cinema. Assim, qualquer cineasta com um mínimo de inspiração pode ser a "bola da vez", ganhar os holofotes e, de quebra, ser escalado para encabeçar o novo filme de uma velha e combalida franquia. Numa era sem heróis, a indústria se esforça para inventar alguns.

O que Taika Waititi tem com isso? Nada. Ele apenas tem uma boa dose de imaginação e talento. O cineasta neozelandês segue à risca a cartilha de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa: "Ah, se ousares, ousa!". Os filmes de Waititi são agradáveis, abordam temas interessantes, são repletos de citações, provocam discussões, risos e talvez algumas lágrimas. Ninguém poderia exigir mais de um diretor hoje em dia.


Acontece que Jo-Jo Rabbit ganhou nada mais nada menos que um Oscar de Melhor Roteiro. Estamos falando do ápice da qualidade textual em termos de cinema. Algo me diz que a honraria foi mais pela "temática" do que pelo roteiro em si, que tem várias partes desconjuntadas, e que, em muitos momentos, "it does not ring true".


Cinema | Jojo Rabbit, de Taika Waititi - Rodrigo Torres - Medium

Não é preciso ser um gênio para perceber que esta é a resenha de alguém que estava com muita vontade de assistir ao filme, mas, ao pagar o "pay-per-view" em streaming, coisa que nunca fizera em sua carreira de cinéfilo, e assistir ao filme em sua casa, com a internet travando toda hora, decepcionou-se. 

Claro que eu teria apreciado mais a experiência em uma sala de cinema decente, mas é inegável que eu esperava mais deste filme. É o tipo do filme inferior ao trailer. Não estou dizendo que não vale a pena assistir a Jo-Jo Rabbit ou que o filme não merece a atenção que recebeu. Ele se destaca justamente porque vivemos numa era de mesmice, na qual um mínimo de originalidade e ousadia é suficiente para a tentativa de criar "the next big thing".



                                       ***

A indústria do cinema parece em vias de falta de oxigenação. Já estava a perigo antes da pandemia, e agora o seu futuro é mais incerto ainda.

O cinema está em franca decadência em dois planos: na qualidade das produções e nas políticas de distribuição.

A arrogância de manter a política de ingressos caros, a burrice de inventar regras burras e de tirar a autonomia dos funcionários.

A mania de nivelar por baixo a inteligência do público e a obsessão por pasteurizar cineastas promissores.

Eu já vi este filme antes... Tantos diretores talentosos que "vendem a alma para Hollywood" e, após dirigirem filmes de franquias famosas, ficam mascarados e "perdem a mão". Acabam presos numa gaiola como coelhinhos e jamais voltam a ser os mesmos.

Crítica | Jojo Rabbit — Outra Hora

É um círculo raramente virtuoso. Quando se é independente, reclama-se da falta de grana. Quando se tem grana, reclama-se da falta de liberdade artística. Vamos ver se Taika Waititi conseguirá o tão sonhado equilíbrio entre sucesso comercial e artístico, coisa que pouquíssimos diretores foram capazes de conseguir.


segunda-feira, abril 27, 2020

Morte às seis da tarde




Este post é dedicado aos brasileiros de sangue polonês. É salutar poder assistir a um filme em língua estrangeira, conhecer um país pouco badalado, mergulhar na história e na cultura da quarta maior cidade polonesa, tudo isso embutido num thriller de primeira categoria.


Plagi Breslau na Showmax. Kożuchowska w filmie Vegi

Plagi Breslau em inglês foi intitulado The Plagues of Breslaw. Faz muito sentido. Já no Brasil sempre tem o "jeitinho brasileiro" e alguma sumidade teve a brilhante ideia de "mudar o approach" e inventar um nome mais "chamativo". Mas é preciso reconhecer que o título original contém uma espécie de "spoiler", e o título tupiniquim ficou funcional. 

Patryk Vega está fazendo filmes há décadas e, portanto, não é nenhum neófito.

Isso salta aos olhos pelo ritmo desenfreado do roteiro, as cenas econômicas e eficazes.

Às vezes, o pragmatismo chega a ser chocante, mas o cineasta/roteirista polonês abre mão de tudo para que a história ande.

Morte às Seis da Tarde - Vertentes do Cinema

Essa qualidade também pode ser listada como o maior defeito do filme.

Vega não faz questão de "guardar surpresas" para o final, ou de manter o suspense. O que ele quer é que o espectador não abandone o barco e isso ele consegue, pelo modo como a história é construída - e pela metragem relativamente curta.

Morte às Seis da Tarde - Vertentes do Cinema

Essa ideia na mão de um David Fincher renderia um moroso filme de 2 horas e meia. 

Nas mãos do polonês Patryk Vega tornou-se um hit instantâneo mundo afora, chamando a atenção para a vasta filmografia do diretor, cujo currículo versátil traz comédias e dramas, sempre centrado em mostrar o que o ser humano tem de mais controverso.

Se você curte filmes de serial killers com uma detetive prestes a explodir, Morte às seis da tarde é o filme ideal para curtir após o expediente.

domingo, abril 26, 2020

Brincando com fogo

Too Hot to Handle's Francesca Reveals Retreat Life Was Strict ... 

Tudo que é droga vicia, e o nome já diz, 

é uma droga mesmo.

E toda droga que se preze tem seus efeitos colaterais.

Estou atualmente viciado no seriado Brincando com fogo, e o efeito colateral é que, a cada episódio que assisto, tenho a desagradável sensação de que meu QI está baixando.


 Too Hot to Handle: See Matthew 'Jesus' Smith Beardless on New Girl ...

A minha sorte é que tudo termina em 8 episódios.


Francesca, ah, Francesca...

O nome dela deveria ser "Franfresca". 

Às vezes me dá um dejàvu e fico me perguntando se em outra reencarnação terei quem sabe conhecido alguém tão volúvel e desmiolada quanto. Ela faz jus ao título original do seriado:

The Problem With 'Too Hot To Handle' | Grit Daily News



Temos também Kelv, o contador, que pretende resistir bravamente às tentativas de sedução de todas as bonitinhas, mas ordinárias do recinto.



Sharron é o que mais inspira pena.

Pateticamente se agarra às recordações de um relacionamento malfadado para justificar suas atitudes porcochauvinistas.

O seu obscuro objeto de desejo, a esvoaçante Rhonda, sofre os ataques do sensível David, o amigo perfeito, mas muito sincero para se tornar atraente para as moçoilas que pelo jeito não gostam de bons moços.

Too Hot To Handle: Who Actually Deserved to Win the Prize Money ...











Estou no ponto em que um novo garotão chegou no pedaço, despertando o interesse da magérrima britânica. Ele toca teclados e se vangloria de levar ao seu iate uma garota por dia. E sempre uma garota diferente! 

Como será que vai acabar este trepidante reality show, em que seres humanos são comandados por um cone chamado Lana?

 Com sorte, a perda de QI não será irreversível e, ao cabo dos 8 episódios, eu consiga regenerar meus combalidos axônios relendo algum livro como Sapiens ou A história da filosofia ocidental. 



domingo, abril 19, 2020

O velho e o mar

The Old Man and the Sea (1958) - John Sturges, Fred Zinnemann ... 
Dirigido pelo especialista em faroestes e filmes de ação John Sturges (que está no meu TOP 10 de diretores que já não estão mais entre nós), o filme O velho e o mar, lançado em 1958, transporta com sobriedade ao cinema o clássico literário de Ernest Hemingway.

A grande qualidade de Sturges sempre foi ser um cara "matter-of-fact", ou, em outras palavras, um dos caras mais "no-nonsense" com quem você pode se deparar na indústria do cinema.



Seu envolvimento nesse filme é algo que à primeira vista pode parecer um tanto estranho, como se ele fosse um "peixe fora d'água", se me perdoem o trocadilho. Na verdade Fred Zinneman desistiu de dirigir o filme e Sturges foi chamado para substituí-lo. Mas, pensando bem, Hemingway também tem um estilo meio "pão, pão, queijo, queijo" e gostou do resultado ao ver o filme.


The Old Man and the Sea filme - Onde assistir

Eis que Sturges usa e abusa das cenas de estúdio, pega metragens de documentários, um roteiro que mescla partes narradas com trechos de ação, sonhos com duras realidades e, como sempre, cumpre a sua função de realizador que leva ao cabo a sua missão.

Para isso, contou com um grande ator no papel principal, com quem já havia trabalhado no filme Conspiração do silêncio (1955).

Spencer Tracy faz o que pode para tornar verossímil o seu personagem, e consegue isso com mais propriedade nos diálogos com o menino Manolin, que foi seu aprendiz, mas agora está pescando em outro esquife, pois Santiago (o nome do "velho) anda sem sorte na pesca.

Hemingway's The Old Man And The Sea: Part 1 — The Novel

Completando 84 dias sem pescar um peixe decente, lá vai Santiago em uma nova tentativa, levando apenas uma garrafa d'água e nenhum almoço.


No alto-mar fisga um marlim-azul, o maior que ele jamais imaginou um dia fisgar.

O peixe inicia uma luta ferrenha pela vida e arrasta o esquife de Santiago cada vez mais para longe da costa.

The Old Man and the Sea (1958)







A luta dura 3 dias. As mãos de Santiago estão em carne viva. Dominado pelo cansaço e pelas cãibras, o velho percebe que a visão está turva. 

O fim desta história não é um segredo para ninguém, mas não vou contar aqui.



27 Inspiring Survival Movies To Make You Appreciate Life - onedio.co







Vale a pena ver o filme e ler o livrinho, que em número de páginas está mais para uma "noveleta" do que para um "romance".

A luta de Santiago para provar que não é uma pessoa sem sorte é um conto que tem tudo o que de melhor pode ter a melhor literatura: ironia, dor, humildade, respeito, arrependimento.


A trilha sonora valeu mais um Oscar a Dimitri Tiomkin, que já vencera pela música do clássico Matar ou morrer (1953).  Os acordes de Tiomkin contribuem para que O velho e o mar mereça ser assistido, apesar de ser, nas palavras de John Sturges, "tecnicamente o filme mais desleixado que eu já fiz".

Mundo Fantasmo: 0109) O velho e o mar (27.7.2003) 








Esta página comenta também outras adaptações do livro para as telas, como a versão de 1990 com Anthony Quinn e a elogiada animação russa de 1999.